Uma leitura semiológica do monumento ao tropeiro - “a precata”, de Konstantin Christoff.

 

                                                                           Maria Elvira Curty Romero Christoff

 

 

 

Situada no sertão do norte de Minas, na bacia do São Francisco - encontro dos bandeirantes de SP. e Entradas da Bahia - Montes Claros, antes de ser uma cidade, foi o Arraial das Formigas em 1769. O grande colaborador de seu desenvolvimento econômico – social foi o humilde tropeiro. Personagem típico que ajudou a desbravar o território nacional.

Hoje, encontramos  esta cidade em pleno crescimento, sendo o segundo maior polo rodoviário do país. Este mérito, também, devemos ao tropeiro. Ele, tão anônimo e presente, sempre percorreu trilhas , desbravando caminhos, acompanhado da tropa, constituída de burros e mulas.

     Esses animais foram trazidos da Espanha para o Brasil, a fim de transportarem ouro e diamantes extraídos para Portugal; resistentes, por mais de três séculos, foram o transporte das regiões montanhosas: venciam ladeiras íngremes e pedregosas, trilhas e florestas, parecendo não sentir as distâncias e dificuldades, porém vitais para a prosperidade econômica[1].

     As mulas andavam em tropa, daí o nome “tropeiro”, guiador da tropa. A tropa é composta de, mais ou menos sete a oito animais, que viajam em fila. Encabeçando a tropa, está a madrinha, mula guia que carrega em seu pescoço cincerro e guizos. Logo após a madrinha, vem o burro, o dianteiro. Em Montes Claros, o Sr Manoel Pinheiro de Araújo, um tropeiro remanescente, nos explica como era a sua tropa:

A tropa de um tropeiro era de mais ou menos doze burros, a minha tropa era de quatro a cinco burros. Tinha a madrinha, que ia na frente cheia de guizo. No meio da tropa grande sempre tinha três ou quatro burros adestro, burro livre e sem carga pra no causo  de algum cansá a gente troca. O burro que nem era Madrinha e nem adestro, tinha nome próprio, tinha Relógio, Mimoso e um monte de nome ( risos) Na hora de sair soltava madrinha da tropa. Cada animal tinha um couro rebuçando a carga, agora, quando soltava a madrinha, nós pegava um piraí de couro ( chicote de couro) e dava uma chulepada em cima da carga. Antes de sair, os burro ficava quitim ( quieto), tudo triste, mas quando dava a chulepada aí saía tudo alegre, eles saía caminhando e baruiando ( barulhando) hum...  hum.. hum... hum.. eles ia tudo gemendo ( risos...) ( informação verbal).[2]

    

Em vários momentos, iremos perceber o tropeiro, como um desbravador.  Levava a produção local para outros lugares e trazia  para a cidade gêneros de necessidades e mercadorias importadas. Em 1817, Saint-Hilaire, passando pelo Arraial das Formigas, relatou  a transação que era feita das mercadorias na época. O local produzia salitre, peles e couro, este último era enviado  para Minas Novas,  os vinhos chegavam da Bahia, já os objetos europeus vinham do Rio de Janeiro, trocado por salitre[3]. É com saudade que o romancista Nicodemus Nunes fala do tropeiro, que , quando este chegava na cidadezinhas e arraiais, era símbolo de fartura e alegria[4].

Mas a tarefa de um tropeiro não era só o “leva- e- trás” de mercadorias; muitas vezes, ele  era incumbido de trazer e levar cartas, notícias, novidades, transportar pessoas e remessas de dinheiro. De uma localidade a outra, traçaram rotas, trouxeram o desenvolvimento e o nascimento de muitos lugares; iniciando povoados e futuras cidades.

Nas paradas dos tropeiros surgiram muitas profissões, atividades indispensáveis  a infra-estrutura da tropa,  como: os cangalheiros, o seleiro, o bruaqueiro, o trançador, e o ferreiro. Junto aos tropeiros, como parte da tropa, iam os auxiliares e o cozinheiro.

 Esta cultura, também, influenciou a culinária nacional com o arroz-tropeiro, o feijão sacudido e a  paçoca. Cascudo,  comentando sobre o farnel da viagem, nos esclarece que o saquinho com paçoca, carne assada e farinha de mandioca, pisadas no pilão, estava sempre presente em todo o sertão[5].

Caminhando  léguas ( 1 légua = 6 km.)  com a sua tropa, o tropeiro buscava  proteger seus pés, confeccionando seu próprio calçado- a alpercata, feita de couro e costurada à mão. Se estragava, ele mesmo a consertava, com um pedaço de couro  e uma faca.

O tropeiro, acompanhou o desenvolvimento de Montes Claros, participando da cultura e da formação. Em 1967, quando a cidade completou 110 anos, o artista plástico Konstantin Christoff resolveu homenageá-lo com uma escultura pública, criando o “Monumento ao Tropeiro, A Precata” forma rústica de pronunciar “alpercata”. Assim justifica  a homenagem:

É uma homenagem aos caminheiros, anônimos heróis, dos rústicos tempos do passado, que viveram uma epopéia e marcaram, como nossos antecedentes, com a sutileza de seu passo-a-passo, o nosso caráter e a força de nossa determinação na evolução de nossa história, houve essa gente – vetor humilde a nos apontar valores que não desapareceram como a poeira sem as alpercatas. (informação verbal)[6]

 

 A “Precata” é uma lembrança de todo este passado. Qualquer pessoa, observando esta escultura dirá:  “Isto é um chinelo”, mas no norte de Minas, especificamente na cidade de Montes Claros, onde está situada , esta escultura pública é tratada por “alpercata”, ou “precata”. Saint-Hilaire já traçara, em 1817, a vestimenta do vaqueiro do sertão e sua alpercata[7].

Este objeto tornou-se uma escultura, por isso já não é mais um objeto, desde a hora em que o artista buscou exprimir a idéia do tropeiro, através de seu calçado.

 Kothe diz que “A arte sempre foi o esforço de manter e recuperar essa dimensão mais concreta, material  existente na alegoria”[8]; partindo do princípio de que esta escultura,  “ A Precata” é uma alegoria, observando-a,  poderemos perceber sua significações, já que o autor também afirma que uma alegoria desvela o máximo possível de significações[9]. Podemos constatá-las através dos resultados obtidos com os entrevistados, que, observando-a,  comprovaram que esta escultura significa não só o tropeiro, mas também :“o desenvolvimento e Montes Claros”, “o homem”, “o homem do campo’, “o sertanejo”(informação verbal)[10]. Todas os comentários estão dentro da realidade deste tropeiro que até agora temos pesquisado.

Sobre a imaginação, Dufrenne esclarece que além de ela tornar único o objeto,  também pode dilatá-lo[11]. Dos dezoito espectadores entrevistados sobre esta escultura ( informação verbal)[12], 88,8% afirmaram que a mesma é capaz de provocar-lhes a imaginação, e alguns deles completaram, respondendo: “encontrei inúmeras hipóteses do que ela poderia representar” e “é um objeto comum, mas é diferente como escultura”[13]. Observar esta escultura  é assim uma relação semiológica.

Constatamos que esta escultura levou os espectadores a imaginarem diferentes significações; além da alpercata do tropeiro, e da importância dos monumentos que retratam a cultura da cidade,  eles também  encontraram significações como: “alguém deixou a sua marca naquele lugar”, “homens vestidos com simplicidade, onde o tempo não tem muita importância”, “um grande homem nordestino largou sua precata velha para comprar outra nova”, “uma pessoa desprendida dos bens materiais”, “uma homem da roça”, “uma realidade humilde”[14]. Verificamos que uma escultura foi capaz de movimentar a imaginação de seus observadores.

Quanto ao nosso tropeiro entrevistado, reagiu com surpresa quando viu a homenagem que não conhecia, dizendo:

Eu gostei disso demais...As vezes a gente aproveita uma coisa que num é de nada né? Ele  (o tropeiro) deve ter perdido ela aí, na beira de uma cerca onde nós amarrava o arnimal ( animal) ...Eu gostei, se outro tropeiro vê, vai vê a semelhança . ( informação verbal)[15]

 

 

 

 



[1] FERREIRA, Durval. No Caminho dos Tropeiros. Geográfica Universal. Rio de Janeiro: Boch, p. 86, nov.1997.

[2] Entrevista com o tropeiro, Sr. Manoel Pinheiro de Araújo – Tropeiro residente em Montes Claros- 26 – 02 - 03

[3] SAINT –HILAIRE, Auguste de . Viagem pelas Províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938, 1 V. p. 291.

[4] NUNESS, Nicodemus. Nossa Pobre Gente: alguns aspectos do Brasil sertanejo. BH: Imprensa Oficial, 1954, p.69

[5] CASCUDO, Luis da Camara. História da Alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, SP: EDUSP, V. II, 1983. p. 779

[6] Entrevista com  artista Plástico Konstantin Christoff – autor do Monumento ao Tropeiro – Montes Claros 06/02/ 03

[7] SAINT –HILAIRE, op.cit. p. 263.

[8] KOTHE, Flávio. A Alegoria. São Paulo: Ática, 1986, p. 45

[9] Ibidem. p. 38

[10] Entrevista estruturada- individual ( espectadores do Monumento ao Tropeiro) Montes Claros - MG

[11] DUFRENNE, Mikel. Estética e Filosofia. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 95.

[12] Entrevista estruturada individual- op. cit.

[13] Ibidem

[14] Ibidem

[15] Entrevista com o Tropeiro- op. cit.