ESTUDOS COMPARADOS: INTERDISCIPLINARIDADE

Profª Drª  Maria Luiza Berwanger da Silva

 

 

 

 

Em Monumento ao Tropeiro - "A Precata", de Maria Elvira Curty Romero Christoff, a imagem da geografia faz-se traduzir pelo simbolismo do tropeiro, figura de passagem que tanto intermediou a construção territorial, quanto transportou cartas, notícias e pessoas, figuração dupla traduzida pela escultura da "precata" (sapatos alpargatas usadas pelo tropeiro) e que a cidade de Montes Claros dedica para homenagear este mediador e produtor de ressignificações. Fragmentos de entrevistas orais legitimam este gesto de celebração da cidade ao tropeiro, ao mesmo tempo que sublinham o paradoxo da escultura traduzida pelos sapatos: o traço de imobilidade da escultura vista como arquivo ou memória geográfica, desdobra-o os sapatos, remetendo a um tempo imemorial e disseminado que recartografa o perfil de Montes Claros. Relocalizar o imaginário da cidade em um espaço amplo e extraterritorial, eis, em síntese, o projeto de restituição subjacente à gratuidade (ilusória) da homenagem ao tropeiro.

 

A escrita do Tempo nos Retratos da Terceira Idade, de Elaine Karla de Almeida, versa sobre a fotografia visualizada como elemento que permite a transgressão dos limiares entre as artes. Especifica a figura do fotógrafo pelo traço do filtro cultural e do filtro da subjetividade, traço duplo que possibilita perceber nos retratos a trajetória de histórias pessoais, produto de olhares diversos e entrecruzados. Nesta comunicação, a fotografia configura-se, pois, como registro de uma passagem na temporalidade. Insere-se, deste modo, na temática do Congresso justamente pela referência (implícita) ao punctum, conceito reestruturador da fotografia por Roland Barthes em A Câmara Clara, mediante o qual o espaço da terceira idade ressimboliza-se, viabilizando a transfiguração do vivido ou vivenciado em memória residual.

 

Já O Pintor de Alteridades, de Débora Mutter da Silva, destina-se a marcar um momento de subversão discursiva na obra de L. A. Assis Brasil que Débora situa nas relações de alteridade emergente do deslocamento de personagens por Itália, Paris e Brasil, deslocamentos estes geográficos, culturais, psicológicos e ideológicos. Neles, a distinção de Alteridade e de Outridade retraça a questão identitária pontuando o Mesmo como Outro e o Outro como Mesmo. A presença conflituada e em confronto dos personagens Sandro e Nadar agrava-se pela presença de um pintor brasileiro, voz que restitui ao Mesmo a lembrança do local considerado como fábula do lugar (artístico) ampliado: o exame das representações da Alteridade garante à geografia original a singularidade do espaço redesenhado.

 

Duas comunicações versam sobre Cinema e Literatura, nas quais a imagem fílmica faz-se matriz de busca identitária. Em Busca de Reterritorialização do Espaço de Poder através a Busca da Identidade, de Josieli Kaminski Corso, a autora efetua a leitura simbólica do filme Poderosa Afrodite de Woody Allen, em contraponto com a peça Édipo Rei de Sófocles, o diretor norte-americano relocaliza na produção fílmica pela valorização do Coro. Nesta comunicação, a mescla de traços da contemporaneidade com os clássicos revisita a dramaturgia pelo ângulo da pluralização de gêneros, não sendo contudo explicitado o espaço de restituição ou de revitalização dos campos fílmico e teatral aproximados. Esta comunicação inclui-se no eixo temático do Congresso pela passagem de um a outro gêneros intermediada pelo Corifeu, figura de migração.

 

A outra comunicação sobre Cinema intitula-se David Cronemberg - Identidade Nacional ou Gênero Cinematográfico?, de Rosângela Fachel de Medeiros. A autora analisa a produção deste canadense como espaço intervalar que ocupa no polissitema cinematográfico, ponto de oscilação entre Estados Unidos e Europa. David Cronemberg singulariza-se pela "condição de autor" multifacetado do qual a diversidade de funções acumuladas não o distancia do Canadá, matriz primeira da composição da imagem fílmica. Rosângela situa o filme deste canadense no entrecruzamento da mise en scène com o lugar da subjetividade, entrecruza como traço que marca, renovando, um certo gênero cinematográfico, a ficção científica, no limiar do gênero de horror como variante que impossibilita a localização em um só gênero. Cronemberg busca compor a identidade canadense pela perspectiva do indistinto e do indefinido, estratégia que, por outro lado, viabiliza a emergência da subjetividade multifacetada. Rosângela compensará esta fisionomia do autor múltiplo pela pontualidade da bibliografia apresentada sobre a arte cinematográfica. Inclui-se esta comunicação no eixo da geografia por este traço da indistinção produzido pelo filme de terror visto como grau zero da escritura fílmica que não se deixa territorializar. A presente reflexão responde à pergunta inicial do título não excluindo os campos confrontados mas colocando-os em intersecção para especificar o espaço fílmico pela variante do terror: o traço ou marca da geografia canadense não apaga a marca do gênero pluralizado.

 

Coube-me ainda apresentar a comunicação intitulada Mutirões Discursivos: Com a Palavra, as Maiorias, de Benito Martinez Rodriguez. A presente comunicação focaliza a produção literária nas comunidades populares urbanas, considerando-as como bens simbólicos que impõem um redimensionamento das "Belas Artes". Para tanto, cita um "corpo de escritos" na amostragem significativa do romance Cidade de Deus de Paulo Lins, rememora a obra de Carolina Maria de Jesus, cita os trabalhos do Grupo Idasul e especifica a música "rap" como gênero que transgride a feição de "indústria do entretenimento", configurando-se como modelador da subjetividade, produção com que justifica a revisão e a inserção da literatura dita "marginal" no cânone estabelecido. Esta comunicação insere-se na temática das geografias pelo projeto de relocalização destes "mutirões discursivos".

 

Busco um ponto de convergência entre os trabalhos relatados que encontro na definição de imagem de Roland Barthes em A Câmara Clara, definição que este crítico colhe de Maurice Blanchot:

 

L'essence de l'image est d'être toute dehors, sans intimité, et cependant plus inacessible et mystérieuse que la pensée du for intérieur; sans signification, mais appelant la profondeur de tout sens possible; irrévélée et pourtant manifeste, ayant cette présence?absence qui fait l'attrait et la fascination des Sirènes (BLANCHOT).

 

Ao longo da reflexão de Maurice Blanchot a representação da imagem como "un pas au-delà" efetua a intermediação da imagem como geografia da passagem de um espaço ao outro, passagem reiterada pelos trabalhos que acabo de relatar. Embora convergente, a geografia como figura de intermediação ou de passagem permite compreender que: toda zona de convergência gera, paradoxalmente, um território outro, de neutralidade, estabelecendo uma modulação textual e imagética que mescla espaços sem lhes diluir os limites. Escultura, Pintura, Cinema, Produções Marginais comparecem nas comunicações constituindo geografias compartilhadas que, se o olho grava, a mão desdobra relocalizando pelo simbolismo do traço. Mas, "Que é um traço?", "Em que se converte um traço?", "Com que se relaciona um traço?", pergunta-se Jacques Derrida em La Vérité en Peinture (1978) e a que ele responde, quando diz: "Um traço nunca aparece, nunca por si mesmo, uma vez que marca a diferença entre as formas e campos do aparecer". Resíduo, marca ou geografia invisível, em Derrida, a semiologia do traço completa seu desenho no metaforismo da memória de Schibbolet (1986), nas palavras do crítico:

 

Le pays ... émigre et transporte ses frontières. Il se déplace comme ces noms et ces pierres qu'on se donne en gage, de main en main, et la main se donne ainsi, et ce qui se découpe, s'abstrait, se déchire, peut se rassembler de nouveau dans le symbole, le gage, la promesse, l'alliance, le mot partagé, la migration du mot partagé.

 

No fundo, imagem, traço e memória residual como paisagem implícita nos trabalhos por mim relatados confessam a vocação da Arte à transgressão, busca contínua, resistente e inapagável da transgressão da Vida pela própria transgressão da Arte, "pas au-delà" de Blanchot rememorado por Barthes.