Tradução Literária:

O Papel do Tradutor Enquanto Sujeito Interpretante

 

Fabiano Bruno Gonçalves[1]

 

 

O presente ensaio visa à discussão do trabalho do tradutor literário enquanto sujeito interpretante, criador de novos textos a partir de textos existentes. O que aqui vou comentar não se trata de novidade, de teorias avançadas e renovadoras: são, pelo contrário, teorias já um pouco antigas que, apesar da idade, são pouco conhecidas por aqueles que não são pesquisadores da área. Penso, porém, que deveriam ser bem conhecidas pelos alunos dos cursos de Letras e, principalmente, por profissionais das áreas de Literatura/Literatura Comparada (professores, pesquisadores, críticos etc.) que não estejam envolvidos diretamente com a tradução ou o estudo da mesma, pois julgo que essas teorias sejam de suma importância para os estudos de obras em tradução, principalmente literárias.

Uma vez que, acredita-se, a obra literária somente é viva quando lida, o papel do leitor é de suma importância para as palavras do autor; o leitor atribui significados às palavras do autor principalmente com base em seus contextos sócio-histórico e cultural, dentre outros. O tradutor é, antes de tudo, um leitor; portanto, crê-se que a tese de uma tradução ser imparcial ou fiel não se sustenta: a tradução sempre carregará a marca da interpretação de seu realizador, sobretudo no caso da tradução literária, uma vez que a linguagem literária é, por essência, plurissignificativa.

     Discussões sobre o que é uma tradução adequada, sobre o que o tradutor deve fazer ao traduzir, e diversas outras questões que circundam a “fidelidade”, são tão antigas quanto a própria tradução. São argumentos incontáveis e incansáveis que dão inúmeras voltas e retornam ao ponto de partida: o original é intocável, sagrado; a tradução é uma profanação do original, o tradutor é um traidor, etc. Será que um dia vamos chegar a uma conclusão sobre o que é certo ou errado, adequado ou inadequado? Essa é outra pergunta que, creio, não terá resposta definitiva.

Comecemos a analisar o que precede uma tradução literária: a criação da obra literária “original”, ou “texto fonte” — entre aspas, pois, segundo Jacques Derrida, uma fonte de água não é a origem da água. Como já foi dito, todo escritor é um leitor, e todas as suas leituras prévias colaboram de alguma forma para o desenvolvimento de sua obra. Além disso, todo o contexto sócio-histórico-cultural em que o autor está inserido exerce forte influência na criação da obra.

Também há a questão do tempo. Sigamos um exemplo de George Steiner em seu After Babel: sabendo-se que o que se tem em mãos é um original de Shakespeare, por exemplo, tem-se o obstáculo do significado. Mesmo que nos deparemos com palavras conhecidas, há grandes chances de que essas tenham apresentado significados distintos na época em que a obra em questão foi composta. Caso não se dê atenção a esse aspecto, a tradução, já em si diferente, poderá apresentar diferenças enormes. Deve-se, portanto, recorrer a um dicionário de, no caso, inglês médio, ou até os chamados “dicionários shakespearianos”, especializados na linguagem de Shakespeare, para que se possa penetrar a obra o mais profundamente possível. Além disso, também de importância última é o entendimento dos contextos cultural, social e histórico, como também dos hábitos de fala da época e do meio em questão, em meio a muitos outros. Isso, porém, não torna a tradução perfeita: consultando dicionários desse tipo, podemos atribuir à tradução o caráter antigo do original, por exemplo, mas, mesmo assim, somos pessoas do século XXI lendo uma obra do século XVI, ou seja, jamais veremos aquelas palavras como eram vistas quando do aparecimento da obra.

O próprio autor da obra, ao lê-la, digamos, cinco anos após seu término, já não vê o que escreveu da mesma maneira. De certo modo, no momento em que lemos ou ouvimos algo do passado, também estamos traduzindo. Freqüentemente, lemos como se o tempo estivesse parado. Portanto, o que se faz são traduções ditas “imprecisas”. Resta definir o que é uma tradução “precisa”, correta, adequada ou seja qual for a palavra a ser adotada: tudo vai depender do contexto, da ocasião.

Todo o ato de leitura é um ato de interpretação, consciente ou não. A interpretação é aquilo que prolonga a vida de uma obra literária para além de seu lugar e tempo, e se dá no decorrer da leitura, não depois. Nesse sentido, tradução é interpretação, ou vice-versa.

Será possível, então, que as palavras do original sejam tão sagradas e inalteráveis? Somente o serão se crermos que toda a palavra possui uma essência, um significado latente e inalterável desde sua inscrição num texto, conforme analisa Derrida em seu conceito de “significado transcendental”. Nenhum significado ou valor pode ser atribuído a uma palavra ou a um texto da mesma forma em tempos e contextos diferentes.

Sabe-se que a plurissignificação é característica indissociável da grande obra literária, conferindo-lhe uma riqueza significativa e interpretativa inesgotável. Não há leitor competente o suficiente para entender qualquer obra literária em sua totalidade. O sentido que atribuímos às palavras é regido por múltiplos contextos, pelas situações nas quais as aprendemos; o mesmo ocorre com o escritor. Para entender exatamente o que o autor escreveu, deveríamos – no mínimo – nos tornar ele próprio. Conclui-se que nenhum tradutor jamais entenderá uma obra literária em sua totalidade. Portanto, as antigas teorias como a de Eugene Nida (transporte de significados em vagões) só se aplicariam no caso da existência desse significado transcendental. Seria possível, então, haver equivalência entre o texto de partida e o de chegada, entendendo-se por equivalência igualdade de valores?

Essa noção de equivalência remete à concepção tradicional de que aquilo que o escritor produziu seria a representação da intenção do autor, contida na palavra, estável e imutável, e de que a leitura seria a recuperação de todo esse conteúdo. O fato é que, ao ler, o que fazemos é criar um novo texto, o nosso próprio texto, e não restituir o sentido dado pelo autor. No caso do tradutor, esse texto por ele apropriado é o que será escrito na língua de chegada. Ao traduzir, não ocorre somente uma tradução de “texto-fonte” para “texto-alvo”, ocorre uma tradução recíproca, uma produção e transformação infinita de significados, em que o leitor-tradutor mexe nos significados do texto-fonte. Obviamente, há um limite para a interpretação.

O autor constrói um leitor ideal em sua mente — que talvez seja um reflexo dele próprio… —, atribuindo-lhe o conhecimento de fatos, a memória de certas experiências, suas preferências ou seus preconceitos e um determinado nível de competência lingüística. O leitor, por sua vez, produz um universo literário que é tanto de sua criação quanto da do escritor.

Cada operação tradutória prevê a manipulação do texto “original”, que se origina na interpretação subjetiva do tradutor e na mudança de código lingüístico, mas também na influência de fatores sócio-culturais e históricos, e na recepção do texto traduzido na cultura de chegada.

Portanto a tradução não serve de transporte de uma essência, nem mesmo de troca ou substituição de significados por significados equivalentes em outra língua. A tradução é uma modificação, uma transformação, uma possibilidade de ser do original; é um suplemento.



[1] Mestrando em Literatura Comparada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.