O JOGO DO DUPLO

 

                             Latuf Isaias Mucci

 

“Couple, allons voir l’ombre que tu devins”. Mallarmé

 

Na história da civilização ocidental, reduplica-se a história do duplo, que parece ser um traço do ser humano, à busca de si no outro, espelho da identidade, talvez fugaz, quem sabe inapreensível, certamente misteriosa. Não reza a Bíblia, em seu primeiro livro, Gênesis, que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus? Inda outro dia, por exemplo, em minha sala de aula de pós-graduação, um mestrando, já, de certa forma, entrado em anos, confessou a todos que até hoje não sabe quem ele é, porque sabe não ser aquele que vê ao espelho. Brinquei com ele, dizendo que talvez se tenha transformado, sem sabê-lo, num vampiro, ser fantástico que não possui a referência do espelho e bebe o sangue alheio para transformar o outro num semelhante. Se, no auge de sua dourada adolescência, Rimbaud pôde, infringindo a gramática e a poética, exclamar “je est un autre”, evidencia-se que a questão central, não apenas no albor da modernidade, é o outro, a existência do outro (quem é o outro?), dramaticamente agravada pelo fato de o outro ser um outro eu.

      Dupla forma simbólica de representação, a mitologia e a literatura exibem exemplos, paradigmas, ícones do duplo, configurando um repertório inesgotável, que só tende, com a história das culturas, a ampliar-se, num processo de significação sempre em aberto. Forma arquetípica, a mitologia grega apresenta dois exemplos fulcrais de narrativas de duplo: a história de Anfitrião e o discurso sobre o andrógino. Primeira história sobre duas pessoas exatamente iguais, o mito de Anfitrião narra-o Hesíodo. Alcmena, esposa de Anfitrião, rei de Tirinte, foi escolhida por Zeus para lhe dar um filho, que se tornasse, um dia, protetor poderoso dos imortais e dos humanos. Mas, como ela era fidelíssima a seu marido, Zeus, para a possuir, aproveitou uma ocasião em que Anfitrião estava ausente e, tomando o seu aspecto, apresentou-se-lhe como se fosse o próprio Anfitrião. Alcemna deu à luz gêmeos: Héracles, filho de Zeus, e Íflicles, filho de Anfitrião. Mais tarde, o adivinho Tirésias esclareceu o mistério do jogo do duplo, de que nasceram dois irmãos mui parecidos. O outro mito de duplo, na mitologia grega, cristaliza-se em O banquete, de Platão, quando, nas discussões em torno do amor, é a vez de Aristófanes tecer o elogio do amor:

                 Outrora, realmente, nossa constituição não era a mesma de hoje, mas

                 diferente. Em primeiro lugar, os sexos da espécie humana eram três,

                 não dois como hoje, masculino e feminino; havia ainda um terceiro,

                 que participava de ambos aqueles; o nome conservou-se até hoje,

                 embora o sexo mesmo tenha desaparecido; existia, naquele tempo, um

                 que era o andrógino; participava, assim, no aspecto como no nome, de

                 ambos os sexos, macho e fêmea (...). Eram, por conseguinte,

                 dotados duma força e duma robustez formidáveis, inflados dum orgulho

                 imenso; atreveram-se contra os deuses e também a eles se aplica o que diz

                 Homero de Efialtes e Oto, o terem empreendido a escalada do céu para

                 medir-se com os deuses (PLATÃO, s.d., p. 59).

 

Essa insolente ambição dos andróginos de enfrentarem os deuses, da mesma ordem das transgressões de Prometeu (o inventor do fogo) e do mito bíblico da Torre de Babel, foi habilmente punida por Zeus, o deus dos deuses: “(...) fendeu os homens em dois (...). Ora, fendido o físico em dois, cada metade sentia saudade da outra e juntavam-se(...) (PLATÃO, s.d., 60). Desde então, uma multidão incontável de metades anda pelo mundo, à procura da sua outra parte, fragmentos de um uno incompleto, carente de sua unidade e de um fechamento. A divisão em dois refere-se a uma outrora original e irreal unidade e gera o desconforto, o incômodo de buscar a outra metade, o duplo do uno, a forma original dos seres inteiros. Fatalmente será o amor, numa das versões platônicas, o ímã que atrai a parte perdida do elo, a outra face de um rosto uno, o reverso de um poema partilhado.

                 Já no campo exuberante da literatura, o duplo reina como tema quase absoluto, em todo caso reiterado em todas as eras literárias. No fundo, no fundo, o que é a literatura, senão a representação de algo, o espelho de um real, a construção simbólica da realidade, o outro do real? O que é o signo – lingüístico, literário e não-verbal -, senão algo vicário, a marca de uma ausência, a presença de um objeto, o duplo de uma coisa, doppelganger?  Tanto a semiologia quanto a semiótica definem-se como “ciência dos signos”, embora haja diferenciações – dualidades – de concepção do signo em Saussure,  fundador da semiologia, e Peirce,  inaugurador da semiótica. Contrariamente ao aspecto triádico da semiótica peirceana, ocorre, na vertente saussureana da semiologia, fundada na lingüística (o outro dessa semiologia), um lúcido dualismo, patente no signo, composto de significante e significado e nas categorias duais: diacronia e sincronia; denotação e conotação; paradigma e sintagma; conteúdo e expressão, língua e linguagem, univocidade e pluralidade, metonímia e metáfora, monologia e dialogia, sistema e sintagma, paradigma e sintagma, código e sistema. Questões metodológicas básicas da teoria da literatura, como a mímesis, a representação, o simulacro, o intertexto, a paráfrase, a paródia, a estilização, a citação, o plágio, guardam íntima analogia com a questão do duplo, especular e espetacular (MUCCI, 1994). Questão fulcral da moderna teoria da literatura, a intertextualidade, postulada, na esteira do formalista russo Bakhtine, por Julia Kristeva, concebe-se “comme mosaïque de citations, tout texte est absortion et transformation d’un autre texte. A la place de la notion d’intersubjectivité s’installe celle d’intertextualité, et le language poétique se lit, au moins, comme double” (KRISTEVA, 1969, 146). Portanto, estabelece-se, pelo intertexto, o jogo especular dos textos, em que o texto literário tem a natureza de palimpsesto, sobre o qual se sobrepõem camadas de textos, configurando a mise en abyme. Pondera Vítor Manuel de Aguiar e Silva que

esta função dual desempenhada pela intertextualidade, nuns casos fortalecendo e convalidando a homeostase do sistema literário, noutros casos contribuindo para a sua alteração e até a sua subversão, só aparentemente é contraditória, pois que representa uma manifestação específica da lógica profunda e da dinâmica de todos os sistemas semióticos culturais” (AGUIAR E SILVA, 1986, p. 633).

 

Arte em tensão, a literatura ostenta um caráter de duplo, até porque seu signo verbal inscreve-se, de iure et de facto, no campo da conotação, que é o sentido outro do sentido canônico, dicionarizado, estabelecido; porque dotado de extrema ambigüidade, o texto literário sobrevive a leituras atemporais. Em literatura, o sentido não é único, mas duplo, resultando de uma dupla estratégia. Figuras de linguagem podem ser consideradas como outras tantas facetas do duplo: a inversão, o quiasmo, a redundância, a repetição, a recorrência, a rima, a aliteração, a anáfora, o polissíndeto, enfim, formas que o signo estrutura para indiciar-se no outro, reduplicação de si, numa espiral textual. Figuras nucleares de linguagem – a metáfora, a metonímia, a sinédoque e a ironia – têm, no jogo do duplo, o seu fundamento. Perde-se na noite dos tempos (e, aqui, lanço mão de um clichê, clichê que é reduplicação do já dito: “para libertar a energia no clichê é necessário o encontro de um outro clichê”, considera Marshall McLuham,) o uso da alegoria, figura maior da retórica, confundindo-se com o uso das figuras míticas e dos mitos, na medida em que cada qual conhece o outro à sua imagem e semelhança. Conforme Foucault, a essência da retórica está na alegoria. Pela alegoria, representa-se, por algo de concreto, uma abstração, um discurso faz entender outro, uma linguagem oculta outra, em outros termos, a própria literatura, o outro do real. Na cena da literatura, o jogo do duplo articula a produção de sentidos, que o múltiplo Fernando Pessoa, “poetadrama”, assim enuncia, pela persona desassossegada de Bernardo Soares: “Sou cena viva onde passam vários atores representando várias peças”.

Referências bibliográficas

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da literatura. 7.ed. Coimbra, Almedina, 1986.

KRISTEVA, Julia. Recherches pour une sémananalyse. Paris, Seuil, 1969.

MUCCI, Latuf Isaias. Ruína & simulacro decadentista. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1994.

PLATÃO. Diálogos. São Paulo, Cultrix, s.d.