Textos contemporâneos portugueses e a temática do deslocamento
Miriam Denise Kelm
(Dda. em Teoria da Literatura-PUCRS)
Como a narrativa é centrada na perspectiva dos que ficam, a correspondência dos imigrados, que chega a Portugal pouco a pouco, vai dando notícias do lugar que cada um, homem e mulher ocupam na tremenda engrenagem em que se auto-inseriram. À percepção de Lídia Jorge não escapa o "nó" desta trama: passados os primeiros anos quando o sacrifício pessoal é suplantado pelo acesso aos bens materiais e quando passam a sub-cidadãos, envolvidos com prestação de serviços secundários, as questões familiares não resolvidas são um ponto nevrálgico que começa a ocupar de modo crescente as cartas. O que antes era silêncio e imobilidade torna-se turbilhão e vozerio. Acumulam-se incontáveis textos-elos com uma memória mais viva e incômoda do que nunca. A prática do afastamento (do pai, da nação) é a que possibilita a vazão dos sentimentos recalcados. Como o tempo presente age no sentido da desintegração, o passado pede a re-identificação de cada um no núcleo familiar e espacial deixado para trás.
No último romance do açoriano Álamo Oliveira, Já não gosto de chocolates, 1999, o idoso Joe Sylvia (antes José Silva, que na maturidade emigrara dos Açores com a família para os Estados Unidos), de dentro de um asilo de luxo viaja no tempo porque "todo ilhéu é um barco" (p. 115). Articula presente e passado, por meio das rememorações, e mostra-se inconformado com a realidade. A síntese entre os 40 anos passados na ilha e os 30 em terra estrangeira parece impossível. Suas reflexões o levam à dubiedade transparescente na imagem metafórica de duas ilhas existentes em simultâneo (p. 109): a ilha emigrada ("comunidade portuguesa" ou aquilo em que se transformou) e a ilha perdida (a que teima em retornar à memória). Assim também a imagem de pobres diabos (os ilhéus), expulsos de um paraíso, e não anjos, mas caídos num inferno de luxo (p. 115), aponta para uma contradição insanável. A esposa Mary (antes Maria) verbaliza ao fim da vida, em território americano, o que para ela representou a experiência da migração: viver num lugar incompreensível. A narrativa de Oliveira se aprofunda na transposição literária de noções como a de não-pertencimento, desenraizamento, inconformidade, inadaptação, choque de culturas e inalterabilidade do íntimo frente à completa modificação externa.
Os dois romances, como se vê, retomam fatos contingenciais que crescem em vulto e quantidade a cada dia, e que poderíamos chamar, talvez, de dispersão, errância de grupos humanos e redefinição de identidades.
Em fins de 1980, Heidrun Olinto referia a mudança de paradigmas da História e da Teoria da Literatura, e a premência de "inventar" modelos teóricos que dessem conta das novas necessidades, tendo a acuidade de perceber que a profusão de conceitos poderia criar outros problemas (p. 33). Em texto extremamente recente, Aijaz Ahmad retoma as teorias literárias que surgiram a partir dos anos 70, ligadas ao pós-colonialismo. Para ele, é preciso pensar o fator "determinação", isto é, o caráter imperativo das circunstâncias segundo as quais os indivíduos fazem suas escolhas, sua vida, sua história, e, por conseguinte, a sobre-determinação que incide na produção cultural, especialmente a mais complexa que é a literária, e, secundando-a, a crítica teórica (p. 21). Os Estudos Culturais, a Literatura Comparada, as chamadas "teorias de locação" e outras mais, encontros como esse, enfim, buscam formular alguns esclarecimentos para a inegável realidade que já está aí, em atos e palavras.
Referências Bibliográficas
AHMAD, Aijaz. Linhagens do presente. Trad. Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.
JORGE, Lídia. O vale da paixão. Lisboa: Dom Quixote, 1998.
OLINTO, Heidrun K. Histórias de literatura. As novas teorias alemãs. São Paulo: Ática, 1986.
OLIVEIRA, Álamo. Já não gosto de chocolates. Lisboa: Edições Salamandra, 1999.