“Formas plebéias de atividade narrativa” ?
Luiza Pinto Leite
Entre as múltiplas condições que propiciaram e/ou foram a conseqüência do pensamento pós-moderno figura a formação de sociedades que pretenderam e têm conseguido manter coesão entre estratos essencialmente diversificados a nível de nacionalidade, de religião e de cultura.
Na era pós-colonialista, acorreram às antigas metrópoles milhões de seres humanos de outros continentes, em busca de melhores níveis de vida, e têm participado das vantagens do novo “habitat , sem serem obrigados a abdicar de seus dados culturais e religiosos. A convivência, sem integração, tem formado quadros sociais democráticos e funcionais. As sociedades contemporâneas colocaram, em nosso cotidiano aspectos que, há um século, pareceriam no mínimo utópicos: a convivência, em igualdade, de etnias, de religiões, de culturas.
Entretanto, no próprio seio dessas nações que pretendem manter estabilidade entre elementos diversificados, começam a tornar-se visíveis, no campo social, alguns riscos de de retrocesso, na área do relacionamento social, com episódios de intolerância, xenofobia e racismo. Os alvos são os imigrantes caracterizados por raças e culturas diferentes; esses episódios fazem perigar a idéia pós-moderna de justaposição com efetivo respeito.
Aceita-se, geralmente, a idéia de que a presença de grupos imigrantes em países desenvolvidos que, em períodos de grande prosperidade, é bem aceita, torna-se problemática em períodos de recessão econômica, porque é apercebida como demasiado numerosa e/ou porque é entendida como um fator de concorrência no mercado de trabalho, e/ou de diminuição de níveis de qualidade de vida.
Alain Finkielkraut externa esse pensamento, mas vai além. Ele atribui o repúdio ao imigrante também à própria potencialização da convivência com o “diferente” . Porque foram obrigados a conviver e respeitar o “exótico”, os nativos dizem agora “basta!”.
O seu livro A derrota do pensamento obedece a uma linha-mestra: a crítica aos princípios e aos pressupostos essenciais do pensamento pós-moderno.
O autor imprime um pessimismo nostálgico a todo o seu livro, desde o título até á conclusão em que afirma que o intelectual pós-moderno ou é um zumbi ou um fanático cultural...
Animado por certezas absolutas, ele parte contra a divisão da Cultura em “culturas” diferenciadas; e fixa os grandes momentos e as condições histórias em que a “divisão” aconteceu:
-Em luta contra a dominação intelectual e militar da França, o romantismo alemão (via Herder) resgata e imediatamente introduz em seu combate a noção profundamente atraente do “Volksgeist” , ou seja, do espírito popular alemão, em oposição à idéia racionalista, iluminista de uma só Cultura, defendida por Goethe.
-Ferida pela anexação à Alemanha da Alsácia e da Lorena, a França entra no mesmo jogo e não descobre nada para replicar, senão com afirmação da existência do gênio nacional francês, do qual apregoa, desde logo, “raízes” e xenofobia.
-O Ocidente, ainda hoje adepto do conceito do “Volksgeist”, e sentindo culpa pelos erros do colonialismo, sofre agora uma crise de “má-consciência” , que se resumiria assim : “Por termos querido conformar o planeta de acordo com os nossos caprichos, cometemos muitos erros irreparáveis. O tempo das cruzadas acabou; não forçaremos mais ninguém a adotar a nossa percepção da vida social”(p.127); mas má-consciência é má conselheira, segundo Finkielkraut, e chega o momento em que, por via da etnologia, o ex-colonizado, assim como o ex-colonizador são encerrados no “cárcere de sua cultura”!
-Uma vez que todo esse “respeito” em relação às culturas “estranhas” estabelecidas nas antigas metrópoles começa a cansar, a solução única chegada pelas mãos da Nova Direita, é, como estágio final do raciocínio etnológico: cada um com a sua cultura, sim, mas em suas casas: “fora os imigrantes”!
O seu ataque aos romances contemporâneos é enfático:
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Nenhuma barreira separa mais as obras-primas de todo o resto; a mesma estrutura fundamental, os mesmos traços generosos e elementares se encontram nos grandes romances (cuja excelência é doravante acompanhada de aspas desmitificadoras) e nas formas plebéias da atividade narrativa” (p.77) |
A perplexidade é inevitável: que critérios permitiram que ele dividisse os “grandes romances” daqueles que não o são? Toda a história do romance foi pontilhada por tais julgamentos, de tais exclusões. Cada uma das obras marcantes construiu-se e definiu-se por soluções diversas daquelas preferidas pelas suas antecessoras; conjunturalmente foi considerada “menor”, até que, por sua vez, elas próprias se tornaram “grandes romances” . Não seguir o desenho das “obras-primas” anteriores não implica necessariamente perda de todo o julgamento. Aceita-se sim, que as formas mudam e os processos narrativos (que são formas) também. Os que foram utilizados pelos grandes mestres de outrora permitiram-lhes narrar de uma certa maneira e tornarem-se grandes. Mas acreditar que é suficiente - ou até necessário - imitá-los plena e perenemente, para poder dizer tudo em todos os tempos e em todos os lugares é, no mínimo, surpreendente, principalmente por ter origem em um dos revolucionários mais destacados do movimento estudantil dos anos 60, que foi inegavelmente um dos “possibilitadores” do pós-moderno.
A desobediência aos parâmetros formais das “grandes romances” de outrora não dá origem, necessariamente, a “formas plebéias de atividade narrativa”.
Alain Finkielkraut recusa-se a levar em conta a historicidade das idéias, das obras, dos sistemas de valores. As ironias são permanentes. A propósito de Herder, por exemplo:
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Em lugar de submeter os fatos às normas ideais, mostra que essas próprias normas têm uma gênese e um contexto, em suma que não são outra coisa senão fatos. Reencaminha o Bem, o Verdadeiro e o Belo à sua origem local, desaloja as categorias eternas do céu, onde se assoberbavam, para reconduzi-las ao pedacinho onde nasceram (p.17) |
ou a respeito da condição pós-moderna:
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Os “herdeiros do “terceiro-mundismo” não são os únicos a preconizar a transformação das nações européias em sociedade multiculturais. Hoje, os profetas da pós modernidade pregam o mesmo ideal.(p. 131), |
ou ainda:
O ator social pós-moderno aplica na sua vida os princípios que os arquitetos e os pintores usam em seu trabalho: substitui, como eles, os antigos exclusivismos pelo ecletismo. (p.132)
Todo o seu grande talento, entretanto, não convence ninguém de que a correção de desvios eventuais esteja na adoção plena e total dos princípios iluministas etnocêntricos. Se se quer precipitar a chegada de um movimento antagônico ao pós-moderno não será nadando contra a corrente da História.
Pode afirmar-se, entre outras coisas, que falta a este livro a dialética. Ele admite como pressuposto que o pensamento das Luzes possa ser retomado tal e qual, “hic et nunc” , por toda a parte e para sempre, e que existem Verdades e Valores Absolutos que pairam acima de toda a crítica e das diversidades culturais, à luz dos quais tudo pode - e deve - ser julgado, mas, que, inversamente, não poderiam ser julgados à luz, por exemplo, da História.
Para o conservador de todos os tempos a dúvida, essencialmente desorientadora, torna o “fazer” impossível; por outro lado, para o contemporâneo de todas as épocas, a dúvida, fundamentalmente revolucionária, abre espaço para uma criação/recriação, sem hierarquias - desconstrução constitutiva da inovação.
À crença em uma Natureza Humana, em um Verdadeiro, em um Bom e em um Belo sempre e em todos os lugares os mesmos, a contemporaneidade e a sua teoria respondem afirmando a necessidade permanente mas infinitamente diversificada de um “poïein” ( no sentido estético do termo) , de um processo criativo/recriativo que alie, em sua obstinação dolorosa, a procura incessante de inovação, a dúvida, a crítica, finalmente, a desconstrução e a sua pertinência mede-se pela audácia e pela justeza de suas experimentações
A historicização dos valores estéticos em seus contextos, é a condição necessária para qualquer estudo crítico/teórico de arte que queira evitar “esclerose” imobilista; por outro lado, pregar o regresso a uma hierarquia iluminista e etnocêntrica, como recomenda aberta e repetidamente Alain Finkielkraut, aceitar a idéia de que é preciso reconduzir as “culturas” à única e Verdadeira cultura, e a exaltação da conversão absoluta aos valores iluministas utilizados pela burguesia ocidental do século XVIII na construção de sua dominação de classe, que conseguiu impor aos habitantes dos outros continentes, com os erros reconhecidos, não me parece mais possível, nem desejável.
Que o fim da estética pós-moderna chegará, é uma certeza pacífica e nada traumática, pois nunca, como agora, se teve a consciência do caráter provisório de todos os conceitos humanos e também nunca se teve, como agora, a certeza de que no momento em que um código expõe suas tendências e preferências exaustivamente, de forma a serem do conhecimento e utilização gerais, é chegado o tempo de sua substituição por outro. Não será, porém, acreditando de novo cegamente naquilo que o “magister (europeu) dixit”, como recomenda o pensador francês, parece-me.
FINKIELKRAUT, Alain. A derrota do pensamento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
Licenciatura em Filologia Germânica/Línguas Anglo- Germânicas, Universidade de Coimbra / Universidade Federal da Bahia.
Mestrado em Literatura Comparada - Universidade Federal da Bahia
Ex- docente da Universidade Federal da Bahia.