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Paula Tavares p'ra lá do cercado das convenções
Claudia Fabiana de Oliveira Cardoso (UFRJ)

Hoje levantei-me cedo

pintei de tacula e água fria

o corpo aceso

não bato a manteiga

não ponho o cinto

 

VOU

para o sul saltar o cercado

 

Paula Tavares. Ritos de Passagem, p. 30.

 

Espaços cercados são comuns no sul de Angola, pois há nessa região uma importante atividade pecuária, sendo o boi um símbolo de riqueza. Nosso ponto de partida reside exatamente na imagem do cercado para a cultura africana: um símbolo, segundo Jean Chevalier, do espaço sagrado e limitado, guardado e defendido, "do local intransponível, proibido a todos, exceto ao iniciado". Por ser um espaço construído, cuja representação e vivência falam-nos dos valores, dos costumes e dos modos de vida, em suma, da visão do mundo de seus habitantes, será tomado aqui como metáfora da tradição, recuperada na obra poética de Paula Tavares, nosso objeto de investigação.

A imagem do cercado, recorrente nos poemas da angolana, tende a nos revelar, através do espaço literário, o conflito do sujeito diante de um patrimônio marcado pelo passado e as constantes exigências de inovação que surgem em todos os níveis da vida coletiva. Isto porque, assim como a linguagem, a tradição aparece na poesia de Paula Tavares não como algo cristalizado e sem vida, mas em permanente mudança, como projeto consciente de transformação da realidade, como vir-a-ser, como história. O passado resgatado tem importância na medida em que diz aos interlocutores atuais alguma coisa sobre o presente e, dessa forma, permite uma ação voltada para o futuro. Como nos afirma a própria Paula Tavares em uma de suas crônicas do livro O sangue da buganvília :

a tradição, longe de constituir um legado imóvel e fixo, pronto para ser transmitido de geração em geração, a tradição é também mudança e sinônimo de um quadro dinâmico longamente entretecido entre o indivíduo e o grupo, desde sempre aberto à incorporação de elementos novos, que alimentam o antigo e estabelecem a necessária ponte entre o velho e o novo. 1

 

Já em sua primeira obra poética, Ritos de passagem (1985), podemos encontrar um ponto de convergência entre tradição e modernidade, tendo em vista que os poemas apresentam dois movimentos simultâneos - um dos gestos implica uma retroação, um movimento em direção ao passado, ao resgate das tradições africanas da região da Huíla; o outro caminha em direção a uma instância futura, a uma crítica dessa mesma tradição.

Através da montagem espacial da memória, a poeta recria nessa obra não só os rituais iniciáticos da tradição angolana, mas também a própria imagem da mulher, cercada durante muito tempo por uma certa imobilidade de valores alicerçantes daquela sociedade. A consciência de que é necessário ocupar espaços de resistência afirma-se nos poemas quando esses recuperam o "eu" individual, carregado de paixão e desejo.

O sujeito lírico feminino acaba por se apresentar no " exato limite " entre o velho e o novo. É o que podemos constatar no seguinte poema:

EXACTO LIMITE

 

A cerca do Eumbo estava aberta

Okatwandolo,

"a que solta gritos de alegria"

colocou o exacto limite:

árvore

cabana

a menina da frente

sairam todos para procurar o mel

enquanto, o leite

(de crescido)

se semeava, azedo

pelo chão

comi o boi

provei o sangue

fizeram-me a cabeleira

fecharam o cinto:

Madrugada

Porta

EXACTO LIMITE 2

 

 

A cerca aberta marca mais uma vez os limites a serem ultrapassados. Mesmo com o cinto fechado e a cabeleira feita, sinalizando o eu feminino que deve obedecer às tradições, o "exacto limite" para a passagem a um novo contexto físico e social impõe-se. A passagem pela porta representaria exatamente a entrada no novo universo.

O caminho trilhado por essa voz poética para um " saltar do cercado ", como conseqüência, vai deixando marcas no corpo feminino, o que garante sua integração social, além da aquisição de um conhecimento sobre seu lugar naquela sociedade. Assim, além de avaliar a resistência pessoal, o ritual de iniciação da poesia vai dar a esse sujeito que toma voz um sentimento de pertencimento social, proclamado publicamente pela exposição do corpo.

O corpo, a própria memória do feminino, marcado pela ação de uma lei silenciosa e cruel dos rituais iniciáticos angolanos, será reescrito pela palavra poética, como podemos ler no poema Alphabeto :

Dactilas-me o corpo

de A a Z

e reconstróis

asas

seda

puro espanto

por debaixo das mãos

enquanto abertas

aparecem, pequenas

as cicatrizes 3

 

Assim, de A a Z, a descoberta do corpo erótico acontece no próprio texto, no discurso. Como aponta Roland Barthes, nos seus Fragmentos de um discurso amoroso :

 

A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é "eu te desejo", e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submento a relação. 4

 

Dessa forma, o cercado da página em branco nada mais é que um local de passagem para a poeta, pois o jogo escritural que promove em sua poesia, incorporando a linguagem como tatuagem, transformando seu texto em corpo e voz, gera a transformação, a travessia, "p'ra lá do cercado" , como nos aponta o eu-lírico nos seguintes versos do livro O lago da lua (1999):

 

é maior a fome da fome d'outros corpos

é tão grande a sede d'outros corpos

que se alarga o círculo à volta da cidade

que se alarga o grito à volta da cidade. 5

 

Nesse sentido, além de Ritos de passagem, os dois títulos que surgem depois, o já citado O lago da lua e Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001), podem ser lidos como uma "sede d'outros corpos", como textos "de gozo", utilizando um termo de Barthes em O prazer do texto . Partindo da dicotomia entre gozo e prazer , pelo viés psicanalítico, o crítico mostra que o texto de gozo, ao contrário do texto de prazer, não obedece a uma dinâmica do preenchimento, da satisfação, mas aponta para algo que se situa sempre adiante, sempre mais além, e que, portanto, nunca é atingido, nunca se completa. É aquele que "desconforta (...), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem. 6

São exatamente as inscrições presentes no corpo do sujeito lírico, pois, ao se transformarem com o tempo, que vão inaugurar na poesia de Paula Tavares um novo modo de usar a linguagem. Diante de um país fragmentado pela guerra, o sujeito poético, também dilacerado, assume o papel principal, buscando encontrar na linguagem o entendimento de si e do mundo. Trata-se também de resistir duramente ao silêncio imposto pela história, de enfrentar antigas, porém sempre novas, questões: "Quem sou eu?"; "Quem somos nós?"; "Que mundo é esse em que vivemos?"; "Qual o lugar de Angola nesse mundo, no contexto da chamada globalização?".

Sendo assim, "entre a guerra e a paz ", os poetas retomam "fisicamente o poema ", "constante meditação primeira" , lembrando os versos de Manuel Rui em um de seus poemas da obra Cinco vezes onze - Poemas em novembro 7, na tentativa de exploração e de interpretação do estar no mundo.

O poema Canto de nascimento , por exemplo, sugere o caminhar da própria vida, com seus interstícios de prazer e dor, de som e silêncio, como podemos perceber na seguinte estrofe:

Uma mulher oferece à noite

o silêncio aberto

de um grito

sem som nem gesto

apenas o silêncio aberto assim ao grito

solto ao intervalo das lágrimas

O caminho circular do tempo mítico africano é buscado a partir da interseção de forças antagônicas de vida e morte. Ao mesmo tempo que o poema busca na disposição dos versos na página uma coreografia carregada de gestos alternadamente alongados e contraídos, lembrando a própria respiração da mulher no momento do parto, traz, em sua composição, uma música carregada de silêncio e grito.

Em outros momentos também de O lago da lua , como no poema "Mukai (4)", que significa mulher, o sujeito lírico questiona: "De quantos partos se vive/ para quantos partos se morre." (p. 33). E por mais que as cicatrizes deixadas pelos filhos perdidos na guerra sejam muitas, "um grito espeta-se faca/ na garganta da noite" (p. 33) e presenciamos também o nascimento de uma liberdade da mulher, "que abre a boca/ e solta os pássaros/ que lhe povoam a garganta" (p. 17).

O som, a canção, a poesia, enfim, é a possibilidade da luz que continua a faltar para o povo angolano. A lua, ao mesmo tempo que "[por ironia] / ilumina o esgoto" (p. 33) , já que, como aponta Paula Tavares na crônica "Silêncio, sacrifício, serviço", "na noite acesa é possível reconhecer o sinal da dor, que quando fica à solta é muito mais profunda" 8, é vista nas páginas de O lago da lua a iluminar também a possibilidade de uma nova condição para as mulheres angolanas, um novo caminho para o povo angolano. Como nos aponta Octavio Paz, a poesia é "a outra voz", a transgressão que nasce de uma diferença original, pois "é a memória feita imagem e esta convertida em voz. A outra voz não é a voz do além túmulo: é a do homem que está dormindo no fundo de cada homem" 9.

É assim que, entre o amor e a guerra, o corpo estilhaçado do sujeito lírico é tirado do esquecimento pela palavra que salta o cercado das convenções colocando o passado em uma nova perspectiva: a perspectiva modernizante da resistência, do "sentimento do tempo (...) que vai do presente do "eu" lírico para o pretérito, e daí retorna, presentificado, ao tempo de quem enuncia" 10, usando aqui Alfredo Bosi.

A composição poética de Paula Tavares traz ao leitor, dessa forma, uma lírica bastante inovadora, apresentando uma linguagem comprometida com o universo das mulheres angolanas. A sensualidade, tantas vezes escondida, floresce no corpo feminino e no corpo do texto como um encontro intensamente esperado, resgatando a voz da resistência, soltando o grito guardado na garganta. Preocupada com as soluções estéticas, com a arquitetura da poesia, a poeta vai construindo palavra sobre palavra, reescrevendo ritmos e fonemas da língua portuguesa, como se lê, por exemplo, no poema seguinte:

 

CAOS

CACTUS

CACOS

mãos feridas d'espinhos

pousadas pássaros

no meu rosto. 11

 

Abrindo-se às sonoridades da fala e aos ritmos do corpo, com seus gestos e movimentos, a escrita de Paula Tavares nascerá de uma reescrita, de uma releitura da língua materna, em que aspectos da tradição oral de seu local de origem se vêm cruzar. Escrevendo como quem canta, a poeta nos apresenta uma fala sua, em que a palavra se reveste de novos sentidos, representante de uma cultura angolana própria, já que a língua é a sua identidade.

Assim, ao ler os poemas de Paula, ficamos diante de cenas e acenos de mulheres em espera e ação, em silêncio e canto, em cansaço e renovação. A poeta reescreve e reinterpreta o papel da mulher para a cultura angolana e, numa perspectiva dinâmica, converte o universo feminino, também seu universo, em matéria de poesia. Buscando as referências principalmente no cotidiano da região da Huíla, canta suas origens, os labirintos da memória, o acontecer da palavra, participando da construção de um novo percurso também para a poesia angolana contemporânea. Lembrando um fragmento da "Arte poética", de Ruy Duarte de Carvalho, em Hábito da terra (1988), não podemos deixar de perguntar, e concluir, com ele:

Que se constrói? Um texto ou um percurso? A intenção de um lado, resposta vaga, moral herdada. Do outro lado o curso da palavra, da resposta, o som e o gesto seguidos um ao outro, um som que aponta a um gesto que exige um som liberto, e o acto assim é já um bolbo de intenção segura, à revelia da emoção primeira. 12

 

 

A poética de Paula Tavares está voltada, portanto, para a redescoberta ética e estética do poder da palavra e da imaginação criadora, para a busca de procedimentos inovadores, p'ra lá do cercado das convenções.

Desse modo, quanto à forma, a maioria de seus poemas são curtos, reveladores da busca de uma economia verbal, em que há versos formados por uma palavra apenas. A musicalidade e os efeitos sinestésicos - trabalhados a partir das referências de sua terra - também se fazem presentes. O espaço da página é trabalhado com consciência estética, carregando de significação a disposição dos versos na página. Além disso, sua escrita volta também a si mesma, na apresentação de imagens recorrentes (como por exemplo a do cercado, a das sandálias de couro e do universo pastoril, só para citar alguns) e na revisitação de seus versos, em diálogo entre si próprios.

Entre os temas discutidos, está o repensar da condição da mulher angolana, lutando por liberar o feminino do peso opressivo da tradição. Um dos recursos utilizados para tal está no uso do tempo cíclico, que mostra uma realidade constituída por forças antagônicas de vida e morte, som e silêncio, amor e guerra. Além disso, a poeta traz para o presente o passado revisitado pela memória, significando uma possibilidade de crítica e, quem sabe, de transformação do tempo atual, através da exploração máxima do potencial da palavra.

A poesia de Paula Tavares torna-se, nesse contexto, uma experiência mais ampla, que é a da luta da mulher contra a dor, a da palavra contra o esquecimento, a do canto contra o silêncio, a da vida contra a morte. Combina a magia de suas imagens com o compromisso ético que não dispensa o pacto com a transformação.

Transformação, transgressão, conhecimento - eis as palavras que tomamos para concluir este trabalho. Afinal, o que é o ato poético senão uma transgressão - do latim transgressione , que significa atravessar, ir além - do código lingüístico, a ultrapassagem dos cercados das tradições para chegar à liberdade da escritura?

 

 

TAVARES, Paula. O sangue da buganvília : crônicas. Prais; Mindelo: Centro Cultural Português, 1998. p.52.

______. Ritos de passagem : poemas. Luanda: Lito-Tipo, 1985. (Cadernos Lavra & Oficina, n. 55). p. 28.

Idem . p. 32.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 11. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991. p. 64.

TAVARES, Paula. O lago da lua. Lisboa: Caminho, 1999. p. 34.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002. pp. 20-21.

RUI, Manuel. Cinco vezes onze - Poemas em novembro . Luanda: UEA, 1980. p. 111.

TAVARES, 1998, p.102.

PAZ, Octavio. A outra voz. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 144.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. 6. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 185.

TAVARES, Paula. Dizes-me coisas amargas como os frutos. Lisboa: Caminho, 2001. p.21.

CARVALHO, Ruy Duarte de. Hábito da terra. Luanda: UEA, 1988. p. 10.