DESLOCAMENTOS, MIGRAÇÕES
Prof. Dr. Pedro Brum Santos
Paulo César Silva de Oliveira - Errância e Literatura: Qual o lugar do sujeito na Literatura contemporânea?
Em Errância e literatura: qual o lugar do sujeito na literatura contemporânea (Breve comentário sobre três autores contemporâneos), Paulo César Silva de Oliveira propõe a leitura de Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll, Estranhos estrangeiros, de Caio Fernando Abreu e A maldição do macho, de Nélson de Oliveira. O autor observa que essas obras versam sobre uma questão que tem se tornada aguda na sociedade atual e que classifica como movimentos diaspóricos contemporâneos, representados na tematização de tópicos como nomadismo, migração, globalização e multiculturalismo. Tais tópicos, assegura o autor, estão disseminados em configurações discursivas representadas há mais de duas décadas, como, por exemplo, o movimento de reterritorialização. Hoje, ante ordens emergentes, o próprio terror se globaliza e perde o caráter nacional, fronteiriço.
Em Berkeley em Bellagio, há a confirmação pelo tema da errância, do desenraizamento. A personagem, em trânsito, vive os conflitos históricos, sociais, econômicos e psicológicos em um mundo que perdeu suas referências. O livro de Noll, dialoga com duas outras produções contemporâneas. Em Estranhos estrangeiros (1996) de Caio Fernando Abreu, os três contos que abrem a obra chamam a atenção pela tematização do outro, aqui na condição de estranho. O estrangeiro, neste caso, se afirma pela lógica do diferente. O protagonista de Caio também é um ser cambiante, sempre à procura de algo que quase sempre está alhures. Em A maldição do macho, Nélson de Oliveira conduz o tema da errância e do auto-exílio para a questão sexual, uma vez que o sexo surge como o único elemento de identificação do protagonista com o mundo e com o outro. Paulo César Oliveira conclui que as três obras fornecem material para uma análise aprofundada da nova geografia literária brasileira, estabelecendo laços de discussão essenciais para que pensemos o lugar do homem como sujeito errante, malgrado o fato de ainda impor-se como o centro do questionamento existencial, social, econômico, político e filosófico do mundo globalizado em que vivemos.
Neiva Fernandes - Primavera con una esquina rota de Mario Benedetti e o exílio de cada um
Em Primavera com uma esquina rota de Mário Benedetti e o exílio de cada um, Neiva Fernandes observa que o exílio é uma dor sem par. A obra de Benedetti foi escrito pelo autor durante seu exílio em Palma de Mallorca, nos anos 80. A história conta a vida de uma família classe média e intelectualizada que se vê obrigada a exilar-se porque o pai, Santiago, envolve-se com militância de esquerda e acaba preso. O romance exila as personagens dentro dos capítulos, cabendo ao leitor aproxima-las entre si como uma forma possível de desterra-las. Santiago, aprisionado e torturado, escreve cartas para a família que muda de país. Beatriz, a filha de seis anos, através de monólogos com sua boneca, elabora o luto da separação do pai; Graciela, a esposa, reflete a respeito da solidão.
Edward Said aponta para a vivência do exílio como um fato insuportável que não é compreensível nem do ponto de vista estético, nem do ponto de vista humanístico, cabendo ao exilado a árdua tarefa de viver no descompasso do cotidiano, tarefa que as personagens de Benedetti, no entendimento da autora, reafirmam no dia a dia, juntando pedaços de si entre os destroços do lar desfeito.
Rosani U. Ketzer Umbach - Stefan Zweig no Exílio Brasileiro: a visão de um país do futuro
Para Rosani Umbach, em Stefan Sweig no exílio brasileiro: a visão de um país do futuro, a literatura do exílio consiste de obras literárias cujos autores tiveram de abandonar seu país por motivos políticos ou religiosos, ou que o deixaram por decisão própria, por se sentirem ameaçados por circunstâncias opressoras. A autora destaca os exílios de intelectuais alemães em decorrência da dominação nacional-socialista de meados do século XX.
Observa que a oposição ao fanatismo ideológico nazista caracteriza a obra de Stefan Zweig, nascido em Viena em 1881. Perseguido, emigra em 38 para a Inglaterra, de lá para os Estados Unidos e, finalmente, em 1941, para o Brasil. Deprimido, suicida-se, juntamente com sua mulher, em Petrópolis, RJ, em fevereiro de 42. Em 41, Zweig escreveu Brasil, um país do futuro, em que aborda aspectos da história, economia e cultura do país. Seu objetivo, sobretudo, é o de mostrar o Brasil como um modelo que se opõe à autodestruição resultante do fanatismo ideológico dominante na Europa. Ressalta que no Brasil aprecia essa forma de vida mais suave e serena, que considera como alívio e felicidade, embora não deixe de apontar o baixo nível de vida da maioria da população,o ainda incipiente desempenho industrial, o atraso tecnológico e a burocracia administrativa do país. A autora considera que passados mais de sessenta anos, os ideais humanistas de escritores como Stefan Zweig continuam atuais e sua divulgação se torna necessária em um mundo cada vez mais egoísta.
Sylvia Helena Cyntrão - Exílios contemporâneos
Sylvia Helena Cyntrão, em Exílios contemporâneos observa que a partir do texto composto por Gonçalves Dias em 1843, o tema do exílio provocou um significativo processo intertextual na lírica brasileira. Na Canção do exílio, segundo a autora, a temática envolve dois núcleos: um de partida e outro de conciliação. Retrabalhado no século XX, o tema ganhou diversas versões como a de Murilo Mendes (Canção do exílio), Mário Quintana (Uma canção) e Al-Chaer (Laranjas, laranjeiras, laranjais).
Enquanto Murilo Mendes provoca uma inversão em relação ao original, através da paródia, e Mário Quintana focaliza, sobretudo, a perspectiva interior do poeta,, em Laranjas, laranjeiras e laranjais, em vias de publicação, o poeta incorpora tanto a função de inversão presente em Murilo Mendes quanto à tragicidade existencial do poema de Quintana. Al-Chaer abre o diálogo a outros autores, incorporando, em especial o Drummond de Confidência do itabirano e de Cidadezinha qualquer e de Nova canção do exílio. Assim, Al-Chaer, na visão da autora, realiza o que Habermas chama de crítica emancipatória, assumindo uma racionalidade que é produto do confronto do eu com sua alteridade coletiva. Laranjas, laranjeiras, laranjais integra, portanto, a linha clássica, ideológica e instigadora dos poemas sobre a identidade do ser cultural brasileiro mitopoetizado.
Paulo Henrique de Sá Júnior - Blurring Frontiers: A Política dos Espaços na Ficção Chicana
Paulo Henrique de Sá Junior, em Blurring Frontiers: a política dos espaços na ficção chicana, sublinha temas associados aos conflitos de identidade traduzidos em questões como raça, etnia e fronteiras geográficas na ficção de Sandra Cisneros.
Em The house on Mango Street, uma adolescente questiona sua comunidade mestiça. Identidade cultural define uma das mais recorrentes metáforas que atravessa toda a obra, ou seja, a metáfora representada pela palavra house/casa. As definições da personagem/protagonista, Esperanza, não delimitam diferença entre casa e lar. O que ocorre é que Esperanza procura uma casa/lar ou um lugar ao qual ela pertença e onde possa sentir-se confortável. Já em Mericans, Cisneros articula o binômio nação/espaço pelo apagamento evidente das fronteiras e pela não determinação do lugar do outro, algo que ocorre pelo jogo entre o narrador e o casal de irmão que protagonizam as ações do conto.
Viver em um mundo politizado é o que determina nossa identidade, raça e origem étnica. É fácil criar e estabelecer rótulos para classificar o outro. O que não é fácil, politicamente falando, é aceitar a diversidade e a diferença. Sandra Cisneros em The House on Mango Street e em Mericans subverte os paradigmas desses conceitos e trabalha coerentemente com os dilemas de existência do outro como sujeito, porque o eu somente existe em oposição ao outro.
Maria Luiza Pinto Leite - "Formas plebéias de atividade narrativa"?
Em Formas plebéias de atividade narrativa?, Maria Luiza Pinto Leite Gonçalves aborda a obra A derrota do pensamento, de Alain Finkielkraut. A autora critica a animação de certeza absoluta que move as idéias de Finkielkraut, para quem "nenhuma barreira separa mais as obras-primas de todo o resto; a mesma estrutura fundamental, os mesmos traços generosos e elementares se encontram nos grandes romances e nas formas plebéias da narrativa". Diante da afirmação, Maria Luiza rebate: a perplexidade é inevitável: que critérios permitiram que ele dividisse os grandes romances daqueles que não o são, já que, na história do romance, as grandes obras quase sempre se afirmaram por encontrarem soluções diversas das que as antecederam. Não seguir o desenho das obras-primas anteriores não implica necessariamente perda de todo o julgamento. A autora acrescenta: acreditar que é suficiente - ou até necessário - imita-los plena e perenemente, para poder dizer tudo em todos os tempos e em todos os lugares é, no mínimo, surpreendente, principalmente por ter origem em um dos revolucionários mais destacados do movimento estudantil dos anos 60, que foi inegavelmente um dos possibilitadores do pós-moderno.
Maria Luiza Pinto acredita que fala ao livro de Finkielkraut a incorporação da dialética, pois admite como pressuposto que o pensamento das Luzes possa ser retomado tal e qual, que existem verdades e valores absolutos que pairam acima de toda a crítica e das diversidades culturais, à luz dos quais tudo pode - e deve - ser julgado. A autora defende o primado da História: a historicização dos valores estéticos em seus contextos é a condição necessária para qualquer estudo crítico-teórico de arte que queira evitar esclerose imobilista.
Miriam Denise Kelm - Textos contemporâneos portugueses e a temática do deslocamento
Em Textos contemporâneos portugueses e a temática do deslocamento, Miriam Denise Kelm registra que o deslocamento de grandes contingentes humanos tem sido motivo encontrado em textos literários portugueses nas três últimas décadas. Nesse rol, está o penúltimo livro de Lídia Jorge, O vale da paixão, de 1998. No contexto político português dos anos 60, as guerras com as colônias na África, de um lado, e a crise no meio rural, preparada lentamente pela incompetência da ditadura salazarista, deflagram a partida de portugueses, sobretudo em direção a América do Norte.O mesmo tema é encontrado no romance do açoriano Álamo Oliveira, Já não gosto de chocolates (1999). Os dois romances retomam fatos contingenciais que crescem em vulto e quantidade e que podemos chamar, talvez, de dispersão, errância de grupos humanos e redefinição de identidades.
Em fins de 1980, Heidrun Olinto referia a mudança de paradigmas da história e da teoria da literatura e a premência de inventar modelos teóricos que dessem conta das novas necessidades, tendo a acuidade de perceber que a profusão de conceitos poderia criar outros problemas. Em texto recente, Aijaz Ahmad retoma as teorias literárias que surgiram a partir dos anos 70, ligadas ao pós-colonialismo. Para ele, é preciso pensar o fator determinação, isto é, o caráter imperativo das circunstâncias segundo as quais os indivíduos fazem suas escolhas, sua vida, sua história e por conseguinte, a sobre-determinação que incide na produção cultural, especialmente a mais complexa que é a literária, e secundando-a, a crítica teórica. Com isso, conclui a autora, busca-se formular alguns esclarecimentos para a inegável realidade que já está aí, em atos e palavras.