Pessoa em dois paralelos: geração de orpheu e o modernismo

Jair Zandoná[1]

 

Fernando Pessoa (1888-1935), poeta português, movimenta-se em seu período como referência não apenas para o Modernismo, mas para as manifestações que se seguiram à sua aparição no cenário literário. Desde o início de sua produção, Pessoa sobressai-se pelas questões a que se propõe levantar no decorrer de sua extensa obra, como sintetiza Bréchon (1998, p. 68) ao mencionar a tragédia em verso Marinho, de 1903, escrita parcialmente. O texto, ou os fragmentos dele recuperados, traz(em)

alguns dos temas essenciais da obra futura: a crise de identidade do ser; a inadequação entre uma “alma” demasiado grande e um “ego” estreitamente limitado; o mistério do mundo, como linguagem cifrada de que perdemos o código; o sofrimento, resgate do homem que pensa, em vez de esquecer e gozar a vida e que em troca espera a “glória”; por fim a morte, desenlace paradoxal, promessa de cumprimento supremo do nada. [aspas do original]

 

Dos temas mencionados, talvez o mais interessante, nesse momento, seja o segundo: “a inadequação entre uma ‘alma’ demasiado grande e um ‘ego’ estreitamente limitado”. É das multiplicidades, expansões e fragmentações que emergem da obra pessoana que decorre a impossibilidade de limitá-lo em tempo e espaço únicos, pois o poeta é capaz de transitar por paralelos diferentes.

Nesse sentido, torna-se relevante desenvolver duas considerações importantes, visto que ambas resultam de visões aparentemente diferentes, mas que se referem à idéia de paralelo acima mencionada: se olharmos para o tempo do grupo de Orpheu — grupo de que Pessoa fez parte, que impulsionou, motivou e do qual, por vezes, fez-se norteador —, sua obra ortônima apresenta-se com menor relevância em relação aos textos de Mário de Sá-Carneiro ou mesmo aos de Álvaro de Campos, um de seus heterônimos. E aqui valemo-nos da afirmativa de que, quando da publicação de Orpheu, nem seus leitores nem seus colaboradores (salvo os amigos mais chegados) conheciam a realidade de que Campos era um outro Pessoa.

Conforme escreve Galhoz (apud Pessoa, 2001, p. 24), na Orpheu

Fernando Pessoa expande-se, revela-se, é surpreendentemente dominante, quase dinâmico... por grandes orquestrações de projetos de que realizará sempre alguns fragmentos. É ele que redige as teorias das novidades descobertas; que dos primeiros as põe em prática para exemplo (…).

 

A segunda é que, ao vislumbrarmos a obra completa do poeta português — inclusive as produções heteronímicas e semi-heteronímicas —, ela se constrói de forma tal que sua reunião se consagra como um bom exemplo das manifestações modernistas — e não apenas do Modernismo Português —, tal a genialidade de sua produção, já que ele é capaz de: expressar-se tanto em verso quanto em prosa; desenvolver os mais variados gêneros, sejam odes, manifesto, idéias filosóficos ou políticas; escrever tanto em língua portuguesa quanto em inglesa ou francesa… Ele é a multiplicidade em pessoa, valorizando o trocadilho, na medida em que põe em prática a proposta visionária de Campos expressa no Ultimatum (1987, p. 259):

a abolição total do conceito de que cada indivíduo tem o direito ou o dever de exprimir o que sente. Só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o indivíduo que sente por vários. Não confundir com <<expressão de Época>>, que é buscada pelos indivíduos que nem sabem sentir por si-próprios. O que é preciso é o artista que sinta por um certo número de Outros, todos diferentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro.

 

Assim, Pessoa será aquele que idealizará — junto com Sá-Carneiro — a Revista Orpheu, com vistas a que ela atinja seu objetivo: escandalizar o “lepidóptero burguês”. Nas páginas da Revista, o que se encontrará é uma postura de transgressão frente à rasteira mentalidade burguesa. Orpheu intenta mobilizar a acomodada cultura portuguesa a que o país luso se prostrou depois das inovações promovidas pela geração realista.

Todavia, entre os textos presentes na Revista, os poemas que mais causam estranhamento ao público da época são os de Mário de Sá-Carneiro. Segundo Bréchon (1998, p. 272), o seu poema 16, publicado no primeiro volume da Revista Orpheu,

Investe não contra a moral, mas contra a razão. Sua linguagem poética, que pretende ser cubista, ou “interseccionista”, e que anuncia a dos surrealistas, foi pelos críticos considerada “futurista”, com suas metáforas absurdas, suas impressões justapostas, suas frases de sintaxe pouco usual. [aspas do original]

 

Mesmo o Opiário, de Álvaro de Campos, suavizado pela forma e, por isso, “perdoado” pelos leitores, não é tão arrebatador como o poema 16 de Sá-Carneiro. A repercussão da revista é tamanha que, em carta de 04 de abril de 1915 a Côrtes Rodrigues, Pessoa exclama: “somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lho digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente — mesmo extraliterária — fala no Orpheu.” (Bréchon, 1998, loc. cit.) [grifos do original].

Ao debruçarmo-nos sobre a produção de Pessoa, sua face se reconfigura. Os textos publicados ainda em vida encontram-se dispersos por várias revistas e publicações ocasionais. O que de livros ou folhetos deixou — e que ele próprio considera como válida — são os 35 Sonnets, de 1918; os English Poems I-II e os English Poems III, de 1922, publicados em inglês; e Mensagem, de 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional. O restante de suas publicações, póstumas, emerge da famosa arca — a obra poética e em prosa que hoje circula entre nós, leitores pessoanos.

Por outro lado, grande parte do que o poeta teorizou está contido em cartas pessoais, seja a Mário de Sá-Carneiro, seja a Adolfo Casais Monteiro, seja a Armando Côrtes Rodrigues — seja, ainda, a outros destinatários. Nelas, Pessoa desenvolve, entre outros assuntos, teses sobre o Paulismo, o Interseccionismo e o Sensacionismo — os     -ismos contemporâneos ao período de Orpheu. Nessas correspondências, ainda, ele explica e descreve sua produção heteronímica: a tríade Caeiro-Campos-Reis é revelada, desenvolvida, comparada, exposta, justificada, por exemplo, na famosa carta datada de 13 de janeiro de 1935, a Casais Monteiro.

A obra, a vida, a persona pessoanas entrelaçam-se de tal forma que fica difícil (e em certa medida impossível e impraticável) determinar limites de espaço — por exemplo: apesar de Pessoa viver vários anos na África, parece que Pessoa nunca saiu de sua tão querida Lisboa. Por outro lado, é pela educação inglesa — de uma rigidez impecável — e pela obsessão pela leitura, que o poeta começa a gerar seus desdobramentos, num tempo que ultrapassa a infância.

Num olhar que se volta para o tempo anterior, a incapacidade de separar tempo e espaço na obra pessoana é uma constante. Pessoa é capaz de enunciar-se — a si e a seus outros — de lugares e em tempos diferentes — basta que levemos em conta a postura de um Campos, de um Reis ou de um de Caeiro, poetas vários que manifestam situações poéticas múltiplas.

 

REFERÊNCIAS

BRÉCHON, Robert. Estranho estrangeiro: uma biografia de Fernando Pessoa. Trad. Maria Abreu e Pedro Tamen. Rio de Janeiro: Record, 1998.

CAMPOS, Álvaro de. Ultimatum. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 248 - 263.

GUIMARÃES, Fernando. O Modernismo Português e a sua Poética. Portugal: Lello Editores, 1999.

PESSOA, Fernando. Correspondência: 1905-1922. São Paulo: Companhia da Letras, 1999.

_____. Obra em Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998 [9. reimp.]

_____. Obra Poética. 17.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.



[1] UNOESC/SMO