ESTUDOS COMPARADOS: Cartografias Culturais

Profª Drª  Léa Masina

 

 

 

 

Os trabalhos objetos deste relato possuem como eixo comum a referência teórico-crítica às cartografias culturais, sendo o espaço a categoria dominante não apenas como representação da realidade, mas como projeção da memória, abolindo as fronteiras entre o fato ocorrido e as evocações da memória coletiva. Nesse sentido, o texto de Paulo Bungart Neto (Assis-UNESP), “Porto Alegre e Rio de Janeiro: Augusto Meyer abolindo fronteiras”, registra a visão do poema e crítico Augusto Meyer cujo olhar reduz as dimensões espaço-temporais na perspectiva singular da evocação.

 

O texto “O espaço e a virtualização das potências simbólicas”, do professor Wladimir Garcia (UFSC) consiste numa reflexão teoria a partir dos conceitos de desterritorialização e espacialização, discutindo, sobretudo, as proposições teóricas de Deleuze - Guattari (1996 . O texto salienta a importância dos movimentos locais como demarcadores de alterações externas pois “a potência ou virtualidade que vai definir este território é um estado de absoluta desterritorialização”. Para o autor, “este movimento tem marcado tudo aquilo que envolve a Literatura no tocante à sua dinâmica espaço-temporal: relação com a tradição, ruptura e vanguardas, formação de cânones e a ética criativa infinita da instituição literária”.Há que salientar a referência do autor à arte barroca como capaz de estabelecer um código pictórico não linear. Também cabe salientar a questão dos territórios virtuais, que “criam condições e possibilidade de um pensamento – acontecimento que, enquanto criação procede por virtualização”.

 

O texto “A geografia performática do subalterno”, da Profª Telma Borges (UFMG) parte da s observações de Partha Chatterjee (Comunidade imaginada por quem?) que prolonga o debate a partir do pensamento de Benedict Anderson. Considerando, com Chatterjee, que “a história parece ter decretado que o mundo pós-colonial seria um perpétuo consumidor da modernidade”, a autora do texto examina a obra “O chão que ela pisa”, de Salman Rushdie que, a seu ver, reencena o mito de Orfeu e Eurídice, problematizando a idéia de nação instaurada no solo fendido e globalizado da contemporaneidade. Para a autora, aí se demonstram as inúmeras possibilidades de perturbação das geografias nacionais,quando é questionada a dádiva européia. Questões teóricas como a condição de subalternidade e a desterritorialização estão presentes nessa reflexão teórica que também refere Deleuze-Guatarri para examinar a questão do rizoma, não casualmente abordada pela Profª Nara Araújo na conferência inaugural deste Colóquio.

 

O texto “A toponímia do deslocamento na crítica contemporânea”, da Profª Maria Isabel Pires (UNB), aproxima o pensamento crítico de Edward Said, em “Reflexões sobre o exílio” (2001), do expresso por Todorov em “O homem desenraizado” (1996). A preocupação da autora concentra-se em diferenciar o exílio circunstancial do compulsório, ressaltando as contribuições da crítica cultural contemporânea cujo eixo se desloca para o contexto.

 

O texto “Geografias Literárias e Culturais face ao Turismo”, da Profª Maria de Lourdes Netto Simões, consiste numa abordagem original a respeito da emergência de espaços heterogêneos de produção, o que obriga à revisão dos conceitos de literatura e cultura. Segundo a autora, a intersecção literatura, cultura, turismo sugere a criação de categorias de leitor, como o leitor-turista e o turista leitor. Citando teóricos como Beatriz Sarlo, Andreas Huyssen, Gumbrecht e outros, o texto sustenta a estratégia de evitar o processo homogeneizador do global mediante a valorização da literatura . Nas suas palavras: “É realizar o comparativismo, em consideração da perspectiva antropológico-social da cultura, sem descurar da especificidade do “valor estético” da literatura no contexto da diversidade cultural, do multiculturalismo e da globalização”. Assim, “a literatura funcionará como elemento de sustentabilidade, quando provocadora do fluxo entre as culturas – local e global – e do consumo cultural pelos turistas (globais) que buscam o diferente (local).”

 

Finalmente, há três textos que diferem do conjunto, eis que não contemplam, teoricamente, cartografias e deslocamentos, mas abordam criticamente textos literários . São eles “O jogo das Cartas ou a estratégia civilizadora de Antonio Vieira”, da Profª Maria Regina Barcelos Bettiol (UFRGS); “Mrs. Dalloway lá e cá: Michael Cunningham dialoga com Virginia Woolf”, da Profª Constança Ritter Ponde (UFRGS); e “A geografia deslocada e a cultura elisabetana na obra de William Shakespeare”, de Ana Maria Kessler Rocha (UFRGS).

 

O texto “O jogo de cartas ou a estratégia civilizatória de Antonio Vieira” aglutina a questão da epistolografia como gênero híbrido e como estratégia civilizatória, ou seja, discursiva do colonialismo português. Para a autora, Vieira é um “geógrafo literário por excelência”, que “soube melhor do que ninguém relatar a luta pelo espaço geográfico e literário”, com destaque à geografia humana, melhor dizendo, à criação de personagens. A autora desconstrói, em sua leitura, conceitos como o de rudeza e o de acidente, esclarecendo, inclusive a questão que envolve a etimologia da palavra território que pode significar “territorium”, “um lugar do qual as pessoas são expulsas pelo medo”. Nesse sentido, a autora submete as estratégias civilizatórias à revisão desconstrutiva e crítica da pós-modernidade.

 

No texto "Mrs. Dalloway lá e cá”, a Profª Constança Ritter Pondé aborda a questão dos distanciamentos e seus significados espaciais no universo literário de Virginia Woolf e Michael Cunningham, e no diálogo que seus textos entretecem. A ampliação espacial e a relação de apropriação que Cunningham realiza com relação à personagem de Woolf é objeto de análise, eis que as categorias de tempo e espaço encontram-se, constritas.A questão das grandes metrópoles está presente, afetando o tempo e tornando-o transitório, arredio, o que evidencia a impossibilidade de universalização da experiência.

 

No texto “A geografia deslocada e a cultura elisabetana na obra de William Sakespeare”, a Profª Ana Maria Kessler Rocha refere a ênfase dada aos estudos culturais inclusive na Inglaterra, tendo como figura central Raymond Williams já nos anos 50 do século XX. Instigada por essa colocação inicial, aborda a obra de Shakespeare a partir da hipótese de que o autor “viveu e produziu sua obra em local e momento histórico privilegiados. A Inglaterra experimentava um período de apogeu político, econômico e cultural que apresenta semelhanças marcantes com a segunda metade do século XX”. Essa proximidade cultural, a despeito da distância temporal, leva-a a equacionar o final da Guerra das Rosas, com a ascensão dos Tudor, ao período após a Segunda Guerra Mundial. A ênfase do seu texto está na relação entre a geografia e a temporalidade na obra de Shakespeare, enfocada a partir de dois exemplos: a localização da ilha de Próspero em “A Tempestade” e a manipulação do tempo em Ricardo III. O deslocamento geográfico, nesse sentido, seria uma estratégia literária.

 

Cabe dizer que as propostas apresentadas, ao contemplar aspectos pontuais em obras de autores ou ao prolongar as reflexões teóricas que circulam nas comunidades discursivas acadêmicas, contribuíram para tornar mais claras as propostas que vem sendo desenvolvidas através dos diferentes grupos de pesquisadores representados neste II Colóquio Sul de Literatura Comparada e Encontro da ABRALIC 2003.