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Tradução e cânones literários - em foco, a literatura de escritoras de origem afro
Maria Aparecida Andrade Salgueiro (UERJ)

Mais do que simples intérpretes, como quer a voz corrente muitas vezes, na época contemporânea, os tradutores, ao traduzir obras de autoras de origem afro, cumprem papel de destaque ao mediar diferentes povos e culturas, excluídos e reconhecidos, contribuindo de forma decisiva para a divulgação de identidades múltiplas em um mundo fragmentado, mas que se diz globalizado. Enquanto que, em alguns casos, a tradução ajuda a projetar uma literatura que aos poucos, porém solidamente, vai se estruturando, como foi / é o caso da literatura afro-americana feminina contemporânea, que aumentou seu espaço de projeção após o Nobel de Literatura, recebido por Toni Morrison em 1993, em outros casos, ao projetar em língua estrangeira autoras ainda pouco conhecidas em sua língua materna, como é o caso das afro-brasileiras, a tradução contribui também de forma marcante para colaborar com uma mais rápida revisão do cânone no país de origem das autoras. É a partir de fundamentação teórica sólida e com base em um corpus específico de exemplos e citações, que o presente trabalho pretende apresentar etapa de Pesquisa que busca contribuir com este tipo de abordagem para ampliar a discussão de temas cada vez mais recorrentes na cultura e na literatura.

Obras como a informativa e já traduzida Os Tradutores na História , (DELISLE, J. e WOODSWORTH, J., 1998), de muitos autores, originários dos vários continentes, vêm contribuindo para que se dissemine imagem dos tradutores, ao levantar algumas de suas diferentes realizações ao longo da história da civilização, muitas delas emocionantes e decisivas, tais como o desenvolvimento das línguas e literaturas nacionais, a disseminação do saber, a mediação entre povos e culturas, conquistadores e conquistados. Nesse sentido também, não podemos deixar de lembrar da obra Gender in Translation (SIMON, 1996), em que a autora, em trabalho extremamente original, discute preceitos feministas na teoria e na prática da Tradução. Mostra as mulheres, fundamentalmente como ativistas literárias, criadoras de novas linhas de transmissão e comunicação e como contribuintes decisivas para o debate cultural.

Dentro do escopo do presente Simpósio - Vozes e imagens de África: a imensidão cultural de um continente - a presente comunicação busca promover um debate entre travessias literárias contemporâneas, questionando paradigmas eurocêntricos que nortearam o pensamento acadêmico, gerando a necessidade de se buscar novas propostas críticas, através de uma re-contextualização histórica da cultura gerada através de África, re-avaliando espaços geopolíticos e valores consagrados, contribuindo nesse encontro com o relato de uma faceta de experiências múltiplas que engendram um imenso e infinito continente com seus valores e legados culturais a tantos povos.

Na visão de teóricos contemporâneos, os textos, a leitura e a tradução se constroem de acordo com as circunstâncias, ou seja, os significados se atribuem em uma rede de diferenças e os valores se constituem como uma função produzida pelo sujeito de acordo com as convenções de uma comunidade sociocultural e assim, conseqüentemente, os textos não podem manter entre si, uma relação de oposição (original vs. tradução) nem de equivalência (original = tradução), mantendo então os textos uma relação de mútua dependência entre si.

Além disso, pesquisas e estudos das últimas décadas têm mostrado que a tradução não é apenas um processo inter-lingual, mas fundamentalmente, uma atividade inter-cultural. Tradução e Estudos Culturais seguem cada vez mais próximos nos últimos tempos. Nas representações transculturais de um tipo ou outro, a mediação é executada por tradutores e, algumas vezes, por intérpretes. Os problemas daí gerados variam de acordo com o grau de distância entre as diferenças culturais envolvidas. No que diz respeito à Afro-América, nosso objeto de estudo junto com o Afro-Brasil, no momento dos movimentos modernistas do início do século XX, mais particularmente por ocasião do movimento do Harlem Renaissance, assim como à época dos movimentos de descolonização, os tradutores foram fundamentais para a transferência e circulação de idéias da Negritude entre África, Europa e Estados Unidos, para a atividade mediadora entre o Ocidente e as línguas e as culturas africanas. Como exemplo, de formas múltiplas, no que diz respeito às populações afro-americanas, teve papel decisivo na incorporação de idéias dos intelectuais franceses nos Estados Unidos, a figura particularmente expressiva de Léon Gontran Damas. É bom lembrar que, dialeticamente, ao mesmo tempo em que a tradução provoca mudanças e possibilidades de integração, ela também possui de forma inerente um enorme potencial de promoção de conflitos sócio-culturais, ideológicos e políticos.

Dentro da vertente Tradução e Estudos Culturais, cabe lembrar o papel decisivo exercido hoje pelo Centre for Translation and Comparative Cultural Studies (CTCCS) da University of Warwick, na Inglaterra. Tendo atingido graus de excelência nas últimas avaliações da Grã-Bretanha, o Centro recebe anualmente alunos de Pós-graduação, que, com espírito crítico e fundamentação teórica, sob a supervisão de pesquisadores de ponta e de renome internacional, se disponham a investigar e avançar a investigação na área dos Estudos de Tradução, dos Estudos Comparatistas Literários e Culturais e da Literatura Colonial e Pós-Colonial de Língua Inglesa. A abordagem dada pelo Centro aos Estudos Comparatistas e de Tradução enfoca primordialmente a transferência cultural na tradução, através de estudos interdisciplinares e inter-culturais que trabalham principalmente a habilidade do tradutor em "negociar" dentro de um escopo considerável de abordagens teóricas e críticas, a agudeza de compreensão da especificidade das culturas e de suas diferenças, através de uma atenção escrupulosa a textos e exemplos variados.

Ë este o enfoque que queremos aqui discutir. Dentro do mundo globalizado, a velocidade de chegada e o volume de troca de informações que ocorrem a cada dia fazem com que as redes de informação transnacionais e a circulação mundial de informações, em um nível jamais visto anteriormente na História, sejam traços constituintes da modernidade global. Metáforas que enfatizam a velocidade da comunicação tais como as noções de "fluxos globais" e de uma "super estrada da informação" são hoje lugares comuns. No entanto elas tendem a tornar obscuras e mascarar as reais relações de produção e de comunicação da informação através das quais as distâncias espaciais e culturais são vencidas. Cabe sempre lembrar que a informação global se dá em um mundo que é caracterizado pela diversidade social lingüística. A tradução neste ponto é um fator crucial, que age como pré-condição para a circulação transnacional de textos e ainda para a formatação da natureza da comunicação inter-cultural. Com a consolidação das redes de informação globais, a importância e o significado da tradução aumentaram dramaticamente. No entanto, seu papel sempre foi e continua a ser bastante negligenciado, assim como a negociação da diferença lingüística ignorada.

No caso específico em tela, o das traduções de obras africanas e da diáspora africana, assim como das obras de afro-brasileiros, à margem das questões que envolvem hegemonia, relações de poder e conseqüente exclusão, há outras questões fundamentais a serem colocadas: O que se entende por tradução? De que maneira ela formata a produção literária e a transposição cultural? Por que a tradução é ainda tão invisível no campo dos Estudos Culturais e Literários? De que forma a memória cultural oficial contribui para a formatação da tradução?

Destas e de outras investigações interdisciplinares afins tem participado a pesquisadora britânica Susan Bassnett, muito claramente apresentadas em sua obra Post-Colonial Translation: Theory & Practice (BASSNETT: 1998), em que a tradução de textos pós-coloniais, ao trabalhar vozes silenciadas - margem e centro - é abordada a partir de enfoques inovadores, reunindo a teoria pós-colonial e os Estudos de Tradução. Os ensaios no livro examinam as relações entre língua e poder ao longo das fronteiras culturais e revela o papel vital da tradução na redefinição dos significados de cultura e identidade étnica.

A partir da consideração de alguns autores de que "traduzir implica traduzir culturas não línguas" (IVIR: 1991, p.35), a posição de um autor pós-colonial chega a ser comparada com a de um tradutor em que a cultura ou a tradição descrita pelo autor pós-colonial funciona como um meta texto, que é re-escrito, explícita ou implicitamente, no ato da criação literária.

Desta forma, a recente movimentação dos estudos de Tradução em direção à área dos Estudos Culturais se deu a partir da percepção nos últimos anos, por parte dos pesquisadores dos Estudos Culturais, dos paralelos significativos e da superposição entre esses dois campos interdisciplinares, o que os levou a dar um passo que se convencionou chamar em Inglês, " the translation turn", com expectativas de que tal passo transforme e revigore o campo dos Estudos Culturais - Estudos Comparatistas Culturais (Comparative Cultural Studies). Em tal contexto, as contribuições advindas da antropologia e da filosofia seriam extremamente bem-vindas.

Neste sentido passemos agora à realidade de nossas autoras abordando alguns dos pontos mencionados, a saber: relações de poder que interferem na escolha de textos a serem traduzidos; como diferentes culturas constroem a imagem de escritores, textos e culturas a partir das traduções; o papel das traduções na construção dos cânones literários; como certos textos se tornam fundamentais para a compreensão cultural a partir das fronteiras lingüísticas; o papel desenvolvido pela tradução nos processos de construção identitária colonial e pós-colonial.

Tal nos leva a pensar sobre o papel da tradução como estratégia primária da representação cultural no mundo globalizado de hoje, abordando, a partir daí questões como a imagem do outro através da tradução; a hegemonia cultural e a globalização; a tradução e a perda e / ou a emergência de cânones literários; a diversidade cultural e as ditas minorias. Nesse contexto, comecemos pela questão do cânone literário, para o qual contribuem tantas vezes as traduções e que é ditado sempre, é claro, pelas redes de poder vigentes no local e na época, mas também, em alguns momentos burlado pela simpatia ao excluído. Hoje, no caso das narrativas de origem afro - mais especificamente as afro-americanas e as afro-brasileiras - diferentes pontos de reflexão se apresentam, seja pela interseção, seja pelo distanciamento. Por que só agora surgem, ou melhor, são visíveis tais narrativas? Para discutir a problemática do estabelecimento de cânones buscaremos trabalhar sempre com uma perspectiva interdisciplinar.

Nos Estados Unidos, nas últimas décadas do século XX, dentro do quadro de realidade específico daquele país, editoras paralelas, impulsionadas pela facilidade trazida pelos editores de textos aos computadores domésticos, começaram a organizar e publicar textos de grupos atuantes no Movimento dos Direitos Civis, de pessoas que, impulsionadas pelo próprio Movimento organizado, tiveram acesso a locais com visibilidade, tais como as universidades, de onde puderam falar e ser ouvidas, publicar mais, passar a editoras conhecidas e até chegar a um Prêmio Nobel de Literatura, tal como foi o caso de Toni Morrison. Além é claro de autoras do porte de Alice Walker ou Maya Angelou.

Principalmente após a concessão do Prêmio Nobel a Toni Morrison, a situação com referência ao cânone no mercado editorial se inverteu de forma significativa, com a busca por parte dos grandes e médios editores mundiais por outros autores e autoras, cujos textos pudessem vir a revelar valor literário e ser traduzidos imediatamente. Uma breve visita às livrarias e uma análise mais detalhada dos catálogos das editoras demonstra que já temos no Brasil vários títulos traduzidos tanto de Toni Morrison, como de Alice Walker. Resenhas sobre a última tradução de Toni Morrison encheram as páginas literárias dos principais jornais e revistas do país no ano passado.

No Brasil, autoras como Sonia Fátima da Conceição, Geni Guimarães e Conceição Evaristo são cada vez mais requisitadas a apresentar sua produção literária e têm seus textos traduzidos no exterior. Elisa Lucinda, com espetáculos iniciados no Rio de Janeiro, vai aos poucos ganhando o Brasil e o mundo. E aí encontra-se um aspecto interessante dessa produção feminina afro-brasileira: escritoras que se sentem muito mais reconhecidas no exterior, ao serem constantemente convidadas a falar no exterior e a assinar contratos de tradução de suas obras.

Como traços comuns entre as autoras citadas, sua atuação profissional / política; sua constância de publicação na série Cadernos Negros desde a década de 80, não só publicando, mas também divulgando, colaborando; a divulgação e a crítica respeitosa que vêm recebendo no exterior; os convites que lhes vêm sendo encaminhados para participar, como palestrantes, de encontros e seminários sobre Mulher e Literatura dentro e fora do Brasil; uma produção muitas vezes com tradução no exterior e completo desconhecimento interno, até mesmo por quem é da área, e ainda, o seu próprio pensar da questão da literatura negra ou afro-brasileira - adjetivos cuja necessidade, como muitos outros críticos, Conceição Evaristo discute - em sua dissertação de Mestrado intitulada Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade.

Cabe mencionar, ainda, Miriam Alves que se destaca por sua poesia e ainda por seu belo trabalho de apresentação, coletânea e divulgação na bela antologia poética bilíngüe Enfim nós/Finally us: Escritoras Negras Brasileiras Contemporâneas. Suas obras apresentam elementos significativos para a compreensão de traços fundamentais de cultura, contribuindo em suas traduções para uma perspectiva contemporânea de compreensão étnica.

Entre as traduções de textos afro-brasileiros no exterior não poderíamos deixar de mencionar as ilustrativas e importantes obras de Carole Boyce Davies, Black Women, writing and identity : migrations of the subject e os dois volumes de Moving beyond boundaries: volume 1: International Dimensions of Black Women's Writing (com a participação de OGUNDIPE-LESLIE, 'M.) e volume 2: Black Women's Diasporas , onde localizam-se poemas de autoras afro-brasileiras traduzidos para o inglês. E ainda o volume 18 da revista Callaloo , onde encontramos o conto Maria de Conceição Evaristo.

Entre as traduções para o português, destacamos O olho mais azul de Toni Morrison em que apesar da preocupação do tradutor muito do potencial cultural e poético do título se perdeu; De amor e desespero e O Templo de meus familiares (tradução acrescida de lista de quatro revisores) de Alice Walker; além da bela e cuidada tradução (com introdução e relevantes notas) de Heloisa Toller Gomes de As almas da gente negra de W. E. B. DuBois.

Sendo assim, no nosso entendimento, não podemos falar de África e da diáspora africana, sem mencionar o papel decisivo que a tradução tem nesta realidade, seja pela visibilidade ou pela invisibilidade. O fundamental é ter clareza das redes de poder aí, mais do que nunca, envolvidas.


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