O jogo da ficção: o processo de criação literária, a partir do conto lúcia mccartney, na obra de Rubem fonseca.

 

Cláudia de Andrade

 

 

Depois de revolucionar a urdidura, Rubem Fonseca atacou o segundo elemento importante do conto: a personagem[1].

 

 

Este trabalho tem objetivo de identificar na obra de Rubem Fonseca evidências de auto-referencialidade, ou seja, aspectos de sua narrativa que remetem ao próprio processo criativo. Num primeiro instante, realizaremos uma análise detalhada da ruptura textual de Fonseca, ruptura essa que se realiza no plano da linguagem e é de natureza formal, deixando nas entrelinhas o pensamento do narrador sobre o processo de construção da obra. Para realização de tal tarefa, escolhemos o conto intitulado Lúcia McCartney, integrante do livro de contos que leva o mesmo nome,  o qual entendemos apresentar claras evidências daquilo que queremos provar.

Nesse conto, evidenciaremos as tentativas, por parte do narrador, de desvelar, como história paralela, o processo de criação literária, partindo em seguida para a comprovação das questões já mencionadas, usando os contos Corações Solitários e O Outro, os quais estão reunidos no livro Feliz Ano Velho, obra publicada no ano de 1963, além do romance Diário de um fescenino. Esse procedimento fez-se necessário para melhor subsidiar nossa análise e, também, para mostrar que não se trata de manifestação isolada na produção literária do escritor. Fator este que nos levaria a crêr, que o mesmo é uma constante, ou poderia ser identificado como uma Poética inclusa, na obra de Rubem Fonseca. O que naturalmente nos conduziria a uma pesquisa mais ambiciosa, a ser desenvolvida  numa etapa futura, pois nem o tempo nem o espaço destinados à presente pesquisa comportam sua dimensão.

Para a realização desse estudo, nos respaldamos com alguns pressupostos teóricos, o que, de alguma maneira, definiu nosso método de trabalho. Inicialmente, buscamos as características  teóricas do Gênero Conto, num segundo passo as características da narrativa. Necessitamos, também, de algumas teorias da lingüística, relativamente as funções da linguagem, em especial as Funções Poética e Metalingüística.

Este trabalho está organizado em três capítulos, no primeiro temos os Elementos Extrínsecos do texto, tais como a  apresentação do autor, suas obras, o momento histórico e a  fortuna crítica correspondente. Já o segundo capítulo foi estruturado, considerando os Aspectos Teóricos do Gênero Conto e demais pressupostos teóricos que dizem respeito à narrativa tais como personagem, narrador etc. O terceiro capítulo, por sua vez, apresenta os elementos Intrínsecos, os quais ocupam-se da estrutura e análise do conto em questão. Seguido da conclusão.[2]

FORTUNA CRÍTICA

 

A crítica, para o bem, ou para o mal ocupou-se de Rubem Fonseca, isso graças ao momento histórico e à censura que vitimava o Brasil nos anos sessenta, setenta e meados de oitenta. Tal fato, de certa maneira, proporcionou a Fonseca a consagração como escritor, fosse reconhecido pela crítica, ou, ao contrário, causasse ojeriza a seus contemporâneos. Fábio Lucas, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais é autor do ensaio "Os Anti-heróis de Rubem Fonseca” publicado em 1969 no Jornal do Brasil. Lucas equipara o escritor a Dalton Trevisan e Wander Piroli, “bons contistas” – ele elogia, justificando: “ Depois de revolucionar a urdidura, Rubem Fonseca atacou o segundo elemento importante do conto: a personagem”.

 

Sob a ótica de um narrador, na maioria das vezes a narrativa dá-se em primeira pessoa, seria impossível não registrar o que é feito das personagens de Rubem Fonseca, haja vista que, a força delas, está nas palavras, no contar uma história, das quais sejam meras testemunhas, protagonistas ou, em casos excepcionais, citamos Lúcia McCartney, vítimas.

 

Se pensarmos que a personagem-narrador possui uma identidade dual, ou seja, é uma escolha do narrador, saindo, portanto, do plano real, mas articulando-se no plano ficcional e adquirindo uma existência ontológica, que pode ser vista em dois níveis podemos pensar que há uma permeabilidade na criação estética, que se articula entre o plano de ficção e o plano da episteme. Dito de outro modo, o próprio narrador coloca-se na condição de marginal, porém, com relação aos “padrões” ou cânones do gênero conto/narrativa.


BIBLIOGRAFIA BÁSICA

 

ALMEIDA, Wilson Castello de. Defesas do Ego – Leitura Didática de seus Mecanismos. São Paulo: Ágora, 1996.

ANDRADE, Mário de. O Empalhador de Passarinho. 3ª Ed. São Paulo: Livraria Martins Editora S.A, 1972.

ANGELIDES, Sophia. A.P. Tchekhov: Cartas para uma poética. São Paulo; EDUSP, 1995.

BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.

BENJAMIN, Walter et all. Os Pensadores – Textos Escolhidos. 2ªed. São Paulo: Victor Civita, 1983.

BRAIT, Beth. A Personagem, 7º ed. São Paulo: Ática, 1999.

CORTÁZAR, Julio. Valize de Cronópio. 2ªEd. São Paulo: Perspectiva, 1993.

FIORIN, José Luiz Fiorin. Linguagem e Ideologia. 2ª Ed. São Paulo: Ática, 1990.

______. Contos Reunidos, 2ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

______ , Rubem. Diário de um Fescenino. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

FREUD, Sigmund. Obras Completas, vol XVII (1917-1919) – Uma Neurose Infantil e Outros Trabalhos, Rio de Janeiro: Imago, 1969.

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. 10.ed. São Paulo: Ática, 2001.

JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. 8ª Ed. São Paulo: Cultrix Ltda.,1978.

KOCH, Ingedore G. Villaça. Argumentação e Linguagem. 7ed. São Paulo: Cortez, 2002.



[1] Fábio Lucas, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais, autor do ensaio "Os Anti-heróis de Rubem Fonseca” publicado em 1969, no Jornal do Brasil.

[2] Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado no dia 27/06/03 na Universidade Luterana do Brasil – ULBRA, Canoas, orientado pela Doutoranda da UFRGS, Débora Teresinha Mütter da Silva.