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Um herói negro dos gibis - Cage
Thomaz Pereira de Amorim Neto (UERJ)

O presente trabalho tem como objetivo investigar a trajetória do primeiro herói de Quadrinhos afro-americano, Luke Cage. Para isso, faremos breves comentários sobre seus antecessores, para que possamos trilhar a problemática existente nos anos que precederam sua criação. Analisaremos, posteriormente a situação de parceiro de herói em que ele se encontrou durante alguns anos, para, logo após, fazermos uma análise da série Cage lançada em 2002, pela equipe editorial comandada por Joe Quesada.

 

Antecessores

Antes do aparecimento de Luke Cage, dois outros personagens figuraram como representantes da África nas Histórias em Quadrinhos de super-heróis: Pantera Negra e Falcão.

Tchalla, ou Pantera Negra é uma criação de 1966, de Stan Lee e Jack Kirby. Este personagem segue uma espécie de clichê: ele é um rei de uma nação na África (Wakanda), detentora da maior reserva mundial de um metal raro, só existente nos Quadrinhos (Vibranium, um metal capaz de absorver energia sonora e transformar sua própria densidade no processo). Falcão, ou Sam Wilson, é um afro-americano bem-sucedido. Criado em 1969, por Stan Lee e Gene Colan, este advogado de classe média, percorre as ruas de Nova York ao lado de seu "tutor", Capitão América, combatendo o crime. Nota-se, desde já, que a entrada de personagens africanos e afro-americanos nos comics de supe-heróis passou em sua primeira fase por um problema: foram relegados ao segundo escalão dos heróis. O Pantera Negra, além de atuar nos Vingadores, mostrava todo o exotismo da África em suas aventuras, enquanto que Capitão América e seu parceiro salvavam o mundo, numa espécie de reedição da parceria já encontrada nas aventuras de Mandrake.

Porém, devemos ressaltar que a entrada tardia da Afro-América nos comics de super-heróis é obra do Governo dos Estados Unidos. Após a publicação de Seduction of the Innocent , de Fredric Wertham, várias comissões do Senado Americano iniciaram investigações sobre possíveis tendências subversivas nos Quadrinhos 1, um relatório foi enviado às principais editoras de Quadrinhos (logo após a fundação do Comics Code Authority ) com alguns "aconselhamentos", dentre eles estava a indagação sobre a não-existência de heróis de outras raças nas aventuras de super-heróis 2.

Assim, a Marvel Comics (editora dos personagens acima apresentados e foco de atenção deste trabalho) rapidamente desenvolveu projetos para a criação de heróis negros, japoneses, latinos, etc.

 

A criação de Cage e o problema da parceria

Em 1972, Archie Goodwin e George Tuska, ainda sob a recomendação do protocolo da Marvel de criação de personagens, criam Luke Cage, o herói de aluguel. O personagem, na verdade, não apresentou grande popularidade e sua primeira saga durou cinco anos (1972-1977). Entretanto, vários outros artistas aproveitaram-se do personagens, tornando-o uma espécie de "coadjuvante perpétuo" - Luke Cage aparecia em várias aventuras de outros personagens, como por exemplo Homem-Aranha (1973), Capitão América (1973), etc. Sobre a série, pouco temos a dizer, o importante é o fato de se passar na baixa Manhattan e apresentar uma América basicamente formada por negros, tanto no poder quanto na criminalidade. Talvez a série não tenha feito sucesso exatamente pelo fato de tudo ser completamente irreal, não existiam brancos e a questão do racismo não era discutida em hipótese alguma. Em 1977, para finalizar a série é apresentado um herói branco que iria se tornar o tutor de Luke Cage, Punho de Ferro, uma espécie de herói da moda, pois seus únicos poderes eram o Kung-Fu (muito próprio da década de 1970 e início de 1980) e um soco poderoso.

A situação aparentemente estaria encerrada. Luke Cage agora poderia "aprender" a se tornar um super-herói graças a seu tutor branco... O problema é que a idéia era tão ruim quanto um mundo somente com negros, pois a dupla demonstrou-se extremamente impopular, apesar da popularidade dos personagens em histórias solo. A dupla, todavia, somente se desfaz em 1996, com a seguinte discussão:

 

 

Figura 1

Percebe-se claramente que esta discussão vai além da própria história que está sendo contada, na verdade, esta é uma discussão iniciada pela Black Comic Association , na Califórnia, quando ao relatar a produção de comics dos últimos 20 anos taxaram Luke Cage como uma espécie de herói estereotipado, não havendo, portanto, importância alguma para este personagem no atual desenvolvimento dos Quadrinhos 3. O relatório mencionado data de 2000. Ou seja, abarca a produção relativa ao personagem até a referida citação em 1996 4.

Assim, a situação deste herói era um real paradoxo, pois, na tentativa de se apresentar como um representante dos afro-descendentes, até 1996 a única representatividade que ele conseguira foi uma espécie de espelhamento da situação de certas camadas minoritárias da sociedade americana quando relacionadas ao imaginário.

 

Cage (2002) - a reviravolta

Com a entrada em 2000 de Joe Quesada ao cargo de editor-chefe da Marvel Comics, toda uma nova estrutura foi montada. Até hoje no cargo, Joe Quesada é conhecido como um empreendedor. Em apenas 2 anos, ele conseguiu elevar as vendas dos principais títulos da concorrente (Dc Comics), além de tornar o universo Marvel mais interessante à crítica especializada. Seu método de trabalho é simples: ousadia e carta-branca a artistas que já estão desenvolvendo seus trabalho. Prova disso é o recente rompimento da Marvel com o Comics Code Authority .

O que foi apresentado anteriormente tem relação com Luke Cage? Sim, total relação. Em 2002, Joe Quesada contratou o desenhista Richard Corben para, junto com Brian Azarello iniciarem o projeto de revitalização do personagem.

Em abril de 2002 chegava às lojas americanas Cage , uma mini-série em 5 volumes, fruto do esforço de revitalização anteriormente citado. A obra ainda não foi comentada pela Black Comic Association , contudo, apresentaremos as inovações criadas pela dupla criativa. Comecemos então com os desenhos:

 


Figura 2

 

Nota-se, desde já, que o uniforme (característica indispensável para o reconhecimento do personagem) foi completamente substituído por uma roupa comum, quase um clichê de caracterização. Porém, neste caso, o clichê revigora-se: a maior relação de Cage sempre foi com a década de 1970, como podemos ver na Figura 1, seu uniforme expressa esta época, com várias características próprias (correntes, pulseras, adornos para cabeça, a cor amarela, etc.). Nesta nova concepção, Cage parece ter evoluído, a contra-gosto dos comentários de Umberto Eco sobre os super-heróis 5.

Outra inovação feita pela dupla deu-se no campo da linguagem. Cage e vários personagens da trama falam em black english , um registro de linguagem carregado em gírias e calão, permitindo, assim, uma maior dramaticidade em certas cenas, pois a componente realista estava garantida. Isso, é claro, tornou-se um problema na versão traduzida para o Brasil, mas a escolha feita pela editora Panini Comics foi a apresentação de uma espécie de falar próprio de São Paulo, ou seja, na tradução brasileira foi usado o falar da periferia. Vejamos:

 

 

Figura 3

Esta nova apresentação de Cage, não mais como um super-herói, mas como uma espécie de capanga do bairro, aceitando negociar com os dois principais traficantes do local e ainda provocando a comunidade de adolescentes, é o assunto tratado na trama. Cage vende-se pelo melhor preço quatro vezes na trama, enquanto que uma asiática, a qual mantém relações, não entende o plano do personagem. A narrativa segue um clima de tensão permanente, pois Cage, ao contrário da maioria dos heróis, não está combatendo o "mal", mas provocando a cada atitude uma pressão subjetiva em todas as partes envolvidas. Com isso, os dois traficantes, bem como a gang local percebem o quão pequenos são se relativizados com o todo de Nova York.

Como toda a série se passa num bairro, Corben abusa de imagens paisagísticas do local, bastando escolher uma, ao acaso, para que possamos tecer alguns comentários:

 

 

Figura 4

Apesar de não haver uma indicação de qual bairro seria - temos somente a indicação de pertencer a Nova York - vemos que trata-se de um típico bairro de periferia. Construções inacabadas, ruas largas sem sinalização, pessoas em sua vida cotidiana, um dia comum. Esta, na verdade, é uma cena rara nos Quadrinhos, a ambientação normalmente é feita momentos antes de um período de crise, onde os heróis são necessários. Aqui, a cena posterior mostra Cage tomando uma cerveja num bar, não ocorre ação, trata-se, simplesmente do início da trama. Em outras cenas paisagísticas, o mesmo processo ocorre, Cage, quando aparece, somente dialoga com outros personagens, na maioria dos casos com sua companheira asiática, ora no bar, ora em sua casa. Cage se apresenta, portanto, a parte do procedimento normal de um herói: não está interessado em salvar o mundo, tampouco está preocupado com as grandes mazelas sociais, sua única preocupação é resolver a situação de um bairro, para que ele possa instalar-se ali.

O clima de tensão mencionado anteriormente, chega a tal ponto que os dois chefões do bairro entram em disputa aberta pelo território. Cage está no meio deles, ora de um lado, ora de outro, minando suas forças, desarticulando o esquema de proteção e fazendo com que os dois chefões tenham de resolver suas diferenças e seu problema com Cage eles mesmos. Com isso, chegamos a cena final da série, na verdade um final que surpreende pela sua importância no conhecimento da trajetória do herói ao longo dos anos. Quase como uma espécie de meta-texto, as legendas explicam a trajetória de Cage até a situação final em que há o nascimento de um novo personagem. Vejamos:

 

 


Figura 5

 

Conclusão

Luke Cage, desde sua criação em 1972, sofreu com o estigma do estereótipo. Primeiramente, com o estereótipo dos heróis dos Quadrinhos, seres quase divinos que deveriam defender um mundo maniqueísta, sempre do lado bom da história. Logo após, foi taxado como um personagem absolutamente marcado pela década de 1970, com sua caracterização sempre permanecendo a mesma, com seus referências da disco . Posteriormente, foi relacionado ao problema de sua negritude, onde chegaram à conclusão que este personagem não poderia ser negro, ao menos um estereótipo do que acontecera em alguns casos com os afro-americanos na década de 1970.

Entretanto, a série Cage , apresentada neste trabalho, demonstra o potencial do personagem. Cage, agora, não é mais um estereótipo, tornou-se um personagem autônomo que pode aparecer em outras histórias sem perder o brilho iniciado pela série de Corben e Azzarello, pois suas razões são práticas, quase mesquinhas, mas atingem várias camadas do local onde vive. Assim, Cage não é um herói comum, mas um herói problemático, disposto a atingir o seu objetivo de qualquer maneira, não tendo mais alguma relação com o idelismo naquela discussão com Punho de Ferro em 1996.

Cage é uma história de sobrevivência, uma história que representa o ideal heróico criticamente, não possibilitando que a "luz" de determinados personagens superiores possam habitar. Cage torna-se, portanto, humano, mas mais do que isso torna-se um personagem o qual ninguém terá "culhão" para chamá-lo de "filho da puta", talvez ainda possam chamá-lo de "herói de aluguel", "herói de aço" ou "porra, até de 'à prova de balas'. Isso somente novas séries e aparições poderão demonstrar.

 

Bibliografia

CHRISTENSEN, William e SEIFERT, Mark. "Anos Terríveis". In. Wizard - o guia dos Quadrinhos . São Paulo, número 7, fev. 1997, 42-43.

ECO, Umberto. "O mito do Superman". In. Apocalípticos e Integrados . 5 ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2000; 239-279.

WALTERS, Ronald W. "The strategy of political integration". In. Black Presidential politics in America: A strategic approach . New York, 1988; 52-84.

 

 

Gibigrafia:

A Teia do Aranha . Número 107. São Paulo: Abril Jovem, 1998.

Heróis da TV . Números 15, 65, 78, 79. São Paulo: Abril Jovem, 1983-1986.

Marvel Max . Números 1 a 5. São Paulo: Panini Comics, 2004.

Superaventuras Marvel . Número 57. São Paulo: Abril Jovem, 1988.

 

Internet

ALLEN, Eddie. "WitchDoctor: A comic book for us". In. www.africana.com , 1998

 

Notas:

WALTERS, Ronald W. "The strategy of political integration". In. Black Presidential politics in America: A strategic approach . New York, 1988; 52-84.

CHRISTENSEN, William e SEIFERT, Mark. "Anos Terríveis". In. Wizard - o guia dos Quadrinhos . São Paulo, número 7, fev. 1997, 42-43.

ALLEN, Eddie. "WitchDoctor: A comic book for us". In. www.africana.com

Em realidade, Cage aparecerá novamente, mas ainda continuará sob a mesma discussão com o Punho de Ferro ou participando como personagem secundário de outro herói (sua última aparição, anterior a série Cage , é em uma história do Justiceiro, como coadjuvante).

ECO, Umberto. "O mito do Superman". In. Apocalípticos e Integrados . 5 ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2000; 239-279.