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A fuga da língua portuguesa em A morte do velho kipacaça de Boaventura Cardoso
Fábio Figueiredo Camargo (FAFIC/FUNJOB)

A diáspora, pensada como saída de elementos de um universo para outro, como fuga, transgressão, marca o destino das literaturas africanas de língua portuguesa. Leio, portanto, a viagem empreendida por um escritor africano, mais precisamente de Angola, Boaventura Cardoso, da língua oral africana para a língua escrita portuguesa. Isso, obviamente, implica não apenas na troca do código, mas de uma traição a todos os dois códigos postos em jogo pelo escritor. Em sua novela "A morte do velho Kipacaça", pertencente ao livro homônimo publicado em 1986, isso ocorre em mais de um sentido. Nesse texto, Boaventura Cardoso faz a recriação da recriação da oralidade, possibilitando o acontecimento da falescrita . Apropriando-me da fala de Manuel Rui, posso afirmar que Boaventura Cardoso kazukuta 1 a língua na qual escreve sem ter com ela uma ligação de submissão, pois ele é um africano da etnia bantu-kimbundu, colonizado em língua portuguesa, e esta é a língua com a qual ele comunica-se com seu público. Mais do que um estilo, essa forma de escrita demonstra um projeto literário de um escritor que reconhece seu lugar no mundo. Segundo Rita Chaves os escritores angolanos sentem a necessidade de "fazer Angola", ou seja, "investir (...) na construção de um discurso autônomo, capaz de unificar as vozes dispersas pelos quatro cantos do território e calar a voz do colonialismo" (CHAVES, 1999, 32) e Boaventura Cardoso não foge a essa luta.

A partir do artigo de José de Sousa Miguel Lopes, pode-se afirmar que é a saída de uma cultura acústica para uma cultura letrada que faz com que essa diáspora seja significativa. Segundo Lopes, a cultura acústica seria

(...) a cultura que tem no ouvido e não na vista, seu órgão de recepção e percepção por excelência. Numa cultura acústica, a mente opera de um outro modo, recorrendo (como artifício de memória) ao ritmo, à música e à repetição e à redundância, às frases feitas, às fórmulas, às sentenças, aos ditos e refrões, à retórica dos lugares comuns - técnica de análise e lembrança da realidade - e às figuras poéticas, especialmente a metáfora. (LOPES, 2003, 266).

 

 

Todos os esquemas citados por Lopes encontram-se em "A morte do velho Kipacaça", mas este já não é um texto oral, ele está em língua escrita. Percebe-se, portanto, a transferência de uma cultura para outra.

Em "A morte do velho Kipacaça" as relações entre língua escrita e língua falada encontram-se borradas devido ao fato de haver no texto uma "griotização" do narrar. Há narradores de diversas ordens sucedendo-se na narrativa como se o leitor estivesse ao pé da fogueira ouvindo causos que, na verdade, se misturam com a história do povo angolano. Carmen Secco, em comentário a outro texto de Boaventura Cardoso, faz uma afirmação que serve perfeitamente "A morte do Velho Kipacaça". Segundo ela:

A polifonia estilística segue a entonação do português falado em Luanda e no interior, e também o ritmo das diferentes falas existentes em Angola, onde o plurilingüismo é uma das marcas multiculturais presentes na sociedade. (SECCO, 2003, 102).

Ao fazer-se o levantamento dos esquemas colocados como exemplo por Lopes encontramos em "A morte do Velho Kipacaça" os seguintes:

1.  ritmo: segue a ordenação próxima da linguagem oral, muitas vezes com pontuação diferenciada da língua portuguesa padrão, além de trazer, por causa disso, a alteração da sintaxe.

a) "Respeitosamente. Na chegada dele todos se levantam e guardam: silêncio". (p.47). 2

b)  "Capoeira e currais já não precisam de fecho: peste varre cria." (47)

2.  música e dança: estão presentes o tempo todo na narrativa, através das cantigas que são cantadas e dos rituais da tribo que são sempre relembrados através de suas danças.

a)  " Lelué lândula ngongo walunduka

Lelué lândula ngongo wajimbilila

Lelué lândula ngongo wakunduka

Lelué lândula ngongo walenguee

Lelué Pupangombe watuluka " (85)

 

b)  "- Toquem batuqueiros! Toquem batuqueiros! Kuatiça o ngoma! Toquem batuqueiros para Pupangombe ouvir a nossa voz. (...) Toquem e dancem!" (87)

 

3.  repetição e redundância: as palavras na oralidade são muitas vezes repetidas, Boaventura Cardoso faz questão de demonstrar como as palavras repetem-se nas falas de suas personagens e na voz do narrador; a redundância pode ser enxergada em frases das personagens e na enunciação textual, em sua formatação, pois é pelo excesso que o autor transforma seu texto saído de uma cultura acústica para o universo da escrita.

a)  "- Atata! Morreu o Velho Kipacaça! Desapareceu para sempre o Rei da Mata! Chegou no seu fim o caçador de todas caçadas! Fugiu de nós o homem que dava prestígio e orgulho no povo de Bango ya Coma, em todos os povos da Kibala até no Ngungo, da Kibala até no kariango! Morreu o Velho Kipacaça!" (86).

b) "Subir na subida" (53); "no meu pensamento estou pensar" (50); "palavroso vai palavrar" (48); "Barulho estranho crescendo, crescendo, tem crescimento." (93); "Kapiapia andava, Velha Kaxiquela andava. Kapiapia estava parar, Velha Kaxiquela estava parar." (58, 59).

 

4.  frases feitas: muito utilizadas como clichês e chavões, principalmente nos provérbios.

a)  "No dia em que morre o elefante, não é o mesmo em que ele apodrece!" (77)

b) "Se queres amizade com o jacaré, tira a rede da água." (61)

 

5.  fórmulas: são utilizadas geralmente na abertura das estórias ou na abertura de ritos das tribos; geralmente algumas interjeições podem ser tomadas como fórmulas para o começo de capítulos ou de novas narrativas dentro do texto como faz o narrador ou alguns dos narradores da estória maior.

a)  " Eh ! Tinha sete noites Mana Teresa não estava dormir." (61)

" Eh . Velho Bernardo Nikila meneia a cabeça afirmativamente (...)" (48)

b)  " Tinha sete noites Mana Teresa não estava dormir!" (62) repetidos várias vezes para se contar uma nova estória introduzida na narrativa.

c) "Só que cadavez que contava essa aventura, cadavez metia sempre coisas novas, cadavez mais pormenores, muita fantasia e muita aldrabice no meio cadavez ." (65,66)

d)  As adivinhas: Segundo Câmara Cascudo, a adivinha é gênero universal, favorito de todos os povos em todas as épocas. Mesmo estando em kimbundo, o próprio formato do texto já indica do que se trata.

"- Opelu-pelú, peléé katé ku muxitu - pergunta na estimulação.

- Ongo soytéé katé ku munguila - a resposta feita de vozes." (90)

 

6.  sentenças: expressão que encerra um sentido geral ou um princípio moral máximo, de acordo com o dicionário Aurélio, ditos muito utilizados e que não são obrigatoriamente provérbios, mas que são conhecidos.

a)  "Eh! Eh!Eh! Ngana Kapiapia foi zurzido como cão que comeu ovos !" (59)

b) "Desespero é água burbulhando." (93)

 

7.  ditos e refrões: podem ser palavras sozinhas, como frases inteiras repetidas à medida que a situação pede.

a)  "Eh!"

Em vários momentos repetida, essa intertjeição ora significa começo de fala, ora significa resposta positiva a alguma inquirição, ora significa a resposta para a chamada do nome do sujeito.

b)  "Amam'ééé!"

 

8. retórica dos lugares comuns: já foi especificado o quanto a cultura acústica repete determinadas expressões e o quanto isso aparece de forma evidente nesse texto de Boaventura Cardoso; a partir das lembranças das personagens as organizações se sucedem em fórmulas já citadas ou através de outras formas de organização como é o caso dos epítetos para relembrar alguém.

a)  "Atata! Estamos hoje aqui para lembrar a memória do nosso maior caçador, o nosso Kipacaça, Rei da mata, caçador de todas caçadas . Todo povo de Bango ya Coma, todo povo da Kazanga, todo povo da Lamanda, todo povo do Kitundo, todo povo da Kariata, até mesmo povo do Kariango, todo povo, todo mundo, não tem ninguém que não conhece o velho Kipacaça. Os que vão chegar amanhã vão ouvir falar deste valente caçador , tinha leão que lhe desafiava?, caçador destemido , tinha onça que lhe desafiava?, caçador combativo e grande caçador , tinha kiombo que lhe desafiava? Os que vão chegar amanhã vão ouvir falar do Velho Kipacaça e vão ouvir contar a luta que o Velho Kipacaça, caçador sem medo lutou ngó com dez pacaças! Os que amanhã vão ser caçadores vão seguir exemplo do Velho Kipacaça, exemplo de caçador corajoso !" (83, 84)

 

9.  figuras poéticas, especialmente a metáfora: as figuras poéticas são muitas e muitas vezes formam-se por analogias e símiles ou mesmo metáforas além das aliterações, prosopopéias, onomatopéias e outras.

a) prosopopéia:

" Pombuji caudaloso, riachando : tem riacho ngó." (47)

" Noite está vir calma ." (82)

 

b)  Aliteração:

"Eh! DeRePenTe, SoluÇo imPercePTível eSVenTRa baRRiga do VenTRe e eSTaLa." (52)

"Eh! DeSLiZanTe, VagaRoSo, VenTa VenTo Lhe aFagando cabeLoS aLVoS." (72)

"DePoiS a PaCaÇa DeSConSeguiu de ConTinuar a CoRRer e eu KiPaCaÇa enTão DiSPaRei CeRTeiRo na CaBeÇa da PaCaÇa." (67)

 

c)  Onomatopéias:

"(...) caçadeira nesse dia estava disparar ngó num minuto mais de trinta balas! Pum! Pum! Pum !" (67);

"Olha só Velho Kauinde, octogenário desbenguelado, sem bengala, até há cerca de três meses retido no leito, caminhante bofele-felê, bofele-felê, bofele-felê." (92)

 

d)  Metáfora:

"Noite está vir calma. Kapiapia, corpo dele ao relento. Os corvos levam parta lá das montanhas o sopro: soprante." (82).

 

Ainda na passagem da língua oral para a escrita - o que o texto de Lopes não prevê -, pode-se perceber na narrativa de Boaventura Cardoso outros estratagemas muito fortes e vigorosos que fazem a travessia ou a transgressão das línguas africana e portuguesa ao ajuntar palavras das duas línguas ou de mais línguas criando novas palavras, no caso dos neologismos, ou na criação até mesmo de uma nova sintaxe ou, se não chega a criar uma nova sintaxe, altera completamente a sintaxe padrão da língua portuguesa. Segundo Macedo,

Boaventura Cardoso ao veicular os parâmetros da sua dimensão de escrita fá-lo utilizando componentes da voz do seu povo, em termos prosódicos, semânticos, etc. Boaventura Cardoso entra na voz colectiva de sua gente e com ela reelabora "mensagens" recriadoras de "universo" que projecta nos percursos do resgate e libertação da africanidade do angolano. (MACEDO In: CARDOSO, 1987, 13)

 

 

A partir dessa justaposição de línguas nota-se a diáspora da língua oral para a língua escrita de padrão português.

11. O neologismo

a)  substantivos transformados em verbos: "riachando", "pancaste" (61), "andarilharam", "sebanharam" (63), "acaçar" (67); "desbenguelado" (92)

b)  marcadores temporais escritos de forma diversa da língua portuguesa padrão: "derepente", "mbora", "cadavez" (66), "outravez" (88)

c)  verbos escritos de acordo com a fonia: "desiquilibrou" (66); "burbulhando." (93)

d)  palavras africanas trazidas para a narrativa: "ngó", "ndenga", "Man", "Dixibe", "co", "kujikininando", "maxikululu" (68), "kuxicululante" (77), "muximante" (47); "difuta" (75)

e)  adjetivo positivo transformado em adjetivo negativo: "despotente", "desconseguiu" (67)

f)  supressão da ordem de uma frase criando nova palavra: "Vem cá fora sés homem!" (60)

g)  interjeições na língua africana: "amam'ééé" (61), "Atata" (83)

h)  substantivo transformado em adjetivo: "donzelaicas" (60)

i)  substantivo transformado em advérbio: "salamalequemente" (74)

 

Além dos neologismos, o ponto máximo onde as línguas se chocam ou são kazukutadas é no espaço da sintaxe. É com a alteração da sintaxe que Boaventura Cardoso rebela-se contra a imposição de uma única língua e revolve completamente a língua portuguesa, a língua da escrita formal, coroando a diáspora da língua da cultura acústica africana para a língua portuguesa sem submeter-se a ela, mas domando a língua e tornando-a sua. A sintaxe será alterada das mais diversas formas, conforme se pode perceber nos exemplos que se seguem:

12. Alteração da sintaxe:

a) alteração da pontuação, principalmente os dois pontos que, de acordo com Martinho, "obrigam a uma pausa entre o nome predicativo e o sujeito, a qual leva o leitor a atribuir uma maior autonomia entre os dois elementos." (MARTINHO In: CARDOSO, 1980, 14).

"Tem de ter explicação: o caso.";

"Motivo do encontro tem batucada muximante: quem faz a chuva não ter chuva?";

"Pombuji caudaloso, riachando: tem riacho ngó." ;

"Chupa seio e chora e chora: o bebé.";

"Capoeira e currais já não precisam de fecho: peste varre cria." (47)

 

b)  supressão da preposição a nas formas perifrásticas antes do infinitivo (MARTINHO In: CARDOSO, 1980, 14):

"(...) a fome está entrar ainda nas nossas barrigas?" (48)

"No meu pensamento estou pensar." (50);

"Kapiapia estava parar, Velha Kaxiquela estava parar." (59);

 

 

c) alteração da ordem frasal:

"Eh! E depois já tudo tinha fogo, muito fogo." (51);

"No curriculum dele vitae tem caso falado do filho da Kakinda." (73);

 

d) Contração de uma forma sintática

"Vem cá fora sés homem!" (60)

 

e)  Alteração do sentido da frase:

"Mas com sem facilidade lá que conseguiu entrar." (60);

"A lebre passou também a correr, a correr, mas desconseguiu passar na frente do cágado!" (72)

 

f)  Troca de expressões da língua padrão por expressões da oralidade:

" Tinha sete noites Mana Teresa não estava dormir." (61);

"Quem que matou Velho Kipacaça foi você!" (80)

"Depois a pacaça desconseguiu de continuar a correr (...)" (67)

"Kipacaça se aproximou da kindamba e quando me viu lá dentro se desatou a rir!" (89)

 

g)  Utilização do pronome de forma não padronizada na língua portuguesa: "Não lhe deram com ele." (63)

Segundo Martinho:

O escritor trabalha a linguagem como o homem que, com o fogo, trabalha o vidro ou o ferro. O fogo é a força modeladora, transformadora. A fala torna dúctil a língua, afeiçoa-a. Experimenta-a, violenta-a onde a norma poderia constituir um factor de estagnação ou bloqueamento. E procura, sem a destruir, abrir a língua a novos horizontes expressivos. (MARTINHO In: CARDOSO, 1980, 12)

 

A partir dessa afeição para com a(s) língua(s), Boaventura Cardoso altera a sua língua, fazendo o deslocamento de uma língua pertencente a uma cultura acústica para uma língua já instituída como língua padrão. É a partir dessa transgressão que o autor demonstra sua insubmissão aos padrões, fazendo da sua literatura algo híbrido que, de acordo com Canclini (2000), só se torna possível porque as línguas não são puras, mas conectam-se e se transformam pelo poder da literatura. O autor desterritorializa essas línguas para reterritorializá-las nesse espaço que é o texto literário produzido em Angola e lido no Brasil.

Dessa forma, o texto angolano traz para o público português, brasileiro, as vozes de África que, embora estejam oficialmente organizadas num mesmo padrão - o português - possuem sua singularidade, sua individualização. Vozes estas que, ao invés de se calarem, pulsam na noite do grande continente do qual sabemos ainda muito pouco e a literatura de Boaventura Cardoso ajuda a iluminar.


Referências bibliográficas

CAMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do folclore brasileiro . 2ed. Rio de Janeiro: INL/MEC, 1962.

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas . São Paulo: EDUSP, 2000.

CARDOSO, Boaventura. A morte do Velho Kipacaça . Maputo: União dos escritores angolanos, 1987.

CARDOSO, Boaventura. O fogo da fala . Lisboa: edições 70, 1980.

CHAVES, Rita. A formação do romance angolano . São Paulo: USP, 1999.

LOPES, José de Sousa Miguel. Cultura acústica e cultura letrada: o sinuoso percurso da literatura em Moçambique. In: LEÃO, Anglea Vaz. (org.) Contatos e ressonâncias: literaturas africanas de língua portuguesa . Belo Horizonte: PUCMINAS, 2003.

SECCO, Carmen Lúcia Tindó. Boaventura Cardoso: os alegóricos "maiôs" e "desmaios". In: A magia das letras africanas . Rio de Janeiro: ABE Graph/Barroso produções editoriais, 2003. pp. 100-111.

 

Notas:

Termo derivado de kazukutar, que no kimbundo significa "instalar a desordem". SECCO, Carmem Lúcia Tindó. A magia das letras africanas . Rio de Janeiro: ABE Graph / Barroso produções editoriais, 2003.

Todas as citações do texto pertencem à edição CARDOSO, Boaventura. A morte do velho Kipacaça . Maputo: União dos escritores angolanos, 1987 e serão apresentadas apenas com o número das páginas entre parêntesis.