Deslendo “Pais e Filhos”
Juliana Beatriz Klein
Ainda que consideremos todo o horror adorniano em relação aos produtos da Indústria Cultural (IC), o fato concreto é que os mesmos tornaram-se eventos plenamente visíveis. O posicionamento de Adorno pode ser considerado elitista em virtude da defesa promovida por ele no que se refere às belas artes, privilegiando as “produções do espírito” em radical oposição aos produtos da IC, pois demonstra um certo grau – bastante notável – de preconceito cultural.
Naturalmente, há uma diferenciação entre a produção literária canônica e a da IC. Mas, segundo Roberto Reis, o cânone é fruto de um processo de “seleção e exclusão” e, nesses termos, não pode ser desvinculado da questão de poder (Reis, 1992, p. 70). Além disso, atitudes apocalípticas, nos termos de Umberto Eco, em nada resolvem o problema mesmo da existência de tais produtos, cabendo aos analistas, uma vez estabelecida a realidade desses objetos, estudá-los a fim de verificar qualidade – ou falta de – dos mesmos (Eco, 2000).
Amparados nesse pressuposto, pretendemos retomar aspectos recorrentes das obras “Pais e Filhos” de Ivan Turguêniev e de Renato Russo a fim de considerar, balizados pela Literatura Comparada e pelos Estudos Culturais, um artefato literário-canônico e um objeto estético produto da IC. Suprimiremos, a fim de dedicarmos espaço maior à teoria, as análises dos respectivos objetos, bem como a comparação entre ambos. Nossa intenção é, nos limites desse trabalho, ressaltar as qualidades da produção de Renato Russo que, mesmo produtor da IC, apresenta características peculiares em relação aos seus pares. Daremos ênfase ao momento histórico em que os objetos foram produzidos com o intuito de os classificarmos como representantes de seus tempos, bem como às principais características dos objetos no sentido da recursividade do tema.
Segundo Tania Franco Carvalhal, a literatura comparada passou a abranger o estudo comparativo não somente entre duas literaturas nacionais, entre dois autores de mesma literatura ou de literaturas nacionais diferentes, como também “a comparação entre obras literárias e obras pertencentes a outras linguagens artísticas” (apud Marques, 1999, p. 60). Nesse sentido, encontramos igualmente um excerto de Henry H. H. Remak, que afirma:
A literatura comparada é o estudo da literatura além das fronteiras de um determinado país, e o estudo das relações entre literatura, por um lado, e outras áreas e credos, tais como as artes (cf. pintura, [...], música), a filosofia, a história, as ciências sociais [...]. Em resumo, é a comparação de uma literatura com outra ou outras, e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana (apud Jost, 1994, p. 346).
Na mesma direção, Afrânio Coutinho (1983a) expressa:
[...] podemos dizer que o comparatismo é o estudo da literatura em esfera internacional, situando-nos para além das fronteiras nacionais. Também diz respeito ao estudo das relações da literatura com outros campos da atividade espiritual, sejam eles religiosos, filosóficos, históricos, sociais, artísticos. É, em uma palavra, o estudo comparado da literatura com outra ou outras literaturas e com outras formas de expressão intelectual. (p. 154)
Podemos também nos referir a um conceito aventado por Julia Kristeva tendo em vista a teoria do dialogismo de Bakhtin. Para esse autor, todo texto é o resultado de vários outros textos, haja vista que qualquer pessoa faz uso de seus conhecimentos para construir seu intelecto ou, simplesmente, sua sabedoria do mundo. Conforme afirma, “o dialogismo é inerente à própria linguagem” (apud Kristeva, 1974, p. 66). O “mosaico de citações” de Julia Kristeva diz respeito a essa proposição de Bakhtin, posto que, segundo tal conceito, todo texto é uma construção amparada em idéias, modelos e demais artifícios já existentes.
Caracterizando-se pelo rompimento de barreiras (erudita/popular/mídia), encontramos os Estudos Culturais. Estes – entendendo que a literatura e as manifestações do outro (a cultura das minorias, quer seja sexuais, dos negros, de países subdesenvolvidos, bem como as manifestações que utilizam linguagens não-convencionais, como as artes plásticas, a música, a arquitetura etc.) devem ser levadas em consideração e estudadas com a mesma seriedade dedicada à cultura convencional – diferenciam-se por uma abertura no cânone, onde seria possível inserir outros objetos estéticos e não somente os “imortais” (leia-se canonizados). Raúl Antelo, questionado a respeito, responde que o “mérito dos estudos culturais é articular as várias áreas do saber” (Medeiros, 1998, p. 45) que, de certa forma, faz eco às palavras de Henry Remak e de Tania Franco Carvalhal.
Conforme afirma Afrânio Coutinho (1983b), a cultura erudita não é incompatível com a IC. Ao contrário. Para o autor, a mídia serviria como mais um elemento para a sua difusão (p. 171). No caso de Renato Russo, podemos concordar com Afrânio Coutinho, dado o fato de que algumas de suas músicas, ainda que poucas pessoas o saibam, são uma releitura, ou “desleitura” (Blomm apub Nitrini, 2000, p. 146) de clássicos da literatura como é o caso, por exemplo, de Pais e Filhos aqui estudado.
Nesse sentido, evocamos também Alfredo Bosi ao apresentar a problemática da cultura brasileira ou, segundo o autor, “culturas brasileiras”. Na visão de Bosi, é impossível caracterizar a cultura brasileira como sendo única e homogênea visto que o processo de colonização trouxe duas formas distintas de cultura (a portuguesa e a africana) que, unidas aos costumes indígenas, geraram nossa cultura diferenciada e heterogênea. O autor refere-se à cultura popular e à cultura de massa como fazendo parte da cultura geral. Dado o fato de a mídia servir-se da cultura popular, torna-se ainda mais difícil distinguir entre as manifestações populares legítimas e o que a IC recorta desse cenário. A circulação, em geral promovida pela mídia, é o que caracteriza as obras híbridas, que seriam as expressões eruditas circulando pela cultura de massa (caso de Renato Russo), o aproveitamento, por parte da cultura acadêmica, das manifestações populares e, também, o uso das manifestações populares por parte da mídia (Bosi, 1996, pp. 308-45).
Ivan Turguêniev é um escritor russo do início do século XX e, segundo Mikhail Bakhtin (1997), distingue-se de Dostoiévski pelo fato não dar voz ativa a seus personagens, o que equivale a dizer que seus narradores invariavelmente são oniscientes (p. 101). Pais e Filhos, de Turguêniev (1971), é um romance que compreende etapas para a sua evolução. Na realidade, é curto o espaço de tempo em que se desenrola, mas há bastante atividade por parte dos personagens. Tampouco é um romance de conflitos externos. Os conflitos ocorrem, principalmente, no íntimo das personagens.
Inicialmente, podemos dizer que a obra de Turguêniev trata da dificuldade que a geração posterior tem de conviver com a anterior, ou seja, a dificuldade que os filhos têm para se entender com os pais e vice-versa. Naturalmente, há todo um cenário para que isso aconteça. Mesmo que haja movimentos distantes por parte dos personagens nesse sentido (como o envolvimento dos personagens centrais com mulheres e com outras pessoas), ainda assim é patente a importância dada pelo escritor aos conflitos de gerações.
No decorrer do livro há histórias paralelas, que não são tratadas pelo autor como sendo parte principal da mesma. O que se sobressai é, sem dúvida, a relação entre os pais e filhos, como se comunicam, por que brigam, o que os torna tão diferentes uns dos outros, ainda que sejam do mesmo sangue.
O romance foi escrito no período de transição entre o Romantismo e o Realismo que, como sabemos, é a característica mais marcante da literatura russa. O fato de entrelaçar projeto cientificista com as idéias marxistas dá ao romance uma carga de reflexão, ainda que a temática dos conflitos entre as gerações seja o que se destaca. O mesmo caracteriza-se por ter um narrador onisciente e diálogos diretos, dirigidos pelo narrador.
O contexto histórico é determinante dos posicionamentos dos personagens e, desse modo, faremos uma incursão pela Rússia e os acontecimentos relativos a tal período. Os ares da Revolução Francesa ainda se faziam sentir por toda a Europa. A Rússia ainda se encontra sob o poder dos czares, mas há indícios de revolução (que acontecerá em 1917). Como a Revolução Francesa e todos os seus propósitos dão mostras de cansaço e incerteza quanto a sua validade e eficácia, os russos passam a fomentar ideais de uma liberdade diferenciada (da França).
Importantes nesse contexto são as idéias de Marx, condensadas às referências ao 18 Brumário de Luiz Bonaparte. O proletariado, a disputa entre as classes, a opressão se faz sentir em todo o romance (quando descreve os mujiques, a quem os proprietários de terras tiveram de ceder parte de seus bens – como ideais de igualdade entre as classes). Percebemos que o romance está permeado por questões revolucionárias, preparando as transformações futuras. O discurso cientificista (promovido por Bazárov) é um prenúncio dos avanços técnicos.
Relevante dizer que o niilista do romance faz lembrar Nietzsche, pelo caráter questionador e, sobretudo, por não reconhecer autoridade e não atribuir importância a qualquer instância. A figura do pessimista é fundamental no romance, uma vez que questiona a ordem vigente, recusando-se a creditar estima a qualquer instância superior. Importantes são também as alusões a Rousseau (um dos pensadores da Revolução Francesa), a Dostoiévski como escritor diferenciado enquanto pensador, exilado na Sibéria por suas idéias de revolução.
O romance desenvolve-se no ano de 1850, o que nos permite afirmar que, mesmo tendo produzido após essa data, o autor valeu-se dos artifícios da época do romance. Dado o fato de o Romantismo caracterizar-se pela idealização, pela evasão através da religião e da morte (o que, de fato, acontece a Bazárov), podemos dizer que os personagens estão impregnados por tais sensações, de modo que classificamos o romance como pertencendo ao período romântico. Isso nos permite estabelecer sérias diferenças entre o romance e o poema.
Renato Russo faleceu aos 36 anos de idade, o que não impediu que tivesse, junto com a Legião Urbana, uma obra extensa e de referência, pelo menos no âmbito do rock brasileiro. Seus temas variam de acordo com a época por que passava e, nas palavras de Arthur Dapieve, alternam entre o politizado, o religioso, o sombrio, o amoroso, o irado, o reflexivo, o deprimido e o redentor (encarte do CD Mais do mesmo, póstumo a Renato Russo). Pais e Filhos, de Renato Russo (CD Dois, 1989), é um poema escrito em linguagem fragmentária (cf. Friedrich, 1991), o que lhe garante várias leituras. Não há um personagem central, o que permite identificação por parte das pessoas que o ouvem. Encontramos apenas a existência de um sujeito lírico que se expressa em primeira pessoa.
Grosso modo, afirmamos que o poema de Renato Russo representa as dificuldades que as pessoas têm de conviver com outras pessoas, mais velhas ou mais jovens que elas mesmas. Retrata os conflitos existentes entre as gerações que, embora sendo do mesmo sangue, muitas vezes fogem às raízes por não conseguirem conciliar a vida ao lado de alguém tão diferente e semelhante a si. Pessoas que, mesmo não tolerando seus semelhantes, não conseguem viver sem eles.
A linguagem utilizada no poema é descontínua, superpondo imagens e emoções, provocando estranhamento no leitor e tornando difícil atribuir vozes a um único sujeito. O que se verifica é a existência de um “organizador” de idéias e pensamentos.
Em relação ao período em que Renato Russo escreveu, podemos dizer que é indeterminado. Indeterminado quanto ao estilo, quanto aos avanços tecnológicos (sem precedentes na história) e, sobretudo, quanto ao estado que a humanidade atravessa. Prenunciam-se transformações que não são vistas como reformas totais, de modo que nos é difícil uma tentativa de caracterização amparada em fatos concretos. O que o autor cantou é reflexo da sociedade, marcada sobremaneira pela falta de padrões de referência e pela emergência dos “pós”, dentre os quais o pós-moderno é o que mais se destaca e é o mais difícil de definir, o que nos possibilita afirmar tratar-se de uma obra realista – não no sentido da literatura russa – mas no sentido de que pode se converter em manifesto e, assim, em elemento de transformação (ainda que implícito).
O poema é do final do século XX. Esse período caracteriza-se pela indefinição das produções no que concerne a uma tentativa de classificação, tendo em vista que não há um estilo vigente a que todos procuram “moldar” seus escritos, imperando a singularidade dos autores como ponto fundamental.
Ressaltamos que não estamos percebendo a recorrência do tema e a homonímia dos títulos das obras como determinantes de ligação. A própria distância que existe entre os objetos, tanto cronológica quanto lingüisticamente falando, explica as diferenças formais. Assim, não podemos afirmar que se trate de influência do primeiro sobre o segundo autor, nem tampouco de assimilação do primeiro autor pelo segundo. O fator que une os dois autores é a temática, o que demonstra a continuidade de sua importância na vida das pessoas. Há mais elementos que os diferenciam do que os assemelham.
O trabalho realizado pretendeu demonstrar a coincidência da temática entre os objetos de estudo, tendo sempre em vista o fato de os escritores serem representantes de épocas diferentes, utilizarem linguagens distintas e, sobretudo, que a realidade que os cerca não pode ser comparada. De qualquer sorte, o que intentamos foi resgatar, através do clássico, o “desleitor”. É isso, sem dúvida, que dinamiza a cultura. E o preconceito reinante no mundo das letras em relação à cultura do outro (cf. Antelo, 1998), nesse caso específico, simplesmente não procede.
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