Tropos do deslocamento na crítica cultural contemporânea
Maria Isabel Edom Pires – UnB – isabel@unb.br
A reflexão acerca da vida intelectual em outras formações sociais pode nos auxiliar, no cotejo com o discurso dos nossos intelectuais, a compreender fenômenos mais universais, como o é a experiência de estabelecer-se em um país estrangeiro e de lá lançar um olhar sobre a terra natal.
A reiteração de tropos relacionados a deslocamentos na crítica cultural contemporânea mostra como, mesmo estando associados a topônimos diferentes, eles possuem traços comuns, enformados que estão por condicionamentos históricos semelhantes e movimentos geográficos aproximados.
Proponho a discussão acerca de alguns desses tropos, a partir das considerações de Said, em Reflexões sobre o exílio (2001), e de Todorov, em O homem desenraizado (1996), considerando que o que distingue seus trabalhos dos demais é justamente o relato da própria experiência de cisão entre culturas. Trata-se de colher no discurso do intelectual contemporâneo temas que, originários da experiência, auxiliem na compreensão da geografia cultural do nosso tempo.
Gostaria de destacar especificamente os tropos exílio e desenraizamento, visto que a vivência do primeiro pode condicionar a experiência do segundo. Said menciona o exílio como uma “fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal”, apontando para a enorme lacuna entre falar sobre ele, tomá-lo como motivo literário, apontá-lo como um movimento dos outros e vivenciá-lo, experienciar as penas que ele inflige, sofrer, enfim, a dor desse afastamento.
Não é verdade que as visões do exílio na literatura e na religião obscurecem o que é realmente horrível? Que o exílio é irremediavelmente histórico, que é produzido por seres humanos e que, tal como a morte, mas sem sua última misericórdia, arrancou milhões de pessoas do sustento da tradição, da família e da geografia? – Edward Said, em Reflexões sobre o exílio.
Para pensar no exílio como punição política, o autor sugere abordá-lo a partir da abstração da política de massas. Ele indaga sobre o significado das experiências dos camponeses refugiados; dos vietnamitas, argelinos, cambojanos, libaneses, senegaleses e peruanos em Paris; dos muçulmanos na Índia, dos haitianos nos Estados Unidos, dos palestinos no mundo árabe. Associa, então, exílio e nacionalismo, como opostos que constituem um ao outro, dizendo ser impossível discuti-los com neutralidade. A condição do exilado clama pela restituição de uma vida rompida, pela reestruturação de uma comunidade, impossível hoje em dia.
Embora os tropos exílio, refúgio, expatriação e emigração compartilhem de traços semânticos comuns, Said faz diferenciações entre eles. Para o crítico, o exílio tem origem na prática do banimento, cujo traço evidente é a expulsão, distinto de outras situações pelo toque da solidão e da espiritualidade. O tropo do refúgio acolhe um traço político, é criação do século XX; o da expatriação sugere um movimento voluntário, ainda que impulsionado por razões de ordem pessoal e social; o da emigração indica a possibilidade de optar entre dois lugares, mesmo que em condições restritas.
Said reflete sobre a figura do exilado como a de quem ocupa grande parte da vida compensando a perda original. Dessa circunstância específica resulta um grande número de exilados que são romancistas e intelectuais. É, aliás, constatação do autor que certa formação do pensamento acadêmico, intelectual e estético, nos Estados Unidos, por exemplo, resulta das reflexões dos “refugiados do fascismo, do comunismo e de outros regimes dados a oprimir e expulsar os dissidentes”. Cita George Steiner, para quem há todo um gênero “extraterritorial” na literatura ocidental feita por exilados e sobre exilados. Os exilados de nossa época são os refugiados, os deslocados, a massa de imigrantes, vítimas da guerra moderna, do imperialismo e dos governos totalitários.
Após a exploração da situação dolorosa do exílio, Said reconhece nele algo positivo, como a possibilidade de ter consciência de, pelo menos, duas culturas, dois países, dois cenários, o que permite aos intelectuais o que ele denomina de visão “contrapontística”, tomando o termo emprestado da música.
É justamente essa visão contrapontística que encontramos nas reflexões de Todorov, que relata sua experiência como um exilado circunstancial, falante de duas línguas e portador do sentimento de pertencer a duas culturas ao mesmo tempo. O intelectual búlgaro frisa a necessidade que sentiu de complementar seus textos sobre literatura e seus outros discursos com uma reflexão que partisse de sua própria vivência, ou seja, a de um imigrante búlgaro na França. Seu livro, um ensaio vigoroso sobre o intelectual nas culturas búlgara, francesa e americana, sustenta-se na autobiografia, enformada pela experiência do desenraizamento geográfico.
O tropo do desenraizamento serve de canal para esclarecer todo um pensamento cultural formado a partir dessa experiência de ser um exilado voluntário. Deve-se considerar, no caso de Todorov, que a Bulgária que deixou para trás era um país sob o signo do totalitarismo e isso evidentemente pesou na sua opção pela França.
A angústia de não poder retornar a Paris, simbolizada nos sonhos de Todorov pela perda do bilhete de trem ou de algum impedimento corriqueiro, só pôde ser superada com o retorno a Sófia de onde o crítico partira dezoito anos antes. No retorno, ele descobre pertencer a duas culturas, sem definitivamente ser de nenhuma. O tropo do desenraizamento na sua vida desdobra-se pela vinculação a duas identidades, a búlgara, da qual não pode se desvencilhar por razões óbvias e com a qual aprendeu duramente a experiência totalitária, embora não tenha sido deportado; e a francesa, que foi construindo aos poucos, pelo domínio da língua, pela aproximação com a intelectualidade francesa. No seu relato, diz que são necessários muitos anos para estar à vontade numa outra cultura. Desse desenraizamento, reconhece que adquiriu a distância necessária para refletir sobre o totalitarismo e o exercício da livre cidadania em Paris, o que assegurou a ele a possibilidade de pensar sobre a intelectualidade nessa condição contrapontística, de que fala Said. No contraponto, existe sempre a idéia de simultaneidade. Assim, Todorov guarda na memória sua vida em Sófia ao construir sua nova vida em Paris. Seus hábitos de vida, sua expressão ou sua atividade em Paris ocorrem contra o pano de fundo da memória dessas mesmas coisas em Sófia. Temas, como os crimes contra a humanidade, o racismo, a crítica literária, a crise nas humanidades, são tratados a partir também do contato com a cultura norte-americana a quem reserva alguma severidade no tratamento.
Acerca da crítica literária, por exemplo, Todorov analisa a experiência norte-americana e sugere que o analista, ao se defrontar com o texto literário, não exerça o veto a contextos que possam auxiliar na sua interpretação. Aconselha a superar a oposição entre a crítica especializada que, segundo ele, sabe mas não pensa, e a crítica moralista que fala do que não sabe.
A experiência do desenraizamento e o contato com os Estados Unidos permitiram a ele perceber a inserção da vida intelectual francesa na vida da cidade, ao contrário da norte-americana. Embora reconheça que no presente a maior parte dos intelectuais ganhe a vida na universidade, destaca que nos Estados Unidos a universidade é exterior à cidade geográfica e ideologicamente.
Mais uma vez, como na observação à crítica literária, reclama para a atuação dos intelectuais na universidade uma integração maior com o mundo que os cerca. Os campi, chamados por ele de monastérios laicos, são abrigo de intelectuais esquecidos do sentido de para que serve a cultura,como os monges na Idade Média, preocupados que estão com os métodos.
Proponho que se discuta, a partir desses tropos, a vida intelectual contemporânea, considerando tanto as formas canônicas de migração, como a que ocorre entre regiões de um mesmo território; como os exílios das ditaduras e o retorno à terra dos ancestrais, impulsionado por razões de ordem econômica. Não foi a América Latina em tempos de ditaduras militares um lugar de produzir deportados? Não são os brasileiros do Nordeste eternos migrantes em busca de um lugar melhor para viver? E quanto aos argentinos, a volta à Itália dos ancentrais em tempos pós-Menem não é também uma experiência a ser considerada? Não é a nossa vida intelectual também conseqüência de uma constante experiência de desenraizamento, pela migração, pelo desemprego, por sucessivos reajustes na economia que nos obrigam a deslocamentos constantes?
Questiono também se a necessidade de narrar a experiência de deslocamento pelo relato autobiográfico e ensaístico não se estende também aos relatos ficcionais que encontram na forma memorialística razoável circulação atualmente.
Sugiro, por fim, que se observe na cultura brasileira do século XX a reiteração desses tropos na tentativa de sistematizar uma tendência vigente que talvez aproxime tanto o relato memorialístico de Gabeira como a prosa de Antônio Torres, tanto as experiências dos exilados, como a experiência dos desenraizados no próprio país.
Bibliografia
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio.
TODOROV, Tzvetan. O homem desenraizado. Rio de Janeiro: Record, 1999.