ESTUDOS COMPARADOS: Geografias e Subjetividades
Profª Drª Lúcia Sá Rebello
José Maurício Saldanha Alvarez – Aldeia sórdida e triste: algumas linhas ainda imprecisas sobre o cosmopolitismo no Rio de Janeiro das demolições. 1890-1910
O trabalho Aldeia sórdida e triste: algumas linhas ainda imprecisas sobre o cosmopolitismo no Rio de Janeiro das demolições. 1890-1910, de José Maurício Saldanha Alvarez, da UFF, tece considerações acerca do cosmopolitismo do Rio de Janeiro, estabelecendo relações a partir das reformas urbanísticas do plano Haussmann em Paris, de afirmações de Joaquim Nabuco em Minha formação, de Muniz Sodré, do romance Mocidade morta de Gonzaga Duque, do conto Decadência de Coelho Neto, de Lima Barreto e Derrida em análise, de um texto de Harendt. O texto, apresentando o esforço modernizador do Governo Federal com a demolição da cidade velha e a construção de grandes obras públicas, reflete sobre as conseqüências desta modernização em nível espacial, temporal e social através da escritura de Lima Barreto e João do Rio em um jogo de oposições entre o moderno e o antigo, o velho e o novo.
Rafael Camorlinga Alcaraz – Ficção Literária e Ficção Religiosa – O Encontro Inevitável
O trabalho Ficção Literária e Ficção Religiosa – O Encontro Inevitável, de Rafael Camorlinga Alcaraz, da UFSC, parte da relação do fiat criador e do faciamus criatura (gênesis Capitulo I) e a linguagem, apontando para a questão Religião e Literatura, que se constrói através dos mitos, lendas e cosmogonias. Por outro lado, no que diz respeito à Literatura e Religião, no sentido de “nomear o inominável e visualizar o invisível”, o ser humano, através da linguagem e do imaginário procura explicitar o que está além das fronteiras do conhecido, uma vez que “o circulo da ‘realidade’ sempre esteve imerso em outro mais amplo que o envolve totalmente e cujos limites marcam o do ‘imaginário’”. Em síntese, para o autor, “o tema religioso inspirou inúmeras peças, poemas, romances e filmes; e continua sendo fonte de inspiração para as novas gerações. A teologia por obrigação, a literatura por opção, continuarão haurindo desse garimpo inesgotável o material para as suas criações.” Uma vez que ambas têm como ponto de encontro a Palavra, a convivência é inevitável.
Eleonora Ziller Camenietzki – Geografias do medo
O texto Geografias do medo, de Eleonora Ziller Camenietzki, da UFRJ, analisa o conto A usina atrás do morro, de J.J. Veiga, o qual reflete sobre a chegada dos estrangeiros versus o progresso, a destruição de uma sociedade, de seus valores e de suas crenças através da dominação econômica que penetrava o Brasil da época e com a qual ainda hoje nos debatemos. Cabe referir aqui as palavras de Silviano Santiago, em Por que e para que viaja o europeu? quando diz “foram ainda os europeus que vieram conhecer de perto as nossas ‘velhas riquezas’. Refiro-me, é claro, às constantes viagens de naturalistas (mineralogistas, botânicos, biólogos, etc.) que vinham ao Novo Mundo para que este se tornasse conhecido aos olhos da ciência da época. Lembro de um conto de J.J. Veiga, A usina atrás do morro, onde maliciosamente, a instalação de uma grande fábrica por estrangeiros na zona rural brasileira não deve estar desligada da prévia passagem pelo lugarejo de um naturalista europeu”.(SANTIAGO, Silviano Nas malhas das letras. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1989, pp. 189-205.)
Gizelle Corso – Antonio Tabucchi: a re-significação do espaço pessoano enquanto figura receptiva do texto literário
O trabalho Antonio Tabucchi: a re-significação do espaço pessoano enquanto figura receptiva do texto literário, de Gizelle Corso, analisa a obra Os três últimos dias de Fernando Pessoa, de Tabucchi, cuja história se passa em Lisboa em novembro de 1935, quando o poeta, em seu leito de morte, durante três dias de agonia, recebe a visita de seus heterônimos e acaba, como num delírio, dialogando com estes "fantasmas" que o acompanharam durante toda a sua vida. Segundo Gizelle, “Pessoa re-visita-se, em tempo e espaço, e compreende-se como sendo o verso e o reverso, mesmo sabendo que as possibilidades de multiplicidade são configuradas em tal sinceridade: a de fingir-se verdadeiro e único, comparando-se a um ser indecifrável.” Para a autora, Tabucchi, ao reler Pessoa, eleva-se à condição de leitor/receptor/recriador, reterritorializando o espaço pessoano.
Jair Zandoná – Pessoa em dois paralelos: geração de Orpheu e o Modernismo
Em Pessoa em dois paralelos: geração de Orpheu e o Modernismo, Jair Zandoná retoma a questão da multiplicidade, expansões e fragmentações da obra pessoana. Do ponto de vista do autor, obra, vida e persona pessoanas estão de tal modo entrelaçadas que se torna difícil determinar limites de tempo e espaço em sua obra pois “Pessoa é capaz de enunciar-se – a si e seus outros – de lugares e em tempos diferentes – basta que levemos em conta a postura de um Campos, de um Reis ou de um Caeiro, poetas vários que manifestam situações poéticas múltiplas”.
Anselmo Alós e Fabio Ramos – Mapas de Subjetividade: Rastreando o homoerotismo na obra de Pompéia
Mapas de Subjetividade: Rastreando o homoerotismo na obra de Pompéia, de Anselmo Alós e Fabio Ramos, faz um cruzamento entre análise literária e estudos culturais para denunciar a ideologia heteronormativa que subjaz na cultura ocidental, uma vez que não há espaço na crítica para o sujeito homoerótico enquanto possibilidade identitária legitimada socialmente. A análise está centrada no romance de Raul Pompéia, O Ateneu. Dois aspectos, pelo menos, são particularmente relevantes na configuração que o homoerotismo apresenta em O Ateneu. Em primeiro lugar, o caráter de "proteção" que a relação entre rapazes assume, no ambiente hostil da escola. Através dela, é toda a estrutura social, com suas hierarquias de classe, etnia e gênero, que plasma a relação homoerótica, como mimese degradada das relações masculino-feminino, patrão-empregado, branco-negro, numa sociedade de classes. O homoerotismo torna-se, assim, uma atualização tópica e, ao mesmo tempo, uma caricatura grotesca das relações sociais de poder. Em segundo lugar, cabe sublinhar o quanto a "explicação" do homoerotismo, como resultante de um bloqueio de um processo evolutivo "normal", como se vê no romance, vai ao encontro de muitas das teorias psicológicas que então se forjavam e que haveriam de ter longa fortuna pelo séc. XX afora.
Anselmo Alós – Pensando a Narrativa-Testemunho na América Hispânica: operacionalizando conceitos, efetivando leituras
O trabalho Pensando a Narrativa-Testemunho na América Hispânica: operacionalizando conceitos, efetivando leituras, de Anselmo Alós, ressalta que a literatura testemunho é um gênero problemático no que diz respeito à sua definição. Parte do ponto de vista de Randall sobre as definições do gênero testemunho, tais como, elemento intertextual, relações com outros gêneros de escritura, uso de fontes diretas e qualidade estética para analisar o testemunho de Rigoberta Menchú, índia guatemalteca, transcrito e editado por Elizabeth Burgos. Do ponto de vista do autor, “se a literatura de testemunho toma elementos paratextuais como fundamentais para a produção de sua estrutura narrativa, assim como de elementos referenciais da realidade política da qual emerge, a noção de alta literatura não é suficiente para dar conta de uma exegese textual desses relatos. É necessário que se lance mão de categorias de outras disciplinas, como a História e a Antropologia, além da própria crítica literária, para que possa pensar a literatura não apenas como Belas Letras, mas como cultura, como representação cultural, como capital simbólico intrinsecamente ligado à existência política de social de nossa sociedade. Assim, é necessário ter em mente que, mais do que produzir fruição e resultados estéticos, a literatura (...) produz valores, idéias, sentimentos e estruturas de pensamento que interferem diretamente na vida social”.
Liliam Ramos da Silva – Identidade e alteridade: breve análise do poema Nicolas Guillén de Solano Trindade
O trabalho Identidade e alteridade: breve análise do poema Nicolas Guillén de Solano Trindade, de Liliam Ramos da Silva, aborda a questão da identidade/alteridade na cultura negra. Através do poema de Solano Trindade, um dos nossos admiráveis e autênticos poetas negros, tão raros no Brasil, a autora ressalta que “uma característica do pós-colonial é a emergência de um novo locus de enunciação. A partir deste lugar de enunciação conquistado pela poesia negra, inverte-se a imagem contrária produzida e sustentada por uma longa tradição desde a herança colonial”. Afirma, ainda, que “a característica resistente da poesia de Trindade está presente na medida em que o poeta rompe como os modelos europeus, deixando de sentir-se humilhado, recuperando sua honra, sua memória, passando a orgulhar-se de sua cor e de sua herança cultural negra, mas sem recusar a abertura ao Outro. Esses processos – lentos, mas contínuos – revelam processos de transculturação, dando origem a uma nova cultura americana propriamente dita (nem européia, nem africana) em processo permanente de afirmação e com resultados imprevisíveis”.