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Um Diálogo entre Mayombe e a Filosofia Culturalista
Tiago Tondinelli (Universidade Estadual de Londrina)

A - De Mayombe à Mayombe

 

Seguindo a perspectiva da interpretação literária desenvolvida por Manuel Ferreira em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa e Maria Aparecida Santili em Africanidades, percebe-se que o papel principal da literatura angolana presente em um período posterior à segunda guerra foi a "confirmação" do espírito de combate ao domínio ideológico do colonizador.

Diferente, contudo, do mero neo-realismo marxista do início do século XX, a leitura do moderno romance Mayombe nos revela que sua visão da perspectiva "colonizador-colonizado" está além da miopia simplória da luta revolucionária patrocinada pela guerra fria.

O colonialismo está presente no espírito dogmático do domínio feito sem democracia e sem respeito ao pensamento do homem como indivíduo pregador de valores no mundo.

Neste viés, Pepetela estende a "revolução" para além da república e do ambiente de guerrilha, dando uma proximidade muito relevante com a própria constituição interior do homem que tende a trocar sua interação cultural com o próximo por um sentimento de dominação embasada no egoísmo, na inveja e na ganância.

 

B - De Mayombe ao Culturalismo

 

A leitura de Mayombe se dá segundo a revelação do sentimento de colonialismo do saber que, como mostrado no "objeto", se encontra dentro de uma perspectiva que transcende a mera situação histórico-revolucionária de Angola. Pensadores dessa linha, como Said em Imperialismo e Cultura e Bhaba em O Local da Cultura , demonstraram, segundo uma leitura extensiva, que o sentimento de colonialismo continua amordaçando os homens para além do mero momento cultural do país em revolta contra uma colonização política.

A arte em geral e a literatura em particular são responsáveis pela manifestação subjetiva do que se entende por "espírito" anticolonialista que é facilmente notado em Pepetela.

Portanto, é corrente que o principal enfoque do autor se dá em relação a necessidade de retirar-se uma leitura "dogmáica" e "eurocêntrica" do mundo que teve como base o "eu-aperceptivo" de Kant e Husserl.

Kant pensava que o eu racional era composto por elementos além da história e da influência da cultura, assim, a razão seria comum a todos e formada por categorias que absorveriam o mundo de acordo com funções previamente determinadas.

Dessa maneira, o "eu" de hoje seria o mesmo do de amanhã, ou seja, as categorias que compunham o ser de Santo Agostinho em Hipona no quarto século, seriam as mesmas que compõem um astronauta, em órbita da terra, nos dias atuais.

Husserl leu a proposta de Kant e deu maior valor para o objeto: - colocou o sujeito e o objeto em uma dependência inescusável e habitando um universo além das coisas físicas:- modo eidético.

O problema sério é que o "eu" de Kant acabou sendo paradigma para todas as ciências e estudos. Considerava-se, portanto, o "eu" categorial feito segundo os preconceitos de Kant como presente e imutável, comum elemento em todo lugar que, quando contrariado ou posto em "dúvida", devia agir de maneira imperialista e coercitiva.

Assim, o "eu" de Kant tinha como base fundamental, por exemplo, a monogamia cristã, fundada em um imperativo categórico, proposto pela educação protestante exacerbada dada ao filósofo. Se tal preceito fosse posto, por exemplo, em uma sociedade indígena poligâmica, o "eu" kantiano entraria em choque com a cultura regional ocasionando a necessidade de um embate que o mais forte (o europeu) sairia vitorioso.

Essa proposta dogmática também se elevou para a Crítica Literária sendo lida pelos Formalistas Russos:- segundo eles, a análise literária teria que ser feita segundo uma relação (eidética) entre o sujeito e o objeto (livro) desconsiderando elementos históricos ou culturais e matando, naturalmente, a importância dos valores.

A falta de axiologia "regional" e "cultural" acabou justificando um trabalho científico sobre a literatura que transformou o próprio sentido da obra em algo imutável e desconsiderou, totalmente, o aspecto subjetivo e individual tanto do autor e de suas experiências sentimentais, quanto da recepção do sujeito ao ler a obra: - a transformação da literatura em objeto de ciência é um dogmatismo que arrasa o saber literário essencialmente sentimental e subjetivo.

Mayombe é essencialmente o "contra-exemplo" desse tipo de Crítica Literária, pois é um livro que se forma segundo uma infinidade de valores que se entrecruzam de modo sincrético e interdisciplinar.

Gadamer propôs que os preconceitos podem ser negativos, quando atrasam o desenvolvimento do pensamento de forma dogmática, mas podem, também, ser criativos quando assumem o ar de proposta axiológica que é "mais uma das possibilidades" localizada dentro de várias formas de manifestação literária sem a consideração de uma forma imutável.

Pepetela segue algo parecido quando apresenta as falhas de uma tentativa capitalista e, posteriormente, socialista de se estabelecer uma verdade universal destruidora da subjetividade da cada indivíduo.

A apresentação de personagens que se mostram como resultado de uma síntese de valores europeus com perspectivas tribais e culturais africanas é um dos fatores muito fortes que conduzem para a noção de que uma análise "clássica" da obra de Pepetela, ou seja, a mera adequação de seu livro segundo uma teoria literária unívoca, acaba sendo um erro crasso.

Assim, nota-se que Pepetela cria personagens com características conflitantes ao ideário dogmático europeu: - Ondina é composta por uma liberdade de ação e de sentimentos que entra em choque com a proposta da mulher cristã ocidental: passiva e monogâmica; Sem Medo é um revolucionário com grandes doses de melancolia e não se fundamenta no ideal de herói autônomo, forte e destemido; Comissário é o revolucionário audaz que tem problemas de ordem sexual, ou seja, revela uma característica problemática "terrena" e "comum".

A idéia fundamental é de que Mayombe valoriza a cultura regional particular de Angola e nega uma coerção de valores exteriores provenientes da proposta dogmática colonizadora.

Essa defesa da liberdade de aceitar as manifestações culturais múltiplas, negando uma visão dogmática, é aproximada da noção da Escola Filosófica Culturalista que, sob a égide da defesa do elemento nomotético (o homem dando sentido para o mundo), da leitura heurística (diálogo do homem, sem preconceitos, com as inúmeras manifestações culturais) e das invariantes axiológicas (todos têm a potência para produzir cultura, mas, devido à individualidade de cada um, os resultados são múltiplos), renovou o eu a-histórico de Kant e re-interpretou o pensamento fenomenológico de Husserl cujas conseqüências "eidéticas" haviam sido elevadas ao máximo, na crítica literária, pelos formalistas russos.

 

 

C - Do culturalismo ao Culturalismo

 

A filosofia culturalista se identifica com o pensamento de renovação do espírito kantiano e husserliano no sentido de aceitar as influências históricas e culturais e, acima de tudo, respeitar as particularidades regionais de cada povo em vários momentos da história.

Como ocorre com a proposta de Pepetela sendo lida pelo viés de Babha em o Local da Cultura , segue uma tendência de que não existe uma "cultura" oficial que detém a verdade universal e imutável, mas uma pluralidade de perspectivas que ocorrem em tempos culturais diversos com intuito de criar elementos vários.

O homem é posto, pelo culturalismo, em um local privilegiado, pois é ele quem dá sentido para o mundo e garante sua individualidade perante propostas dominadoras como o marxismo exacerbado e o capitalismo selvagem dos dias atuais.

O pensamento básico do culturalismo está exposto na proposta do dito "valor heurístico", ou seja, todos os homens, em qualquer tempo ou lugar, têm as mesmas capacidades de criar valores (invariantes axiológicas), no entanto, cada um cria valores individuais diversos formando "nichos" culturais que são as "filosofias nacionais".

Não existe filosofia nacional superior a outra e qualquer imposição de um pensamento sobre outro, de uma ideologia nacional sobre outra, constitui uma proposta negativista sem mérito algum no sentido universal.

A necessidade de uma "dialógica", aos moldes de Edgar Morin, se faz indispensável: - a velha lógica do mais forte está condenada aos grilhões do imperialismo do saber, passa-se, agora, à presença de um desenvolvimento do saber segundo pressupostos do diálogo entre os homens embasados no bem estar e na defesa da manifestação do pensamento do homem como ser "na" e "da" Natureza.

 

D - O intermezzo de Alfredo Bosi

 

O crítico brasileiro, Alfredo Bosi, em seu livro Ser e Tempo da Poesia , propõe quatro elementos básicos para a leitura de obras literárias de tom "libertário", ou seja, aquelas que, poeticamente falando, determinam o saber humano segundo um viés sentimental e pragmático simultaneamente.

Tais elementos estão presentes tanto em Mayombe , quanto na filosofia culturalista e servem, portanto, como válvulas comunicadoras dessas duas tendências:

Primeiramente, Bosi fala da Lei dos Contrapesos que se define como a relação de causalidade entre uma ação feita no mundo e sua respectiva reação que, muitas vezes, tem caráter de pena ou de prêmio.

Bosi usa o exemplo dos círculos infernais de Dante na Divina Comédia: - cada pecado tinha sua respectiva pena. Essa causalidade não é necessariamente apenas para "punir" ou para "premiar" mas ocorre na gênese do projeto literário: - Pepetela demonstra, em várias partes do romance, que as ações dos guerrilheiros seguiam a reações de cunho natural (como podemos ver com a morte de Sem Medo e sua interação com o mundo natural) ou de natureza moral jurídica humana (sofrimento de todo grupo para a devolução do dinheiro que um dos revolucionários havia roubado de um operário).

A Lei dos Contrapesos é uma proposta dialogal: - ações assumem aspectos valorativos que são individuais de cada personagem que, pelo consenso, resolvem criar uma segunda ação como "conseqüência" ou contra-peso da primeira.

O segundo elemento é a Estética da Libertação que mostra a proposta de Bosi de critica ao utilitarismo moderno a partir de uma leitura da Escola de Frankfurt: - a necessidade de avaliarmos o mundo como um sistema de forças determinadas por uma razão "utilitária" e "instrumental" passa a ser um fundamento da análise literária com intuito de trazer à tona a "participação" da obra literária no mundo real, bem como, sua característica "filtro", ou seja, absorver todas as tendências volitivas do homem como ser produtor de valores.

A terceira indumentária de Bosi é a A-historicidade Artística : - a obra artística, quando assume um local de "resistência" no mundo moderno, se mostra localizada "fora" da leitura da história, no sentido de não ser dogmaticamente determinada como mera conseqüência do fator histórico, nem, por outro lado, assumindo uma função de dominadora e decretadora de valores.

A obra artística é uma produção cultural que se equivale a outras manifestações de sentido como ocorre com a "história": - elas se relacionam, mas não criam graus hierárquicos.

A literatura africana com "expressão em língua portuguesa" se mostra dessa maneira: - a influência do marxismo e do próprio pensamento colonizador são flagrantes, todavia, houve uma "dialética" entre ambos: - tanto a literatura africana foi moldada segundo filosofias exteriores, quanto as mesmas filosofias acabaram sofrendo influências dos fatores regionais e culturais da literatura e do folclore africano.

Assim, podemos dispor uma relação que nega a hierarquia e o dogmatismo quando analisamos a história e a literatura em geral e as "africanas" em particular.

Por fim, Bosi põe às vistas a Mutabilidade Constante de Imagens que segue uma leitura freudiana muito facilmente percebida no culturalismo e em Mayombe .

Segundo Bosi, a literatura de resistência se identifica com uma constante "gama" de imagens que se enroscam e se destroem constantemente devido ao embate entre a ideologia exterior e o sentimento poético e cultural das personagens.

Dá-se, então, a necessidade de analisarmos uma obra desse tipo pelo viés psicanalítico que segue duas propostas: - o deslocamento por substituição e o deslocamento por condensação.

Freud comentou que o homem tende a criar perspectivas cenográficas quando seu "eu" sofre restrições feitas pelo "eu-cultural" ou "super-ego". Sua mente tem que disfarçar seu verdadeiro desejo criando imagens que, aparentemente, não mostram seu intuito verdadeiro.

O deslocamento é essa "troca" e disfarce feito pelo subconsciente para que o consciente não perceba o motivo verdadeiro da problemática. Segundo Freud, existem duas formas de deslocamento: - o primeiro se refere à substituição, ou seja, troca-se o objeto de desejo por outro que tenha "algo" em relação ao primeiro, ou seja, o primeiro pode até estar presente, mas constitui um segundo plano da cena ("teme-se um incêndio e, na cena, percebe-se um carro vermelho sendo conduzido por uma linda mulher vestindo uma blusa com um símbolo dos bombeiros bem pequeno e, em uma primeira vista, imperceptível).

O segundo deslocamento é por condensação: - a mente do sujeito, para evitar o reconhecimento da coisa temida ou desejada, acaba criando um elemento que apresente características híbridas, a coisa temida se junta com outras para ser disfarçada (o sujeito teme a mãe e tem sua neurose provocada por ela, então, ele sonha com um homem que o ajuda a construir uma casa, todavia, o homem usa sapatos femininos iguais ao da mãe e unhas com cores semelhantes).

Essa proposta ocorre nos romances de resistência e em Mayombe: - as personagens se encontram nessa perspectiva mutável contínua: - Sem Medo, constantemente, cria situações de deslocamento em relação ao seu passado, ele o substitui por cenas e posições ideológicas do seu presente comando como se verifica no episódio do bar (pág. 196). Quanto a condensação, esta é percebida quando o mesmo Sem Medo, para consolar o mestiço Teoria, acaba criando a imagem de um "conselheiro" que se formou pela união entre o passado coercitivo e triste de seminarista de Sem Medo e o futuro incerto de guerrilheiro sem atuação definida em um possível imperialismo pós-revolucionário: - o jogo de cenas é presente - a mutabilidade por condensação de imagens entre o passado e o futuro.

 

 

OBJETIVO

 

O objetivo do texto é de demonstrar que o espírito contra-colonialista de Pepetela não se encontra retido em uma manifestação cultural regional que simplesmente acabou com o fim da Guerra Civil.

Na verdade, o colonialismo da alma continua vigente em todo o mundo: - a domesticação do homem pela indústria cultural, a destruição do verdadeiro esclarecimento, a transformação da obra literária em objeto científico, "assexuado" e sem "projeto criativo subjetivo" são algumas das cenas conseqüentes que se passam.

O imperialismo do pensar desenvolve uma função "de crítica literária" feita segundo moldes previamente estipulados pela academia que não pode ser usado com êxito para a análise dos escritos angolanos, principalmente, os de Pepetela.

Pela proposta heurística que coloca o homem, com seus sentimentos e anseios, no centro do projeto de desenvolvimento do pensar negando qualquer tipo de dogmatismo eurocêntrico, acaba sendo uma necessidade inescusável do sujeito quando atrelado ao aspecto libertário do pensamento.

O sincretismo entre culturas não significa a destruição ou a colocação delas em uma escala hierárquica, mas, ao contrário, o desenvolvimento de uma cultura dialogal indispensável para o sucesso da defesa do homem no seu meio.

 

CONCLUSÃO

 

O texto, portanto, desenvolve uma interação dialogal entre a filosofia e a literatura usando como pólos o romance de Pepetela e toda a tradição anticolonialista da literatura africana, e, por outro localizado em outra perspectiva, a noção de cultura e valorização do regionalismo axiológico presente na filosofia neokantiana da Escola de Baden conhecida como Culturalismo.

Essa interação pretende afastar uma leitura "estrutural" de Mayombe , bem como, a transformação desta em mero objeto científico que culmina com a perda de sentimentos e valores de cunho subjetivo fundamentais para a perpetuação do romance na perspectiva do mundo como um "livro a ser lido"...