A atualidade dos contos tradicionais*

 

         Para o ensinamento recebido pela forma ordinária  e legal o menino comportar-se-á, passivamente, aprendendo, usando, decorando. Para o ‘saber tradicional’, fora do âmbito majestático e religioso, o estudante reage e colabora porque essa ciência clandestina e semiproibida é uma excitação ao seu raciocínio, apelando diretamente para um sentido ativo e pronto de utilização imediata e realística.  (Câmara Cascudo. Literatura Oral, pág. 27)

 

 

Uma explicação possível para legitimar o interesse pela literatura tradicional esteja talvez no comportamento do menino, descrito por Cascudo: em contato com essa “ciência clandestina e semiproibida” pode viajar pelo mundo da imaginação e da memória, pode descobrir um novo mundo. Cabe-nos perguntar, assim, se, hoje, a literatura oral tem seu espaço ou foi superada pelos recursos imagéticos da modernidade, sobrevivendo apenas como registro de uma remota cultura popular iletrada.

Ao que parece, resistindo anteriormente ao advento da escrita, será pouco provável que ainda possa se extinguir. Muito mais que um recurso de entretenimento e diversão, perpetua a tradição e reafirma a identidade cultural de um povo. Possui um caráter de continuidade, renovando e reelaborando a cultura tradicional. Daí que o contato com outros valores, com outros meios de comunicação, não interrompe sua existência, apenas altera e adapta alguns elementos.

Câmara Cascudo[1] aponta dois aspectos dessa literatura, especialmente no que diz respeito aos contos orais: a memória, que mantém os elementos básicos da narrativa (o “esquema”), e a  imaginação, as adaptações regionais, culturais, feitas pelo narrador. A partir daí  é possível afirmar que a oralidade funciona como uma espécie de ritual, de culto a um passado, que tem por finalidade não retomá-lo como registro histórico e cultural, mas presentificar sensações, símbolos, em busca do arcaizante, do primitivo do homem.

A memória não é o único elemento de resgate do passado. A fantasia também tem essa propriedade. Para Bosi[2], “a fantasia é memória ou dilatada ou composta[3]. De certa forma, reforça a necessidade de retomada de um tempo indeterminado, ressignificando-o, tornando-o parte do presente. A memória restaura e revive o passado, enquanto a fantasia, em contato com o real imediato do povo, confere-lhe um novo sentido. É importante destacar que memória implica seleção de fatos, lembrar uns e esquecer outros. “O passado ajuda a compor as aparências do presente, mas é o presente que escolhe na arca as roupas velhas ou novas[4]. O presente, inscrito num contexto específico, com culturas específicas, determina o que é passível de perpetuar, o que não se deve deixar morrer. Essa aparente superestimação do passado, longe de alienar, firma as raízes culturais de um povo que, em conformidade com o que foi, pode pensar mais claramente sua condição presente e futura.

Aqui parece estar apontado um dos distanciamentos entre a literatura oral e a dita oficial, a literatura impressa: a primeira retoma a tradição sob um tratamento quase sacralizado, enquanto a segunda, se a retoma, é para reproduzir uma fórmula já consagrada socialmente, como explica Bosi:

“Muito do que parece invariável na arte popular, e como tal qualificado de típico, é apenas fidelidade vivida subjetivamente como boa forma: ao passo que, na educação acadêmica, houve durante muitas gerações um tipo de reiteração coatora que deu na imitação pela imitação (…), na fórmula repetida tão-só porque social e politicamente prestigiada”.[5]

         A conseqüência mais iminente da ausência de uma imposição social e política — que, de certa forma, restringe a literatura impressa — é uma criação visivelmente mais espontânea, não só pela linguagem mais expressiva, como também por não estar subordinada a nenhuma estética que imponha normas rígidas. A rigidez que ela apresenta é apenas no que diz respeito à manutenção da tradição.

         A literatura oficializada, para Câmara Cascudo, é fruto de “uma ação refletida e puramente intelectual[6] e, por isso mesmo, artificial, por mais que se pretenda popular, ao passo que a oralidade é flexível, adaptável, não exige fidelidade de estilo ou de narrativa, não pode ser periodizada. Essa liberdade toda, ao contrário de descaracterizá-la, torna-a mais acessível, uma vez que possibilita ilimitadas apropriações e adaptações.

“Ao lado daquele mundo de clássicos, românticos, naturalistas, independentes, digladiando-se, discutindo, cientes da atenção fixa do auditório, outra literatura, sem nome em sua antigüidade, viva e sonora, alimentada pelas fontes perpétuas da imaginação, colaboradora da criação primitiva, como seus gêneros, espécies, finalidades, vibração e movimento, continua, rumorosa e eterna, ignorada e teimosa, como rio na solidão e cachoeira no meio do mato.”[7]

         A literatura oral, especialmente em relação ao conto, configura-se, assim, sob características bem específicas, a saber: Antiguidade, Anonimato, Divulgação e Persistência[8]. “É preciso que o conto seja velho na memória do povo, anônimo em sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nos repertórios orais[9].

         Não pertencendo a ninguém, as estórias são de todos. A livre apropriação é responsável por sua sobrevivência e transmissão. A divulgação dos contos tradicionais se dá quase que inconscientemente, à medida que as estórias são contadas e recontadas, atravessando culturas e propagando o conhecimento implícito na narrativa. 

         O ato de “contar uma estória” implica, necessariamente, ter uma história, uma identidade. Os contos tradicionais funcionam, assim, de duas formas: como memória da tradição e como espaço de criação, à medida que incita a capacidade imagética. Finalizando, vale lembrar as palavras de Xidieh, citadas por Bosi:

“…onde há povo, quer dizer, onde há vida popular razoavelmente articulada e estável (…) haverá sempre uma cultura tradicional, tanto material quanto simbólica, com um mínimo de espontaneidade, coerência e sentimento, se não consciência, da sua identidade.”[10]

 

Referências Bibliográficas

 

BERND, Zilá & MIGOZZI, Jacques. Fronteiras do literário: literatura oral e 

      popular Brasil/ França. Porto Alegre: Editora da Universidade/ UFRGS, 1995.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

CARGIGOS, Isabel. Caipirinha ou Coca-cola? Do regionalismo e intencionalismo dos

       contos populares. In: CRISTOVÃO, Fernando; FERRAZ, Maria de Lourdes & CARVALHO, Alberto (orgs). Nacionalismo e regionalismo nas literaturas lusófonas.

      Lisboa: Cosmos, 1997.

CASCUDO, Câmara. Literatura oral. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952.

______. Contos tradicionais do Brasil.12ªed. São Paulo: Global, 2003

JOLLES, André. Formas simples. São Paulo: Cultrix, 1976.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural dois. Rio de Janeiro: Tempo

      Brasileiro, 1976.

MOURALIS, Bernard. As contraliteraturas. Coimbra: Livraria Almedina, 1982. PEREIRA, Edimilson de A. & GOMES, Núbia P. de Magalhães. Flor do não

      esquecimento. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

PROPP, Vladimir I. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense

      Universitária, 1984.

 

 



* Alessandra Bittencourt Flach, graduanda do curso de Letras da UFRGS, bolsista do projeto de pesquisa A memória do futuro: oralidade e invenção no conto popular, orientado pela professora Ana Lúcia Liberato Tettamanzy.

[1] Contos Tradicionais do Brasil. São Paulo: Global, 2003.

[2] Dialética da Colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

[3] Op. Cit. pág. 36

[4] BOSI, Alfredo. Op. Cit. pág. 35

[5] Op. Cit. pág. 56

[6] Literatura Oral. pág. 23

[7] CASCUDO, Câmara. Literatura Oral, pág. 22

[8] Esta classificação foi estipulada por Câmara Cascudo.

[9] Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil, pág. 13

[10] Dialética da Colonização, pág. 51