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Pelas curvas do Nilo: Repensando o Helenismo na Alexandria do Egito
Fernanda Lemos de Lima (UERJ)
Aquiles Tátius e seu romance Leucipa e Clitofonte ou Fenícicas 1, são pouco conhecidos do público leitor brasileiro. O autor, segundo as informações da edição da Loeb Classical Library, seria um grego de Alexandria do Egito . Se passarmos rapidamente por este trecho, como muitas vezes fiz anteriormente, deixaremos escapar as implicações dessa denominação. O que significa ser um "grego de Alexandria" ? Há esse tipo de classificação na Antigüidade ou trata-se de uma classificação criada pela história? E, na hipótese da resposta ser afirmativa, por que enfatizar a idéia de que o escritor é grego de Alexandria no Egito, quando seu texto apresenta personagens notadamente envolvidos com a cultura helenística, que, no entanto, apresentam-se como Sidônios, Fenícios e Egípcios?
O que pretendemos, aqui, através da leitura do romance de Aquiles Tatius, é repensar os encontros culturais entre Grécia e Egito, que remontam à própria constituição da identidade grega, se levarmos em conta o fato de que, segundo Heródoto, por exemplo, várias regiões da Grécia foram colonizadas por Egípcios. Ao mesmo tempo, buscamos compreender por quais razões éticas e políticas, o chamado modelo ariano da história grega nega o contato sistemático e fundamental das culturas orientais e africanas com a cultura helênica emergente, buscando demonstrar a capacidade autóctone dos helenos, bem como o chamado "milagre grego".
Voltemos, então, ao nosso autor, Aquiles Tátius. Como acontece com a maior parte dos escritores da Antigüidade Clássica, pouco sabemos a seu respeito. Não há muita segurança em relação ao seu nome correto, pois alguns textos medievais o chamam de Statius. Embora, ao que parece, haja um número maior de citações do autor de Leucipa e Clitofonte como Tátius. A investigação de seu nome pode parecer de menor importância, não obstante, é fundamental para pensarmos as implicações multiculturais da produção literária originada em Alexandria. Se concordarmos com Niklas Holzberg e tomarmos o nome Tátius, não como de origem romana, mas ligado ao étimo de "Thoth", nome do deus egípcio, é possível repensar a questão dessa identidade grega imputada pela historiografia literária mais recente.
Para compreendermos melhor, é preciso voltar alguns séculos atrás e entender não apenas a fundação da cidade de Alexandria no Egito, mas, sobretudo, a maneira como Ptolomeu Sóter, no III século a.C. promoveu um encontro entre as etnias que passaram a povoar aquela que se converteria na mais importante cidade do Mediterrâneo Oriental durante o período Alexandrino (de 323 - 31 a.C.) e mesmo após a dominação romana. Ptolomeu Sóter, o primeiro dos Lagidas a governar o Egito no referido período, não impôs ao território egípcio os costumes e religião gregos, mas, ao contrário, seguindo o modelo de Alexandre Magno, promoveu um sincretismo que, patrocinado pelo estado, fundia cultos helenos a cultos egípcios, sendo o próprio rei considerado filho de Amon, o que conferiu a Ptolomeu Sóter um status de divindade simpática para os egípcios.
Assim, com esta brevíssima explicação, podemos compreender como foram sendo construídas as mesclas culturais, que passam necessariamente pelas religiões no Egito cuja língua franca é o grego. Entretanto uma língua que não espelha um sentimento de exílio ou de vivência de uma diáspora grega, que justificasse entendermos os autores como gregos que, por obra do "triste" acaso nasceram fora da Grécia. Ao contrário, temos indivíduos que povoam a narrativa de Tátius e, cuja origem familiar é heleno-fenícia ou, ainda egípcia-helênica e, todavia se apresentam como Fenícios, Egípcios ou Sidônios. Mais, ainda, temos a convivência de culturas diversas, como a passagem que será tratada mais a frente, em que são narradas as lutas entre os representantes do governo do Egito contra os grupos de resistência organizada, que vivem de saques aos viajantes do Nilo.
O que buscamos aqui é, de certa forma, mostrar como as informações que nos são passadas por edições importantes da obra estudada podem nos levar a não perceber que o mundo pelo qual as personagens de Tatius transitam, vale repetir, não é composto de gregos da diáspora, mas de elementos que compõem um complexo cultural híbrido. Homens e mulheres altivos, que prezam suas múltiplas origens, que se encontram no elo de cultura em que a língua grega koiné (comum) se converteu. Passagens culturais são realizadas a partir da incorporação da cultura do outro.
Passemos agora ao texto. A narrativa de Tátius é considerada um romance de aventura, com todos as características que o gênero híbrido por excelência tem direito. Entretanto, em meio a outros exemplares do gênero, o texto de Tátius se destaca por apresentar uma narrativa em primeira pessoa, precedida por uma espécie de introdução de uma voz narrativa que está diante de uma imagem pintada, em um templo de Astarte 2 localizado em Sidon. O quadro retrata o rapto de Europa e, como é recorrente nos romances de aventura gregos, o motivo que desencadeia a trama é o Amor. Assim, nosso primeiro narrador, que de certo modo introduz a estória do casal Leucipa e Clitofonte, descreve o quadro do rapto de Europa e dos encontros e desencontros desencadeados por Eros, realizando uma micro narrativa que parece espelhar a macro narrativa do romance. O diálogo que precede a narrativa de Clitofonte surge a partir do comentário acerca de Eros, que domina céus, terras e mar. Nosso herói, Clitofonte, fala das dores que padece por conta do deus. Assim o primeiro narrador pede a Clitofonte que narre seu mýthos erotikós , sua narrativa de amor.
A partir desse momento, a narrativa passa a ser realizada por Clitofonte, portanto estamos diante de um narrador que irá falar parcialmente dos fatos, pois não será onisciente em sua narrativa, o que constitui um traço interessante nos romances de aventuras do período.
Tomemos, pois, o trecho em que Clitofonte se apresenta:
Eu sou de família Fenícia, minha pátria é Tiro, meu nome Clitofonte, tenho por pai Hípias, Sóstratos por tio, mas este era meio-irmão de meu pai, por parte paterna. A mãe de meu tio era de Bizâncio e a de meu pai era de Tiro. (L.C., 3.1.) 3
A apresentação da personagem é bastante interessante para nós, uma vez que ele denomina sua estirpe como Fenícia. O que nos faz começar a responder uma primeira questão posta no início da presente discussão: a historiografia literária passou a denominar os falantes da língua grega no espaço do Mediterrâneo Oriental Antigo como "gregos de", indicando assim uma "origem superior" desses indivíduos. Entretanto, o texto nos fala de um indivíduo cuja identidade não está ligada à idéia de "diáspora grega", mas se identifica com o local de seu nascimento, com o local de origem de sua família: a Fenícia. Assim, começamos a perceber que dicotomias ocidente-oriente, gregos-fenícios e gregos - egípcios não existiam da maneira como é posta pela história. Há sim uma série de embates em busca de poder, mas por parte de reinos que querem uns sobrepujar os outros, entretanto sem uma nítida diferenciação entre o grego e o não grego, no período helenístico alexandrino ou imperial.
É interessante notar que a xenofobia da qual nos fala Sérgio Paulo Rouanet, em seu artigo "Por um iluminismo moderno" 4, em relação a Antigüidade grega, apontando como os não-helênicos eram considerados bárbaros por não falarem grego, evidenciando a antítese civilização e barbárie, parece se diluir a partir do período chamado helenístico da literatura grega. A xenía, que distinguia os cidadãos das diferentes cidades, que é um conceito diverso do que entendemos por xenofobia hoje, já havia se perdido, até porque a estrutura de cidades-estado havia ruído ante o poderio macedônio. Além disso, a postura "globalizada" de Alexandre Magno, enquanto conquistador e administrador de territórios compostos por vários povos, de certo modo, contribui para eliminar as diferenças entre as etnias, pois há o incentivo à fusão cultural através de casamentos entre diferentes populações, incluindo aí os gregos. Isso se dá numa extensão territorial considerável, se pensarmos em Grécia, África e Ásia, incluindo aí a Índia.
Não seria diferente na Alexandria do Egito, sobretudo por se tratar da cidade idealizada por Alexandre. Suas ruas com traçados gregos e egípcios, estão repletas de diversos falares e sotaques, etnias inúmeras, inclusive a egípcia , que povoam o universo da cidade que domina mercantil e culturalmente o Mediterrâneo Oriental durante alguns séculos.
Porém, voltemos à narrativa do pobre e sofrido Clitofonte, cujo enredo pode ser resumido da seguinte forma: um jovem bem nascido - Clitofonte - apaixona-se por Leucipa, uma jovem igualmente bem nascida, que, mais tarde também ficará por ele enamorada. Por conta de vários mal-entendidos, o casal acaba por fugir da casa do pai de do jovem para, mais tarde consumar seu casamento. Entretanto, o casal apaixonado passará por uma série de percalços, o que inclui naufrágios, sacrifícios humanos, bandoleiros, Leucipa ser dada por morta duas vezes, Clitofonte se casar com outra mulher (Méllite), pensando que sua amada Leucipa tivesse sido degolada por piratas e fugir da consumação do casamento, além, evidentemente, de viagens por inúmeros lugares, inclusive e, para nós, especialmente pelo Egito.
O Nilo e a cidade de Alexandria servirão de cenário para os encontros e desencontros do casal. Ao mesmo tempo em que as imagens que a narrativa molda nos levam a perceber como a opulência de Alexandria e a riqueza do Egito estão intimamente associadas à mescla cultural que constitui aquela terra.
No livro III, depois de sofrerem um naufrágio, Leucipa e Clitofonte alugam um barco para, através do Nilo, chegarem a Alexandria. Todavia, são surpreendidos por "bandoleiros" que os atacam. A passagem é interessante, pois mostra como se dá o estranhamento de Clitofonte diante do "outro" que o ataca, o grupo de bandoleiros:
E, enquanto isso, a terra ficou repleta de homens assustadores e selvagens, todos enormes, de cor negra, não como os da Índia, mas como um mestiço etíope, com cabeças raspadas, pés pequenos e grandes corpos. Todos falavam uma língua bárbara/estranha. (L&C, livro III, 9)
Um pouco mais à frente, ouvimos o lamento de Clitofonte aos deuses e daimones:
Agora, entregaram-nos nas mãos de ladrões egípcios, e assim não temos a sorte de implorar. A (minha) fala pode se comunicar com um ladrão grego (...) mas agora com que fala suplicar? (L&C, livro III, 10)
O discurso de Clitofonte nos mostra quais os pontos de estranhamento em relação aos bandoleiros, pois não se trata apenas do ataque, mas da imagem étnica diversa e da fala que é outra e impede a súplica. Os estereótipos que nos são mostrados, de homens negros assustadores e selvagens, cuja fala não pode ser compreendida compõem a visão de Clitofonte, um rapaz inexperiente que jamais deixara Tiro antes dessa aventura. Tal passagem pode nos fazer pensar que é nítida e estanque a diferença entre gregos e bárbaros.
Contudo, o estranhamento entre a cultura do outro que assusta se dissipa com a intervenção de Menelau, amigo do casal de protagonistas, que havia se separado dos dois depois do naufrágio. Acontece que Menelau era egípcio, como ele mesmo lembra a Clitofonte, ao explicar como pode salvar Leucipa de ser sacrificada ao deus dos bandoleiros:
Ele disse: sabe que sou egípcio por parte de minha família, isso eu contei a você no navio. Desse modo, a maior parte de minhas propriedades está em torno destas comunidades e seus chefes me conhecem. Quando então sofremos o naufrágio, as ondas nos levaram às praias do Egito, fui capturado juntamente com Sátiro(...). Como fosse conduzido diante do chefe dos ladrões, reconhecendo-me alguns dos ladrões, libertaram-me das correntes, falaram a mim com ânimo, condoendo-se por mim, como se fossem familiares (oikeîon).(L&C, livro III, 19)
A fala de Menelau nos mostra como o estranhamento de Clitofonte se dá pelo desconhecimento. Não há estranhamento para aqueles que habitam o Egito convivem com grupos de diversas etnias, sem separações estanques. Assim o egípcio que fala grego não estranha, nem é estranhado, pelos bandoleiros que parecem etíopes, mas que o próprio Clitofonte chama de egípcios. Mais ainda, ao ser reconhecido, Menelau é tratado como um familiar sofrido, que merece ser recebido com ânimo pelos seus. O uso do termo oikeîon deixa clara a ligação de familiaridade, de intimidade, pois são homens interligados pelo conceito de oíkos , casa, família. Assim as fronteiras entre as várias populações que habitam o Egito acabam por mostrarem-se frágeis e artificiais. As fronteiras identitárias não são absolutamente claras, como a historiografia nos ensinara artificialmente, neste espaço e tempo do Mediterrâneo Oriental, percebemos que a dicotomia grego-bárbaro, que poderia inicialmente ser reforçada pelo olhar de Clitofonte, dissipa-se pela convivência familiar entre populações que vivem num mesmo Egito. O mesmo que tem em Alexandria a maior de suas cidades, naquele tempo, minuciosamente descrita através da narrativa de Clitofonte, nós leitores deparamo-nos com uma cidade grandiosa, de "brilhante beleza", cuja visão inunda os olhos do narrador de prazer. O encontro entre Clitofonte e a cidade de Alexandria se dá no início do livro V, neste momento da narrativa, a personagem se depara com a festa de Zeus- Serápis, divindade fabricada por Ptolomeu Sóter para reforçar a fusão étinico-religiosa das populações do Egito, habitado, como já mencionamos, por inúmeros povos. Serápis é, ao mesmo tempo, uma continuidade de Osíris e de Ápis, em conjunto com Zeus, Asclépio e Dioniso. Desta feita, novamente nos damos conta de que a mescla cultural é inalienável dentro da constituição do Egito Helenístico e da história dessa terra até a contemporaneidade.
Diante dos aspectos por nós abordados, podemos refletir acerca do pensamento que Hobsbawn e Ranger desenvolveram no livro A invenção das tradições 5, sobretudo em relação ao discurso que se articula no sentido de se valorizar uma postura "histórica" que, todavia, segue nitidamente uma programação política de valorização de uma origem "pura" da raça helênica, que por um acaso da história acabou por ser difundida por lugares de "menor importância". Evidentemente que a idéia de uma raça pura ariana como formadora do berço da cultura ocidental é mais confortável para estudos eurocentrados do que a idéia de que a cultura grega seja híbrida por formação e, sobretudo, que ela é o resultado, em parte da colonização do Egeu pelo Egito e por comunidades Semíticas.
Neste sentido, Martin Bernal, autor de Black Athena 6, aponta para os modelos da história da Grécia que foram mudados a partir do momento em que se buscou uma valorização do gênio autóctone grego, que, não obstante, pode ser questionado se formos ao texto de um dos mais importantes filósofos que a Atenas clássica produziu, Platão. Como nos lembra Marilena Chaiuí, o filósofo afirma que os gregos são como crianças se comparados aos sábios egípcios. E, especificamente no Fedro 7, Sócrates nos fala que foi egípcia a criação dos números, da aritmética, da geometria, astronomia e da escrita, através da divindade Theuth/Thoth.
O que pretendíamos aqui era evidenciar que as curvas da história precisam ser revisitadas, pois escondem, como as curvas do Nilo, vários tesouros, surpresas e agradáveis emboscadas.
Ao mesmo tempo em que é preciso realizar essa anamnese, é preciso ter em mente que rótulos apenas aprisionam as culturas e as artes que as expressam. Assim, o romance de Tátius nos fala de um mundo de múltiplos encontros culturais, que formaram nos chamados períodos alexandrino e imperial, um caldo multicultural, sem o rótulo imposto pelos teóricos que, de certa forma estão ligados à questão ariana. Não queremos o rótulo "grego de" para autores que são de regiões diversas e expressam culturas que se entrecruzam através da koiné .
Finalmente, não podemos terminar este texto sem relatar o fim de nosso romance. Depois de inúmeras reviravoltas, nossos heróis vão se encontrar justamente no templo de Astarte, a deusa do amor, correspondência fenícia da deusa Afrodite. Justamente este encontro se dá no território propício ao casal, que enfim poderá desfrutar a vida juntos, como um casal eternamente apaixonado, cujo amor será celebrado não apenas na intimidade do oikos , mas pela cidade de Sidon, outra cidade do Mediterrâneo Oriental.
Deste mundo retratado, faz parte, também, o Egito, não uma terra colonizada pela cultura grega, como se poderia equivocadamente pensar, mas um locus de encontros de diversas culturas, culturas que passam a constituir, juntamente com a cultura helênica, uma mescla que resulta na grandeza do Egito e de sua Alexandria, que sofrerá altos e baixos em sua história, mas apresentará sempre o ar de Cosmópolis , com seu Farol a iluminar o Mediterrâneo.
Este último seria o título perdido da obra. Cf. Holzberg. The Greek Novel . Londres: Routledge, 1995, p.86.
divindade fenícia que corresponde à Afrodite dos gregos.
Nossa tradução direta do grego. Todas os trechos aqui transcritos do romance Leucipa e Clitofonte foram traduzidos por nós a partir do texto grego da edição Loeb (Warmington, E. H. (ed.), Achilles Tatius . Cambridge (MA)/Londres: Harvard University Press, 1989, 461páginas.
Rouanet, Sérgio Paulo. Por um iluminismo moderno - Civilização e barbárie. In: Caderno B - Jornal do Brasil , 14/07/2004, pág. 3.
Hobsbawm, Eric e Ranger, Terence. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, 316 páginas.
Bernal, Marshal. Black Athena. Londres: Vintage, 1988, 575 páginas