Aldeia sórdida e triste: algumas linhas ainda imprecisas sobre cosmopolitismo no Rio de Janeiro das demolições. 1890-1910.
José Maurício Saldanha Álvarez.
Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense.
Escrever sobre a cidade do Rio de Janeiro deste recorte requer uma explicação preliminar, sobre as reformas urbanísticas do Plano Haussmann levadas a cabo na cidade de Paris pelo Segundo Império de Napoleão III. Executadas entre 1853 e 1870, transformaram a cidade-luz no paradigma da urbs moderna, sede da aspiração suprema de vida para as elites do mundo inteiro. No Brasil, as elites, desde a independência, inculcaram ao país modelos culturais europeus que podem ser descritos como cosmopolitas. Segundo o conceito tradicional, o cosmopolita é um homem aberto, tolerante, mundano e aberto à modernidade. Desta forma, não surpreende que Joaquim Nabuco afirmasse ser a historia européia a sua história, e que a paisagem européia era a sua paisagem (Nabuco, 1974, p. 52). Pois “Sou antes um espectador do meu século do que do meu país: a peça é para mim a civilização, e se está representando em todos os teatros da humanidade, ligados hoje pelo telégrafo(idem,p.47)”. Desta maneira singular, ele reforça o topos onde se converte o mundo numa nação, de identidade cosmopolita e os estrangeiros, nos sócios dessa comunidade solidária e imaginada descrita por Anderson. A matriz francófila – tendo Paris como fulcro - foi descrita por Muniz Sodré como a base de onde “nutriram-se os sonhos, a consciência, os projetos criadores das elites brasileiras, pelo menos até serem trocados décadas mais tarde pela substância do imaginário norte-americano(Muniz Sodré, 1988, p. 45)”. Esse anelo supremo – cosmopolita - pode ser encontrado nos anseios de Agrário, personagem do romance Mocidade Morta, de Gonzaga Duque. Após uma temporada em Paris, voltou a viver no Rio, sonhando em retornar à essa “Paris que emergira nas distâncias nervosas de um sonho, desdobrara-se na sua visão, grande e ofuscante com suas cúpulas, as suas torres, seus palácios... Era bem a Paris dos seus sonhos(Gonzaga Duque, 1961, p.26)”. Num conto de Coelho Netto intitulado Decadência, o personagem denominado o Chicote foi um homem outrora abastado que após muito viajar pela Europa retornou ao Brasil. Arruinado, remanesceu do antigo patrimônio a memória das viagens que o mantinham vivo. “Meu amigo – dizia o Chicote – no Brasil ninguém vive, isto é uma ocára, compreende? Uma ocára insípida. Para quem nunca atravessou os mares, o Rio tem encantos, mas para quem viveu lá fora, isto não passa de uma aldeia sórdida e triste, com um lindo céu e algumas árvores”. Mas para que Paris chegasse, e reterritorializasse o Rio de Janeiro, era necessário empreender uma guerra contra a cidade e seu povo. Esse conflito ocorreu no contexto de consolidação da República, quando as elites no poder estigmatizaram as culturas populares que envergonhavam o país aos olhos do mundo civilizado. O próprio Lima Barreto testemunhou essa partição herdada da colônia. Assistindo a um desfile de sete de setembro, se deu conta de que os soldados pareciam provir de um país e os oficiais de outro. Após as turbulências resultantes da consolidação da República, proclamada em 1889, foi implantado no Rio de Janeiro o projeto modernizador que excluiu as massas urbanas da participação política. A modernidade chegava com os capitais estrangeiros que, numa fase imperialista, desenvolveram a infra-estrutura de energia elétrica, usinas e transportes. A cidade do Rio de Janeiro foi, assim, transformada em capital de uma Republica Federativa, e todo o poder transferido para as oligarquias estaduais, porque, segundo o presidente Campos Salles é somente de “lá, dos Estados que se governa a República, por cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da capital da União”. Essa agitação multicultural se deve ao fato de que a estrutura étnica da cidade modificara-se muito desde a Abolição da escravatura em 1888. Ocorreu maciça migração interna de afro-brasileiros da lavoura cafeeira engrossando os contingentes urbanos (Carvalho,1991, p. 16).
Derrida, analisando um belo texto de Harendt sobre o fim dos direitos do homem e do estado nacional, descreveu o cosmopolitismo recente, aonde refugiados chegam à abastada Europa e encontram a porta fechada. A título de proteção de seus nacionais, a França, tradicional hospitaleira, nega a esses desperados o estatuto da hospitalidade. Desejo pensar sobre o Brasil do tempo deste artigo a partir das palavras de Derrida. As massas afro-brasileiras uma vez encerrada a escravidão, foram expulsas do direito ao trabalho e a proteção. Despertaram para a liberdade como estrangeiras indesejáveis. Heimatlosen, ou apátridas na pátria que os viu nascer. Foram impedidos de receber o estatuto que Derrida descreveu como “the classic recourse of repatriation or naturalisation ( Derida, 2002, p.7)”. Não havia porém repatria-los para uma África onde há gerações eram estrangeiros. Naturaliza-los também não; a pátria, o Brasil que os viu nascer não lhes reconhecia a existência, lhes recusando a proteção e a cidadania. Paralelamente, desembarcou no porto uma enorme massa de imigrantes europeus que empurrou os afro-descendentes para uma nova diáspora interna que transitou na matriz da empregabilidade: o subemprego, a marginalidade e o ócio forçado (Muniz Sodré, 1988, p. 41). O projeto modernizador imposto pelo governo federal ao Rio de Janeiro atacava a questão do saneamento e determinava uma grande encomenda de obras publicas e respectivos equipamentos. Se reproduzia assim, de forma periférica, as portentosas obras do Plan de Paris. O ambicioso projeto foi confiado ao engenheiro Pereira Passos que na juventude residiu em Paris, onde testemunhou as reformas de Haussmann. Apoiado por uma competente equipe de técnicos demoliu parte da cidade velha, rasgando no chão e na história a avenida Central, um bulevar de 1.800 metros de extensão e 33 de largura (Rocha, 1995, p. 63). Seu impacto no imaginário da cidade pode ser aquilatado pelo conto Dias de Fantasia onde João do Rio conta as aventuras de um príncipe egípcio que desembarcando no Rio de Janeiro disse ter circulado por “ruas que me pareciam novas em folha, colocadas entre velhas vielas. (...) Não demorou muito para que meus olhos dessem com um boulevard iluminado como para uma festa. Era a Avenida Central(João do Rio, 1912, p. 51)”. A modernização dos meios de transporte permitiu aos habitantes como para Lima Barreto, transitar por temporalidades distintas, entre o moderno e o antigo, entre o velho e o novo. O bonde elétrico, “que alastra a cidade (...) eu vejo delinear-se uma nova e irregular cidade, por aqueles capinzais que já foram canaviais (Lima Barreto, 1953, p. 78-79)”.
O triunfo deste projeto civilizatório eliminou formas preciosas de sociabilidade existentes no seio das massas populares, que reelaboraram uma inesperada estratégia: a favela, deslocamento do urbano não previsto nos planos iluminados. Produção social que recompõe a ruptura produzida pelos sucessivos desencaixes da vida social a que essas massas deserdadas estavam submetidas. (Giddens, 2002, p.23). João do Rio foi convidado por um grupo de favelados a subir ao morro vizinho onde residiam. Lá em cima, se deu conta de que enquanto seus novos amigos conheciam a cidade onde morava, ele desconhecia o morro onde residiam. “E aí, parado, enquanto o pessoal tomava parati como quem bebe água, eu percebi, então, que estava numa cidade dentro da grande cidade” (Rio, 1987, p. 81). Em João do Rio, esse estranhamento produziu uma impressão de mal estar e desassossego, típicas da modernidade. As elites conheciam, como nômades do cosmopolitismo, cidades como Veneza e Paris ignorando, no entanto, a geografia do Rio de Janeiro onde o povo fincava suas raízes. Desta maneira, concluiu o cronista, “O Rio pode conhecer muita bem a vida do burguês de Londres, as peças de Paris, a geografia da Manchúria, e o patriotismo japonês. A apostar, porém, não conhece bem nem sua própria planta, nem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e exóticos, de todas as profissões que constituem o progresso, a dor e a miséria da vasta Babel que se transforma (Rio, 1987, p. 27)”. Lima Barreto, forneceu em seu romance, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, a visão positiva de sua cidade natal, que imaginava como a verdadeira capital da nação, nação no sentido do plebiscito diário que lhe atribuiu Ernest Renan. Ao circular dentro dela:
Já me apoio nas coisas que me cercam, familiarmente, e a paisagem que me rodeia, não me é mais inédita: conta-me à história comum da cidade e a longa elegia das dores que ela presenciou nos segmentos de vida que precederam e deram origem à minha. (...) E assim, fui sentindo com orgulho que nas condições de meu nascimento e o movimento da minha vida se harmonizavam – umas supunham o outro que se continha nelas; e foi também com orgulho que verifiquei nada ter perdido das aquisições de meus avós, desde que se desprenderam de Portugal e da África.”(Lima Barreto, 1949, p. 34.)”.
Referencias.
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados. O Rio de Janeiro e a Republica que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 19991, 3a Ed.
COELHO NETTO, A bico de pena. Fantasias , contos e perfis. 1902, 1903. Porto: Livraria Chaudron, 1919, 2a Ed.
DERRIDA, Jacques Cosmopolitanism and Forgiveness.London and New York, Routledge,2001.
Giddens, Anthony. Modernidade e identidade. Rio: Zahar editores, 2002.
LAUDAU, Bernard. La fabrication des rues de Paris au XIX siécle. Un territoire d’innovation tecnique et politique. In Les annales de la Recherche urbaine. Numero 57 – 58 Dezembro março de 1993, Paris, Secretarie permanente du Plan Urbain.
LIMA BARRETO, Afonso Henriques. Marginália. São Paulo , Rio de Janeiro: Ed. Mérito, 1953.
--------------------------------------------- Vida e morte de M. J. Gonçalves de Sá. Rio de Janeiro: Mérito.1949.
NABUCO, Joaquim. Minha formação. São Paulo: Ed. Três, 1974.
ROCHA, Oswaldo Porto, A era das demolições, 2a ed. Rio: Prefeitura da cidade, Coleção biblioteca carioca, 1995.
RIO, João do.Os dias passam. Porto: Liv. Chaudron, 1912.
SANTOS, Paulo. Quatro séculos de arquitetura no Rio de Janeiro. Rio: IAB, 1977.
SODRÉ , Muniz, O terreiro e a cidade. A forma social negro – brasileira. Petrópolis: Vozes, 188.
VIOTTI DA COSTA, Emília. Da monarquia à Republica. Momentos decisivos. São Paulo, Brasiliense, 1a Ed. 1987.