Nas fronteiras da memória: reflexões sobre a prática literária no sul da América
Helena Tornquist *
A discussão dos limites é sempre uma questão delicada, uma vez que pode levar ao abalo de estruturas de poder hegemônicas que camuflam sua condição de construções, fixadas , ao longo do tempo, como fatos naturais. Eduardo Coutinho[1]
Considerando-se o continente latino-americano como um todo, a formação da consciência de americanidade decorre, em certa medida, da força do imaginário comum a atuar permanentemente como elemento aglutinador das diferentes manifestações culturais. Assim, quando o estado-nação perde sua condição de referente primordial, a paisagem da América Latina, já de si marcada por uma acentuada heterogeneidade, adquire novos contornos. Esse caráter plural, como bem acentua Ana Pizzaro[2], permitindo a emergência de novos gêneros, nas diferentes literaturas latino-americanas, e, particularmente nos estados meridionais, veio a favorecer as práticas culturais mais populares, como é o caso da literatura de expressão gauchesca.
Voltar a atenção para essa produção discursiva, expressão do ethos identificado com a ação do tipo humano que se destacou especialmente nas guerras da Independência oferece, entre outras, a oportunidade de repensarmos as relações entre literatura e territorialidade,
A literatura gauchesca, como sabemos, vincula-se a um espaço geográfico bem definido: o da campanha – ou seja, da região de planícies férteis que se estende do Rio Grande do Sul ao pampa argentino, passando pelo Uruguai. Desde a colonização, tardia no caso do sul do Brasil, a espacialidade é aí um valor dominante que está acima e além dos limites estabelecidos pelos tratados. O mundo do campo é regido por leis herdadas dos ancestrais e assumidas conscientemente por todos os que com ele se identificam. Podemos estender a outros escritores, o que Ricardo Piglia observou em seu país: consciente de não ter história e obrigado a recordar uma tradição perdida, o escritor argentino busca na terra as marcas deixadas por seus antepassados. Por isso, aproxima a atividade que exercem a dos rastreadores, obrigados a um permanente cruzamento de fronteiras.[3]
Se levarmos em conta que a memória é formada de citações e que nela se falam todas as línguas, é possível tratar a literatura com a mesma lógica aplicada à linguagem, na qual como hoje sabemos a palavra é coletiva e anônima: tudo é de todos. Estes aspectos não podem deixar de ter interesse a quem se estuda a literatura gauchesca, a qual, ignorando a limites políticos e lingüísticos, deu origem, em torno da figura do tipo humano autóctone, a uma produção literária expressiva e permanente.
Entre outros aspectos relacionados à exaltação do homem que se destacava pela habilidade nas tarefas agropastoris, está, sem dúvida, o deslocamento, fato, aliás, registrado por Leopoldo Lugones, quando afirmou que o gaucho se caracterizava por uma condição, a de ser andarilho, a de ser el hombre de la pampa y de huella.[4]
Em muitos textos da literatura sul-rio-grandense construída em torno da figura do gaúcho, essa peculiaridade é plenamente confirmada: ao apresentar o narrador dos Contos Gauchescos, Simões Lopes Neto descreve sua trajetória de vida, num traçado que cobre o mapa do Rio Grande, na intenção de validar o discurso narrativo apoiado na experiência. Igualmente Aureliano de Figueiredo Pinto, no romance Memórias do Coronel Falcão marca a ação do narrador e personagem central da trama pelo deslocamento no espaço da campanha. Seu percurso tem a reforçá-lo estilisticamente a reiteração de verbos de movimento: montei no meu cavalo e me sumi nos meus domínios; toquei-me, a tempo de sestear no poço; segui coxilha adiante; ao descer para o declive segui pensativo...[5]
Trata-se de uma característica inerente ao tipo humano gerado no pampa, presente na expressão gaúcho andarengo da literatura oral e ratificada por Augusto Meyer, em seu estudo sobre a história da palavra gaúcho: (...) o gaúcho de vida solta, em sua disponibilidade marginal, é a resultante inevitável não só (desse) imperativo – a procura dos gêneros de troca, a valorização dos couros – mas do círculo vicioso configurado por: latifúndio, pastoreio patriarcal, abundância de gado alçado, fronteira aberta.[6]
Igualmente nas literaturas de língua espanhola, tanto no contexto argentino como uruguaio, essa característica está presente, bastando atentar para a estrutura narrativa do poema Martin Fierro de Jose Hernández, ao sublinhar, nas duas viagens realizadas, a qualidade de andarilho do tipo humano que, montado em seu cavalo, percorria a imensidão dos campos abertos. Igualmente em Dom Segundo Sombra, a estrutura narrativa se constrói em torno das andanças do herói, entre estâncias e rancherios: Ricardo Güiraldes sublinha nessa caminhada, com traços de intensa humanidade, a gesta dos tropeiros em ação através do pampa argentino.
Mas a errância do gaúcho pela campanha está estreitamente ligada a outro tema que também diz respeito à territorialidade e freqüente nessas narrativas – o contrabando.
Prática comum nessa região que só em fins do século XIX conheceu a cerca de arame, não será casual a presença do contrabando em textos que procuram retratar a vida do homem dessa região. A palavra italiana “contrabbando,” incorporada tardiamente ao léxico português, refere a introdução clandestina de mercadorias estrangeiras, sem pagamento de direito (estando, pois, em questão um objeto, um artigo manufaturado). Já contrabandear, ainda de acordo com o dicionário, significa ter êxito na operação ilícita de transportar para além das fronteiras o objeto em questão , ou simplesmente “passar”. Para Augusto Meyer, a fase áurea do contrabando ocorre no período colonial, e comprova a ausência de barreiras ante a urgência de necessidades econômicas.[7]
O assunto é tratado ficcionalmente por Simões Lopes Neto no conto que tem por título “Contrabandista”, certamente um momento de singular densidade poética na obra do escritor sul-rio-grandense. A história do homem que morre defendendo da patrulha aduaneira o vestido de noiva da filha, sendo trazido ainda montado em seu cavalo para o local da festa, é um momento alto da narrativa de Simões Lopes, no qual pathos e denúncia social estão associados. Além da cena final pungente que envolve a todos, o conto não deixa de ser um libelo contra a violência e a arbitrariedade das patrulhas fronteiriças, no exercício da vigilância dos limites territoriais do Império, prática que permaneceu mesmo depois da proclamação da República.
Mais recente, mas não menos vigoroso, é o conto “Os Contrabandistas” de Mario Arregui, com a diferença que o tratamento dado pelo escritor uruguaio acentua o ângulo social, sugerindo as formas ilícitas que assumiam as transações comerciais nos territórios fronteiriços. Homens humildes, excedentes do trabalho no campo, mas conhecedores como poucos da região, tornam-se carregadores de mercadoria proibida e vítimas do autoritarismo dos que detêm o poder. Os tempos podem ser outros, mas a violência dos defensores da fronteira permanece a mesma: vigiado pela patrulha, o grupo de contrabandistas é atacado de surpresa, salvando-se dois peões, graças à ajuda dos cavalos; chegados com segurança à margem, reencontram o chefe da comitiva e acabam fazendo justiça com as próprias mãos.
Nos dois contos, a situação de fronteira é vivenciada como algo exterior ao mundo da campanha, como uma permanente ameaça à liberdade do homem, uma vez que, invisível mas atuante, está associada ao poder econômico centralizador, o que prova este fato: a “linha” separa homens que têm uma história e uma vocação comuns. Às vezes natural, estabelecida por um curso d’água, outras, assinalada apenas com marcos de pedra, a divisa é inócua porque não separa seres aqueles que, mesmo expressando-se em idiomas distintos, estão irmanados no amor à terra e na praxis comum que os identifica.
Mas observar a diferença pode ser um bom caminho para descrever a identidade. Afastando-nos um pouco do “território continentino” (a campanha rio-grandense), em direção ao planalto de Santa Catarina, vamos encontrar uma situação diversa que, introduzindo um novo matiz, melhor ilumina situação ora enfocada. Nos campos de cima da serra, vamos encontrar um grupo de escritores, que ficaria conhecido como regionalista, cujo discurso ficcional tem uma característica peculiar: a de corresponder à necessidade de representar um espaço físico diferente da campanha do sul do Brasil. Entre estes está o escritor Tito Carvalho, com suas narrativas, claramente inscritas na tradição gauchesca, embora fixando a paisagem física e a vida pastoril da região Lages, palmilhada no passado por tropeiros que conduziam o gado do sul para a feira de Sorocaba. Nas narrativas de Tito Carvalho, é visível o diálogo com as criações de Simões Lopes Neto: tanto no romance Vida salobra como em alguns contos de Bulha d´arroio, a par da presença do estilo de vida do gaúcho, de expressões dialetais típicas, é clara a presença do imaginário da campanha sul-rio-grandense.
Entretanto, nessa representação mimética do espaço em que tem lugar a saga dos personagens (numa descrição claramente naturalista), os campos têm como limite a serra e o além-fronteiras é a planície litorânea que se abre para o oceano. Além disso, expressões e castelhanismos, característicos do discurso do homem da campanha, não repercutem nesses textos. De certo modo esse silêncio pode ser visto como a mudez que fala do outro, aquele que está fora das fronteiras. (E esta seria paradoxalmente sua própria condição: o interior realçado que foi gerado pela mesma fronteira).
Explica-se, assim, a ausência nestes textos do tema do contrabando, apesar de referidos ao período histórico em que uma crise sem precedentes se abatia sobre o campo.[8] Nas narrativas do escritor catarinense alusivas à região agropastoril de seu Estado, a afirmação da identidade constrói-se em torno da figura símbolo do gaúcho, com os atributos que se conservaram no imaginário coletivo e nos padrões fixados pela obra de Simões Lopes. Entretanto, a própria ação instaura a diferença pela ausência, nesses textos do ideal, reforçado no romantismo, de uma comunidade livre[9], constituída em torno da figura do gaúcho andarengo, a cruzar fronteiras cumprindo sua sina: o de um ser destinado viver no entre-lugar onde a tradição comum ignora os limites impostos de fora. O que permite afirmar que Tito Carvalho, ao intentar reproduzir o mesmo, ao criar um texto ficcional não hesita em introduzir a alteridade.
Assim, atentando para o campo da criação, podemos concluir que, não importando o modo como se designa – influência, apropriação ou devoração –, a literatura, como a memória, ignora limites. Como as recordações, os contrabandos textuais, através da citação e de fragmentos, ou através da importação de temas e motivos, não têm barreiras. Sobretudo quando se trata de textos que falam da mesma tradição, trazendo em si as marcas de uma errância, em que realidade e ficção se misturam.
BIBLIOGRAFIA
ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1993.
BORGES, Jorge Luis. Obras Completas. I São Paulo: Globo, 1998.
COUTINHO, Eduardo. Fronteiras imaginadas: o comparatismo e suas relações com historiografia, crítica e história literária. In: Congresso ABRALIC. Florianópolis: 1997. ABRALIC Anais do VI Congresso. Florianópolis, 1998. CdRom
CARVALHO, Tito. Vida Salobra/Bulha d’arroio . Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1992.
GUIRALDES, Ricardo. Dom Segundo Sombra. Porto Alegre: L&PM,2001.(Trad. S Faraco)
GENETTE, Gerard. A literatura e o espaço. In: Figuras. São Paulo: Perspectiva, 1975.HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&CA, 1997.
MEYER, Augusto. Gaúcho, história de uma palavra”. In: Prosa dos pagos. 3ed. Rio de Janeiro: Presença,1979. p.9-42.
PIGLIA. Ricardo. Memoria y tradición. In: Anais do II Congresso ABRALIC.v.1. Belo Horizonte: 1991. p. 60-66.
PINTO, Aureliano de Figueiredo. Memórias do Coronel Falcão. Porto Alegre: Movimento, 1978.
PIZARRO, Ana. A emancipação do discurso americano. In América Latina: Palavra, literatura e cultura. São Paulo: Memorial da América Latina, 1994.v.3
SIMÕES Lopes Neto, João. Contos gauchescos. Porto Alegre: Globo, 1975.
* Professora Adjunta do DLLV/Universidade Federal de Santa Catarina
[1] COUTINHO, Eduardo. Fronteiras imaginadas. In: Anais do VI Congresso ABRALIC. Florianópolis, 1998.
[2] PIZARRO, Ana. A emancipação do discurso americano. In: América latina. Palavra São Paulo, 1994.
[3] O escritor lembra, a propósito, o caso de Macedonio Fernandes que assim entendeu a literatura, tendo publicado seus melhores textos com o nome de Borges e de Cortázar, entre outros. PIGLIA, Ricardo. Memória y tradición. In: CONGRESSO ABRALIC 2, Belo Horizonte, 1990. Anais do Congresso ABRALIC. 1991, v.1.p. 64.
[4] LUGONES, Leopoldo. In: GÜIRALDES, Ricardo. Dom Segundo Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2000. Prefácio.
[5] PINTO, Aureliano de F. Memórias do Coronel Falcão. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1975.
[6] Cf. “Gaúcho, história de uma palavra” In: MEYER, A. Prosa dos pagos. 3ed.Rio de Janeiro: Presença,1979. p.28.
[7] Meyer assinala que o contrabando continentino inicialmente decorria do conflito de interesses entre a Coroa Espanhola e os comerciantes das praças de Buenos Aires e Lima, os quais se valiam da Banda Oriental como meio de expansão. Op.cit. p 27.
[8] Entre as saídas encontradas para dar conta das dificuldades dos indivíduos que dependiam da economia agrária, o autor recorre, por exemplo, ao velho motivo da procura de um tesouro enterrado. Em Vida salobra, a busca do velho Proença tem como limite, não a ação da polícia de fronteiras, mas o de suas próprias forças para a empresa temerária que perseguia obsessivamente: a de definhar e perecer na mata, sem encontrar a riqueza que buscava.
[9] A propósito do caráter de construção das práticas sociais, Benedict Anderson fala das “comunidades imaginadas”, o que, de certo modo, se aplica ao mundo da campanha. In: Nação e consciência nacional.1993