ESTUDOS COMPARADOS: Geografias e Temporalidades

Profª Drª  Maria Eunice Moreira

 

 

 

 

O conjunto de textos que compõem o grupo número três abrange uma geografia bastante interessante, composta por sete textos, assim distribuídos:

 

As crônicas do acervo de José Clemente Pozenato, de Ilva Maria Boniatti – da UCS;

Cyro Martins e o regionalismo, de Ronaldo Silva Machado – da UFRGS;

Nacional e nacionalista: um prefácio à nova História da literatura brasileira, de Camilo Cavalcanti – da UFF;

Sílvio Romero e Os contos populares do Brasil, de Kizy Dutra – da UFRGS;

A atualidade dos contos tradicionais, de Alessandra Flach – da UFRGS;

Contrabando e memória: reflexões sobre a prática literária no Sul da América Latina, de Helena Tornquist – da UFSC;

Do real à ficção: representações literárias do episódio de Laguna pelo Visconde de Taunay, de Norma Wimmer – da UNESP, de São José do Rio Preto.

 

O primeiro texto parte do projeto de pesquisa “Literatura Comparada: deslocamentos e distanciamentos”, desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul (RS) sobre a obra do poeta e romancista José Clemente Pozenato, autor de O quatrilho, e elege para estudo três crônicas desse universo, para discutir a relação espacial – a região da colônia italiana – como o elemento definidor da poética autoral. O minicorpus da crônica vale, nesse sentido, para a proposição de um fazer literário mais amplo, qual seja, a obra ficcional desse criador literário. O ensaio apóia-se sobretudo nas proposições de Ricardo Kaliman e George Zarur, no que se refere à questão das regiões culturais e à relação região x nação.

 

O texto de Ronaldo da Silva Machado, enfocando outro autor e outro tempo, o Cyro Martins das décadas de 1930 a 1980, trata da temática do regionalismo, também entendida como a matriz da ficção e da crítica desse autor sul-rio-grandense. Cyro Martins ressimboliza as imagens e as metáforas próprias do regionalismo, em que prevalecem a estaticidade e a monotonia, pelo dinamismo e pela movimentação, analisadas a partir do título de suas narrativas: Campo fora, Estrada nova e Enquanto as águas correm, contrapondo-se a No pago, Querência, etc. Nesse sentido, a narrativa de Cyro Martins rechaça o conservadorismo vigente no regionalismo e busca uma nova significação: a geografia regional não é mais lida como elemento conservador, mas a dinamicidade imposta aos títulos sugere também que a narrativa aciona novos tempos ou pelo menos novas interpretações para esse mesmo espaço.

 

Nacional e nacionalista: um prefácio à nova História da literatura brasileira funciona à guisa de sugestão de paratexto – o prefácio – a uma história literária que se quer renovada. O discurso historiográfico aparece aqui comprometido com um único gênero: a poesia. Nessa nova história, há o estabelecimento de um cânone para os diferentes períodos da vida literária, organizadores segundo a classificação vigente: barroco, arcadismo colonial, romantismo, parnasianismo, simbolismo, pré-modernismo e modernismo, pois, segundo o autor da comunicação, “a alma da literatura é formal clássica porque o espírito brasileiro não é localista nem discriminatório”.

 

Os dois textos seguintes aproximam-se ao tratar de formas tradicionais: de um lado, Sílvio Romero e os Contos populares do Brasil, discute a validade da divisão apresentada pelo autor: contos de origem européia, indígena e africana ou mestiça, para reconhecer a fragilidade da classificação. Segundo a análise feita, não é possível restringir uma narrativa a uma única raça, mas perceber que se estabelece um jogo de culturas entre os contos populares brasileiros, em função das condições étnicas vivenciadas pelo país.

 

A atualidade dos contos tradicionais, a segunda comunicação sobre o assunto, transita pela forma narrativa oral como expressão de liberdade criativa. Ao contrário da narrativa escrita, em que valores estéticos são dominantes, na literatura oral prevalece o anonimato, a liberdade de expressão e a vinculação com a primitividade do homem.

 

Contrabando e memória: reflexões sobre a prática literária no Sul da América Latina trata das relações entre literatura e territorialidade, mas sobre um espaço específico: a Campanha e em relação a uma atividade particular, praticada no Sul do continente latino-americano: o contrabando. Simões Lopes Neto, Aureliano de Figueiredo Pinto e Mário Arregui, no Uruguai, enquadram-se nesses preceitos. Entra na discussão o escritor catarinense Tito Carvalho, que, modelando sua narrativa a Simões Lopes Neto, provoca diferenças com o protótipo no qual se inspira: os campos têm como limite a serra e o além fronteiras é a planície que leva ao mar; o tema do contrabando também é substituído por outro – a procura do tesouro perdido. Apropriando-se, devorando ou se deixando influenciar, a literatura, como a memória, segundo a autora, desconhece limites.

 

O último trabalho, Do real à ficção – representações literárias do episódio da Laguna pelo Visconde de Taunay, discute a produção do engenheiro soldado da guerra do Paraguai, Alfredo de Taunay, cuja participação no evento motiva a escrita de obras diferenciadas: A marcha das forças (diário), A retirada de Laguna (épico), Juca, o tropeiro (ficção) e Memórias (memorialismo). Situados entre verdade e mentira, relato objetivo e ficção, objetividade e subjetividade, os relatos de Taunay ensejam a questão das fronteiras móveis entre os gêneros, ao mesmo tempo em que acionam os escaninhos da memória, ao trazer à baila um episódio da história nacional visto por olhares diferenciados de um mesmo escritor.

 

Restam, agora, algumas observações sobre o material lido e que encaminham para uma conclusão a partir da minha perspectiva de leitura. Em tempos de geografias e de cartografias, é possível, em primeiro lugar, vislumbrar o território de produção dos trabalhos aqui analisados.

Desse conjunto, três textos enfocam a relação entre o território físico e a produção literária: José Clemente e sua matriz regional; Cyro Martins e o espaço do regionalismo; Contrabando e memória: a prática literária no Sul da América Latina.

Emerge também do conjunto uma outra territorialidade: a memória, presente na comunicação sobre Taunay e em Contrabando e memória. De certa forma, há uma memória historiográfica na proposta da escrita de uma nova historiografia, na medida em que se recuperam dados já consolidados pelo discurso historiográfico.

As geografias culturais e literárias desenhadas a partir dessas comunicações sinalizam para a presença de tópicos já consagrados: o regionalismo, a narrativa tradicional, os gêneros literários, a história da literatura, a memória.

Finalmente, as análises efetuadas localizam-se não só em sistemas literários diferenciados, mas também em sistemas convergentes ou aproximados, indicando a marca comparatista das abordagens realizadas e a sua validade para a revelação dos significados da obra literária.