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Exclusão elevada à 3ª potência: mulher, negra e louca.
Heloísa do Nascimento (UERJ)

Quem é essa personagem negra de romances contemporâneos de autoras afro-descendentes?

Tomando como ponto de partida a sua situação de sujeito pós-colonial, misturas de Caliban com Miranda a buscar um lugar ao sol, até os inúmeros casos de discriminação racial e sexual ainda abundantes em pleno século 21, essa mulher procura encontrar uma voz (a voz do subalterno de que fala Spivak, no ensaio "Can the Subaltern Speak?", de 1997 1) para contar a sua "herstory" - um trocadilho com o vocábulo his tory - nesse mundo que persiste em se apegar aos valores patriarcais. Encurraladas em um mundo que, em vez de englobar as diferenças, discrimina o diferente, aliena o outro , nesse caso, a outra , essas mulheres contam um poderoso instrumento de expressão, de ativismo político, a literatura. Spivak crê que a mulher, enquanto sujeito subalterno, encontra-se mais ainda à margem, à sombra da sociedade, pois sua exclusão é dupla. No caso de nossas personagens, soma-se a essa exclusão o elemento loucura .

O movimento de escritoras afro-descendentes conquista, gradativamente, seu espaço na mídia e nos currículos de cursos universitários. No entanto, sua popularidade no campo dos estudos de gênero e etnia ainda conta com um público restrito, majoritariamente pesquisadores. O panorama nos Estados Unidos favorece a publicação e divulgação de escritores das chamadas minorias. Uma nação formada por guetos, hoje ninguém mais compra a idéia do "melting pot", fragmenta-se nas divisões dos rótulos. Florescem, nas livrarias norte-americanas, as prateleiras lotadas de obras de autores que questionam a hegemonia do "grande cânone ocidental". No Brasil atual, onde a grande polêmica educacional hoje gira em torno da questão das cotas para negros nas universidades, escritoras como Conceição Evaristo enfrentam dificuldade para a publicação de seus trabalhos. Com obras publicadas no exterior, Conceição ainda não faz parte do "nosso" cânone. Louváveis são iniciativas como a recente exposição "África", que divulgou muito da arte e tradições africanas, mas há que se valorizar também a literatura de afro-descendentes, especialmente se levarmos em conta que estes constituem a maioria da população brasileira.

Já nos EUA, palco da luta pelos direitos civis dos anos 60 e 70 do século passado, há uma tradição devotada a exigir a visibilidade das minorias, que ganha alento com as honras conferidas a escritoras afro-americanas como Toni Morrison e Alice Walker, através de prêmios e transposições de suas obras para o cinema.

Apesar do panorama tão díspare entre a produção literária afro-americana e a afro-brasileira, assim como do contexto político-sociocultural, podemos encontrar nos romances de autoras afro-descendentes semelhanças que justificam o nosso presente trabalho. As autoras em questão, a afro-americana Toni Morrison e a afro-brasileira Conceição Evaristo, lidam com excluídos na elaboração de suas personagens femininas. Suas mulheres são, de maneira geral, de origem humilde e com pouca instrução formal. Quando estas têm um companheiro, ele usualmente é violento e/ou hostil, recriando no ambiente familiar um microcosmo do patriarcado ainda reinante nos dias de hoje, exacerbado quando cercado por pobreza. Guerreiras por natureza, as personagens aqui analisadas lutam por melhores condições de vida, amor e felicidade. Em suas batalhas incansáveis, essas personagens encontram inimigos poderosos: o patriarcado, o racismo e o sexismo; todas acabam por sucumbir à loucura. Sua loucura é diferente, como cada personagem é singular e pertence a um romance distinto. Faz-se necessário, então, ressaltar que as personagens Sethe (do romance Beloved , 2 de Toni Morrison) Hagar (do romance Song of Solomon 3, também de Toni Morrison) e Ponciá (protagonista da obra mais recente de Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio 4) desenvolvem tipos de loucura que são tão diferentes entre si quanto o são cada uma de nossas "heroínas".

Sethe mata sua filha para que o bebê escape à sina de tornar-se escrava e, devido ao ostracismo que enfrenta, acaba se isolando, juntamente com sua filha mais velha Denver, em uma casa assombrada pelo fantasma da filha assassinada. O fantasma assume um corpo humano e volta para o convívio de sua família, muitos anos depois. O realismo fantástico do romance Beloved não esconde a crítica a um sistema desumanizador que transforma seres humanos em escravos, mães em infanticidas.

Hagar, de Song of Solomon , enlouquece devido a um amor não correspondido. Não possuindo coragem para matar o homem que ama mais que a si própria, Hagar literalmente adoece e morre, incapaz de raciocinar logicamente, louca para a sociedade. Em seu livro Como e Por que Ler 5, o crítico Harold Bloom traça uma analogia entre esse romance e o Hamlet de Shakespeare, defendendo que Hagar pode ser vista como uma espécie de Ofélia, que morre de amor, louca por ter sido rejeitada por seu "príncipe encantado". Sinceramente, não podemos afirmar se Morrison tinha em mente a obra-prima do bardo ao escrever Song of Solomon , mas creio que o ilustre conhecedor do dramaturgo elisabetano tende a ver Shakespeare em todos os lugares, mesmo nos mais improváveis...

Já Ponciá, nossa personagem brasileira, busca eternamente a herança que seu avô lhe teria deixado. Acaba por descobrir que herdara a insanidade do avô e, a partir dela, se encontra consigo mesma, fazendo as pazes com o seu passado. Sua loucura é redentora, ao contrário do que acontece com as personagens afro-americanas. Ponciá se auto-afirma em sua condição de não-lucidez. Paradoxalmente, é exatamente ao aceitar-se como insana que ela supera toda a melancolia passada, devotando-se fervorosamente ao ofício de criar objetos de barro, outra herança de família. Arte e loucura caminham lado a lado nesse romance, lembrando ao leitor que ambas são não-conformistas, ex-cêntricas, muitas vezes marginais.

Respondendo à pergunta que incitou o nosso discurso, essa personagem é fruto de todo o processo de luta da mulher negra por se fazer ouvida. Na literatura, torna-se natural, então, que a arte seja amparada por um discurso político, que emerge na ficção em tons sutis ou explícitos.

A loucura das personagens é apresentada, primordialmente, como elemento catalisador de estranheza, que reflete a condição marginal das mulheres nos romances, vítimas de diversas exclusões: social, racial, cultural e sexual.

As três personagens objeto de nosso estudo evidenciam uma herança cultural arraigada no pós-colonialismo, sendo sua loucura uma extensão do processo de vitimização imposto à mulher, principalmente àquela que convive com o eterno fantasma da escravidão: a mulher negra. São mulheres pobres, acometidas de loucuras diferentes, mas as origens de seus sofrimentos aproximam mais do que distanciam as fronteiras entre cada uma das obras e suas respectivas autoras. Assim, nosso mergulho nesse mundo rico da ficção de origem afro destina-se à busca de encontros e desencontros no complexo retrato de manifestações de loucura, cientes de que seu uso (o da loucura) em obras de ficção pode sugerir fuga - total alienação - ou reencontro com a verdade intrínseca da personagem.

Duas obras são marcos na discussão da loucura feminina na literatura: The Madwoman in the Attic 6 e Women Who Run with the Wolves 7. O primeiro é o resultado da pesquisa de Sandra M. Gilbert e Susan Gubar sobre o panorama literário do século XIX e o papel da escritora naquele cenário. O último, uma combinação brilhante de histórias (tanto contos-de-fada mundialmente famosos quanto histórias das tradições orais indígenas) analisadas à luz da psicologia jungiana. As duas obras, aparentemente sem ligação, revelam-se complementares no estudo e análise da loucura em personagens femininas de ficção.

Sethe, Hagar e Ponciá, três personagens de ficção, não se encontram nas páginas de um mesmo romance. Suas realidades, no entanto, as aproximam. Suas "herstories" de vida convergem para um mesmo ponto: a loucura. Sethe e Hagar, personagens de romances da escritora afro-americana Toni Morrison apresentam loucuras diferentes, mas permanecem figuras marginais. Ambas vivem em uma casa onde três mulheres habitam. Ambas pertencem a uma casa "estranha", que espanta os outros personagens. Sethe enlouquece diante da dor causada pela possibilidade de ter sua filha roubada de seus braços para que seja escravizada pelos brancos. Hagar, desiludida com um amor não-correspondido, acaba por encontrar nos braços da loucura o aconchego para aquela dor que lhe provoca a morte. Ponciá, imersa em recordações de sua infância pobre, procura encontrar a herança que seu avô lhe havia deixado. Logra achar mais do que isso: imbuída da loucura, sua herança de família, Ponciá lança-se numa jornada sem fim e sem limites: o reencontro consigo mesma e com os seus.

Nossas personagens são, antes de tudo, mulheres e negras. Portanto, fez-se necessário um estudo sobre questões de gênero e etnia, assim como uma análise das teorias pós-colonialistas, a fim de que apreendêssemos a dimensão social, cultural, étnica e sexual de nossos objetos de pesquisa.

Devido à questão da loucura e suas concepções diferenciadas nos campos da Psicologia e Psiquiatria, faz-se necessário ter em mente nomes tão distintos como Michel Foucault e Sigmund Freud, mas mantenho a minha simpatia pelas concepções de Foucault, já que a sua teoria da loucura baseia-se sobretudo em raízes sociais e culturais, enquanto Freud enfocava o indivíduo. Sua análise dos casos de histeria são importantes para compreendermos a abundância de casos de loucura feminina na história da literatura. No entanto, devemos nos aproximar com um olhar crítico das obras escritas por homens retratando personagens loucas, já que, como nos chama a atenção Virginia Woolf 8 (1985), as personagens femininas criadas por homens atendiam às expectativas e preconceitos estimulados em sociedades que viam na figura da mulher tão-somente um objeto, ou seja, um ser incapaz de ter opiniões próprias, muito menos aspirações artísticas e intelectuais.

Qualquer estudioso das literaturas de origem afro depara-se com o caráter político das obras, caráter esse tão enraizado na condição de mulher, negra e artista de escritoras como Toni Morrison e Alice Walker, nos Estados Unidos e de Conceição Evaristo, no Brasil. Entendemos que a construção de suas personagens encontra-se indissoluvelmente ligada às suas ideologias, unindo ativismo político à literatura. Suas obras, no entanto, sublimam qualquer tentativa de serem rotuladas de panfletárias. Nelas figuram, nítidos, os elementos da literatura. Sua arte é enriquecida por suas convicções, nunca diminuída.

 

SPIVAK, G.C. "Can the Subaltern speak?". Em: ASHCROFT, B. et al, eds. The Post-Colonial Studies Reader . Routledge: London, p.24-28, 1997.

MORRISON, T. Beloved . First Plume Printing, 1988. Plume: Nova Iorque, 275pp, 1988.

MORRISON, T. Song of Solomon . First Plume printing, 1987. Plume: Nova Iorque, 337pp, 1987.

EVARISTO, C. Ponciá Vicêncio . Mazza Edições, Belo Horizonte, 132pp, 2003.

BLOOM, H. Como e Por Que Ler . Objetiva, Rio de Janeiro, 274 pp, 2001.

GILBERT, S. M. & GUBAR, S. The Madwoman In The Attic . 2ª edição. Yale Nota Bene:Yale, 650 pp, 2000.

ESTÉS, C. P. Women Who Run With The Wolves . 1ª edição em paperback, 1995. Ballantine Books:Nova Iorque, 478 pp, 1995.

WOOLF, V. Um teto todo seu . 2ª edição. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 149 pp, 1985.