A geografia deslocada e a cultura elisabetana
Na obra de william shakespeare
Ana Maria Kessler Rocha (UFRGS)
O objetivo do presente texto é oferecer ao debate alguns pontos de contato entre o tema deste encontro e a obra de William Shakespeare, que tem se constituído minha área de interesse e pesquisa acadêmica nas últimas décadas. Para o leitor atento, bem como para o estudioso apaixonado, a peculiaridade de alguns dos tempos e espaços culturais utilizados por Shakespeare salta aos olhos.
O que optei chamar de “geografia deslocada” refere-se ao fato de que, embora situando a ação de suas peças em locais e épocas diversas, conforme sua fonte original de inspiração, Shakespeare retrata invariavelmente a sociedade e o contexto cultural da Inglaterra Elisabetana do século XVI. Curiosamente, até onde se sabe, o poeta viveu toda a sua vida na Inglaterra, nunca tendo visitado outros países. Paralelamente, quando lhe convinha, principalmente nas peças históricas, Shakespeare introduzia alterações na linha do tempo, manipulando e brincando com a idéia de temporalidade.
Todos esses aspectos serão discutidos mais adiante. Antes de qualquer coisa, é imprescindível esclarecer a relação existente entre a obra de Shakespeare e os estudos culturais, partindo de uma breve análise do tema no âmbito da teoria crítica Britânica.
A recente ênfase nos estudos culturais tem orientado as pesquisas e os debates nos departamentos de humanidades em universidades por todo o mundo, especialmente a partir da segunda metade do século XX. Na Inglaterra, os estudos culturais constituíram-se disciplina formal já nos anos de 1950, sendo figura central nesse processo o crítico Raymond Williams, cuja obra Culture and Society 1780 –1950 (1958) é um divisor de águas na tradição Britânica. No pós-guerra e décadas subseqüentes, transformações radicais na estrutura social, política e econômica da Europa alteraram o desenvolvimento dos estudos culturais, possibilitando novas formulações teóricas, herdadas, no caso da Grã-Bretanha, do Marxismo.
Os revolucionários anos de
Nos duros anos do governo Thatcher (1979-1990), a repressão aos movimentos populares e de classes levou a discussão dos estudos culturais novamente para dentro do meio acadêmico, onde o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade de Birmingham assume papel de liderança. Com suas raízes ainda firmemente plantadas no Marxismo, os estudos culturais na Inglaterra passam a designar a prática de uma política cultural. É novamente Raymond Williams que fornece uma teoria marxista original de cultura – o materialismo cultural, ou seja, “a análise de todas as formas de significação, incluindo principalmente a escrita, dentro dos reais meios e condições de sua produção”.[1]
De acordo com Jonathan Dollimore, um dos principais teóricos do materialismo cultural, “a perspectiva sócio-política da crítica materialista é particularmente adequada à recuperação da dimensão política do drama Renascentista”[2] porque as preocupações que a caracterizam eram também preponderantes na época Elisabetana.
Shakespeare viveu e produziu sua obra em local e momento histórico privilegiados. A Inglaterra experimentava um período de apogeu político, econômico e cultural que apresenta semelhanças marcantes com a segunda metade do século XX. Pode-se equacionar, por exemplo, o final da Guerra das Rosas, que levou à ascensão dos Tudor, com o período após a Segunda Guerra Mundial. Em ambos, a euforia pelo final de um longo conflito armado mistura-se às angústias e incertezas de um futuro político imprevisível. Paralelamente, a arte, a literatura, e o teatro da Renascença, na medida em que foram inovadores e colocados ao alcance de grande parte da população, remetem a características similares na revolução cultural da década de 1960.
Essas preocupações de ordem política e social refletem a nova visão de mundo do homem renascentista – um mundo geograficamente diverso daquele de seus antepassados, e cujas fronteiras se alargavam a cada dia. Era a época da expansão marítima e territotial das potências Européias, com o estabelecimento de colônias e pontos de comércio em locais até então desconhecidos. Os exploradores espanhóis, portugueses, ingleses e holandeses literalmente redesenharam o mapa do mundo, criando assim novas configurações geopolíticas, econômicas e sociais. Aqueles que logravam retornar, geralmente muito ricos, de tais arriscadas viagens tinham muito que contar, e encantavam ouvintes atentos. Há uma longa lista de narrativas de viajantes publicadas no século XVI, na forma de panfletos, cartas, manuscritos, e diários que circulavam em Londres, e é certo que Shakespeare tenha tido acesso a esse material.[3]
Londres tornou-se uma metrópole efervescente que atraía
visitantes, homens de negócios e intelectuais de vários pontos do país e do exterior.
Após concluírem seus assuntos na cidade, muitos deles freqüentavam os teatros e
as arenas na margem sul do Tamisa. Esses visitantes foram responsáveis por
divulgar, e muitas vezes registrar para a História, os usos e costumes locais,
bem como a existência desses mesmos teatros e as obras ali apresentadas.
Nesse contexto, o jovem Will, recém-chegado de Stratford, encontrou o material necessário para desenvolver o seu gênio criativo; um desencontro de alguns anos a mais ou a menos, e talvez ele não tivesse sido o que foi. Shakespeare soube absorver e utilizar em sua obra toda a ebulição que via à sua volta.
Dada a natureza deste trabalho, convém limitar a discussão
da geografia e da temporalidade na obra de Shakespeare a apenas dois exemplos:
a localização da ilha de Próspero
A grande maioria das obras de Shakespeare, excluindo as peças históricas, têm como cenário outros países; isso se deve, obviamente, às fontes do poeta, pois, como se sabe, era comum autores utilizarem estórias, poemas ou peças de outros escritores e de outras épocas na elaboração de suas obras. No entanto, a “cor local”; de todas as peças de Shakespeare é a da Inglaterra Elisabetana, seja a cena situada numa ilha do Mediterrâneo, ou na Grécia, ou na Dinamarca. Para o autor e seus conterrâneos, o espírito de uma peça valia mais do que exatidão de cenário, vestimentas ou costumes.A peça era um reflexo da vida e da experiência humanas – as personagens de Shakespeare eram homens e mulheres, antes de serem Atenienses, Mouros, ou Romanos.
No caso específico d’A Tempestade, a localização da ilha de Próspero é, talvez de propósito, inexata, contribuindo para a atmosfera de mistério e romantismo que envolve a estória. Vagamente situada a “algumas léguas” da costa, na rota entre Milão e a Tunísia, a ilha é descrita como semitropical, com uma clara referência à sua proximidade das “tempestuosas Ilhas Bermudas” (I,ii)[5]. Mas há inúmeros exemplos de características tipicamente inglesas que a audiência de Shakespeare reconheceria de imediato: plantas e animais que nada têm de tropical, como nozes, pinheiros, macieiras, corvos, lobos, e ursos, além de cenas e tipos da vida rural inglesa, incluindo o pároco itinerante, o trabalho servil de cortar lenha, e muitos outros exemplos.
Na questão da temporalidade
Há ainda muitos outros aspectos na obra de Shakespeare que podem ser analisados sob o prisma do tema deste Colóquio. Um dos temas pelo qual me interesso muito e estou pesquisando no momento é a questão da representação do cânone através do cinema, que tem transposto a obra do Bardo para tempos e locais mais diversos do que o próprio Shakespeare teria ousado imaginar. Um belíssimo exemplo é o intrigante filme de Baz Luhrmann, Romeu + Julieta (1996). Mas isso é assunto para um próximo trabalho.
[1] Raymond Williams. Writing in Society. APUD Maria Elisa Cevasco, Cultural Studies: a Brazilian Perspective. São Paulo, USP, 1997, p.16. Todas as traduções de trechos originalmente em inglês são minhas.
[2] Jonathan Dollimore. Introduction: Shakespeare, cultural materialism and the new historicism”. In J. Dollimore & Alan Sinfield (orgs.). Political Shakespeares – New Essays in Cultural Materialism. Ithaca/London, Cornell U.P., 1985, p. 7.
[3] O poeta fez uso de tais informações sobre viagens em
sua última peça, A Tempestade (1610), onde a ilha
[4] Graham Holderness. Bardolatry: or, the cultural materialist’s guide to Stratford-upon-Avon. In Graham Holderness (org.). The Shakespeare Myth. Manchester, Manchester U.P., 1988, p. 8.
[5] William Shakespeare. A Tempestade. Edição bilíngüe.[Trad. Geraldo Carneiro] Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1991.
[6] Now is the winter of our discontent / Made glorious Summer by this sun of York (“Agora, o inverno de nosso descontentamento / Torna-se glorioso verão com este filho de York”) I,i,1-2. Citações desta peça são da Pelican Books, edição revisada de 1969. As traduções são minhas.