Identidade e alteridade: breve análise do poema Nicolás Guillén de Solano Trindade

 

 

                                                                                                   Liliam Ramos da Silva

     PPG/LETRAS - UFRGS

 

                                                                                      

     Eu também sou América

     (Langston Hughes)

 

Vivemos em um momento de grandes questionamentos a respeito de temas que sempre foram problemáticos nos estudos de literaturas como, por exemplo, a situação pós-colonial, que veio para reverter os loci de enunciação formando um espaço de força para a erudição crítica e de resistência. No presente trabalho, será analisada a questão da identidade/alteridade nas culturas do Novo Mundo, especificamente a cultura negra, pois a história de nossa literatura jamais seria completa se a ela não se somasse a produção literária referente à presença, participação e contribuição que esta recebe dos mananciais inesgotáveis da tradição afro que vem resistindo à força de assimilação da cultura ocidental. Na busca de uma forma de a sociedade ouvir a reprimida voz dos escravos e de seus descendentes, que foram trazidos à força para o Novo Mundo, o negro ultrapassa os limites impostos pelos colonizadores rompendo com os padrões estabelecidos e afirma a sua identidade americana a partir da revalorização da herança cultural africana.

É a partir dos anos 30 que a literatura negra nas Américas começa a ter um cunho de resistência, manifesto através dos poemas do escritor negro e cubano Nicolás Guillén, cuja obra poética é considerada a mais representativa do negrismo hispano-americano. Este movimento significou uma notável mudança na literatura cubana pois supunha a união da modernidade com a tradição africana, mistura que se distanciava dos aportes europeus. Pela primeira vez em Cuba, estabelecia-se um estilo diferente e muito importante, pois mostrava os problemas dos negros, sem eufemismos e com muita franqueza. Neste momento da história, o negro podia protestar por suas preferências e reclamar por seus direitos civis e sociais.

Na década de 1960, no Brasil, o poeta negro Solano Trindade reconheceu a importantíssima contribuição de Guillén para uma resistência à assimilação cultural ocidental. Poeta da resistência negra por excelência, Trindade dedicou sua vida e arte à causa da liberdade, ao combate das injustiças sociais e à valorização da cultura negra, identificando-se com todos os oprimidos, fossem eles negros ou brancos. O ideal marxista leva Trindade a um conceito integrado de América, fazendo com que houvesse um compromisso com seus companheiros que lutavam contra “o discurso da mistificação que colocou brancos e negros em lados opostos” (Bernd, 1987, p.88). Trinta anos depois, e sem tê-lo conhecido pessoalmente, Trindade “dialoga” com Guillén, seu “irmão de Cuba”:

 

Nicolás

Nicolás Guillén

Meu irmão de Cuba

Nicolás Guillén

 

Benvindo sejas a Terra

Nicolas Guillén

Terra bonita bacana

Nicolás Guillén

Mas com a vida tão feia

Nicolás Guillén

A fome matando gente

Nicolás Guillén

Liberdade se sumindo

Nicolás Guillén

A tísica comendo o povo

Nicolás Guillén

 

Nicolás

Nicolás Guillén

Meu irmão de Cuba

Nicolás Guillén

 

Cantiga ó minha cantiga

Nicolás Guillén

Embalando a minh’alma

Nicolás Guillén

Onde está a burguseia

Nicolás Guillén

Cheia de medo sem calma

Nicolás Guillén

Burguesia bem nutrida

Nicolás Guillén

Com medo de coisa nova

Nicolás Guillén

 

Batuque, macumba, samba

Nicolás Guillén

Batendo no meu coração

Nicolás Guillén

Onde estão os defensores

Nicolás Guillén

Da vida de escravidão

Nicolás Guillén

São uns homens bem vividos

Nicolás Guillén

Com medo da evolução

Nicolás Guillén

 

Nicolás

Nicolás Guillén

Meu irmão de Cuba

Nicolás Guillén

 

                                  (Trindade, Cantares ao meu povo, 1961).

 

 

Trindade cria um espaço de compartilhamento onde questiona seu antecessor e critica a burguesia bem nutrida (branca; que, na verdade, ocupa um espaço sem aberturas ao Outro, fato claro no verso em que diz “com medo de coisa nova”). De acordo com Edouard Glissant, importante teórico antilhano, fechar-se sobre si próprio  leva a um comportamento tribal fazendo com que os indivíduos considerem que o mundo acaba nos limites de sua tribo. A burguesia citada por Trindade - e isso aplica-se também a outros elementos enjeitadores  - não precisa, para afirmar-se, excluir o outro, e tampouco anular-se quando em contato com o diferente. Com isso, Glissant traz a Poética da Relação, que aplica-se adequadamente ao continente americano por apregoar que mesmo com entrecruzamentos, as polaridades não perdem a sua singularidade – fato importantíssimo em um continente com tamanha variação cultural.

Uma característica substancial do pós-colonial é a emergência de um novo locus de enunciação. A partir deste lugar de enunciação conquistado pela poesia negra, inverte-se a imagem contrária produzida e sustentada por uma longa tradição desde a herança colonial. Desta forma, Solano Trindade merece ser reconhecido por buscar no passado um novo horizonte para o futuro através da intervenção do aqui e do agora. Através da recuperação da memória de restos, vestígios da cultura africana ele escreve com um olhar transformador para aqueles que já estão e para aqueles que virão. Além disso, é importante destacar a originalidade de, já nos anos 60, o poeta construir uma Poética da Relação, (que somente seria teorizada por Glissant nos anos 80) caracterizando-se como um processo permanente que implica intercâmbios constantes entre elementos diversos que entram em relação e que se dão no mundo todo. A característica resistente da poesia de Trindade está presente na medida em que o poeta rompe com os modelos europeus, deixando de sentir-se humilhado, recuperando sua honra, sua memória, passando a orgulhar-se de sua cor e de sua herança cultural negra, mas sem recusar a abertura ao Outro. Esses processos - lentos, mas contínuos - revelam processos de transculturação dando origem a uma nova cultura americana propriamente dita (nem européia, nem africana) em processo permanente de afirmação  e com resultados imprevisíveis.

 

 

BIBLIOGRAFIA

BERND, Zilá. In: SCARPELLI, Marli & DUARTE, Eduardo (org.). Poéticas da Diversidade. Belo Horizonte: UFMG/FALE. P. 36-46: Enraizamento e errância: duas faces da questão identitária.

______ Introdução à literatura negra. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.

______ Negritude e literatura na América Latina. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987.

______ In: JOBIM, José Luís (org.). Literatura e identidades. Rio de Janeiro: J.L.J.S. Fonseca, 1999. P. 95-112: Identidades e nomadismos.

FIGUEIREDO, Eurídice. Construção de identidades na literatura antilhana. Niterói: Editora da UFF, 1998. P. 77-100: Edouard Glissant: por uma Poética da Relação.

GLISSANT, Edouard. O mesmo e o diverso. CD-ROM: Antologia de textos fundadores do comparativismo literário interamericano. Porto Alegre: PPG/LETRAS/UFRGS/ABECAN 2001.

MOURA, Clóvis. Dialética racial do Brasil negro. São Paulo: Ed. Anita, 1994. P. 123-158: População, miscigenação, identidade étnica e racismo.

MUNANGA, Kabengele. Algumas reflexões críticas sobre o conceito de Negritude no contexto afro-brasileiro. In: Estudos Afro-asiáticos. Rio de Janeiro: CEAA, nº8-9, 1983. P. 79-81.

TRINDADE, Solano. Cantares ao meu povo. São Paulo: Ed. Fulgor, 1961.