Josiele Kaminski Corso
Podemos perceber que no filme “Poderosa Afrodite”, de Woody Allen, existem traços de contemporaneidade e traços clássicos. Ao compreendermos por clássico tudo aquilo que perdura e é imutável no tempo, é na comédia que isto se confirmará. Além de participar do elenco atuando como ator, Woody Allen — e diga-se de passagem, excelente neste seu oficio—, também é o roteirista e o diretor do filme. Ele se apropria da composição trágica Édipo Rei, de Sófocles, e a insere dentro de um contexto diferente daquele apresentado no período clássico-grego, ou seja, Woody alterna as imagens entre o contemporâneo e o remoto, separando-as apenas pela noção do tempo, mas que no plano cinematográfico se tornam homogêneas.
Em um plano mais crítico, perceberemos que as fronteiras entre as divergências e as convergências são inúmeras. Algo que podemos estabelecer como paralelo entre a obra e o filme é a característica marcante da busca da identidade. Édipo, no texto sofocliano, ao matar inconscientemente o pai, vaza os próprios olhos a fim de redimir-se de seu crime. Édipo Rei, portanto é parricida e incestuoso, pois mata o pai e casa com a sua mãe. Sua busca identitária surge a partir do momento em que ele descobre ser o parricida, quando julgava ser outro o assassino. Já no filme, o personagem — representado por Allen — não busca a sua identidade, mas sim a origem do filho adotivo Max, gerado no ventre de uma prostituta. Sendo Max um menino muito esperto, seu pai adotivo o imaginava filho de uma pessoa inteligente. Na verdade, Woody Allen é irônico quando “escolhe” uma prostituta um tanto ignorante, para ser a mãe do menino.
Um traço marcante de distanciamento é quando Zeus dá a resposta ao coro, através da secretária eletrônica dizendo não estar em casa, quando — a priori — os deuses procuravam constantemente interferir nos feitos humanos. Na tragédia o sacerdote de Zeus fala diretamente com Édipo:
Ao chegar a esta terra,
Tu nos livraste do ignóbil tributo
Que éramos constrangidos a pagar
À esfinge, inexorável cantadeira;
Não tinhas recebido encargo nosso
Nem foras por ninguém industriado,
E entretanto, inspirado por um deus,
Conforme todos dizem e acreditam,
Tu reedificaste a nossa vida!
(Sófocles, p. 29, 2002)
Em coerência com o texto clássico, notam-se as intervenções de um coro ativo — criaturas que dançam, fazem coreografias, cantam —, diálogos com o Corifeu — elemento tipicamente trágico, que invade o universo moderno para dar os seus conselhos —, além do próprio cenário — um teatro como era nos moldes da Antiguidade Clássica —, bem como os demais personagens do mito ou texto de Sófocles (Jocasta, Laio, Mensageiro). Essas referências a Sófocles são notáveis, no entanto, Woody inicia o filme com uma fala do Coro, enquanto Sófocles abre a história com a voz de Édipo no palácio e vem trazer a presença do Coro um pouco mais adiante.
O Corifeu, na tragédia, não interfere na vida das pessoas, ele apenas repassa a “mensagem”. No filme, ele “passa o tempo todo” chamando atenção de Lenny (personagem vivido por Woody) para a desmedida. O Corifeu procura mostrar para Lenny o que é lícito e o que não é.
Segundo Andrea do Roccio Souto (2000, p. 12), quando cita Donaldo Shüler (1985, p. 90)
esclarecenos que o coro é a coluna vertebral da tragédia primitiva e que, mais adiante — aliás, exatamente como o roteirista Woody Allen demosntra no filme —, um de seus elementos vem a destacar-se: é o corifeu — a quem Lenny Weinrib, personagem de Woody em “Poderosa Afrodite”, adverte que é por não tomar iniciativa, mas por concordar em permanecer apenas como um dos membros do coro, isto é, por aceitar o coletivo em detrimento do individual, que nunca será efetivamente nada. Diz o protagonista textualmente ao corifeu: Por isso será sempre membro do coro: não faz nada. Eu ajo. Faço as coisas acontecerem [grifos nossos]
Outra divergência é que na obra de Sófocles não se faz referências àquela que previu a derrubada de Tróia — Cassandra —, nem qualquer menção ao poderoso Aquiles ou à feiticeira Medéia, elementos citados pelo Coro na obra cinematográfica de Allen. O coro era formado por doze anciãos de Tebas e no filme são vários os membros do coro. As imagens pornográficas no apartamento de Linda também não condizem com a tragédia.
Mesmo que o cineasta americano apresente um Tirésias um pouco moderno, com um tom de gracejo e com feições para tais qualidades, o adivinho é componente integrante da peça de Sófocles e do filme. Na verdade, Woody mescla o clássico e o contemporâneo, a fim de confirmar a jocosidade em comédia. Allen insere uma tragédia (aquela que segundo os padrões deveria ser representada por homens superiores) dentro de uma comédia (a qual tinha em sua intenção provocar o riso, zombando de homens inferiores). Nesta perspectiva, a prostituta e o lutador/agricultor/plantador de cebolas seriam os personagens que se encaixariam dentro destes parâmetros.
O que há de clássico é a súplica do coro a Zeus, a presença de homens superiores.: Jocasta, Édipo e Tirésias. No filme, Édipo está fragmentado em vários personagens. Ele não é só Édipo o tempo inteiro. O filme “Poderosa Afrodite” se apropria da tragédia e do mito também.
No filme, Amanda, que busca o poder, Lenny, que busca a identidade, Linda, que busca consertar sua vida, e o bebê e Max (adoção) que não sabem o que são, assemelham-se a Édipo Rei, que buscava consertar a cidade de Tebas. Também Édipo, no filme, é multifacetado, se dissemina e se fragmenta. Há então a multiplicidade.
Segundo Andrea do Roccio Souto (2000, p. 6)
Talvez seja, de fato, essa busca de si mesmo o elemento que mantenha Édipo Rei sempre atual, que alimente suas releituras/reescrituras em diferentes e variadas épocas — [...].
Lenny, na obra, segundo Souto ( 2000, p. 16),
assume a posição de Édipo sofocleano, ainda que numa atitude espelhada, isto é, quando se impõe a investigação acerca de quem é mãe biológica da criança que ele e Amanda adotaram, o que de fato persegue é uma possibilidade de alterar sua dura realidade.
Em “Poderosa Afrodite”, ocorre a hybris, que é a desmedida, além de ser uma constante busca de identidade, o que ocorre na tragédia também.
Como desfecho, Allen conduz os personagens Lenny e Amanda para o cenário clássico — em meio aos demais integrantes — e reconcilia o casal — que estava enfrentando algumas crises no relacionamento —, transformando o final do filme em um desenlace feliz.
Afirma Souto (2000, p. 18):
De qualquer forma, Allen bate sempre na mesma tecla: a ambigüidade é da vida; não há vida onde não há conflito; o único meio de sentir-se vivo é experimentar. (...)
Embora isso, o permitir-se experimentar, afaste radicalmente o projeto woodyalleniano do teatro clássico grego, Poderosa Afrodite magistralmente demonstra e estabelece que, mesmo guardadas as diferenças, o cinema serve ainda à tragédia clássica, e vice-versa, sobretudo porque o tempo permite a reciclagem, seja de temas, seja de forma, seja de idéias.
Referências
SÓFOCLES. Édipo Rei e Antígona. São Paulo: Martin Claret, 2002
SOUTO, Andrea do Roccio. A variante cristalizada do mito de Édipo em um percurso particular: Sófocles e Woody Allen.[Exerto de ÉDIPO REI, DO PALCO À TELA: REESCRITURAS], dissertação de mestrado. UFRGS, 2000.