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O Sétimo juramento: memória como tragédia
Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva (UFF)
O passado histórico, tanto quanto a ordem da natureza, não tem sentido em si mesmo nem segrega sozinho qualquer valor; num e noutro caso, sentido e valor lhes vêm dos sujeitos humanos que os interrogam e avaliam. O mesmo fato (...) pode receber interpretações opostas e servir de justificação a políticas que se combatem mutuamente
(T. Todorov 1)
Como outros textos de Paulina Chiziane, O sétimo juramento 2, publicado em 2000, é uma obra que, num primeiro momento, pode produzir um afastamento em alguns leitores não familiarizados com as marcas da tradição oral. Na verdade, mesmo os familiarizados não estão livres de uma certa resistência, diante do que críticos como Ana Mafalda Leite 3 denominam de desequilíbrio narrativo. Não resta dúvida que o texto pode provocar o afastamento pela profusão de lugares-comuns ("No mundo do poder patriarcal dizem que o homem é deus" 4 ou "Ninguém consegue compreender os segredos da alma" 5); pelas metáforas de gosto duvidoso ("Um soluço terrível sai-lhe do âmago porque sente que se esvai o sopro de vida" 6); pelo exagero melodramático ("Suspira: Deus do céu, acuda-me!" 7); pelas interrupções bruscas no ritmo da narrativa (do geral passa para o particular sem mais nem menos 8); pela explicitação de situações que nos parecem óbvias (excesso de explicações); enfim, pelo aparente desperdício textual na estruturação de uma história que, em princípio, poderia ser reduzida à metade ou a um terço de seu tamanho. Até mesmo a imprecisão na determinação da voz do narrador gera desconforto, do momento em que sua indefinição parece acidental e não proposital, sugerindo desconhecimento de técnicas literárias. Entretanto, esses mesmos elementos vão se revelando sedutores e, sem nos darmos conta, tornamo-nos co-participantes do texto, que retrata minuciosamente rituais e práticas religiosas animistas, costumes e valores culturais, ao longo dos acontecimentos que se desenrolam, proporcionando-nos uma verdadeira aula sobre as culturas ancestrais de Moçambique 9, evidenciando, ao mesmo tempo, o processo de ocidentalização por elas sofrido e o desconhecimento profundo que paira em volta dessas culturas em função da sua clandestinidade.
A narrativa de Paulina leva-nos não apenas a olhar para uma cultura desconhecida, mas a iniciarmo-nos nela, envolvendo-nos criticamente, na medida em que denuncia as contradições dos comportamentos sociais. A discussão sobre tais contradições, por sinal, será uma constante em outras narrativas. Não só em Niketche 10, sua obra seguinte, ela aparecerá na visão da poligamia na cultura moçambicana; mas também em Balada do amor ao vento 11 veremos o enfoque das contradições na abordagem das relações homem/mulher.
Ao lado de outros grandes nomes da literatura africana, a escritora moçambicana vem tornando familiares ao leitor não-africano palavras como lobolo, kutchinga, nkosikasi, sem falar na divulgação dos nomes das diversas etnias dos povos banto de Moçambique citados em suas narrativas: ndaus, ngunis, changanas, tsongas, chope...
Esse procedimento didático, entretanto, não é suficiente para explicar a atração que as obras de Chiziane têm exercido entre os leitores 12. Nesse sentido, diversos outros aspectos poderiam ainda ser levantados. Entre eles, a abordagem de temas candentes como corrupção, feitiçaria, sexualidade e incesto; assuntos que encontram bastante apelo e impacto no público em geral.
Na tentativa de discutir o interesse crescente que suas obras vêm despertando, nos mais diversos meios, proponho uma breve abordagem em torno das relações que O sétimo juramento estabelece entre a memória e a tragédia. Tome-se aqui o trágico no sentido que Todorov empresta a esta categoria, quando procura examinar as diversas formas de rememorar o passado. Para Todorov 13, o termo tragédia designa não apenas sofrimento e aflição, não apenas a ausência do bem, mas a impossibilidade do bem: qualquer que seja o desenlace escolhido, ele gera lágrimas e morte. Numa visão trágica da história o bem e o mal se enfrentam, mas nunca encarnam em estado puro. Daí não ser possível identificarmo-nos com um dos lados da disputa.
A narrativa conta a história de Davi, um ex-guerrilheiro das lutas de independência que se tornou presidente de uma estatal moçambicana. A empresa atravessa um período de crise: os pagamentos dos operários estão atrasados há vários meses e vive-se uma ameaça de greve. Além das dificuldades existentes, há os desvios de verbas dos diretores e um clima de total desconfiança instalado entre operários e patrões e entre os próprios dirigentes da empresa que não se respeitam. Diante da possibilidade de perder a posição e os privilégios que adquiriu, Davi termina por procurar auxílio na magia negra e estabelece uma série de pactos e juramentos, entre os quais sacrificar seus familiares e dormir com a própria filha. Tais práticas terminam levando-o a manter e mesmo aumentar o seu poder financeiro e a sua capacidade de controlar a situação difícil na fábrica. Até o momento em que o quadro se reverte: Davi perde o poder e é acuado pelo povo, precipitando-se na queda e na desgraça. Enquanto isso, sua mulher, Vera, por sua vez, também busca ajuda de um curandeiro, em função do comportamento estranho de seu filho, Clemente, constantemente assombrado por pesadelos e visões. Depois de descobrir sua ligação com os espíritos ancestrais dos ngunis - representantes das forças do bem- , Clemente se inicia nos estudos de magia, passando a conhecer melhor seus poderes e tornando-se mais capaz de proteger sua família contra seu próprio pai Davi, que é guiado pelas forças do mal, pelos espíritos ndau .
O desejo de poder é um elemento primordial para o desenvolvimento das ações do protagonista Davi, levando-o a se envolver numa série de atos escusos que o conduzem à morte. Morte e destruição são, por sinal, o saldo dessa narrativa na qual, tal como na tragédia, não podemos simplesmente caracterizar os personagens como heróis ou vilões. Por mais que suas ações se configurem como "do mal" ou "do bem", interessa-nos aqui a caracterização da visão trágica da história que impede tal polarização. Vale determo-nos, portanto, no modo como a memória é estruturada para articular tal visão.
Logo nos primeiros capítulos, a voz do narrador nos dá conta de que o passado é fonte de angústia e depressão para Davi. O clima de desencanto em relação ao presente se instala:
O passado volta a refletir-se com novas roupagens. Vai à janela e espreita o sol. A madrugada está chuvosa e triste. O vento arrasta nuvens densas que trazem à alma medos inimagináveis. Pensamentos maus transbordam como uma fonte de águas turvas. O corpo gordo fica abatido em segundos. 14
Essa angústia, proveniente do passado, como ficamos sabendo, advém do contraste entre passado e presente:
Imagens de um passado de glória correm na mente como fotografias. Treinos militares e guerra contra o colonialismo. Sabotagem. Comícios. Discurso (...) Euforia sonhos, convicções. Muita amizade e solidariedade (...) Naquele tempo tinha o coração do tamanho do povo. Agora a palavra povo é um simples número, sem idade nem sexo (...) Apenas estatística. 15
Tal desagrado de Davi, em relação ao seu passado não é apenas patente, mas é reforçado em outras partes da narrativa: "Volta para a cama, enterra a cabeça na almofada disposto a esquecer os maus pensamentos." 16 Até o momento em que essa crise com a memória incômoda dos dias de guerrilheiro passa, e o passado, aparentemente, deixa de assombrar Davi. Aos poucos, o passado vai se acomodando, na medida em que o protagonista vai construindo uma justificativa para os seus atos: sua traição dos ideais da revolução, sua transformação; seus desvios de verba, a exploração crescente dos operários, o atraso dos pagamentos:
"Davi fuma e pensa. Pensa e fuma. O comportamento popular é igual em todas as partes do mundo. Estes operários rebelaram-se contra a administração colonial. Hoje, rebelam-se contra os libertadores da pátria, ingratidão típica dos filhos de Israel. O povo é vento que corre para qualquer lado (...) Dez anos durou a luta de independência para libertar a terra. Hoje, o país tem sua identidade, liberdade, estatuto. Alguns operários chegam a afirmar que a vida era melhor no tempo dos colonos. Mas a culpa maior cabe a nós, militantes da utopia, que prometemos um mundo pleno de igualdade. De onde fomos buscar semelhante loucura, se a igualdade não existe nem no reino das formigas?" 17
Para a mulher de Davi, Vera, o rememorar traz, igualmente, a sensação incômoda do contraste com o presente. Quando desperta, também como Davi, no início da narrativa, ela recorda sua infância pobre a partir de um quadro de miséria que percebe da janela. Por instantes, ela se comove profundamente, mas logo afasta a tristeza pensando na vida confortável que leva com o marido.
Nessa primeira parte da narrativa, o voltar no tempo, promovido pelas reminiscências das personagens, mostra não só o conflito passado/presente, mas também o fosso, o abismo que se criou no presente em relação às tradições ancestrais. Vera, por exemplo, a partir de um ataque experimentado por seu filho, no momento em que cai uma tempestade, recorda-se das histórias de sua aldeia: "Vera é percorrida por um arrepio que lhe causa um forte tremor. Agoniada, tenta juntar retalhos da vida Receios antigos sobem à superfície e ganham forma e o futuro desenha-se nublado" 18 E pensa: "Nada têm de especial as fobias do meu Clemente (...) Faz uma profissão de fé e declara: creio apenas nos vivos, nos mortos não." 19 A lembrança da cultura de origem parece, agora, estranha aos olhos dos personagens, inspirando-lhes temor e distanciamento.
As tentativas da sogra em transmitir as histórias e experiências do passado foram constantemente desprezadas. Só foram levadas em conta a partir do momento em que Vera descobriu que seu filho precisava de um curandeiro para se ver livre do passado. Tal busca, por sinal, leva Vera a reatar com as antigas tradições de sua aldeia na infância e, ao mesmo tempo, inicia o leitor no mundo da cultura ancestral.
Se o desligamento das antigas tradições surge, muitas vezes, como algo a ser lamentado, isso não significa que a cultura ancestral esteja livre de críticas ou seja sempre louvada na narrativa. Muito pelo contrário. Diversas vezes, ela é criticada e questionada pela voz do narrador, mostrando-nos que o passado e as tradições não devem ser vistos como essencialmente bons ou maus:
A tradição bantu instrumentaliza o homem e faz dele combatente do nada. Trabalha duro e constrói. Na hora em que o infortúnio bate à porta e ele fecha os olhos para o todo e sempre, a família mais chegada, invocando a tradição, assalta-lhe e disputa os bens. 20
Ainda na primeira parte da narrativa, o passado revela-se, também, como um trauma a ser repetido. Mudam contudo os papéis: a vítima passa ao papel do opressor. Mais uma faceta da visão trágica da história: o ex-guerrilheiro ocupa agora lugar do antigo colono: "Hoje ele é patrão e sente que vai ser escorraçado do poder tal como fez aos colonos, pelas mesmas razões, pelas mesmas acções. Com os mesmos cantos e gritos.(...)Com a mesma fúria do povo oprimido (...)" 21. A história aparece, aqui, como repetição, como reiteração do trauma, mostrando-nos o quanto a memória pode funcionar de forma conservadora.
O presente, por sua vez, parece ser uma reiteração do passado em mais de uma instância. Primeiramente, como já dissemos, porque o comportamento de Davi reduplica o comportamento do colonizador: a antiga vítima que repete o comportamento do algoz 22, evidenciando como a memória da violência passada muitas vezes desencadeia e justifica a violência presente. Em outro aspecto, a ligação de Davi com a feitiçaria repete, também, o passado de sua própria família: seu pai, igualmente, sacrificou e violentou os irmãos de Davi em nome do poder.
Nesta última situação, contudo, não se trata da repetição do trauma, pois Davi, aparentemente, desconhece o pacto que seu pai fizera no passado com a magia negra. Portanto, não repete o passado, no plano pessoal e familiar, do mesmo modo como repetiu o comportamento do colonizador, seu antigo opressor. Tal situação leva-nos a confirmar que a busca de Davi pelas forças da magia negra liga-se, de fato, ao destino traçado pelos ancestrais.
Tal destino, ainda que irrevogável, pode, contudo, ser questionado, pois a mãe de Davi, embora tenha aceitado o pacto que seu marido fez, no passado, recusa-se a perpetuá-lo, no presente, e nega-se a acobertar os crimes do filho. Procura, no presente, apoiar a nora, que agora sofre o que ela sofrera no passado. Conversa com a nora e denuncia o ciclo de violência que se estabeleceu pelas tradições ancestrais:
"Sou feiticeira por casamento. Pensava que já não era. Agarrei-me à Igreja como bóia de salvação... Ai, deuses, ai, mortos! Será que desta linhagem não escapará nenhuma geração? As dívidas são antigas, não foram feitas por eles... As promessas não cumpridas são dos antepassados e não destas crianças, coitadinhas. Por que os filhos têm que pagar pelos erros dos progenitores." 23
A força do passado, da memória ancestral, aparece, portanto, como um imenso poder, que é respaldado pela voz dos mais velhos. É a sogra quem anuncia a Vera que os destinos de Davi e de Clemente já haviam sido determinados pelos antepassados, que a recusa de Davi em aceitar o seu nome banto de nada valeria para o desejo dos antepassados. Do mesmo modo, o destino de Clemente como salvador da família também já fora estabelecido 24 independente de sua vontade. Nada impediu, contudo, que pactos feitos no passado fossem rompidos por alguns personagens dispostos a mudar a história.
Por fim, é importante ressaltar o modo como a narrativa busca relacionar a memória dos atos de barbárie cometidos no mundo, apontando aspectos em comum entre os vários registros de violência da história, sem cair numa generalização ou banalização 25 dos acontecimentos de violência ou, no extremo oposto, numa discriminação dos episódios relacionados ao espaço africano. Ainda na esteira desse pensamento, observe-se, também, que não há polarização maniqueísta na construção dos personagens, embora eles se alinhem em campos opostos: os ngunis e os ndaus representam, respectivamente, heróis e vilões, mas os personagens que se alinham a cada um dos lados personificam a própria contradição. Davi é extremamente contraditório em suas atitudes e o próprio Makhulu Mamba, o feiticeiro-mor, que entregou sete de seus filhos em sacrifício, chora e comove-se 26 quando se recorda dos próprios crimes do passado.
As instituições, por sua vez, revelam igualmente seu caráter paradoxal e ambivalente, distante do estabelecimento de qualquer dicotomia: a feitiçaria é a escola dos que desejam o poder acima de tudo, mas é também um espaço para o conhecimento e para a ajuda ao próximo; o mesmo acontece em relação ao Cristianismo.
Tal pluralidade de significados é a tônica dessa narrativa, na qual a memória, como se mostrou, tanto pode ser invocada para justificar o egoísmo e a violência, num processo de deturpação dos fatos passados, como pode ser invocada para esclarecer e mudar o presente.
O diálogo com a memória processa-se, assim, a partir de uma visão extremamente matizada, não apenas em relação ao seu valor, mas também em relação aos seus múltiplos papéis: a memória é fundamental como afirmação de identidade, como justificação para o presente, como instância de conscientização; mas em nenhum momento a memória é sacralizada como uma instância privilegiada de conhecimento. Pelo contrário, o texto nos alerta para os perigos de o passado impedir-nos de ver o presente. Muitas vezes, por estarmos demasiado presos a determinados eventos da história, tornamo-nos distantes da melhor perspectiva e podemos ficar cegos em relação ao que nos cerca no presente.
Ainda que a memória ancestral seja determinante para o desfecho da narrativa, parece estar clara a noção de que "o bom uso da memória é aquele que serve a uma causa justa e não apenas aquele que se contenta em reproduzir o passado" 27. Daí ser a memória, antes de tudo, importante como um questionamento do passado e não apenas um resgate da história. Afinal, não resta dúvida, como nos mostra Todorov, que qualquer um deve ter a liberdade para se recordar da forma que quiser, mas também não resta dúvida de que algumas utilizações da memória são mais nobres do que outras, na medida em que a memória pode desempenhar uma função emancipadora ou conservadora. Nessa narrativa, a memória e a história aproximam-se da primeira função, pois são exploradas em suas múltiplas facetas, porque são consideradas em seu sentido trágico profundo e, por isso mesmo, extremamente rico.
1 Tzvetan Todorov, Memória do mal, tentação do bem. Indagações sobre o século XX , São Paulo: ARX, 2003, p. 207.
2 Paulina Chiziane, O sétimo juramento, Lisboa: Caminho, 2000.
3 Ana Mafalda Leite . Literaturas africanas e formulações pós-coloniais , Maputo: Imprensa Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, 2003, p. 74.
4 O Sétimo juramento , p. 36
5 O Sétimo juramento , p. 45.
6 O Sétimo juramento , p. 40.
7 O Sétimo juramento , p. 40.
8 Exemplo no início da página 47 de O Sétimo juramento.
9 Como já observou também Ana Mafalda Leite na referida obra acima
10 Paulina Chiziane, Niketche, uma história de poligamia , Lisboa: Caminho, 2002.
11 Paulina Chiziane , Balada de amor ao vento . Lisboa: Caminho, 2003.
12 Outros autores africanos já lançaram mão de procedimentos semelhantes, sem, contudo, granjear a mesma atração.
13 Tzvetan. Todorov, Memória do mal, tentação do bem. Indagações sobre o século XX . São Paulo: ARX, 2003, p. 171
14 O sétimo juramento , p. 14
15 O sétimo juramento , p. 15
16 O sétimo juramento , p. 15
17 O Sétimo juramento, p. 32 e 33.
18 O Sétimo juramento , p. 25.
19 O Sétimo juramento , p. 26
20 O Sétimo juramento , p. 37.
21 O Sétimo juramento , p. 32.
22 Davi encarna o clássico comportamento dos torturados que se tornam torturadores. Esse é o mecanismo da vingança de que fala ainda Todorov, chamando a nossa atenção para a quase nula diferença que a nossa sociedade estabelece entre justiça e vingança.
23 O Sétimo juramento , p. 196.
24 O Sétimo juramento , p. 56.
25 Ver o capítulo "Nem sacralizar nem banalizar", na p. 189 da referida obra de Todorov, no qual o autor dicute essa questão.
27 Tzvetan Todorov, Memória do mal, tentação do bem , p. 204.