O Jogo das Cartas ou a Estratégia Civilizatória  de Antônio Vieira

 

Maria Regina Barcelos Bettiol

Doutoranda em Literatura Comparada pela UFRGS

 

 

Meu Senhor-É coisa tão natural  o responder , que até os penhascos duros respondem, e para as vozes têm ecos. Pelo contrário é tão grande violência não responder , que os que nasceram mudos fez a natureza também surdos, porque se ouvissem, e não pudessem responder, rebentariam de dor”.

 

                             Antônio Vieira (Carta Circular à Nobreza de Portugal - 31 de Julho de 1694)

 

“ Mas não está o mal nas palavras , senão na interpretação que lhes querem dar: e, como dizem que foram de mão em mão , bem pode ser que chegassem tão diferentes, que totalmente não fosse as minhas, e assim creio.Mas de qualquer modo que haja ou não haja sido, eu estou pela sentenças e, irei para onde me mandarem, seja África ou América, que em toda a parte há terra para o corpo e Deus para alma”.

 

  Antônio Vieira (Carta Ao Príncipe D. Pedro – 7 de Setembro de 1671)

 

O título da nossa  exposição aglutina a questão da epistolografia como gênero híbrido[1] e como estratégia civilizatória , ou seja discursiva , do colonialismo português. A partir da temática Geografias Literárias e Culturais : Espaços /Temporalidades nos propomos a revisitar , ainda que de forma bastante redutora, a correspondência do Padre Antônio Vieira através de uma prática comparatista, revisando conceitos e cruzando leituras.

 

      A tradição historiográfica  brasileira [2]  apresenta o jesuíta Vieira como o protótipo do missionário colonizador , inventor de um estilo de escritura que fez de sua obra um monumento literário e histórico de primeira grandeza , de uma estratégia missionária eficaz , adaptada ao Brasil .Não vamos nos situar no terreno dos méritos e virtudes de Vieira ou de sua Ordem .Nosso objetivo é fazer uma leitura plural do seu texto, tal qual ele se apresenta a nós hoje, enquanto fenômeno textual.

 

     Preliminarmente, é preciso que se diga que o século XVII não foi somente o século da expansão ultramarina  em Portugal foi, também, o século  dos epistológrafos [3]. O sucesso dessa expansão se deve, aliás, muito a epistolografia que ajudou o imperialismo a mapear a geografia colonial que se fez conhecer, primeiramente, pela força dos canhões depois pela força do discurso ( idéias , formas, imagens e representações) , por meio da disseminação cultural , sobretudo no domínio das artes e que teve na literatura sua principal porta-voz [4].

 

          Vieira , geógrafo literário por excelência , soube melhor do que ninguém relatar esta luta pelo espaço geográfico e literário.Em suas viagens , principalmente pelo Brasil, o escritor  delimita uma paisagem cartográfica do país:

 

“ Abre esta costa do Brasil, em treze graus da parte do sul, uma boca ou barra de três léguas , a qual , alargando-se proporcionalmente para dentro , faz uma baía tão formosa , larga e capaz que, por ser tal, deu o nome à cidade, chamada por antonomásia –Bahia.”   [5]        

 

         Mas, talvez, a maior riqueza de sua obra seja a geografia humana, os personagens que se configuram no espaço da página: o índio, o negro, o judeu, os governadores, os reis , o próprio Vieira como pioneiro, mártir , embaixador, comerciante, conselheiro político, até a figura enigmática  do demônio , inúmeros personagens que povoam suas cartas , que são pintados com as cores do eurocentrismo da época  e que vão migrar, posteriormente, para os romances da Literatura Brasileira herdeiros dessa  representação :

 

  “ Os índios que vivem em casa dos portugueses , pela miséria de seu estado, e pela natural rudeza de quase todos,ainda em muito maior parte lhes tocam todos os desamparos espirituais acima referidos .Muitos deles vivem e morrem pagãos (...) Os que têm nome e batismo de cristãos , muitos o receberam sem saberem o que recebiam , e vivem tão gentios como antes.”  [6]

 

        Homem de seu tempo , Vieira reflete bem a mentalidade de sua época, propaga em suas cartas a diferença entre natureza e cultura, considerando por “ cultura” a cultura portuguesa e católica ( culturas de centro) , os dois únicos meios possíveis de se atingir à “ civilização”. A cultura local ( indígena) jamais foi considerada cultura , sempre foi vista como uma prática primitiva / pagã. [7]  A tão famosa  “rudeza “ dos índios é um estereótipo inventado pelo imaginário europeu para justificar a negação do Outro ( do índio) em assimilar este discurso colonialista .Esta insistência em batizar os índios com nomes cristãos , de dar uma nova genealogia a esses povos, é uma das maneiras mais eficientes e violentas de apagar a sua identidade étnica , de apagar toda uma tradição cultural pré-americana ou ,se preferirmos, pré-colombiana que já existia muito antes da chegada dos portugueses , é apagar o direito de significar desses povos .Apagamento este, que a retórica jesuítica soube muito bem camuflar . [8] 

 

     “ É  o caso que nesta ilha de Santiago, a cabeça de Cabo Verde, há mais de sessenta mil almas, e nas outras ilhas, que são oito ou dez, outras tantas, e todas elas estão em extrema necessidade espiritual ; porque não há , religiosos de nenhuma religião que as cultivem , e os párocos são mui poucos e mui  zelosos , sendo o natural da gente o mais disposto que há , entre todas as nações das novas conquistas, para se imprimir neles tudo o que lhes ensinarem.São todos pretos , mas somente neste acidente se distinguem dos europeus”. [9]

 

Quanto aos negros diz Vieira:” São todos pretos, mas somente neste acidente se distinguem dos europeus”. O “ acidente “a que se refere é o acidente epidérmico pois a identidade tem cor definida: é branca . Eles negros são ,como nos diz Fanon ,[10]homens de pele negra e máscaras brancas”, são aportuguesados, o que não significa dizer portugueses .Homi Bhabha [11] ilustra bem a ambivalência do discurso colonial   através do que ele chama  teoria da mímica: “ A mímica representa um acordo irônico(...) , é o desejo de um Outro reformado, reconhecível, como sujeito de uma diferença que é quase a mesma, mas não exatamente.”

 

   “O esterco( diz Santo Agostinho) fora do seu lugar suja a casa, e posto no seu lugar fertiliza o campo: e, aplicando-se a doutrina e semelhança ao nosso caso, como a maior dos doutores digo, Senhor, que os judeus se tirem de onde nos sujam a casa, e que se ponham onde os fertilizem o campo(...)Lancem-se de Portugal os judeus , os sacrilégios, as ofensas de Deus , e fiquem em Portugal os mercados, o comércio, a opulência(...) e os que se converterem serão verdadeiros cristãos , e os demais importa pouco que vão ao Inferno de aí ou de outra parte.” [12] 

 

     Os judeus representam outro grupo étnico-religioso perseguido pela lógica maniqueísta do discurso colonial, pela prática da “civilidade dissimulada”.  Se pensarmos que etimologicamente  a  palavra  território [13]  deriva tanto  de terra   como  de     terrere       (amedrontar), de onde territorium , “ um lugar do qual as pessoas são expulsas pelo medo, entendemos a maneira pela qual os portugueses expulsaram os judeus de seus territórios isto é, pela disseminação do medo. Vieira diz na mesma carta [14] que o problema de Portugal foi o “contágio do sangue dos judeus que se misturou ao dos cristãos velhos”, esta “impureza” ,supostamente, arruinaria o império. Mas o medo não se restringe ao colonizado , o colonizador também  tem medo : da mescla , da mistura , do sujeito híbrido, do deslocamento de sentido, da perda da autoridade deste discurso logocêntrico, o qual ele, o colonizador , é representante.

 

O projeto de escritura de Vieira não deixa dúvidas, ele nos diz em nome de quem fala , a que ordens discursivas ele se põe a serviço:

 

“ Não só pela obrigação de vassalo ao seu príncipe , mas pelo afeto e adoração à pessoa de V.M., a quem depois de Deus mais venero e amo”. [15] 

 

“ Só digo que é necessário que seja uma religião de mui qualificada e segura virtude , de grande desinteresse , de grande zelo da salvação das almas, e letras mui bem fundadas, com que saiba o que obra e o que ensina ; porque os casos que cá ocorrem são grandes , e muitos deles novos e não tratados nos livros”. [16]

 

No primeiro trecho declara seu amor e   sua lealdade irrestrita ao rei de Portugal .Em todas as suas cartas aos monarcas ,ele se põe a serviço do reino e expressa a sua admiração pela família real a quem considera ungida por Deus.

 

          No segundo trecho está  se referindo , como o fez em outras cartas, aos jesuítas que são os que têm “ letras mui bem fundadas”, que sabem o que fazem porque têm o conhecimento e a experiência de viver no Novo Mundo e sabem o que ensinam ( controlam e delimitam o discurso) , regulam o  sentido , o imaginário coletivo, em nome das instituições que representam. A manutenção da monarquia e do catolicismo está, portanto, na ordem do discurso. [17]

 

     Nesta luta incessante pelo poder dentro do espaço discursivo , Vieira vai atribuir à figura do demônio (uma metáfora para falar de seus inimigos, mais do que uma entidade maléfica, uma força sobrenatural propriamente dita ) os reveses e os insucessos de seus projetos .O demônio , na verdade uma figura simbólica, nada mais é do que estas vozes que se insurgem contra o catolicismo ou contra o império português , que desestabilizam , desarticulam estes discursos , questionam seus fundamentos, sua legitimidade. Esta força demoníaca da qual se investem seus inimigos põe em xeque a teoria (ou as teorias) colonialista e, conseqüentemente, a visão de mundo embutida nela e introduz novas práticas discursivas , novas visões de mundo que entram em confronto com esses valores preconizados pela metrópole  :

 

“Como os nossos intentos e ações eram tão contrárias às do demônio , tratou o inimigo de semear cizânia sobre este grão tão limpo, e fê-lo com tanta astúcia que nos pôs em perigo(...) Achou esta voz fácil entrada , não só nos ouvidos mas nos ânimos do vulgo , atiçando talvez a labareda alguns que tinham obrigação de a apagar .Mas esta a desgraça : que os da mesma profissão sejam de ordinário os mais apaixonados contra nós; porque só eles querem valer na terra , e ofende-lhes os olhos tanta luz na Companhia. [18]

 

   Aproximando-nos do final  do nosso percurso , nos resta abordar a noção vieiriana  de tempo:

“ Enfim , amigo, pode mais Deus que os homens , e prevaleceram os decretos divinos a todas as traças e disposições humanas(...) Ah! Quem pudera desfazer o passado , e tornar atrás o tempo e alcançar o impossível, que o que foi não houvera sido! Mas já que isto não pode ser ,Deus meu, ao menos seja o futuro emenda do passado , e o que há de ser satisfação do que foi”. [19]

 

    De fato, não há como isolar o passado do presente, ambos se incluem , como nos diz Eliot, um coexiste no outro: “ uma visão da tradição literária que, mesmo respeitando a sucessão temporal, não é de todo comandada por ela.Nem passado, nem presente, como tampouco qualquer poeta ou artista, tem pleno significado sozinho.” [20]     A noção de tempo de Vieira está interligada com a noção de espaço homogêneo , de cultura homogênea , de tempo entendido como temporalidade linear, não como uma temporalidade discursiva onde existem diversas fronteiras enunciativas dentro de um mesmo espaço.

 

    Procuramos romper , ainda que brevemente , com as estratégias discursivas chamadas de civilizatórias , com o silêncio que existe em torno delas estabelecendo conexões entre o texto vieiriano ( literatura) , cultura e império, mostrando que o gênero epistolar ,pelo seu caráter híbrido ,se prestou ao projeto de escritura de Vieira , veio ao encontro do seu nomadismo intelectual .Este jogo das cartas, quase um jogo de cartas pois o jogador /escritor embaralha o sentido, entrecruza suas cartas com outras cartas , outros textos, é um jogo ambíguo de afetos e valores através de um exercício de retórica que retrata a face canônica da nação .Vieira “não significa sozinho” , suas cartas são ressemantizadas, ressimbolizadas  pela contemporaneidade.

 

NOTAS

 

1-Nos parece a melhor solução, tal a dificuldade em definir o conceito de epistolografia .A dificuldade é proveniente desta mescla de discurso social ( registro, arquivo) e individual ( impressões do narrador, autobiografia), onde o elemento imaginário não está ausente.

 

2-COUTINHO, Afrânio . A Literatura no Brasil. RJ: Sulamericana, 1968.

 

3-SARAIVA,Antônio Jose. LOPES, Oscar. História da Literatura Portuguesa. Porto: Editorial , 1960.

 

4- VER SAID, Edward .Cultura e Imperialismo. Trad.Denise Bottman.SP: Companhia das letras, 1995.

 

5- VIEIRA , Antônio. Cartas.ORG: Novais Teixeira .SP: Jackson, 1948.p.9.

 

6- Ibidem,p.85.

 

7-O processo dito civilizatório foi de uma brutalidade ímpar, as populações indígenas foram literalmente dizimadas nos primórdios da colonização. Ver a  este respeito Darcy Ribeiro .O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. SP: Companhia das Letras, 1995.

 

8-Sobre a retórica jesuíta ver: FERLAND, Remi. Les Relations des jésuites : un art de la persuasion .Québec: Éditions de la Huit, 1992.

 

9- VIEIRA,op.cit.,p.79.

 

10- FANON, F. Black skin, white masks .London:Paladin,1970.

 

11- BHABHA,Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Avila, Eliana Lourenço de Lima reis, Glaúcia Remate Gonçalves.BH: UFMG, 1998.p.130

 

12- VIEIRA ,op.cit.,p.236.

 

13- BHABHA op.cit.,p.147

 

14- VIEIRA ,op.cit.,p.235.

 

15- VIEIRA ,op.cit.,p.233.

 

16- VIEIRA ,op.cit.,p182.

 

17-FOUCAULT,Michel. L´ordre du discours.Paris: Gallimard, 1971.

 

18- VIEIRA ,op.cit.,p.101.

 

19- VIEIRA ,op.cit.,p.82.

 

20-SAID, op.cit.p.34.