Alessandra Azeredo Bizello
Nos primórdios dos estudos de Literatura Comparada, as literaturas locais eram vistas como reflexo das originárias, pois trabalhava-se com a noção de fonte e influência. Mais tarde, passou-se a reconhecer elementos das literaturas ocidentais, impostos como paradigmas ao discurso latino-americano. Com esse reconhecimento a crítica desse continente passou a diferenciar-se da crítica européia, pois a primeira precisava desarticular o discurso para rearticulá-lo conceitualmente na pluralidade de suas operações situadas entre os pólos de tensão: os processos transculturadores do imaginário social latino-americano, bem como os modelos de apropriação cultural das literaturas européias e de outras de menor impacto.
Através desse espaço de trocas e interações e de construção de civilização criado pela literatura latino-americana e o qual a literatura comparada trabalha atualmente, ocorre a análise do uso que um escritor fez de um texto, de uma técnica literária que pertence ao domínio público ou de uma idéia. Esse apropriação cultural permite a mediação e os questionamentos e constrói a heterogeneidade, a transgressão, o múltiplo, a diferença.
As diferenças são elas próprias reinscritas ou reconstituídas em todo ato de comunicação e transmissão, acabando por revelar a instabilidade de toda divisão de sentido baseada num dentro e num fora, num centro e numa periferia. Isso prova que o elemento nacional, enquanto traço de identidade literária, por exemplo, somente adquire valor de referência quando atravessado pela heterogeneidade que o constitui e torna-o singular no conjunto das representações simbólicas nas quais se insere. Pensar desse modo é, pois, considerar formas liminares de representação social e de práticas políticas, levando-se em conta a diversidade que as caracteriza e que apenas pode ser percebida com clareza da perspectiva dos impasses e contradições permeados por todo contingente cultural na contemporaneidade.
Dessa forma, a crítica concentra o trabalho na leitura do texto e utiliza a interdisciplinaridade como auxílio de interpretação. Pensando-se dessa forma, quebra-se a hierarquia dos discursos, o que resulta num descentramento, num trânsito de idéias pela apropriação diferenciada do que é estrangeiro. Assim, estabelece-se um espaço de interlocução propício a trocas efetivas, isto é, estabelece-se a mediação do discurso latino-americano. Dessa mediação resulta o alargamento e o estreitamento das fronteiras culturais e, em conseqüência, resulta também a prática interdisciplinar, funcionando como uma saída contemporânea para o trânsito entre os discursos.
Aliás, as disciplinas literárias já consagradas, como a teoria e a crítica literárias e a literatura comparada, vêm sendo cada vez mais questionadas em seus estatutos, configurando-se uma crise dos paradigmas no tocante às formas de aproximação ao literário[1]. Além disso, o ressurgimento dos estudos culturais revalorizando o contexto através do diálogo com a antropologia, a sociologia, a política, a psicanálise e a história tendem a transferir para este a ênfase antes concedida ao texto. Em decorrência disso, a literatura comparada vê-se forçada a ampliar seus limites de indagação. Também se transformam, a partir desse momento, suas articulações com a crítica, a teoria da literatura e a historiografia literária[2].
Com relação à ampliação dos limites de indagação da literatura comparada, é importante citar as palavras de Tania Carvalhal, quando diz que é necessário
“reconhecer que a literatura comparada é hoje plural; que assume formas distintas, estreitamente relacionadas não apenas com os conceitos teóricos que validam as metodologias adotadas mas também com os locais onde é praticada. E é precisamente a diversidade das práticas que permite converter seu conjunto em objeto de comparação, pois não se pode comparar o que é totalmente idêntico”.[3]
Desse modo, a interdisciplinaridade, esse lugar teórico que comporta o cruzamento de diversas disciplinas, manifesta a preocupação dos estudiosos da literatura com a diluição do objeto de análise e com a ausência de rigor teórico e sistematização metodológica causada por ela. Em parte, essa preocupação deve-se às teorias da desconstrução, da descontinuidade pós-estruturalista e da multiplicidade. No entanto, não se pode esquecer que no contexto atual da globalização econômica e tecnológica, o discurso literário interage e articula-se com novas relações nascidas do advento dos meios de reprodutibilidade técnica[4]. Isso proporciona não apenas a perda da hegemonia do objeto literário, mas acarreta mudanças na própria constituição do texto e no seu espaço de circulação social. Esse fato representa uma ampliação do horizonte comparatista e uma abertura para os estudos de ordem mais especificamente cultural, fazendo-se repensar a questão do território da literatura.
O que se percebe, pois, nos estudos literários contemporâneos, é exatamente o sentido de investigação, de revisão e de questionamento não só dos elementos tradicionalmente visíveis, como o literário e o artístico, mas sobretudo dos elementos excluídos pelas leituras tradicionais. Os estudos literários voltam-se, portanto, para amparar esses elementos no campo da ciência cultural e social, redefinindo o valor do contexto e ampliando sua leitura pelo eixo interdisciplinar[5].
Dessa forma, rejeitando os paradigmas tradicionais, a crítica literária acha-se vinculada ao imaginário popular de grande parcela de leitores e situa-se além das fronteiras impostas por esses paradigmas.
Assim, a obra de João Gilberto Noll, escritor gaúcho, por exemplo, insere-se na discussão mais ampla da crise da representação, da crise do sujeito, podendo-se compreendê-la como um fato ocorrido na relação entre texto e contexto. O social, na obra de Noll, importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento com a função de desempenhar um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. A literatura interessa, pois, como experiência humana, não apenas como produção de obras consideradas projeções sociais, despertando, portanto, o interesse dos leitores pelos elementos contextuais.
Além disso, sua narrativa não apresenta um encadeamento lógico de acontecimentos, causando a impressão de uma certa desorganização na sua leitura. Seu texto é unificado por uma voz narrativa orientadora dos rumos da história, mesmo que, em certos casos, ela seja interrompida por monólogos interiores ou fluxos de consciência, ou que nela aconteçam inversões e pausas temporais. Isso ocorre porque os textos de Noll são fragmentados e descontínuos. Suas narrativas são compostas de personagens cuja sina é o constante deslocamento, o embaralhamento de identidades e a crise social, sintomas da falta de representatividade de classe e do apagamento do sentido de nação. Sintomas esses encontrados também no âmbito literário.
Sob esse prisma, a relação entre o conceito de literatura comparada e os estudos literários atuais constitui uma maneira específica de dialogarem os textos literários, não mais vistos como pertencentes a sistemas fechados em si mesmos, mas interligando-se a outros contextos de significação.
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio, MOREIRA, Maria Eunice, ZILBERMAN, Regina (Org.). Pequeno Dicionário da Literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Novo Século, 1999.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BONIATTI, Ilva Maria Bertola. Literatura Comparada: memória e região. Caxias do Sul: EDUCS, 2000.
CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1992.
CARVALHAL, Tânia Franco (Org). Literatura comparada no mundo: questões e métodos. Porto Alegre: L&PM/VITAE/AILC, 1997.
COUTINHO, Eduardo F. Os discursos sobre a literatura e sua contextualização. In: COUTINHO, Eduardo F. Fronteiras imaginadas: cultura nacional / teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora e Consultoria Ltda., 2001.
NOLL, João Gilberto. Romances e Contos Reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
SOUZA, Eneida Maria de. A teoria
[1] Ver sobre a crise dos paradigmas literários
em SOUZA, Eneida Maria de. A Teoria
[2] Ver sobre transformação das articulações da literatura comparada com a crítica, a teoria e a historiografia literárias em COUTINHO, Eduardo. Os discursos sobre a literatura e sua contextualização. In: ____. Fronteiras Imaginadas: cultura nacional / teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora e Consultoria Ltda., 2001.
[3] CARVALHAL, Tania Franco (org.). Literatura comparada no mundo: questões e métodos. Porto Alegre: L&PM/VITAE/AILC, 1997, p. 9.
[4] Ver sobre a perda da aura da obra de arte com o advento dos meios de reprodutibilidade técnica em BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: ____. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[5] BONIATTI, Ilva Maria Bertola. Literatura Comparada: Memória e Região. Caxias do Sul: EDUCS, 2000, p. 16.