ESTUDOS COMPARADOS: TEORIA E CRÍTICA
Profª Drª Patrícia Lessa Flores da Cunha
Os imbricamentos da teorização da literatura com o rumo das investigações comparatistas têm sido uma ocorrência historicamente assinalada pelos analistas da área de LC desde o início de sua institucionalização acadêmica.
Na própria UFRGS, atualmente um centro de pesquisa comparatista reconhecido nacional e internacionalmente através da contribuição intelectual produzida por docentes de seu Instituto de Letras, essa é uma constatação natural: é no Setor de Teoria Literária, do Departamento de Lingüística, Filologia e Teoria Literária, que está lotada a disciplina de Literatura Comparada, o que confere estatuto epistemológico, desde o nível de graduação, a uma atuação consistente que se afirma nos cursos de Pós- graduação, Mestrado e Doutorado stricto sensu.
Portanto não é de se estranhar que muitos dos trabalhos encaminhados para apresentação e debate neste II Colóquio Sul de Literatura Comparada versem em torno de discussões teóricas, e sejam apresentados por alunos e colegas - prata da casa - e suas extensões. Na classificação temática organizada pela Comissão dos Trabalhos, ao todo oito textos se inserem nessa perspectiva, sendo cinco, sabidamente, de alunos do PPG- Letras/UFRGS.
Ricardo Araújo Barberena discute, em A Literatura Comparada e os Estudos Culturais, as relações contemporâneas entre essas áreas de conhecimento, o que irá determinar "uma nova epistemologia crítica balizada por certas metodologias de leitura articuladas num trânsito através de espaços: interdisciplinaridade, intertextualidade, intersemiose".
Tal espaço de discussão inserido no campo de investigação da LC é também caracterizado como um (não) lugar que se reconhece no debate do múltiplo, do outro, da diferença. Há um percurso teórico traçado pelo autor que desemboca no descentramento que afeta a literatura a partir da década de setenta, em que as fronteiras lingüísticas e expressivas se abrem para outros conhecimentos, como a psicanálise, a sociologia, a antropologia e a filosofia, entre outros, gerando, não obstante, "certo sentimento de desconforto calcado na premissa de que, se a crítica literária é uma construção de linguagem, estamos tratando com um produto cultural e histórico que se encontra atrelado às forças e aos saberes negociados num contexto histórico e cultural". Ou seja, estamos no domínio do recorte, do fragmentário, do contextualizado.
A idéia de descentramento é igualmente focalizada por Alessandra Bizello em As Novas Configurações e os Estranhamentos na Literatura Comparada e na Crítica Literária do Terceiro Milênio, o que favoreceria sobretudo o espaço de interlocução e mediação do discurso latino-americano.
Em decorrência, o espírito de interdisciplinaridade que passa a vigorar (fruto das transformações do pensamento provocadas pela desconstrução, pela descontinuidade pós-estruturalista e pela multiplicidade de enfoques) obriga o discurso literário a interagir e articular-se com novas relações nascidas do advento dos meios de reprodutibilidade técnica, provocando eventualmente a perda da hegemonia do objeto literário bem como mudanças na própria constituição do texto e de seu espaço de circulação.
Tal fato representaria uma "ampliação do horizonte comparatista e uma abertura para os estudos de ordem mais especificamente cultural", determinando aos estudos literários contemporâneos revisão e questionamento dos elementos tradicionalmente interrogados (o estético, o artístico), voltando-se então para a articulação desses no campo da ciência cultural e social, "redefinindo o valor do contexto e ampliando sua leitura pelo eixo interdisciplinar". Para Alessandra, a obra de João Gilberto Noll insere-se apropriadamente nessa discussão mais ampla "da crise da representação, da crise do sujeito, podendo-se compreendê-la como um fato ocorrido na relação entre texto e contexto".
A relação entre texto e contexto na visada do objeto literário particulariza-se na abordagem proposta por Fabiano Bruno Gonçalves, em que discute na Tradução Literária: O Papel (ou o espaço?) do Tradutor enquanto Sujeito Interpretante. Vinculando-se às propostas dos novos Estudos de Tradução, apresenta o tradutor, antes de tudo , como leitor, sujeito circunstanciado sócio-histórico-culturalmente: a tradução, sobretudo a literária "sempre carregará a marca da interpretação de seu realizador, vez que a linguagem literária é, por essência, plurissignificativa". Sendo assim, improcede a questão da imparcialidade/ infidelidade com respeito à tradução literária, retomada constantemente pelas metáforas da intocabilidade do original, da profanação da tradução, da traição do tradutor, e toma relevo crescente o conceito de adequação e pertinência da interpretação como ato de leitura que prolonga a vida de uma obra literária para além de seu lugar e tempo intrínsecos, deslocando-a para novos espaços e outras temporalidades.
Nessa perspectiva, reconhece-se, como base para a argumentação, as construções teóricas de Jacques Derrida, George Steiner, Walter Benjamin, Itamar Even-Zohar, Theo Hermans, entre outros. A tradução é vista como apropriação, para nós, em certo sentido, antropofágica: "No traduzir, não ocorre somente uma tradução do texto-fonte para o texto-alvo; há uma tradução recíproca, uma produção e transformação infinita de significados, em que o tradutor-leitor mexe nos significados do texto-fonte ao recriá-lo na originalidade da língua de chegada".
Cada operação tradutora se realiza, portanto, como manipulação textual, concretizada pela interpretação do tradutor-leitor e na mudança do código lingüístico, mas também conformada pelos fatores sócio-culturais e históricos que a circunstanciaram e pela recepção que lhe dá o contexto em que provisoriamente se instala.
Aprofundando o olhar relacional, Mitizi Gomes reacende a discussão teórico-crítica, num recorte reflexivo em Haroldo de Campos: Discussão Teórica acerca de Dependência Cultural e Prática Comparatista. Retomando a conhecida polêmica entre o autor e Antonio Candido, reforça a contemporaneidade do pensamento de Campos, em que, ao aceitar a relação entre culturas como inevitável, mostra que novas vertentes teóricas da investigação comparatista afirmam a possibilidade de a cultura considerada inferior utilizar-se da outra, supostamente dominante, para uma instigante reescritura.
Articulando-se com a proposta de Silviano Santiago e fundamentando-se também nos conceitos de Derrida sobre a desierarquização das produções culturais, Haroldo de Campos defende a produtividade do conceito de intertextualidade para uma explicação exitosa de um projeto de composição de literatura nacional, contrapondo-o, e assim, contrapondo-se aos de fonte e influência que tornariam a proposição de A Candido (a literatura brasileira vista como um braço da portuguesa), no mínimo, problemática. Destaca, então, o conceito haroldiano de "transvaloração" para caracterizar o movimento de apropriação tão natural aos processos discursivos recriadores das literaturas, latino-americanas no caso.
Ao finalizar, Mitizi afirma que "grosso modo, do ponto de vista comparatista, qualquer literatura nacional é composta por diferentes leituras realizadas, o que parece uma assertiva por demais óbvia para se discutir uma produção cultural dependente".
Também Juliana Klein, com Deslendo "Pais e Filhos", investe na crítica comparatista ao se utilizar da amplitude com que o conceito de interdisciplinaridade defendido originalmente por H. Remak vai imprimir ao rumo das investigações em LC, favorecendo a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana. Nessa perspectiva, estabelece articulações com as discussões propostas por Julia Kristeva, Afrânio Coutinho,Tania Carvalhal, Raúl Antelo e, amparada nesses pressupostos, relaciona os Estudos de Literatura Comparada com os Estudos Culturais, retomando aspectos recorrentes das obras Pais e Filhos, respectivamente de Turgueniev e de Renato Russo, para aproximar "o artefato literário canônico e o objeto estético produto da Indústria Cultural".
A partir da coincidência temática, propõe-se à "desleitura" (cf. H. Bloom) dos autores escolhidos, ressaltando as diferenças espaciais, temporais e lingüísticas que os particularizam, o que, não obstante, os colocam em situação que favorece o cotejo. Ao intentar, através do clássico, o resgate do desleitor, o texto explicita o posicionamento teórico-crítico contemporâneo de que a intertextualidade se realiza na recepção.
Afinando o viés teórico, os três últimos textos que me cabem aqui comentar, retomam questões sempre provocativas para as análises do objeto literário.
Em O Jogo do Duplo, Latuf Mucci discorre sobre as possibilidades do duplo, motivo e tema recorrentes no panorama da mitologia e da literatura ocidental, "configurando um repertório inesgotável de exemplos, paradigmas e ícones, que só tende, com a história das culturas, a ampliar-se num processo de significação sempre em aberto".
Associam-se, então, à idéia do duplo, como prova dessa produtividade e vigor conceitual, a própria mimese, sinônimo de literatura no binômio representação/recriação: a idéia do signo lingüístico, significado e significante, desdobrado nas perspectivas da semiótica peirceana e da semiologia saussureana, essa fundamentada em sucessivas categorias duais: diacronia e sincronia, denotação e conotação, conteúdo e expressão, língua e linguagem, univocidade e pluralidade, metonímia e metáfora, monologia e dialogia, sistema e sintagma, paradigma e sintagma, código e sistema; aspectos fulcrais de metodologia e de teorização da literatura, como a intertextualidade, o simulacro, a paráfrase, a paródia, a citação, o plágio, entre outros.
Na cena da literatura, "arte em tensão" em seu caráter precipuamente ambivalente, o jogo do duplo articula a produção de sentidos ambíguos, fazendo com que o texto literário percorra espaços diferenciando-se sobreviva em leituras atemporais, determinando as suas geografias literárias e culturais próprias. Figura máxima dessa multiplicidade dual, Fernando Pessoa é lembrado por sua condição emblemática, "poetadrama", pessoa e personagem reiteradamente duplicadas nos alter egos.
Continuando com a estratégia do jogo, Cláudia de Andrade estuda na obra de Rubem Fonseca, O Processo de Criação Literária a partir do Conto Lúcia McCartney. Identificando os processos de ruptura textual do autor, que o singularizam na sua ficção narrativa, chega-se à verificação de tentativas regulares "por parte do narrador, de desvelar como história paralela, o processo de criação literária", procedimento que considerado como constante, sinaliza para uma poética inclusa na obra de Rubem Fonseca.
O recurso da intratextualidade- cotejo entre as obras de um mesmo autor- favorece tal hipótese, ao mesmo tempo em que contribui para situar o próprio narrador na condição de marginal em relação aos "cânones" do gênero conto/narrativo.
Já Vivian Ignes Albertoni da Silva, ao propor uma breve análise d' A Forma Poética Refletindo Questões da Modernidade a partir de uma consideração rigorosa do texto, remete-se "à Teoria da Comunicação de Marshall McLuhan e ao uso da metodologia estruturalista como ferramenta corrente nas Ciências Humanas" para discutir no poema "Soledade", de Guilhermino César, possibilidades de diálogo antevistas pela literatura diante das novas dimensões da cultura e da existência humanas.
A idéia de imobilidade, sugerida pela apresentação do poema como um bloco, contendo um sistema de imagens concretas enunciadas de maneira caótica, dimensiona a indagação subliminar: onde está o homem, qual é o seu lugar num mundo em que tanta coisa sucede, e tão rápido?
Segundo Vivian, o poema se constitui de modo que não apenas seu conteúdo mas também sua forma fornece as pistas de um mundo veloz, sobrecarregado de informações, sufocante e labiríntico, em que o homem permanece, todavia, interrogando(-se) sobre as noções fundamentais de sua constituição identitária - "seja ela pessoal, geográfica, histórica, social".
A construção dessa particular e instigante cartografia teórico-crítica, embora de forma contida frente às variadas possibilidades de entendimento que seguramente pode provocar, revela mais uma vez o desafio, o fascínio e o prazer que a aventura da investigação literária, em sua capacidade relacional, a cada um de nós aqui presentes seguramente proporciona. E, com a transcendência própria desse fazer, levou-nos a debater a especificidade do nosso tempo e do nosso lugar, situando-nos geograficamente na expressão de nossas latitudes, nossas longitudes e limites.