Textos contemporâneos portugueses e a temática do deslocamento

 

 

 

 

Miriam Denise Kelm

(Dda. em Teoria da Literatura-PUCRS)

                         

 

 

 

                           Assim como o mote das guerras coloniais perpassa um bom número de textos literários portugueses, nas três últimas décadas principalmente, também o deslocamento de grandes contingentes humanos, associados ou não a elas, é motivo de outros tantos. Esse segundo tema é verificável, inclusive, em publicações muito recentes.

 

                            Um romance que é exemplar na abordagem  da movimentação social induzida pela guerra, diante do temor da convocação e da miséria econômica por ela agravada, é o penúltimo livro da portuguesa Lídia Jorge, de 1998, O vale da paixão. No contexto político português dos anos 60, as guerras com as colônias na África, de um lado,  e a crise no meio rural, preparada lentamente pela incompetência da ditadura salazarista, deflagram a partida de portugueses, sobretudo em direção à América do Norte. Na propriedade rural do patriarca Francisco Dias, que "achava que a sua casa era uma empresa sólida, uma unidade de produção à semelhança dum estado, dirigindo-a como um governador poupado gere um estado" (p. 46), a fuga dos filhos e familiares é planeada em silêncio e cercada de temor (e pudor) para com ele. Abandonar a casa paterna, abandonar a pátria onde Salazar também figura como pai, é uma espécie de rebeldia cercada de vergonha e  escamoteamento. Os que se deslocam são transportados de um meio obliterante e sem possibilidades de melhoria, como é o português por volta dos anos 50-60,  para o espaço norte-americano onde a euforia  econômica, o consumismo e a reviravolta comportamental dão o tom.  

 

                        Como a narrativa é centrada na perspectiva dos que ficam, a correspondência  dos imigrados, que chega a Portugal pouco a pouco, vai dando notícias do lugar que cada um, homem e mulher  ocupam  na tremenda engrenagem em que se auto-inseriram. À percepção de  Lídia Jorge não escapa o "nó" desta trama: passados os primeiros anos quando o sacrifício pessoal é suplantado pelo acesso aos bens materiais e quando passam a sub-cidadãos,  envolvidos com prestação de serviços secundários,    as questões familiares não resolvidas são um ponto nevrálgico que começa a ocupar de modo crescente  as cartas. O que antes era silêncio e imobilidade torna-se turbilhão e vozerio. Acumulam-se incontáveis textos-elos com uma memória mais viva e incômoda do que nunca.  A prática do afastamento (do pai, da nação) é a que possibilita a vazão dos sentimentos recalcados. Como o tempo presente age no sentido da desintegração, o passado pede a re-identificação de cada um no núcleo familiar e espacial deixado para trás.

 

                                No último romance do açoriano Álamo  Oliveira, Já não gosto de chocolates, 1999,  o idoso Joe Sylvia (antes José Silva, que na maturidade emigrara dos Açores com a família para os Estados Unidos), de dentro de um asilo de luxo viaja no tempo porque "todo ilhéu é um barco" (p. 115). Articula presente e passado, por meio das rememorações, e mostra-se inconformado com a realidade. A síntese entre os 40 anos passados na ilha e os 30 em terra estrangeira parece impossível. Suas reflexões o levam à dubiedade transparescente na imagem metafórica  de duas ilhas existentes em simultâneo (p. 109): a ilha emigrada ("comunidade portuguesa" ou aquilo em que se transformou) e a ilha perdida (a que teima em retornar à memória). Assim também a imagem de pobres diabos (os ilhéus), expulsos de um paraíso, e não anjos, mas caídos num inferno de luxo (p. 115), aponta para uma contradição insanável. A esposa Mary (antes Maria) verbaliza ao fim da vida, em território americano, o que para ela representou a experiência da migração: viver num lugar incompreensível. A narrativa de Oliveira se aprofunda na transposição literária de noções como a de não-pertencimento, desenraizamento, inconformidade, inadaptação, choque de culturas e inalterabilidade do íntimo frente à completa modificação externa.

 

                        Os dois romances, como se vê, retomam fatos contingenciais que crescem em vulto e quantidade a cada dia, e que poderíamos chamar, talvez, de dispersão, errância de grupos humanos e redefinição de identidades.

 

                         Em fins de 1980, Heidrun Olinto referia a mudança de paradigmas da História e da Teoria da Literatura, e a premência de "inventar" modelos teóricos que dessem conta das novas necessidades, tendo a acuidade de perceber que a profusão de conceitos poderia criar outros problemas (p. 33). Em texto extremamente recente, Aijaz Ahmad retoma as teorias literárias que surgiram a partir dos anos 70, ligadas ao pós-colonialismo. Para ele, é preciso pensar o fator "determinação", isto é, o caráter imperativo das circunstâncias segundo as quais os indivíduos fazem suas escolhas, sua vida, sua história,  e, por conseguinte, a sobre-determinação que incide na produção cultural, especialmente a mais complexa que é a literária, e, secundando-a, a crítica teórica (p. 21). Os Estudos Culturais, a Literatura Comparada, as chamadas "teorias de locação" e outras mais,  encontros como esse, enfim, buscam formular alguns esclarecimentos para a inegável realidade que já está aí, em atos e palavras.         

 

                                       Referências Bibliográficas

 

AHMAD, Aijaz. Linhagens do presente. Trad. Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.

JORGE, Lídia. O vale da paixão. Lisboa: Dom Quixote, 1998.

OLINTO, Heidrun K. Histórias de literatura. As novas teorias alemãs. São Paulo: Ática, 1986. 

OLIVEIRA, Álamo. Já não gosto de chocolates. Lisboa: Edições Salamandra, 1999.