Nacional e Nacionalista:
um prefácio à nova história da literatura brasileira.
Camillo Cavalcanti (UFF/CNPq)
A alma da literatura brasileira é formal clássica porque o espírito brasileiro não é localista nem discriminatório (de regionalismos e nacionalismos). Como é livre e desprendida, a natureza do brasileiro é universal; profundamente religiosa (ligada ao mito), busca esse todo indizível, mas sensível a todos os povos.
Os poetas realmente nacionais seguiram uma tradição normativa da estética clássica do engenho (domínio da técnica) e arte (mimesis), ainda que contra esse estigma lutassem exaustivamente alguns de nossos modernistas.
Ainda que os indianistas e os primitivistas, cada um a seu tempo, tivessem se esforçado para fundar uma literatura nacional, não passaram daqueles apólogos nacionalistas de tropos brasileiro, que nosso instinto de nacionalidade não digere bem.
O espírito brasileiro rejeita o ufanismo por entendê-lo pleonástico, ou seja, quer relegá-lo à ordem do não-dito porque não é preciso tornar linguagem o que nos é familiar. Pode parecer absurdo, pois a crítica brasileira insiste numa visão que é muito mais pertinente ao estrangeiro do que a nós, perpetuando esse erro, mas qual brasileiro com mínimo de bom-senso não se ofende com o Brasil de uma Carmem Miranda?
Não chega a ser ultrajante esse Brasil-plena-mata anacrônico, mesmo para os românticos, mas o brasileiro não pactua com esse entendimento paradisíaco que mesmo com toda pretensiosa criticidade os modernistas, no final das contas, acabaram reproduzindo. Destarte, a lírica talvez seja a única manifestação literária ininterrupta no Brasil, pois mesmo o nacionalismo que hoje vigora como norteador dos estudos críticos deixa problemas insolúveis sempre que se vê com mais clareza nossa tendência natural ao universal e ao mítico, como no nosso "1900" ou no experimentalismo modernista.
Por isso, escolhi História da lírica brasileira como legítima separação do que seja autenticamente brasileiro, no que diz respeito não só à autoria (o que é fundamental), mas também ao espírito (o que legitima) brasileiro. O primeiro livro de lírica do Brasil foi totalmente elaborado (do rascunho à publicação) por um brasileiro, o que me pareceu indiscutivelmente uma origem nossa, naturalmente plasmada, pois, a partir dela, se seguiu uma tradição muito forte em nossa literatura, que precisou aparecer nem que fosse para menosprezo da estilização ou para prova de competência (no modernismo), imperativo que é o universal-formalista em toda a trajetória literária de nosso país.
Inclusive a própria crítica brasileira observa um Neoparnasianismo, manifestação única no mundo, mas se perde ao querer forjar uma história de abacaxis e mandiocas, dizendo que nossa própria identidade (que configura um formalismo estético sem precedentes, invadindo os tempos modernistas) é tacanha, vã, metida.
Também não me deixei levar pelas sugestões de autores portugueses, pois temos nossos próprios representantes desde o barroco (sendo que o período informativo não me vem como literatura e ainda que o fizesse eu desprezaria) capazes de contar muito mais propriamente, com sangue brasileiro nas veias, nossa história literária.
Assim, Botelho de Oliveira e Cláudio Manuel aparecem absolutos no barroco e arcadismo coloniais, respectivamente; Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves ilustram o longo romantismo brasileiro; a tríade parnasiana, os simbolistas e pré-modernistas (e não pré-modernos) figuram como maturação do romantismo apatriótico; do modernismo, o primitivista (Manuel Bandeira), o revisor (Drummond de Andrade) e o experimentalista (João Cabral) serão investigados na permanência (mesmo que soterrada pela crítica) da preocupação formal (veja que até o modernismo, longe já da militância inaugural, rumou paulatinamente ao pan-formalismo experimental de seu crepúsculo). Infelizmente, dessa simetria ridícula entre romantismo e modernismo (na tripartição e na semelhança temática e diegética erigidas pela crítica), não consegui me esquivar.
Gostaria de finalizar sugerindo aos novos críticos que pesquisassem sobre a música brasileira, pois a literatura não cumpre mais o mesmo papel de antes do rádio e mormente antes da televisão; enquanto todos do Império comentavam José Alencar, hoje se fala em Chico Buarque e Djavan. Sugiro porque provavelmente não darei conta nem da revisão da antiga literatura que sinto como se uma obrigação minha fosse, pois nossa história precisa ser menos eurocêntrica e mais autêntica e brasileira; precisa ser nacional (pois é nosso legítimo anseio), e não nacionalista (pois é nossa rejeição inata).
Niterói, outono de 2003.