Sílvio Romero e Contos Populares do Brasil*

 

Kizy dos Santos Dutra

 

“A antiga maneira de fazer a crítica literária fundada nas regras eternas do bom-gosto, modificou-se de uma vez e foi obrigada a aceitar a relatividade de seus conceitos.

Desde de Buckle e Gernius, começou-se a estudar a ação dos diferentes meios sobre os diversos povos; desde Taine e Renan, admitiu-se, além disso, o influxo divergente das raças nas criações religiosas e artísticas”. Sílvio Romero em História da Literatura Brasileira

 

É baseado neste “influxo divergente das raças” que Contos Populares do Brasil, coletânea publicada pela primeira vez em 1885, tem uma divisão baseada em origens étnicas. A primeira parte do livro são contos de origem européia, a segunda de origem indígena e a última de origem africana ou mestiça.

Na introdução deste livro Silvio Romero afirma a dificuldade de determinar que características dos contos são pertencentes a cada raça, tentando delimitar, como também fez em História da Literatura Brasileira, o quanto cada uma delas contribuiu para a formação do país. Além disso, questiona quais dentre as três raças seriam agentes criadores e aponta o mulato como agente transformador. Tanto nestas afirmações, quanto ao responder à pergunta, dizendo que as três raças são elementos criadores, mas elevando a raça branca como “agente mais robusto de nossa vida espiritual”, percebemos a influência cientificista no pensamento crítico de Romero. Tendo vivido no século XIX, este autor e seus contemporâneos sofreram grande influência das teorias deterministas, baseadas nos conceitos de meio, raça e momento histórico, usando-as para tentar compreender o “atraso” brasileiro em relação à Europa.

É para resolver esta questão, do “atraso” brasileiro, que o mulato surge como “agente salvador”, possibilitando ao povo brasileiro tornar-se, em um futuro próximo, a imagem e semelhança do europeu, adequando-se aos padrões, que segundo os critérios deterministas, possibilitariam o desenvolvimento do país. Nas palavras de Romero:

“Não há aqui, pois, em rigor, vencidos e vencedores; o mestiço consagrou as raças e a vitória é assim de todas três. Pela lei da adaptação elas tendem a modificar-se nele, que, por sua vez, pela lei da concorrência vital, tendeu e tende ainda a integrar-se à parte, formando um tipo novo em que predominará a ação do branco.” (Romero, 2000, p.15)

 

 

Voltando às raças tidas como criadoras, a branca, a negra e a indígena, e a divisão que o autor faz dos contos populares, percebemos que a diferença, as características de cada conto, não são bem explicitadas pelo autor. Romero é sucinto, dizendo que os contos de origem portuguesa têm análogos nas coleções européias, que alguns contos de origem indígena já tinham sido coletados por Couto de Magalhães e que alguns têm análogos em Portugal. Sobre os contos de origem africana diz que não são tão belos quanto os de origem ariana, mas que possuem uma “ingenuidade digna de ser apreciada”. A influência do mestiço, segundo Romero, aparece nos contos em que não é possível precisar a origem exata:

“No terreno dos contos parece-nos que não têm estes ficado inativos, e alguma coisa têm produzido sobre elementos fornecidos pelas três raças mães. Neste número estávamos quase tentados a incluir o da Mãe d’água, que nos parece, por um lado ser tupi, e por outro ariano , ou de formação posterior e mestiça sobre elementos túpicos e europeus. Não podemos decidir com certeza e acabar a dúvida. Incluímo-lo no de origem portuguesa. O agente transformador neste terreno é principalmente o mestiço.” (Idem, p.17)

 

Sobre a semelhança entre alguns contos de origem africana e indígena com alguns publicados em Portugal, o autor lembra o contato entre as culturas, mas também fala que as criações míticas seguem certas ordens, obedecem a certas leis e que as semelhanças podem ser explicadas pelas “leis fundamentais do espírito humano”.

Apesar desta aparente dificuldade de sistematizar as características de cada tipo de conto percebemos que existem diferenças entre eles. Os contos de origem portuguesa possuem uma relação próxima com os europeus, mas com algumas modificações. Muitos deles incorporam a figura do negro como personagem da trama, como é o caso do conto intitulado A princesa Roubadeira originário do Sergipe: três irmãos são feitos prisioneiros por uma princesa, que fica com todo o dinheiro deles. No final da história o irmão mais novo consegue enganar a princesa e se casar com ela. Ele é ajudado por uma escrava, que encoraja a sua dona (a princesa) a deixar o prisioneiro dormir nos pés da sua cama em troca de alguns objetos mágicos que ele possuía. Sem os conselhos da escrava, o herói da história não conseguiria libertar-se da prisão.  A fala dos personagens incorpora algumas marcas da fala local com: “Oh, chente!” e “Vosmecê”. Santos aparecem constantemente disfarçados de mendigos, que depois de ajudados pelos heróis das histórias, presenteiam estes personagens com poderes ou objetos mágicos.

Nas histórias de origem indígena os contos envolvem bichos que trapaceiam entre si, mostrando a superioridade do cágado e do jabuti sobre os outros animais e sobre o homem. Em O Cágado e a Fruta, O Cágado e o Teiú e O Cágado e o Jacaré, todos os personagens possuem vantagens físicas sobre o Cágado, mas usando a inteligência este sempre triunfa. Como o jacaré e o teiú, o homem sempre é enganado pelos animais, como no caso de O Homem e o Jabuti: um homem captura o Jabuti e o leva para casa, o jabuti engana os filhos do caçador cantando para eles e foge, quando o caçador tenta prendê-lo pela segunda vez, é enganado novamente.

Nos contos de origem africana ou mestiça estas características estão ainda mais acentuadas. Mesmo mostrando muito empenho, a inteligência humana não consegue vencer a esperteza dos animais. No conto O Macaco e o Rabo, o macaco engana três pessoas um carreiro, um fazedor de cesto e uma cozinheira, todos são obrigados a presenteá-lo. Enquanto nos contos de origem indígena o animal mais esperto é o cágado ou o jabuti. Nos contos de origem africana, o animal mais esperto é o macaco que chega a ajudar um “Doutor” a casar-se com a filha do rei, como acontece em O Doutor Botelho. Apesar destas diferenças entre os contos, que permitem determinar a que etnia pertencem originalmente cada um deles, é flagrante a mistura das três culturas entre si.O que justifica a afirmação de Romero:

 “indicar no corpo das tradições, contos, cantigas, costumes do atual povo brasileiro, (..) quando muitos fenômenos já se acham baralhados, confundidos, amalgamados; quando a assimilação de uns por outros é completa aqui e incompleta ali, não é coisa tão insignificante, como a primeira vista possa parecer”. (Romero, 2000, p. 13)

 

 

      A pesquisa de Romero foi válida, uma vez que resgatou os contos populares. Na tentativa de classificá-los de forma rígida, percebemos a impossibilidade de restringir a origem do conto a uma determinada raça. Por mais que possamos perceber marcas das três raças, em sua divisão, não há como ignorar que não haja interferências e apropriações entre as culturas. O conto registrado por Romero é o resultado de uma tradição que cruza várias culturas, mesclando elementos de todas elas. 

 

 

Referências Bibliográficas

 

BERND, Zilá & MIGOZZI, Jacques. Fronteiras do literário: literatura oral e 

popular Brasil/ França. Porto Alegre: Editora da Universidade/ UFRGS, 1995.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

ROMERO, SÌLVIO. Contos Populares do Brasil. São Paulo: Editora Landy, 2000.

  

 

 

              

 

 



* Kizy dos Santos Dutra,aluna do curso de Letras da Ufrgs, bolsista do projeto A memória do futuro: oralidade e invenção no conto popular   orientado pela professora Ana Lúcia Liberato Tettamanzy