Geografias Literárias e Culturais face ao Turismo

 

Maria de Lourdes Netto Simões*

 

1 –  O foco do olhar sobre o tema

A relação  entre literatura e cultura face ao turismo possibilita uma  possível resposta às perguntas colocadas pela coordenação do II Colóquio de Literatura Comparada/ ABRALIC. Refiro-me, especialmente, àquelas relacionadas à emergência de espaços heterogêneos de produção e à possibilidade de repensar os conceitos de literatura e de cultura; à redimensão teórico-crítica sobre poder, subjetividade e poéticas em relação a tensões, convergências e divergências entre o local, o nacional e o global; sobre os modos de representação do literário e do cultural face a projeções de tempos, cada vez mais instantâneos; em respeito à  articulação do patrimônio local expandido em espaços transnacionais; ao  redesenhamento das geografias do literário e do cultural face  a fronteiras,  trânsito,  mercado.

A intersecção - literatura, cultura, turismo - considera que a globalização promove movimentos migratórios em relação ao local e acentua  as  suas questões identitárias (local). Considera, ainda, o  processamento de novos olhares sobre o fenômeno literário, tendo em conta a reconceptualização das noções de espaço/tempo, inclusive no que se refere a trânsito de pessoas e de culturas.

Nesse entendimento, o turismo, enquanto processo de viagem, toma corpo como atividade cultural e de impacto na economia e desenvolvimento das localidades, marcadamente denotando a mobilidade coletiva e inserindo-se no redesenhamento dos mapas geopolíticos. Considerando o trânsito da perspectiva cultural, a literatura enquanto  veiculadora da cultura é aqui olhada como fenômeno instigador do turismo.

As fronteiras redesenhadas pelo imaginário fazem o espaço/tempo ficcional projetar o espaço/ tempo real, no leitor (turista da cidade imaginada), instigando-o ao trânsito que o torna turista (leitor da cidade real).  Essa categoria de leitor -  leitor-turista / turista-leitor (SIMÕES, 2002)  -  quer imprimir à literatura mais uma feição no seu redesenhamento face às novas geografias, relacionadas à concepção de tempo/espaço, especialmente aquelas referentes a trânsitos. 

2 - Da literatura ao turismo no contexto global

Se entendermos que uma cultura é considerada como local, porque é compartilhada subjetivamente por uma dada comunidade, e que a global está diretamente relacionada ao processo econômico, às mudanças tecnológicas e  à universalização da informação, temos que, quanto à Literatura, é a sua recepção quem vai sinalizar as suas dimensões culturais em relação à globalização. O processo de tradução, editoração, divulgação, distribuição vão viabilizar a mundialização do texto literário e levar o imaginário local  para o universo global (por caminho virtual  ou real).

 

Pensar formas de valorização da Literatura,  visando ao turismo, é estratégia de fazer interagir  o global-local,  evitando cair no processo homogeneizador  do global.   É realizar o comparativismo, em  consideração da perspectiva antropológico-social da cultura, sem descurar da especificidade do “valor” estético da Literatura no contexto da diversidade cultural, do multiculturalismo e da globalização.

 

Tal estratégia pretende ser  uma resposta possível à preocupação apresentada por tantos estudiosos   (Sarlo, 1997, 2002;  Richard, 2002; Huyssen, 2002, por exemplo) a respeito do lugar do estético nos julgamentos da arte e, mais especificamente, da literatura:  “como fazer justiça a suas variantes locais, suas traduções, sua tradutibilidade, seus múltiplos meios de transmissão, suas complexas misturas geográficas e temporais?” (HUYSSEN, 2002, p.16). Afigura-se-me como forma de resistência do local,  inclusive  por ressaltar “as suas flexões temporais e espaciais [...] as profundas genealogias dos imaginários sociais e coletivos que inevitavelmente moldarão sua relação com o global, que, por sua vez, sempre emerge em algum lugar e momento específicos na história”    (ibid).

 

Operar o turismo através da literatura implica uma compreensão do funcionamento do mercado cultural no contexto globalizado. É  forma de valorização do discurso literário e do  bem simbólico local, que habita o imaginário ficcional. O bem simbólico, presente na literatura, é consubstancializado para o turista através do patrimônio cultural arquitetônico (material) e  do imaterial (mitos, lendas, folclore, danças, música, culinária, hábitos de um povo)  e,  ainda, do patrimônio natural.  Nesse caso, por essa ótica, a cultura sobrepõe-se ao mercado pois é ela  quem dará o “tom” da relação entre local e global, entre cultura e turismo.

 

Nas ações de contexto local, o trato da literatura há que observar aspectos de reescrita, intertextualidade,  identificação de bens simbólicos inscritos no texto ficcional (hábitos, costumes e tradições), através das estratégias narrativas singulares; fazer interagir várias disciplinas no corpo do texto literário: a história cultural e social, a antropologia, a crtítica literária.  Tais procedimentos além de valorizar a literatura junto à comunidade local, prepara-a  (à comunidade) para receber o turista,  porque promove a reflexão  sobre a sua própria identidade. No âmbito internacional,  a ação da mídia - fruto de definições político-sociais locais - sinalizará aspectos (diferenças)  da cultura local para o possível viajante e motivam-no para o turismo, a ele que, eventualmente, também já teve contacto com aquela cultura através da literatura.  Assim, a atenção à maneira como os discursos políticos e a mensagem mediática e do marketing turístico veiculam os produtos culturais e as culturas locais contribui  para  que a cultura se imponha em relação ao mercado.  

 

Embora a literatura esteja  presa a uma linguagem, em relação à sua   transnacionalidade, a tradução e a distribuição oportunizam   a sua condição de competitividade em relação às demais expressões artísticas. A interdisciplinaridade é outro fator favorável, quando a interlocução de linguagens  faz um texto literário ser  re-lido pelo teatro, pelo cinema ou pela telenovela e divulgado  pela mídia  em esfera mundial (como ocorre mais significativamente com a exportação das novelas brasileiras).

 

Dessa forma,  a ultrapassagem  da  dicotomia de valor global/ local,  permite um olhar interativo, que  valoriza o local, lançando mão das ferramentas do global, particularmente da mídia. Da perspectiva do comparativismo, a consideração  a “uma forte dimensão geográfica e espacial, que se reconheçam os diferentes entrelaçamentos do temporal com o espacial e seus efeitos estéticos” (HUYSSEN, 2002, p. 24) ressalta o trânsito, o hibridismo, a apropriação de sentidos,  as sinalizações culturais e suas relações com a história, com o patrimônio,   aspectos esses de interesse estético e turístico.

 

A  conciliação do estético com o turismo através da literatura faz ressaltar a importância da cidade como cenário ficcional e como “produção de localidade” (APPADURAI, 1996).  O seu espaço ficcional (onde “passeia” o leitor-turista) e os produzidos  nela e por ela em relação às percepções estéticas e socio-culturais, no texto ficcional,  fazem-na  elemento suscitador do efeito (ISER, 1996)  e  provocador da  transformação do leitor-turista em turista-leitor. O estético é ressaltado pelo leitor-turista, no processo da leitura, quando se realiza a interação texto-leitor, em relação à   “significância de experiências de leitura como parte da motivação do leitor para a ação subseqüente” (GUMBRECHT, 1998, p. 34), que o tornará turista-leitor.

 

Nesse mister, o foco na cidade é fundamental, exatamente por ela abrigar  as culturas, as subjetividades, os bens simbólicos, fomentadores do trânsito de turistas.  As formas urbanas de cidades (o local) provocam imaginários transnacionais (o global). O trânsito de turistas promove a transculturação, num enriquecimento mútuo (turista e local).   Aspectos  das culturas antes vistos pela ótica eurocêntrica - do exótico - agora colocados pela ótica de valorização do diferente (BHABHA, 1998) vêm a abrir novas perspectivas ao leitor e levá-lo a redimensionar a própria História (LE GOFF, 1998). Assim, o desvio do foco - agora voltado à memória, à inclusão social,  à não hierarquização  da cultura, da arte - redesenha o local  a ser visitado. 

 

A Literatura  funcionará como elemento de sustentabilidade,  quando provocadora do  fluxo entre as culturas  - local e global - e do consumo cultural pelos turistas (globais) que buscam o diferente (local).  Isto porque,  ao ser lida em âmbito global  (considerada a sua divulgação e distribuição),  desencadeia  a motivação para do leitor, que reconstrói a motivação porque (GUMBRECHT, 1998, p. 32), consideradas  a sua situação histórica e social e assegurando uma visão da cultura não corrompida pelo interesse econômico e utilizando as ferramentas da tecnologia global para informar o leitor sobre a cultura local.

 

Por isso, nesse contexto globalizado, é estratégico lançar mão dos recursos  instaurados pela lógica do mercado global, onde a mídia e  o marketing ocupam lugar singular e, necessariamente, vão atingir a  leitores de uma esfera internacional e   interferir na  sua motivação para, como nos resultados da sua ação, quando, depois,  ele passa a  turista - usufruidor dos bens simbólicos e consumidor das mercadorias. 

 

 

REFERENCIAS

 

APPADURAI, Arjun. The Production of Locality. In: Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. Minneapolis and London: Minnesota University Press, 1996. p. 178 - 200.

 

BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana L. L. Reis, Gláucia R. Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

 

HUYSSEN, Andréas. Literatura e Cultura no contexto global. In: MARQUES, R; VILELA, LH (org). Valores – arte, mercado, política. Belo Horizone, Editora UFMG/ Abralic, 2002. p. 15 – 35. 

 

ISER, Wolfgang. O Fictício e o Imaginário – Perspectivas de uma Antropologia Literária. Trad. Johannes Kretschmer. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996.

 

LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades. Trad. Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. São Paulo: Editora UNESP, 1998.

 

RICHARD, Nelly. Lo Estético (valor, fuerza) en el contexto de la globalización cultural. In: Mediações – Anais  do VIII Congresso Internacional da Abralic, 2002.

 

SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna – intelectuais, arte e vídeo-cultura na Argentina. Trad. Sérgio Alcides. Rio de Janeiro, UFER, 1997.

__________. Los Estúdios culturales y la critica literária en la encrucijada valorativa. Revista de Crítica Cultural, n 15. Santiago, nov. 1997. p. 34 – 41.

 

SIMÕES,  Maria de Lourdes Netto. De leitor a turista na Ilhéus de Jorge Amado.  Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.6. Belo Horizonte: Abralic, 2002. p. 177 – 184.