Mapas de subjetividade:
Rastreando o homoerotismo na obra de Pompéia
Anselmo Peres Alós*
Fábio Ramos**
RESUMO: este trabalho pretende, a partir de um novo olhar sobre o século XIX, averiguar como a ideologia heteronormativa foi cristalizada em alguns dos romances canônicos da literatura brasileira. Partindo dos estudos de gênero, conjugados aos estudos literários, é possível constatar que não apenas romances do século XIX mas também a crítica contemporânea perpetua esta ideologia excludente, que emite um juízo valorativo permeado de preconceitos no que tange à sexualidade
introduzindo a discussão:
pensando a heteronormatividade e seu funcionamento na cultura
Gostaria de argumentar em favor de uma noção mais complexa e mais historicamente fundamentada de identidade, uma noção que veja a identidade como fluida, parcial, contraditória, não-unitária, uma noção que veja a identidade como envolvendo elementos sociais. Pensar a identidade significa não apenas ver esses elementos como efeitos constitutivos das relações sociais e da história, mas também como capazes de rearticular o desejo e o prazer. Quando se trata de questões de desejo, de amor e afetividade, a identidade é capaz de surpreender a si mesma: de criar formas de sociabilidade, de política e de identificação que desvinculem o eu dos discursos dominantes da biologia, da natureza e da normalidade (Deborah P. Britzman, “O que é essa coisa chamada amor: identidade homossexual, educação e currículo”).
O que pretendo demonstrar como o presente trabalho, a partir de uma leitura transversal que cruza a análise literária com reflexões tecidas nos domínios dos Estudos Culturais e da Sociologia, é denunciar a ideologia heteronormativa subjacentes na cultura ocidental, na medida em que a crítica não abre espaço para o sujeito homoerótico enquanto possibilidade identitária legitimada socialmente. Para tal, elenco como objeto de análise um romance do período naturalista da literatura brasileira: O Ateneu, de Raul Pompéia (1888). Faz-se importante mencionar que não penso nesta obra apenas como monumento literário, mas como representação cultural que interfere no cenário social (através do domínio das idéias) e na maneira pela qual se pensa a identidade nacional (pelo viés do capital cultural produzido pela coletividade nacional). Entretanto, antes de tudo, para que seja possível refletir sobre a heteronormatividade, é necessário que se estabeleçam algumas importantes diferenças entre três categorias de análise (sexo, gênero e desejo), de forma a definir o quadro teórico a partir do qual o romance será analisado.
Sexo, a princípio, é uma categoria estabelecida a partir de um dado biológico, aquilo que convencionalmente vem sendo chamado de diferença sexual. Esse dado, sobre o qual a categoria sexo se sustenta, é posta como pertencente à ordem do natural. E é sobre essa “naturalidade” da diferença sexual, do dado, que a lógica do desejo é construída, tal como se apresenta nas sociedades ocidentais. Uma lógica que, tal como já nos mostrou Foucault em sua vasta obra, é branca, masculina, burguesa. E heterossexual.
A lógica do discurso dominante, que instaura a heterossexualidade como normal (tanto no sentido de “esperável”, antônimo a anormal, quanto no sentido de algo que é normativo, imposto) calca-se, pois, sobre essa diferença instaurada no dado biológico. Isso porque é a partir do dado biológico - que polariza a espécie humana em machos e fêmeas - que a cultura irá construir os papéis de gênero. Tal como escreve Jane Flax (1991:228):
O gênero, tanto como categoria analítica quanto como processo social, é relacional. Ou seja, as relações de gênero são processos complexos e instáveis (“totalidades” temporárias na linguagem da dialética) constituídos por e através de partes inter-relacionadas. Essas partes são interdependentes, ou seja, cada parte não tem significado ou existência sem as outras.
Ainda sobre a categoria gênero, outras autoras, em especial aquelas que estão sob o signo do chamado “feminismo essencialista”, vêm descrevendo gênero como a interpretação cultural da diferença biológica. Ou seja, na base do gênero está a edificação de papéis sociais construídos culturalmente sobre a diferença sexual, sobre o dado biológico. De qualquer forma, o importante é salientar que o gênero está intimamente ligado ao sexo por uma filiação causal e determinista, ou seja: gênero é determinado pelo sexo. Logo, seguindo a lógica hegemônica, há uma relação determinista direta, na qual ser fêmea implica pertencer ao gênero feminino, enquanto ser macho implica pertencer ao gênero masculino.
Finalmente, o desejo é uma categoria que vem dar a contribuição cabal para que se compreenda o funcionamento do mecanismo da heterossexualidade compulsória dentro do discurso hegemônico ocidental. Se o gênero (os papéis sociais aos quais os sujeitos têm acesso para que construam suas identidades), está posto em nossa cultura como algo determinado pelo sexo, isso visa ao controle do desejo, a uma regulação do desejo através de procedimentos totalizantes. Ora, se as categorias de sexo e de gênero estão polarizadas como macho ou fêmea, masculino ou feminino, homem ou mulher, isso responde a uma demanda natural e biológica, que é a reprodução e a manutenção da espécie humana. Sob o prisma da heteronormatividade, o desejo sexual é apenas uma ferramenta para que a raça humana não seja levada à extinção.
E assim fica explicada a normalidade do desejo heterossexual (algo da ordem do natural, visto que está a serviço de uma demanda natural e inteligível), em oposição a outras possibilidades de desejo, dado que qualquer outra manifestação do mesmo, caso não cumpra o requisito de responder a essa demanda humana - a reprodução -, torna-se ilegítimo, antinatural, ininteligível e anormal.
Judith Butler, em sua extensa obra[1], questiona essa lógica heteronormativa, mostrando que a própria noção de sexo, ao contrário daquilo que o discurso hegemônico afirma, não é uma categoria natural ou pré-discursiva. A diferença sexual, ainda que natural e biológica, passa a fazer sentido apenas depois de interpretada pela linguagem: fora disso ela é ininteligível, exterior à realidade humana. Não se pretende fazer a negação da diferença sexual; ao contrário, o que se pretende é deslocar a discussão, até agora assentada em uma lógica determinista e polarizante, para a ordem do funcionamento discursivo, mostrando que tais colocações que se apresentam como verdades naturais são, em realidade, verdades discursivas, ou melhor, são enunciados que afloram discursivamente com efeito de verdade, um efeito que pode, entretanto, ser colocado em xeque se os parâmetros para tal discussão forem deslocados para um outro lugar, um lugar teórico construído de forma a poder analisar os mecanismos discursivos apagados pelos interesses hegemônicos.
Uma pessoa, diz Butler em um de seus livros mais representativos (Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity [New York: Routledge, 1990]), não pode ser a priori vista como sendo de um certo sexo ou possuindo atributos de um certo sexo, no topo do qual é construído o gênero social. O problema que empresta o nome ao título de sua obra (the gender trouble) é o paradoxo de “falar” de um homem ou de uma mulher enquanto categorias pré-discursivas.
Através de uma análise das categorias homem e mulher, Butler aponta as formas sob as quais essas categorias escondem sua pseudonaturalidade. Em nome de uma política do desejo, construída para legitimar unicamente a heterossexualidade, todo um edifício lógico é erguido. Entretanto, tal edifício mostra suas fissuras a partir do momento em que sua base (a diferença sexual biológica) está localizada fora da realidade humana. E, se a realidade humana é compreendida somente pela mediação da linguagem, o dado biológico não apresenta nenhuma potencialidade ontológica para justificar a construção da diferença sexual na linguagem (ou seja, as construções de gênero). O real, onde estão os objetos com os quais travamos contato, é ininteligível ao humano enquanto não for traduzido pela linguagem[2]. Logo, o dado biológico, que funciona como traço distintivo entre homens e mulheres, de forma a marcar o lugar do gênero, só começa a significar algo para a condição humana a partir do momento em que é jogado para o campo discursivo, campo já contaminado por determinações ideológicas.
DESENVOLVENDO A REFLEXÃO:
a heteronormatividade e a interpretação de textos literários
Dado que estamos falando em identidades, representações e subjetividades, não cabe aqui despender tempo buscando as possíveis causas da homossexualidade. E aqui fica já exposta uma das artimanhas discursivas da heteronormatividade: ninguém, em nenhum momento, preocupa-se em buscar as causas, sociais ou biológicas, da heterossexualidade:
(...) [se] por muitas razões, não faz sentido discutir o que “causa” a heterossexualidade, também não faz nenhum sentido - nem mesmo como projeto político - discutir as “causas” da homossexualidade. Nenhuma identidade sexual - mesmo a mais normativa - é automática, autêntica, facilmente assumida; nenhuma identidade sexual existe sem negociação ou construção. Não existe, de um lado, uma identidade sexual lá fora, pronta, acabada, esperando para ser assumida e, de outro, uma identidade homossexual instável, que deve se virar sozinha. Em vez disso, toda identidade sexual é um constructo instável, mutável e volátil, uma relação social contraditória e não finalizada (...) (Britzman, 1996:74).
Não podemos deixar de lembrar que, ao contrário do promovido pelos saberes hegemônicos, através de um raciocínio que dicotomiza saber e ignorância, todo saber já traz, imanente a si mesmo, suas próprias ignorâncias. É pertinente então perguntar: quais as ignorâncias que estão sendo promovidas pela instauração da heterossexualidade compulsória? Não seriam essas ignorâncias, na verdade, o apagamento, o silenciamento de uma série de saberes outros, justamente porque esses saberes desestabilizariam o status quo instaurado por uma economia do desejo que legitima um único saber em torno das questões do desejo?
Um dos grandes mitos construídos em torno da orientação sexual foi o de que a informação técnica estimularia a prática: o saber sobre o sexo torna-se, assim, fator determinante para uma profusão de uma prática sexual x. Assim, temos um mecanismo que inibe a representação homoerótica na literatura “canônica”, pois ao representar na diegese romanesca um personagem que refrata uma orientação sexual não hegemônica, o escritor pode ser censurado, acusado de promover tal prática. Esse mito resiste ainda hoje em nosso contexto acadêmico, refratando seus nuances ideológicos, quando se afirma que a promoção de saberes sobre a homossexualidade incitaria as práticas homossexuais. E é dentro da Literatura Brasileira, pensada tanto em termos de disciplina quanto em termos de patrimônio (legado de grande parte de nosso capital simbólico), que se abre um possível espaço para a desmistificação dos saberes homoeróticos.
O primeiro empecilho com o qual se esbarra no momento de trabalhar sobre um texto que carrega representações de homoerotismo diz respeito à homofobia, o medo irracional que muitos heterossexuais desenvolvem em relação a gays e lésbicas. A homofobia está disseminada no contexto acadêmico, tanto entre os alunos como entre os professores: minha experiência como educador no Ensino Médio e aluno dentro da universidade mostrou que não é apenas na sala de aula e nos corredores, nas conversas informais nos horários de intervalo, que a heteronormatividade se manifesta. Ela pode ser observada tanto em textos literários quanto no próprio discurso crítico de alguns professores, como será observado mais adiante.
Um outro mito corrente é o do heterocentrismo. Trata-se da crença de que todas as pessoas no mundo, via de regra, são heterossexuais. A partir dessa perspectiva, representações de arte e literatura que abordem a questão do amor e do erotismo entre iguais são taxativamente classificadas como abusivamente pornográficas e perversas, ou como meras relações de amizade mais aprofundadas. Um crítico que ignore o valor e a representatividade dos valores gays/lésbicos - seja esse crítico homossexual ou não - provavelmente será um pobre intérprete de qualquer outra manifestação artística ou literária.
Por último, muito crédito é dado ao mito da conversão. Em poucas palavras, tal mito traz a idéia de que todos os homossexuais seriam monstros vampirescos, cujo único objetivo seria o de “converter” inocentes heterossexuais ao seu estilo de vida, composto por um misto de solidão, promiscuidade e pecado. Dessa forma, a homossexualidade seria algo tão sedutor e irresistível que, para que um heterossexual se visse tentado a praticá-la, bastaria que lesse ou conhecesse um gay ou uma lésbica de sucesso, transformando-se assim irreversivelmente em um homossexual.
IDEOLOGIA E REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA:
a presença da heteronormatividade na crítica e na diegese romanesca
A desconstrução dos mitos elencados na seção II do presente trabalho, de forma a possibilitar uma leitura crítica das identidades gays e lésbicas, passa pelo campo das representações. Mesmo dentro da universidade, o ensino de Literatura Brasileira evidencia a heteronormatividade implícita nos currículos. Basta pensarmos que, enquanto na maioria das universidades americanas e inglesas há disciplinas com programas específicos para abordar a questão do homoerotismo na literatura, falar dessa mesma questão na academia brasileira soa ainda como, no mínimo, uma perspectiva de análise literária de gosto duvidoso. Os personagens que expressam o desejo homoerótico dentro dos textos literários são, via de regra, deixados à margem, apagados das análises, as quais terminam por contemplar outros aspectos da diegese romanesca. Nas raras vezes em que isso não ocorre, o desejo homoerótico, é eclipsado por fatores outros. Penso especificamente nas aulas de Literatura Brasileira que assisti por ocasião de minha formação no curso de Letras, mais especificamente as que gira(ra)m em torno das obras O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha e O Ateneu (1888), de Raul Pompéia.
Em 1988, no auge do Naturalismo, um romance singular começa a ser publicado pela Gazeta de Notícias: trata-se de O Ateneu, de Raul Pompéia. Pompéia, naquele momento um autor já conhecido, inaugura uma escritura que oscila, de acordo com Lúcia Miguel-Pereira, “entre as insinuações de Machado de Assis e as ousadias dos naturalistas” (1959:104). Tomando como mote uma crítica aos internatos da época, o romance conta a história de Sérgio, narrador autodiegético do romance, e suas memórias de infância, passada no Ateneu.
Sérgio é um personagem que, de repente, se vê inserido em um contexto hostil; deixa a acolhedora companhia da mãe para passar a viver no internato. Como se pode perceber, entretanto, as saudades de Sérgio não são relativas aos pais propriamente, mas a ausência de uma proteção acolchoada da qual dispunha permanentemente:
Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! Ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.
Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas, e eu parti (Pompéia 1996:14).
O romance é construído a partir da perspectiva adulta de Sérgio, criando no leitor o efeito de um livro de memórias construído a partir das lembranças do escritor. Muitos críticos, como Mário de Andrade (apud Miguel-Pereira 1950:106) consideram O Ateneu uma autobiografia de Raul Pompéia, baseada em suas próprias experiências nos internatos da época. Miguel-Pereira (idem), por sua vez, afirma que esse tipo de especulação dificilmente geraria alguma luz sobre o romance, apontando a necessidade de observarmos o enredo e não um suposto caráter biográfico da obra.
Ora, a partir da maturidade, Sérgio narra e analisa simultaneamente o passado, julgando ao mesmo tempo em narra sua experiência no internato. Carregando de subjetividade das memórias, o narrador muitas vezes torna opacas as referências temporais, dada a intensidade dos julgamentos que estão conjugados aos fatos relatados. Ainda que exista a possibilidade de relações amigáveis entre os alunos do internato, o foco de Sérgio recai nas ligações homoeróticas entre os mesmos. Entretanto, seu olhar está contaminado pelos julgamentos de valor emitidos por Aristarco (o diretor do estabelecimento de ensino) ou Rebelo, colega de Sérgio que lhe avisa da concupiscência das relações estabelecidas entre os rapazes do Ateneu:
Isto lá é uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo de longe, mas vejo. Não pode imaginar. Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores (Pompéia 1996:33).
Fica claro neste trecho a heteronormatividade implícita na abjeção de Rebelo às relações homoeróticas entre os rapazes do colégio. Talvez menos óbvias, entretanto, sejam as filiações ideológicas desta perspectiva: quais são, afinal, as bases para a definição do homoerotismo como algo reprovável? Bem, antes de qualquer coisa, é necessário pensar as relações de poder pressupostas por Rebelo ao condenar essas relações. É a subordinação sexual, que liga os “rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue” às debilidades femininas, o “sexo frágil”: ou seja, mais do que condenar o homoerotismo, esse personagem condena o estigma da passividade. É reprovável a aceitação desse tipo de relação, mas é mais reprovável ainda desafiar os limites do corpo ao tomar o lugar de sujeito passivo do intercurso sexual, o que indica não apenas uma filiação à ideologia heteronormativa, mas também aos preceitos patriarcalistas que colocam a mulher em uma posição socialmente inferior ao homem. Pode-se aqui analisar o funcionamento do mito de conversão (a possibilidade de Sérgio “contaminar-se” com essa reprovável subjetividade é tão grande que Rebelo recomenda cuidado e cautela com os alunos mais velhos), da homofobia (pois o medo de Rebelo não se assenta sobre nenhuma ameaça empírica, mas sobre uma antecipação imaginária do que venham a ser as conseqüências desse tipo de relação) e do heterocentrismo (pois o personagem parte do pressuposto de que a heterossexualidade é não apenas a norma modelar, mas a única possibilidade a ser seguida).
Finalmente, o desfecho do romance culmina com o incêndio que destrói o internato. Em comparação com o tópico script narrativo que impera durante o século XIX, no qual a mulher adúltera ou é punida com a morte física (como a protagonista de Lucíola, de Alencar) ou com a morte social, representada a maior parte das vezes sob égide da loucura, indicativa do exílio social (como em Celeste, de Maria Benedita Bormann), fica óbvio o caráter alegórico de “punição pelas imoralidades cometidas” desse final. Dado não ser possível nomear um responsável pela suposta corrupção de valores morais, o Ateneu (enquanto instituição) é destruído, representando a purgação da moral burguesa e heterossexual frente à ousadia de Pompéia de representar em uma romance a vida erótico-afetiva dos internatos.
Importante averiguar que, ainda hoje, nos comentários da crítica contemporânea, a ideologia do heteronormatividade se faz firme e presente. Para averiguar isso, tomo como referência um tradicional manual utilizado no Ensino Médio, intitulado Manual de Literatura Brasileira, de autoria de Sergius Gonzaga. Embora um pouco longas, essas citações são fundamentais para mostrar o funcionamento do discurso heteronormativo subjacente a esse manual:
Sensível ao extremo, Sérgio percebe, angustiado, o cair das aparências. “Solitário e solidário” - conforme análise do crítico Astrogildo Pereira -, procura ligações autênticas com os colegas. Mas o que encontra é a brutalidade, a vontade de poder, a exploração e o homossexualismo. Todas as camaradagens são efêmeras e dissimuladas (...)
Há no colégio uma explícita divisão entre fortes e fracos. O relacionamento entre os colegas reduplica os valores do universo social: opressores e oprimidos. A saída dos frágeis é o homossexualismo, com o qual adquirem a proteção de um dos rapazes mais fortes (...)
Dificilmente, contudo, alguém se isenta do homossexualismo sub-reptício ou direto que assalta as salas de aula, os corredores e dormitórios do Ateneu. Exceção feita a Rebelo, todas as amizades de Sérgio são ambíguas. Ele próprio - por medo - parece se dispor a certo tipo de relacionamento (...)
Os vínculos de Sérgio com Sanches e Bento Alves estão assinalados por esta terrível atração que, às vezes, os dominados têm pelos dominadores. O quadro onde se desenha a figura de Bento Alves é bem nítido: o seu poder sedutor reside em sua força física (In: Gonzaga: 1996, p. 108. Itálicos do autor, destaques - sublinhados - meus).
Acredito que as citações falam por si próprias, dispensando maiores comentários. Entretanto, há dois momentos fundamentais dentro desse mar de disparates que o autor do referido manual traz por ocasião de suas opiniões sobre a representação do homoerotismo na obra de Pompéia. Muito representativo é o enunciado Sérgio (...) procura ligações autênticas com os colegas. Mas o que encontra é (...) a brutalidade e o homossexualismo. A adversativa mas, operador argumentativo por excelência, nega a asserção feita anteriormente; logo, aquilo que Sérgio encontra (a “brutalidade” e o “homossexualismo”) não é autêntico. Assim, através de um movimento retórico dentro do discurso crítico, Sergius Gonzaga marginaliza a representação de uma subjetividade homoerótica, o que é muito preocupante, dadas as dimensões da circulação desse manual entre os estudantes do Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares.
Nos dois últimos trechos citados, merecem destaque os enunciados a saída dos frágeis é o homossexualismo e os vínculos de Sérgio (...) estão assinalados por essa terrível atração que (...) os dominados têm pelos dominantes. Pensar a homossexualidade (e não o homossexualismo, termo utilizado pelo discurso médico para tratar do homoerotismo como doença) enquanto a “saída para os frágeis” é cair no mito da conversão, onde a exposição ou o simples reconhecimento de possibilidades homoeróticas levaria o sujeito a uma irreversível conversão à homossexualidade (ou ao homossexulismo, termo mais ao gosto do professor Gonzaga). Ora, isso é deveras improcedente; na própria diegese romanesca há a comprovação da falácia desse argumento: Sérgio, por mais exposto que esteja a possibilidades homoeróticas dentro do Ateneu, não rompe com sua identidade heterossexual, embora desestabilize algumas convenções. A partir do momento em que trava relações amistosas com colegas homossexuais, Sérgio não se converte; ao contrário, através de seu outro (o sujeito do homoerotismo) é que Sérgio se reconhece como heterossexual.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
do papel social da crítica e do professor de literatura
O silenciamento e a marginalização de uma série de subjetividades não ocorre a olhos vistos, mas sim de forma velada. É a partir do silenciamento das matrizes que originam os discursos hegemônicos vigentes que a homofobia, o racismo e a misoginia tomam lugar na cultura. Então, pensar a literatura de um outro lugar que não o ponto-pacífico (leia-se: a crítica canônica), é de extrema relevância, não apenas por propiciar um revisionismo sobre o pó que ao longo dos anos vêm acumulando-se sobre as interpretações de nossos textos clássicos, mas também por permitir que nós (não apenas enquanto críticos mas também enquanto professores de literatura) e nossos alunos, realizemos uma reflexão crítica sobre o capital simbólico e sobre as representações de sujeitos sociais presentes nas obras literárias. Mais do que ler o texto escrito, tal como já disse Paulo Freire, é de suma importância ler o mundo, ler a sociedade, e (acrescentamos nós) ler criticamente as subjetividades representadas no capital simbólico literário, questionando a normalidade e a normatividade dadas a certas subjetividades, em detrimento de uma série de possibilidades.
Enfim, cabe perguntar quem seriam os beneficiados com a discussão de temas gays e lésbicos dentro da Literatura Brasileira. Antes de qualquer um, nossos alunos bi e homossexuais, que costumam ter uma imagem extremamente negativa de si mesmos. Em um segundo momento, todos os gays, lésbicas e travestis, de uma forma geral. Lembremos que a desmistificação da homossexualidade ajuda a prevenir a discriminação e a violência contra homossexuais. E, finalmente, os nossos alunos heterossexuais seriam beneficiados, na medida em que, conhecendo melhor e respeitando as diferenças do outro, se está muito mais capacitado para a interação dentro da sociedade. E, conseqüentemente, ao compreendermos as diferenças, o preconceito torna-se obsoleto, contribuindo para uma perspectiva que os pessimistas acusam de utópica, mas que acredito ser o verdadeiro motor da mudança social.
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*
Graduado em Letras - Licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Mestrando
** Licenciado e Bacharel em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor da Rede Estadual de Ensino.
[1] Cabe citar aqui alguns de seus mais importantes trabalhos: Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity (1990); Bodies that Matter: On the Discursive Limits of "Sex" (1993); Excitable Speech: A Politics of the Performative (1997) e The Psychic Life of Power:Theories in Subjection (1997), entre outros.
[2] A esse respeito, conferir o último capítulo de Alice Doesn’t: Feminism, Semiotics and Cinema, onde a autora debruça-se sobre a questão da experiência enquanto categoria basilar para a construção da subjetividade.