Mrs. Dalloway lá e cá: Michael Cunningham dialoga com Virginia Woolf

 

Constança Ritter Pondé

 

 

Londres, 1923: Clarissa Dalloway prepara-se para dar uma grande festa em sua bela casa em Westminster, sem outro motivo que não o de celebrar a vida. Percorre as ruas de Londres em busca de flores, e encanta-se com o movimento e a excitação a sua volta. Para Virginia Woolf, sua criadora, é este espaço efervescente da grande metrópole que estimula incursões por outros espaços, tão ou mais instigantes: os espaços da interioridade de cada sujeito. A costura entre estas duas geografias ­ ­¾ o mapa das ruas e o mapa da consciência ¾ é a costura da própria narrativa, que transita livremente entre um e outro revelando fronteiras muito tênues a separar estes dois mundos distintos.

Mundos que são regidos por diferentes unidades de tempo: se por toda a cidade de Londres as batidas do Big Ben ecoam com uma pontualidade quase opressora, na interioridade dos sujeitos a arbitrariedade dos relógios não faz qualquer sentido. O tempo interno, subjetivo, tem sua própria cadência e é capaz de se desenrolar em todas as direções, presentificando momentos passados ou expectativas futuras a qualquer instante. O passeio pelas ruas de Londres transforma-se num passeio pelos tortuosos caminhos da consciência, e Mrs. Dalloway se debruça com a mesma intensidade sobre qualquer momento vivido ao longo de sua vida.

O espaço por onde Mrs. Dalloway transita é, pois, bastante amplo: mais do que o espaço geográfico da cidade, Clarissa explora os espaços do tempo, ou os espaços que sua consciência visita. E a narrativa de Woolf a acompanha, entrando e saindo de suas memórias, seus devaneios e suas percepções. Cria-se, assim, uma ordenação que se assemelha a uma desordenação: propositalmente deixando de lado uma sequência histórica linear ou o desenvolvimento progressivo da protagonista, a narrativa é construída espacialmente, ao acompanhar os percursos ¾ e os percalços ¾ de um trajeto livre pelas diferentes camadas da interioridade do sujeito. É a resposta de Woolf a uma pergunta que ela mesma formula: “Is life like this? Must novels be like this?”[1]. Acreditando que a vida  ¾ aquilo que ela chama de “the proper stuff of fiction”[2]¾ e a experiência de cada indivíduo são fragmentárias e dispersas na grande metrópole moderna, Woolf propõe uma narrativa que procura respeitar a natural desordem das coisas.

O entrelaçamento da geografia de Mrs. Dalloway ¾ geografia composta por espaços internos e externos ¾ com as geografias de outros sujeitos se dá de modo delicado, às vezes imperceptível para os próprios sujeitos que têm o entrelaçamento de suas vidas descoberto pelo narrador. Apesar dos discursos fragmentados e da sensação de que na cidade moderna há mais desencontros do que encontros, ainda assim é possível perceber uma tênue unidade espaço-temporal que harmoniza as diferentes vozes sobrepostas. Vozes únicas, portadoras de pontos-de-vista muitas vezes conflitantes. Mas que, tecidas numa mesma teia narrativa e sobrepostas simultaneamente, possibilitam a aproximação temporal de gentes e lugares distantes espacialmente.

Nova York, final dos anos 90: Michael Cunningham se apropria da protagonista de Virginia Woolf e a transporta para uma outra grande metrópole, mais próxima espacial e temporalmente de si. E a faz percorrer as ruas da cidade atrás de flores, assim como a Mrs. Dalloway que a inspirou, e a acompanha ao longo de um dia que promete, ao seu final, uma grande festa. E assim como a outra Clarissa, a Clarissa do final do século XX também se espanta com a efervescência e a diversidade do espaço a sua volta e por isso também acredita que celebrar a vida é importante. Aqui, entretanto, uma diferença sutil mas significativa entre um universo ficcional e outro: se Clarissa Dalloway, a Mrs. Dalloway “original” que a outra Mrs. Dalloway homenageia, vê na celebração do momento uma possibilidade de suspensão das diferenças para, nem que por breves instantes, promover um entendimento capaz de dar sentido e unidade à fragmentação e à dispersão da vida, Clarissa Vaughan, a outra Mrs. Dalloway criada por Michael Cunningham como homenagem à primeira, celebra o momento por não ter outra escolha que não essa, a de celebrar os instantes fugazes de sobrevivência, por mais precários que sejam. Para a Mrs. Dalloway do final do século XX, a diversidade está por todos os lados, nos espaços negociados por diferentes grupos que convivem na grande metrópole, em festas que reunem uma pluralidade de sujeitos sem jamais apagar as marcas de suas diferenças.

O espaço por onde se movimenta a Mrs. Dalloway do final do século XX parece ser mais tolerante em relação a uma vida que se percebe como aleatória e múltipla, promovendo uma melhor aceitação da convivência com incertezas. Se Virginia Woolf constrói um mundo através da costura de diferentes pontos-de-vista, Michael Cunningham apresenta diferentes pontos-de-vista para construir diferentes mundos. A força da diversidade, aqui, é presente a todo instante, e a alteridade é incorporada sem perda de suas arestas. Assim, a Mrs. Dalloway de Cunningham não conhece a reconfortante sensação de uma unidade composta por diversidade, mas um mundo fragmentado e disperso, impossível de ser apreendido de forma una.

O tempo em que vive a Mrs. Dalloway de Michael Cunningham se mostra transitório, arredio a permanências, e a particularidade e a contingência da experiência evidenciam uma impossibilidade de universalizá-las. O momento celebrado por esta outra Mrs. Dalloway é vazio de revelações, vazio de promessas de sentido. Fugidio, não unifica nem harmonisa nada mas celebra apenas um instante de instável sobrevivência. O que, em “The Hours”, já é grande coisa.

Assim, o diálogo intertextual com o universo ficcional de Virginia Woolf provoca este universo a dizer coisas novas, já que os tempos são outros e a geografia também. E o que descobrimos neste diálogo não são apenas pontos de contato entre duas épocas e dois mundos, mas a descontinuidade e a ruptura entre eles. O que é de fundamental importância: é no confronto com o outro ¾ outro tempo, outra geografia, outros sujeitos ¾ que se pode melhor compreender o próprio.



[1] Woolf, Virginia. Collected Essays. New York: Harcourt, Brace &World, 1967, p. 105.

[2] Ibid., p. 107.