Eleonora Ziller Camenietzki,
Doutora em Literatura Comparada/ UFRJ
O conto “A usina atrás do morro”, de José J. Veiga, foi publicado em 1959, no seu livro de estréia, Os cavalinhos de Platiplanto. Naqueles anos, o livro foi muito bem recebido pela crítica e pelo público. Passado já tanto tempo, Os cavalinhos de Platiplanto, livro que para alguns críticos inaugura o “realismo fantástico” brasileiro sobreviveu às sofisticadas análises estruturais da época, às classificações de manual e às mudanças que varreram o final do século XX?
Revê-lo é um convite à reflexão, principalmente nesses primeiros e tumultuados anos do século XXI. Há em seus contos condensação poética de alta precisão, e por isso mesmo ainda vivem. São feitos de uma linguagem que se constrói em tensão com o contexto histórico, dele tentando se libertar, olhando além, indo o mais longe possível. “A usina atrás do morro” vive no limite entre o absurdo da realidade e o universo fantástico da criação literária. É momento que Antonio Candido chamou de super-regionalismo e que corresponderia “à consciência dilacerada do subdesenvolvimento”. Os passos de uma industrialização desestruturante, perversa e excludente, são desenhados com traços precisos, a bico de pena, sem retoques. A modernidade à moda brasileira dos “50 anos em 5” está à flor da pele neste pequeno e pouco audacioso conto.
Em 1966, José J. Veiga publica A hora dos ruminantes, tido como uma espécie de prolongamento de “A usina atrás do morro”. No momento em que o país vivia sob dominação militar, o livro foi saudado como peça de resistência política. Mas a crítica esteve empenhada em demonstrar que as suas vinculações políticas imediatas eram secundárias, e que o romance possuía universalidade e transcendência ao enfrentar as questões da liberdade humana através de uma criação literária original e inovadora. A questão porém, parece ir mais longe. Evidentemente que o livro é muito mais do que uma referência alegórica ao período do regime de exceção, mas também não faz sentido buscar uma universalidade atemporal e ahistórica para justificar a inserção da obra no panteão da Literatura Brasileira. Se for possível considerar a produção literária como forma específica de pensamento e conhecimento sobre o mundo, que não se confunde com a sociologia, a história ou a filosofia, então será possível identificar a forma específica com que a criação artística foi capaz de expressar não apenas a face evidente e momentânea da realidade política nacional, mas o funcionamento, em níveis mais profundos (e menos aparentes) da formação social brasileira. Funcionamento este que não se esgota nas circunstâncias do período em que foi escrito o livro, mas na percepção de traços que permanecem e ainda hoje organizam a vida de todos nós.
O ponto de vista do narrador de “A usina atrás do morro” é o de quem sofreu uma modernização autoritária, externa e concentradora de renda. O inexplicável da narrativa, o insólito da situação narrada, é a fala daquele que está fora do processo, que não foi consultado sobre as mudanças que seriam operadas em sua vida. O insólito, portanto, não é um recurso meramente decorativo ou folclórico, é o olhar de quem não pediu nem compreendeu, muito menos se beneficiou, das transformações ocorridas à sua volta. Um narrador expectante, incompleto e vulnerável na sua narrativa. A impressão da infância não é apenas sentimental ou ingênua, ela tem forte ressonância em nossa formação social.
Processo social condensado: retiramos um a um os fios que tecem o pequeno conto de José J.Veiga e percebemos a detalhada tapeçaria que envolve a narrativa. Diante da simplicidade aparente de uma peça de artesanato popular surge o trabalho prolongado de escolha e construção artística, que dá consistência ao que parece pouco complexo. A filiação é moderna no gosto pela captação da língua falada, nos seus movimentos mais prosaicos. No emaranhado da simplicidade da fala popular estão os ditos de sabedoria, mas também a disfarçada violência cotidiana da nossa sociedade cordial. Por isso não é apenas linguagem “copiada” da vida rural, recurso pitoresco de cor local, mas investigação aguda de tradução da fala hegemônica de um poder consolidado a ferro e fogo ao longo dos séculos, que se encontra decantada e filtrada nos ditados populares. Em Os cavalinhos de Platiplanto são dados os primeiros passos dessa tradução, em A hora dos Ruminantes a linguagem será mais explorada e nos textos seguintes de José J. Veiga, ganhará contorno cada vez mais humorístico.
Nos primeiros parágrafos de “A usina atrás do morro” temos a miragem do progresso, a chegada de estrangeiros que pode significar emprego e fartura para uma pequena localidade. Logo essa rápida impressão dá lugar à desconfiança: eles chegaram armados, não conversam com ninguém e nada explicam. Nos parágrafos seguintes, a população busca na Igreja, na Justiça e no Estado algum apoio e nada pode ser feito: são todos espectadores de um processo que desconhecem, mas, que, por intuição, percebem o quanto pode afetar a vida de cada um. A narrativa prossegue, descrevendo como são cooptados alguns moradores, que também nada podem explicar, apenas passam a servir aos estrangeiros. Vão se transformando, perdendo os laços comunitários que os une à cidade e ao povo, abandonando crenças e valores antigos. Conforme avança a construção da usina, a cidade se modifica. Todos os espelhos se quebram, ninguém mais pode ver sua própria imagem. Solapada a identidade, sem a capacidade de se perceberem, é o momento em que o poder se implanta completamente sobre a população. São duas mudanças fundamentais na vida do lugar: o ruído permanente de uma usina que ninguém sabe o que produz, para que ou para quem produz e a invasão, paradigmática, das motocicletas vermelhas. D. Aurora é atropelada e o menino fica com cesto de ovos na mão: o sonho de um futuro melhor, de um novo amanhecer, ficou sob as rodas das motocicletas, embora esteja nas mãos do menino o vir a ser que não se quebrou, ainda. Repentinamente, as casas se consomem num fogaréu inexplicável, estão todos apavorados e impotentes. Os homens da usina investigam as cinzas, mas não se importam com o destino das pessoas que tudo perderam. Os espiões estão por toda parte. O futuro é obscuro, a dinamite fica escondida no quintal e antes que possa usá-la, o pai do menino é morto. Partem da cidade o menino e a mãe, completamente miseráveis e desenraizados.
O insólito se desenrola naturalmente através da percepção infantil do narrador. A cidade de Veiga é pequena, mas humana. Humana em suas contradições e limites, brasileira em sua formação social específica. Os habitantes pouco ou nada conhecem além de sua rotina lenta e inabalável. O violento choque que a chegada da usina promove na vida da cidade é o mesmo que o planeta vivenciou, particularmente da segunda metade do século XX para cá. Já estão plenamente desenhadas, nesse conto, as novas formas de colonialismo que substituíram a dominação imperial européia após a Segunda Guerra Mundial.
Aquilo que a sensibilidade do artista alcançou captar através da forma literária foi além da estrutura aparente de poder e dos fatos políticos momentâneos. E mais, foi além, porque mais substantivo, de um desejo genérico e quase abstrato de liberdade, de luta contra a opressão. É o paradoxo da agudeza do olhar desse narrador infantil, que não compreende bem o que vê, e por isso, chega na ossatura do modelo de dominação econômica que então penetrava no Brasil e com o qual ainda nos debatemos. A euforia dos anos dourados, a construção de Brasília, o desenvolvimentismo dos anos JK, o cosmopolitismo da capital federal não ofuscaram o ponto de vista crítico do autor. O conto, que poderia ser apenas uma pequena nota destoante na sinfonia moderna dos anos dourados, adquiriu uma atualidade ainda mais gritante na década de 1970, com o impulso industrializante do regime militar, este claramente autoritário e subalterno. E hoje, sob os céus da guerra do petróleo, o conto repercute cada vez mais, não apenas como referência obrigatória para compreensão do modelo de industrialização próprio da sociedade brasileira, mas como expressão cristalina da forma de expansão do capital industrial a partir da década de cinqüenta do século passado em todo o planeta. Essa expansão pode ser resumida da seguinte forma: as práticas coloniais tradicionais foram sendo substituídas, os estados nacionais enfraquecidos, a economia desses países cada vez mais dependente dos interesses de países centrais, e o surgimento do FMI, em fins dos anos de 1940, como o grande regulador desse processo. É o ovo da serpente que estava sendo contemplado pelo autor de “A usina atrás do morro”.