Geografia, paisagem e alteridade

 

Maria Luiza Berwanger da Silva

PPG‑Letras UFRGS

 

 

"Parcourons la géographie ainsi nouvellement établie, qui n'est plus seulement cette proie des découvreurs et des conquérants mais le tendre lieu de l'amant et de l'amante, le dur enjeu du travail, l'interjection de la souffrance et de la joie qui surajoutent au réel ... Cette géografie du poète annonce la partage et la Relation", sublinha a voz interdisciplinar de Édouard Glissant, remetendo à ressimbolização da geografia pela paisagem. Geografia da paisagem ou paisagem da geografia? Imagens como "pensée relationelle", recorrente nos ensaios do geógrafo Augustin Berque (1997), e "pensée paysage" nos estudos sobre a paisagem literária do crítico Michel Collot (2001) marcam o entrelaçamento de campos efetuado pelo sujeito com base em uma percepção outra do espaço: o molde ou matriz que a geografia concede à paisagem, restitui‑lhe essa em transparências, modulações e sensibilidades das quais o pontilhado suave, mas contínuo, retraça a cartografia original. Neste sentido, o verso "Geografia! Eh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar", de Mário de Andrade, em Carnaval Carioca (Clã do Jaboti – 1927), faz‑se amostragem exemplar do processo de dessimbolização e de ressimbolização geográficas; como se, irradiada, toda paisagem agregasse ao prazer do extraterritorial o próprio prazer de confessar a consciência da distância entre Mesmo e Outro, entre o metaforismo do carnaval como traço do imaginário brasileiro e aquele que, "fête de l'intellect" (Valéry), se expande, travestindo‑se em dança, movimento e ritmo desmarcados e universais.

Figurações desta paisagem subjetiva ressoam na crítica brasileira, hoje, representada pela amostragem significativa de Flora Süssekind em O Brasil não é longe daqui (2000), principalmente no capítulo em que descreve "a sensação de não estar de todo". Nele, o sentimento de incompletude provocado no sujeito, pela exuberância tropical e que registra formas, modos e "vivências", como um todo, sugere a perspectiva do "exotismo" como via legítima de indagação para as aproximações e os distanciamentos gerados pelo contato do Mesmo com o Outro. Refiro‑me à produção teórico‑crítica de Victor Segalen, especialmente à distinção singular que este poeta estabelece entre exotismo como celebração, no qual o sujeito reverencia a paisagem sem, no entanto, incorporá‑la, e exotismo como percepção compartilhada em que, fluido e fragmentário, o sujeito colhe da diferença dos trópicos a semente fertilizadora do próprio imaginário. Tal distinção ou gesto crítico que percebe entre os autores estrangeiros de passagem pelo Brasil aqueles que aqui aportaram para seduzir, mas que, paradoxalmente, foram seduzidos, especifica‑se na reflexão de Jean Bessière sobre a produção de Blaise Cendrars. Este poeta da passagem que configurou o lirismo tropical pela "dança das paisagens" e que permitiu ao crítico a afirmação de que "todo lugar é lugar de outro lugar" (1999, p.128), já comparecera na obra Poetas do Brasil, de Roger Bastide (1940), onde é considerado como ponto irradiador de entrecruzamentos poéticos nacionais e transnacionais. É que, embora "aclimatado" à inteligência brasileira, dela participando como professor da Universidade de São Paulo (1938‑1954), Roger Bastide não se despojara completamente do distanciamento crítico que lhe possibilitou resgatar uma percepção outra do real, convergente com o conceito de Alteridade como exotismo compartilhado ou "primordial" estabelecido por Victor Segalen. Ainda que de modo inconfesso, a presença clara deste poeta faz‑se perceber no olhar crítico sobre o espaço brasileiro no trânsito do geográfico ao poético, ao crítico e ao teórico. Ângulos, cantos e frestas ocultos, muito mais insinuados do que nomeados, sublinha‑os Roger Bastide na obra de Machado de Assis, por ele considerado como figura exemplar da Literatura Brasileira. Na transparência de Mallarmé, percebeu a produtividade, infinita, da descrição da paisagem pela falta e pela negatividade: "Reputo Machado de Assis, um dos maiores paisagistas brasileiros, um dos que deram à arte da paisagem na literatura um impulso semelhante ao que se efetuou paralelamente na pintura e que qualificarei, se me for permitido usar uma expressão 'mallarmeana', de presença, mas presença quase alucinante de uma ausência" (p.1), afirma o crítico francês com vistas a pontuar, em Machado, o lugar de origem da captação tropical figurado pelo jogo entre geografias visíveis e geografias "invisíveis".

Busco recuperar no ensaio Machado de Assis, Paisagista (1940), de Roger Bastide, a incidência do olhar sobre a subjetividade ou "expressão simbólica da paisagem interior", por ele assim intitulada, e cuja modernidade crítica transparece em estudos nos quais a profunda articulação entre Paisagem/Geografia/Alteridade contribui incontestavelmente para a conformação da imagem literária como lugar de práticas artísticas e culturais. Em Machado de Assis, o resguardo lúcido da distância entre homem (subjetividade) e paisagem, os "claros da paisagem", equivalendo a sublinhar a rentabilidade do exotismo compartilhado, traduz o "poder evocador" mascarado pela beleza dos trópicos e celebrado por Bastide nas palavras finais, quando diz: "... escrevi estas páginas de protesto contra os críticos literários que lhe negam essa qualidade de ser um dos maiores paisagistas do Brasil: humilde homenagem de um estrangeiro a um mestre da literatura universal" (p.14). Situo, entre o elogio da subjetividade machadeana por Bastide e a reflexão do poeta‑crítico francês Victor Segalen em Essai sur l'Exotisme (Oeuvres Complètes, 1995) sobre o "exotisme primordial" (ou compartilhado) na relação que estabelece com o "caractère impénétrable des races" (distância do Outro), o diálogo nuclear destes dois autores‑viajantes para o processo de ressimbolização do espaço geográfico transformado em paisagem poética. Extraio da poesia de Victor Segalen o verso‑síntese "Je règne par un étonnant pouvoir d'absence", do livro de poemas Stèles, como fio intermediador desta percepção outra do tropicalismo e que concede ao literário a certeza de migrar a campos do saber artístico e não‑artístico. No fundo, o redesenhar da fábula do lugar sobre a página fixa a escritura que descentra, que apaga os limites da geografia, da "pagodeira grossa" a que se refere Mário de Andrade na poesia Carnaval Carioca (1917), inserindo a poesia brasileira nesta "comunidade simbólica" de redescoberta e de disseminação da paisagem pelo pulsar da subjetividade. Valorizar, pois, em Machado, a descrição paisagística pelo simbolismo da ausência na presença, reiterada na poética marioandradina pelo efeito da propagação e da mundialização de Carnaval Carioca, corresponde a brindar o leitor de hoje com novas cartografias, em que a diversidade espacial completa‑se na paisagem rememorada: "Das roupas que vão crescendo/como se levassem nos bolsos/doces geografias, pensamentos/de além do sonho e da rua.../Alguém me diz toda a noite/coisas em voz que não ouço/Falemos na viagem, eu lembro./Alguém fala na viagem", diz João Cabral de Melo Neto em Viagem (O Engenheiro, 1942‑1945). Eco do diálogo compartilhado pela literatura e pela geografia, estes versos fazem‑se voz da paisagem decantada pela Alteridade; agregam à poética das relações, gravada na citação inaugural de Glissant, a imagem do espaço e do tempo entrelaçados. Geografia da paisagem e paisagem da geografia, pois, emergente na textualidade sob forma de fios que, diluídos no espaço, ressurgem, ampliando‑se, pela memória, resíduos como em Schibbolet de Jacques Derrida (1986, p.52):

... Le pays ... émigre et transporte ses frontières. Il se déplace comme ces noms et ces pierres qu'on se donne en gage, de main en main, et la main se donne ainsi, et ce qui se découpe, s'abstrait, se déchire, peut se rassembler de nouveau dans le symbole, le gage, la promesse, l'alliance, le mot partagé, la migration du mot partagé.

 

Bibliografia (essencial e parcial)

BASTIDE, Roger. Machado de Assis, Paisagista. Revista do Brasil, 3ª fase, ano III, n.29, p.1‑14, novembro de 1940.

___. Poetas do Brasil. Paraná: Guaíra, 1940.

BERQUE, Augustin. Des peuples en pays, ou la trajection paysagère. In: COLLOT, Michel (Org.). Les enjeux du paysage. Bruxelles: Ousia, 1997.

BESSIÈRE, Jean. La fable du lieu. In: CHEFDOR, Monique. La fable du lieu. Paris: Champion, 1999.

COLLOT, Michel; SAINT GIRONS, B.; CHENET, F. (Orgs.). Le paysage état des lieux. Bruxelles: Ousia, 2001.

DERRIDA, Jacques. Schibboleth. Paris: Galilée, 1986.

GLISSANT, Édouard. Traité du tout monde (Poétique IV). Paris: Gallimard, 1997.

MELO NETO, João Cabral. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1995.

SEGALEN, Victor. Oeuvres complètes (tome I et II). BOUILLIER, H. (Org.). Paris: Laffont, 1995.

SÜSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui (O narrador, a viagem). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.