Antonio Tabucchi: a re-significação do espaço pessoano enquanto figura receptiva do texto literário
Gizelle Kaminski Corso
Antonio Tabucchi é um símbolo da expressividade pessoana, e o universo onírico é uma de suas prioridades para escrever Os três últimos dias de Fernando Pessoa. Tabucchi, além de ser um italiano enamorado da língua portuguesa, transcende sua paixão pelos ares lusitanos transformando-a em objeto literário, re-significando a literatura de língua portuguesa através de poetas como Fernando Pessoa. O texto, de 1994, apresenta a probabilidade dos três dias que antecederam à passagem pessoana para os terrenos de Hades. Antonio Tabucchi, em sua prosa ao mesmo tempo surpreendente e engenhosa, re-lê o poeta pessoano como ser singular e o intensifica enquanto figura plural, literária e emblemática no encontro com seus heterônimos. Tabucchi não tem pretensões para o cômico, mas um ar irônico paira sobre sua prosa, sobretudo pela situação nova em que insere Reis, re-significando-o em um espaço não estabelecido por seu criador.
A narração dos fatos inicia no dia 28 de novembro de 1935 e se estende até o dia 30, data em que Pessoa vem a falecer. Enquanto permanece em seu quarto de hospital, o poeta português recebe a visita de cinco “pessoas”: visitas dele mesmo, em seus outros. Na verdade, Pessoa re-visita-se, em tempo e espaço, e compreende-se como sendo o verso e o reverso, mesmo sabendo que as possibilidades de multiplicidade são configuradas em tal sinceridade: a de fingir-se verdadeiro e único, comparando-se a um ser indecifrável. As visitas são feitas pela famosa tríade Caeiro – Campos – Reis, pelo semi-heterônimo Bernardo Soares e por seu amigo — e também heterônimo em momentos de lucidez louca — Antonio Mora.
O primeiro personagem a entrar no quarto é o futurista Álvaro de Campos. Após a conversa rápida com o engenheiro, Pessoa surpreende-se com a visita do Mestre,
Pero un encuentro le tenía preocupado, el encuentro con el Maestro Caeiro. Porque Caeiro ya estava muerto, pero todavía estava vivo, permanecería eternamente vivo en aquella casa encalada del Ribatejo desde adonde contemplaba con ojo implacable el transcurrir de las estaciones, la lluvia invernal y la canícula del verano. (Tabucchi, s.d., p. 109)
As visitas de Campos e Caeiro são feitas no dia 28 de novembro. O terceiro heterônimo da tríade pessoana, Ricardo Reis, surge apenas no dia seguinte. No texto de Tabucchi, temos impressão de ser Reis o mais afastado dos três heterônimos em relação ao seu criador:
Un hombre se asomó a la puerta y la cerró con delicadeza tras de sí. Pessoa no lo reconoció y preguntó: ¿Quién es usted, si hace el favor?
Soy Ricardo Reis, respondió el hombre entrando en la habitación, he vuelto de mi Brasil imaginario. (Tabucchi, s.d., p. 115)
No momento em que Ricardo Reis afirma ter retornado de seu “Brasil imaginário”, Antonio Tabucchi traça um contorno novo para todas as idéias, descrições e conhecimentos voltados para o médico até o momento. Reis — através da ótica de Tabucchi —, rompe com o estabelecido, re-significando-se em um espaço divergente e “novo”, que não o Brasil. Quando Ricardo Reis entra no quarto de Fernando Pessoa para fazer-lhe uma última visita, o escritor italiano tece uma nova “versão” para a história pronunciada pela voz do protagonista dos fatos:
Ricardo Reis se sonó la nariz. Tengo que confesarle algo, mi querido Pessoa, murmuró, nunca fui a Brasil, se lo he hecho creer a todo el mundo, incluso a usted, en realidad estaba aquí en Portugal, escondido en un pueblecito. (Tabucchi, s.d., p. 116)
Segundo Tabucchi, Ricardo Reis teria se retirado para o povoado de Azeitão, exercendo a medicina. Na verdade, o heterônimo pessoano sente-se autônomo quanto à sua identidade e à vida, pois, desprende-se de sua matriz a ponto de contradizê-la nas concepções estabelecidas por seu próprio criador — embora Fernando Pessoa, ao longo da conversa, afirme (estaria fingindo?) estar a par dos fatos e diga saber onde Ricardo Reis se escondera durante todo este tempo. O surpreendente que Tabucchi desmembra e desconstrói uma parte da história — traçada por Fernando Pessoa — para lançar mão de uma nova.
Assim, o italiano concede a Ricardo Reis uma identidade própria, “libertando-o” de seu criador, dotando-o de vida e personalidade competente para desprender-se daquele que o concebeu. Não há exatidão em afirmar que Tabucchi rompeu com o “estabelecido”, porque não há nenhuma fonte que especifique o “verdadeiro” fado de Ricardo Reis após sua “vinda” para o Brasil, em 1919, uma vez que, como é sabido, Fernando Pessoa nos consentiu uma incógnita na biografia de seu heterônimo, deixando-a aberta, proporcionando diversas lacunas para o que se sucedeu após o exílio do heterônimo. O que o italiano incorpora em sua obra é uma nova versão para o que poderia ter acontecido, da mesma forma e com o mesmo panorama intertextual[1] de que se utiliza José Saramago, em O ano da morte de Ricardo Reis (1988).
Daí o porquê de afirmarmos o escritor Antonio Tabucchi como um re-significador da criação pessoana. Quando Tabucchi re-lê Ricardo Reis através de Fernando Pessoa e, “re-cria-o”, inserindo-o numa situação ‘nova’, sua condição de leitor — aparentemente — passivo e apreciador, reverte-se na de autor, suscitando, de uma leitura, uma re-escritura. Em reflexões mais profundas, Antonio Tabucchi, em seu primeiro “estágio”, encontra-se na condição de leitor, exímio receptor, recebendo o objeto literário — o texto —, como uma fonte de prazer e de recriação.
Preocupado com um elemento “pouco” relevante para a literatura, o leitor, Hans Robert Jauss instaura a Teoria da Estética da Recepção, em fins dos anos 60. A teoria de Jauss, voltada para o receptor do texto, era concebida como uma pesquisa sobre a recepção e os efeitos da obra literária no leitor, acusando tanto as correntes anti-historicistas — as quais não consideravam a história um elemento importante para as análises literárias — como algumas correntes textualistas — imanentes ao texto literário —, de “fossilização” (petrificação) da história da literatura, a qual estava presa aos padrões positivistas e idealistas do Século XIX. Assim, sem a “omissão da história”, seria possível promover uma nova Teoria da Literatura, tendo, como análise, a figura do leitor.
A estética da recepção apresenta-se como uma teoria em que a investigação muda de foco: do texto enquanto estrutura imutável, ele passa para o leitor, o “Terceiro Estado”, conforme Jauss o designa, seguidamente marginalizado, porém não menos importante, já que é condição da vitalidade da literatura enquanto instituição social (Zilberman, 1989, p. 10-11)
Embora o alemão critique as correntes textualistas — todas recentes se comparadas ao período vigente —, podemos compreender Aristóteles (1993, p. 37), como um precursor clássico da Estética da Recepção, quando, em sua Poética , menciona a kathársis como uma das primeiras experiências do leitor, afirmando que a Tragédia, através de sua representação, “suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções”. Goethe (apud Jauss, 1979, p. 82), aproximando a teoria moderna da arte da recepção, dizia que
Há três classes de leitores: o primeiro, o que goza sem julgamento, o terceiro, o que julga sem gozar, o intermédio, que julga gozando e goza julgando, é o que propriamente recria a obra de arte.
Portanto, são os efeitos — catárticos — de um “gostar” que foram os responsáveis por elevar o escritor italiano Antonio Tabucchi à condição de leitor/receptor/recriador, capaz de reterritorizalizar o espaço pessoano. Tabucchi transfigura-se à categoria de crítico/escritor, via reescritura, na medida em que interage com os feitos de Fernando Pessoa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. 2.ed. São Paulo: Ars Poética, 1993.
CARVALHAL, Tania Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 1993.
JAUSS, Hans Robert. A Literatura e o leitor: textos de estética da recepção Hans Robert Jauss..., et al.; coordenação e tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
TABUCCHI, Antonio. Sueños de sueños seguido de Los tres ultimos días de Fernando Pessoa. Barcelona: Anagrama, s.d.
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e História da Literatura. São Paulo: Ática, 1989.
[1] Intertextualidade: “cunhada e difundida por Kristeva, é explicada como uma propriedade do texto literário que se constrói como um mosaico de citações, como absorção e transformação de outro texto. Para ela, em lugar da noção de intersubjetividade se instala a de intertextualidade e a linguagem poética se lê ao menos como dupla”. (Carvalhal, 2001, p. 30) [grifos nossos]