O conceito de identidade, que por tanto tempo estabilizou nosso mundo social, está em crise. Um conjunto de processos reestruturadores que, por conveniência, pode ser agrupado sob o amplo termo globalização ou, de forma mais restrita, mundialização, tem também atingido as identidades culturais que se achavam afirmadas no Ocidente, pelo menos, desde o século XVIII. As conseqüências dessa desestabilização, por certo, são muitas e, não raro, contraditórias entre si, o que não exclui a tentativa de sintetizá-las sob um aspecto importante e facilmente verificável da cultura contemporânea: as identidades nacionais, como as conhecíamos, estão em declínio, mas outras identidades-novas, híbridas, estão tomando seu lugar.
Autores, como Benedict Anderson, Homi Bhabha, entre outros, consideraram já nosso engano ao propormos fronteiras culturais apenas calcados em conceitos oriundos da modernidade. Portanto, ao invés de imaginarmos culturas nacionais unificadas, melhor seria pensá-las, hoje, como decorrentes de dispositivos discursivos que nos acostumaram a representar a diferença na forma de unidade, ou identidade.
Refletir acerca dos discursos que construímos e que nos constroem, e verificar a rota que experimentaram na viagem do moderno ao pós-moderno, dão-nos o indicativo de que a identidade pode ser apre(e)ndida, não apenas como um conceito sociológico ou antropológico em mutação, mas também na expressão de diversas formulações culturais, mais especificamente, as literárias. São esses registros em tempo e espaço diferenciados que nos ajudam a melhor compreender as sociedades em que vivemos e pelas quais transitamos.
Ir de um lugar a outro, projetar-se no tempo e no espaço, deslocar-se: marca das culturas de nossos tempos. Época de pós-utopias, sim, mas nem por isso, furtando-se menos a projetar, a pensar o futuro, a revisar o passado.
O II Colóquio Sul de Literatura Comparada/Encontro ABRALIC 2003, realizado em Porto Alegre, RS, e sediado no Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de 30 de julho a 1º de agosto, buscou justamente expressar essas inquietações e afirmar esses compromissos, ao definir como temática central o mote Geografias Literárias e Culturais: espaços/temporalidades.
Os trabalhos aqui coletados foram os apresentados e debatidos durante o referido Colóquio, acrescentando-se às conferências e painéis, e organizados a partir das contribuições enviadas anteriormente pelos pesquisadores da área de Literatura Comparada- nossos colegas especialistas, professores, alunos de Doutorado e Mestrado. Ao explicitarem os deslocamentos possíveis entre literatura e cultura, questionando aquela fixidez conceptual em favor de configurações mais dinâmicas do pensamento intelectual, assim instaurando instigantes e diferenciadas práticas discursivas, com certeza oportunizaram uma reflexão consistente e atualizada sobre as investigações comparatistas diante das novas relações espaço-temporais.
A seqüência desta publicação segue, pois, o desenvolvimento das discussões observado na mesa de apresentação, privilegiando-se os temas Teoria e Crítica; Interdisciplinaridade; Temporalidades; Geografias e Subjetividades; Cartografias Culturais; Deslocamentos e Migrações.
Afinado à idéia geral que inspirou o evento e que se encontra disseminada nos textos reproduzidos, o presente volume leva o título Estudos Comparados: literatura, cultura, deslocamentos, cuja edição é patrocinada pela ABRALIC, contando com o apoio da Diretoria 2002-2004.
De resto, agradecemos aos autores por partilharem conosco a disposição de enfrentar questões tão complexas que habitam o nosso cotidiano acadêmico, cuja discussão, no entanto, é cada vez mais imprescindível para entender melhor o mundo em que todos vivemos.
Boa leitura!
Lúcia Sá Rebello
Patrícia Lessa Flores da Cunha
Pedro Brum Santos
Organizadores