As crônicas do acervo do escritor José Clemente Pozenato

 

Profa. Dra. Ilva Maria Boniatti
Universidade de Caxias do Sul

 

As crônicas do acervo do escritor José Clemente Pozenato, publicadas de 1986 a 2001,[1] num total de 561 textos, registram passagens e ultrapassagens no espaço de produção de valores na cultura e na arte na Região do Alto da Serra, em Caxias do Sul. Os traços culturais dessa região trazem as marcas dos imigrantes, cuja tradição é partilhada por outros grupos em outras regiões do estado. Essa espacialização da cultura encontra-se presente, determinando as preferências temáticas do escritor, que visam a legitimar uma identidade própria. Assim, da leitura desses textos, procurei extrair algumas configurações que definam o perfil cultural da região, mesclando diferentes estratos da cultura italiana, representados por dialetos de regiões como o Vêneto e outros.

Na crônica Um traço cultural , de 1 a 2 de agosto de 1987, publicada no Jornal Pioneiro, Pozenato afirma que o traço cultural é uma “espécie de marca que fica no comportamento de um grupo social, que viveu a mesma história, enfrentou as mesmas adversidades e acabou criando os mesmos instrumentos para garantia da sobrevivência”. É nesse sentido que o autor caracteriza os imigrantes europeus que criaram, no Rio Grande do Sul, a tradição cultural do Alto da Serra.

No livro de sua autoria, O regional e o universal na literatura gaúcha[2], salienta o autor, já nos anos 70, que o regional aparece como um simples demarcador externo, uma vez que a partir do Modernismo, ele pode ser entendido com base em critérios geográficos ou segundo critérios culturais. Na crônica referida, Pozenato reconhece a interpretação das práticas culturais que implicam em considerar o envolvimento dos agentes desse processo, além do espaço social onde eles atuam. A região do Alto da Serra caracteriza essa “marca” cultural decorrente da iniciativa de buscar soluções para a sobrevivência num espaço novo e inóspito.

Outra crônica, datada de 7 de agosto de 1987, intitulada “Universidade e região”, sinaliza a idéia de regionalização como base para o desenvolvimento cultural e social. Salienta que a Universidade deve ser pensada como uma ação inovadora “com um passo sempre à frente na pesquisa de novos saberes e fazeres”, uma vez que ela funciona como um elemento de aglutinação. Na região do Alto da Serra, Pozenato dá voz aos colonos italianos, fixando sua história e o percurso de adaptação cultural. Como registra Ricardo Kaliman (1994)[3] a relação de espaço como tema da literatura resulta na produção de uma literatura regional, produzida por autores que escrevem de uma certa região e falam dessa mesma região de um modo próprio. Assinala ainda que o espaço de produção é entendido como uma determinante de certas propriedades do texto, enquanto o espaço referido é entendido como uma opção preestabelecida. Assim, o conceito abriga-se em pressupostos subjacentes, de natureza teórica, pois a relação entre espaço e literatura supõe questionamentos. Para Kaliman, “um texto não é senão um objeto totalmente inerte e carente de significado na ausência dos indivíduos que o processam com a finalidade de viver um certo tipo de experiências comunicativas”.  Como se lê, Kaliman acentua a presença do escritor-autor e também do leitor, como sujeitos que criam o significado dos textos, incluindo-se nesse movimento a compreensão das peculiaridades regionais.

Nesse sentido, também pensando o conceito de região como instrumento de produção de conhecimento, a definição que se tem encontrado amplia o sentido usual da palavra “região”. Parece, assim, conveniente dizer que não existe uma circunscrição só de espaço, mas também de tempo. Esta noção está implícita na palavra “circunscripción”, eis que a “região não é um conjunto de realidades materiais contidas dentro de determinados limites espaço-temporais, mais precisamente o constructo mental – o social”. Desse modo, é preciso pôr em relevo que as regiões não existem como tais no mundo empírico, senão como resultado da apreciação e organização dessas experiências nas subjetividades humanas, originadas em determinadas circunstâncias históricas e logo reproduzidas como qualquer outro componente cultural, através da socialização.

Em livro publicado recentemente e intitulado A Fronteira,[4] o historiador Tau Golin comenta o fato de que a região,“entendida como espaço social construído historicamente” é local de polêmica. Ao ser parte de um todo, as regiões recortam os seus próprios limites, o que as transformam em “subespaços nacionais” (...) “mais ou menos integrados, ou relativamente isolados, à dinâmica dos seus países.  Não obstante, prevalece a idéia de que a região consiste numa particularização dos locais e sua individuação. Para desenvolver essa idéia, ele cita George Zarur quando afirma que

“a apropriação socialmente majoritária entende que esta parte – a região – pertence, com maior ou menor autonomia, ao todo. De qualquer modo, região é vista como alguma coisa reconhecível em sua especificidade, em um território de contornos senão precisos ao menos suficiente claros e que abriga características culturais definidas. A região tende, pois, nesta corrente do imaginário, a ser visto como fixo, duradouro – ou até permanente -, que se distingue comparativamente de outras regiões, do conjunto de um país e, mesmo, de qualquer outra região de qualquer outro país.” [5]

Sendo, no entanto, o objetivo deste trabalho situar a região como elemento definidor da poética autoral de José Clemente Pozenato, eis que o tema é recorrente em suas crônicas, interessa considerar  o papel do autor, a relação entre o texto e seu autor, a responsabilidade do autor pelo sentido e pela significação do texto. Como afirma Compagnon[6] quando enfoca a questão da autoria literária, autor e  leitor contribuem para criar o texto literário. Nesse mesmo sentido, em suas crônicas, Pozenato sinaliza o valor do leitor para a construção das culturas híbridas. Exemplo disso é a crônica “O Biriva”, datada de 3 de junho de 1989, que enfoca a passagem do escritor José Bernardino dos Santos por Caxias do Sul. Homem rústico dos campos de cima da serra, o biriva caracteriza a “região selvática e primitiva de Caxias do Sul”, contrapondo-se, por sua reserva e desconfiança,  ao temperamento expansivo dos caxienses em geral. Para Pozenato, “os birivas sempre estiveram como estão até hoje, permeados no meio dos italianos”. Essas diversidades na composição dos tipos regionais serão constantes na obra ficcional de Pozenato. Do mesmo modo, elas se encontram nas crônicas publicadas em periódicos, como ilustra essa última, que destaca a figura do biriva. A temática decorre, portanto, da conscientização de que a diferença regional é sempre um processo de hibridação.  Nesse sentido, ao assinalar o caráter híbrido da cultura do Alto da Serra, Pozenato caminha ao encontro de Nestor Canclini, quando este considera que a expansão urbana determina a hibridação.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria. Belo Horizonte: UFMG, 1999. p. 47.

GOLIN, Tau. A Fronteira. Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 52

KALIMAN, Ricardo. Un marco (no “global”) para el estudio de las regiones Culturales. Universidad Nacional de Tucumán-CONICET, 1994.

POZENATO, José Clemente. O Regional e o Universal na Literatura Gaúcha. Porto Alegre:  Movimento, IEL,  1974.

PROJETO DE PESQUISA: Literatura Comparada, deslocamentos e distanciamentos : a obra de José Clemente Pozenato – Projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul.

ZARUR, George de Cerqueira Leite. Região e nação na América Latina. UnB: São Paulo, Imprensa  Oficial do Estado, 2000. In: GOLIN, Tau. A fronteira. Porto Alegre: L&PM, 2002.



[1] Projeto de pesquisa: Literatura Comparada, deslocamentos e distanciamentos : a obra de José Clemente 

  Pozenato – Projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul;

[2] POZENATO, José Clemente. O Regional e o Universal na Literatura Gaúcha. Porto Alegre:  

   Movimento, IEL,  1974.

[3] KALIMAN, Ricardo. Un marco (no “global”) para el estudio de las regiones culturales. Universidad

   Nacional de Tucumán-CONICET, 1994.

[4] GOLIN, Tau. A Fronteira. Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 52

[5] ZARUR, George de Cerqueira Leite. Região e nação na América Latina. UnB: São Paulo, Imprensa 

  Oficial do Estado, 2000. In: GOLIN, Tau. A fronteira. Porto Alegre: L&PM, 2002.

[5] COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria. Belo Horizonte:UFMG, 1999. p. 47.