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A conciliação da escrita e da oralidade: um estudo do aspecto metalingüístico de Terra Sonâmbula, de Mia Couto
Anita Martins Rodrigues de Moraes ( Unicamp/IEL)

Gostaria de expor aqui algumas reflexões norteadoras de minha pesquisa sobre a ficção de Mia Couto, pesquisa centrada na análise de Terra Sonâmbula . Apresento um trabalho em curso, para colocá-lo em debate.

 

Consiste em traço marcante da produção literária africana lusófona, como também numa das questões mais permanentes entre seus estudiosos, a inscrição da oralidade na escrita, ou a recriação pela escrita da performatividade própria da oralidade. Segundo Ana Mafalda Leite: "A tendência geral tem sido mostrar como a configuração especial que a oralidade, ou oratura, institui nos textos literários, leva à caracterização da especificidade e autonomização destas literaturas em relação a suas origens coloniais." 1 Interessa-me, no estudo da literatura moçambicana, centrado na análise da obra de Mia Couto, investigar de que maneira a inscrição da oralidade na escrita pode produzir formas de narratividade não apenas peculiares (autônomas com relação às literaturas européias), mas também destinadas à abordagem de eventos de violência (que marcam o período colonial e o de guerra civil em Moçambique). Nessa abordagem, a noção de testemunho , que articula reflexões de forte matriz benjaminiana a respeito do discurso produzido sobre um real específico, a catástrofe, torna-se importante.

Selligman-Silva, em História, Memória, Literatura; o Testemunho na Era das Catástrofes , aproxima as noções de testimony (que refere de maneira especial o conjunto de textos produzidos após a Segundo Guerra - após a Shoah ) e testimonio (que, na América Latina, aponta para certa produção de forte caráter documental, de denúncia e registro). As noções, sugere o teórico, distanciam-se em um aspecto fundamental: no caso da produção latino-americana, temos uma estética de viés bastante realista (o que reforça seu caráter documental); no caso da produção referida por testimony , as dificuldades na articulação do discurso fraturam-no, conduzindo a outra estética, a do fragmento (a teorização sobre este discurso fraturado incorpora, como fundamento privilegiado, a teoria psicanalítica). Esta distância apontada entre as duas acepções do termo "testemunho" abarca uma importante discussão sobre os desafios e limites da representação. Importa destacar que nas duas acepções mencionadas evidencia-se uma forte dimensão ético-política: trata-se, em ambos os casos, de não se deixar calar pelo opressor (o que inclui a recuperação da história das vítimas, de seus nomes próprios, e a construção de sepulturas - inclusive pela palavra - àqueles que tiveram seus nomes e vidas espoliados). Interessa investigar de que maneira a obra de Mia Couto, dedicada à memória da violência colonial e da guerra civil em Moçambique (e à denúncia, no presente, do abandono da cultura tradicional na inclusão das novas gerações na ideologia do consumo), ao incorporar gêneros orais e destacar a materialidade da palavra (em jogos com sua sonoridade), produz um discurso testemunhal de características próprias (nem documental à maneira do testimonio ; nem fragmentado à maneira do testimony ).

Em vários aspectos (no recurso à alegorização e na incorporação do animismo característico das culturas autóctones), a ficção coutiana se aproxima da produção latino-americana referida por realismo mágico, que não se encontra abarcada pelo termo testimonio , sendo, porém, uma produção de forte teor testemunhal . Na perspectiva de Selligman-Silva, os estudos do discurso testemunhal não se caracterizam pela abordagem de um corpus específico (apesar de se originarem, os estudos de testimony , como estudos da produção subseqüente à Shoah ), consistindo numa nova abordagem teórica dos estudos da narrativa literária e historiográfica (sendo que as fronteiras entre essas modalidades do discurso, apesar de necessárias, não são fáceis ou estanques). O autor sugere o interesse de "sinalizar a possibilidade de se pensar este conceito [de testemunho] para além dos estudos da Shoah e do testimonio na América Latina. Os estudos comparativos entre o teor testemunhal de diferentes literaturas ainda estão por ser estabelecidos, e temos certeza de que também caberá nesse percurso importante papel ao estudo do teor testemunhal na literatura latino-americana que vá além da análise do que se estabeleceu como gênero de literatura de testimonio ." 2 Nessa perspectiva, a produção latino-americana dedicada à abordagem de crises sociais e políticas, da repressão e tortura que marcaram nossas recentes ditaduras, recorrendo à alegorização ou ecoando acontecimentos históricos de maneira menos direta (ou mais precavida com relação aos desafios e limites da representação) que a produção referida por testimonio , vê-se abarcada. Na abordagem tanto de parte dessa produção latino-americana como de grande parte da produção literária africana lusófona, importa atentar para as relações entre escrita e oralidade: para a incorporação de gêneros orais (que concorrem para a invenção de novas formas de narratividade) e para a inscrição da performatividade própria da oralidade (que remete à "forma arquetipal, imagem primordial e criadora" 3 da voz). Importa investigar as relações entre este duplo movimento em direção à oralidade e o teor testemunhal dessas produções.

O estudo do aspecto metalingüístico do romance moçambicano Terra Sonâmbula (1992) articula esta reflexão sobre as relações entre a inscrição da oralidade na escrita e a produção de formas de narratividade destinadas à abordagem de eventos de violência. O romance moçambicano parece conduzir uma discussão metalingüística sobre a confluência entre literatura oral e escrita, produzindo metáforas sugestivas do tomar de empréstimo, pela escrita, de dimensões práticas próprias da literatura oral. Gostaria de retomar alguns aspectos centrais da noção de testemunho: o motor do testemunho é ético-político, consiste na necessidade de não se deixar calar pelo opressor, de lutar contra o esquecimento e a banalização do sofrimento; a ênfase está no ato de testemunhar (que inclui aquele que fala / escreve e aquele que ouve / lê) ou seja, o testemunho é da ordem do evento, não sendo apenas um discurso sobre mas um discurso que é , que intenta desdobrar-se em efeitos no real - produzir indignação, recuperar a memória, reconstruir uma identidade abalada pelo evento reificante. Assim, em especial no que se refere à noção da testimony , a palavra testemunhal é uma palavra eficaz , de ordem prática. Recupera, então, uma dimensão prática própria da narrativa tradicional, que, na perspectiva benjaminiana, é alheia ao romance.

Vale à pena destacar a matriz benjaminiana da teorização em torno dos textos pós- Shoah , portanto, em torno da noção de testimony . De maneira geral, o que se destaca é um processo de emudecimento, de silenciamento, de perda da capacidade de intercambiar experiências. Este processo remeteria às origens da sociedade burguesa, à industrialização e à experiência do tempo própria dessa mesma sociedade. As catástrofes do século XX seriam o coroamento deste processo, como também colocariam em evidência mais uma, talvez a mais contundente, causa para a perda da capacidade de narrar: a experiência de violência radical. É sempre de se lembrar que, em "O narrador", Benjamin inicia sua reflexão sobre o fim da narrativa remetendo-nos aos soldados que voltavam mudos da guerra, a primeira grande guerra, "não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável" 4. A noção de trauma adquire, então, força explicativa. A narrativa do evento traumático, quebrada, árdua, obscura, é investida de uma dimensão curativa, ressoando a situação da clínica psicanalítica. Assim, testemunhar torna-se processo de recuperação das condições sócio-psíquicas que fazem da vida uma possibilidade. Esta atribuição de poderes à palavra encontrará, no intertexto com a oratura, próprio das literaturas que se fazem na confluência das tradições oral e escrita, uma forte matriz de sentido. O caráter vital do ato de narrar a experiência reificante será imbuído das atribuições de poderes de vida e morte à palavra, características da palavra ritual; os desdobramentos práticos do discurso testemunhal encontrará nos gêneros orais um importante apoio. As formas e funções tradicionais da palavra oral revelam-se, assim, matrizes produtivas para o investimento de desdobramentos práticos ao texto literário, articulando-se a seu teor testemunhal.

Terra Sonâmbula trata da catástrofe da guerra civil moçambicana. Jogo de duas grandes narrativas, que são permeadas de outras menores, o romance propõe um percurso pelos escombros dessa guerra. O fio articulador das duas grandes narrativas, que se intercambiam em outros níveis durante todo o romance, é a leitura feita por Muidinga, personagem da primeira narrativa, dos cadernos de Kindzu, narrador da segunda. Kindzu nos é apresentado, dentro da primeira narrativa, a que conta do velho Tuahir e do menino Muidinga numa estrada devastada, como um cadáver recém-morto. Seus cadernos nos chegam, portanto, como o testemunho de uma vítima da guerra.

As palavras escritas de Kindzu, lidas em voz alta por Muidinga para Tuahir, que não sabia ler, tem efeitos inesperados: no dia seguinte às leituras dos cadernos, a estrada estava mudada, a terra sonambulava (movendo-se em busca de vida) quando eram lidos os cadernos de Kindzu. No investimento de uma dimensão salvadora à palavra (ou função mágico-mítica), observa-se o recurso a associações recorrentes entre palavra e matéria-vital (elementos naturais, alimentos, cinzas dos mortos, etc.) como construção imagética de apoio. Esta imagética, articulada às figurações da palavra escrita e oral, configura uma cadeia de sentido a atravessar todo o romance, sugestiva de uma palavra especial, a palavra-potência. Ao final do livro, na profecia de um feiticeiro que participa do último e marcante sonho de Kindzu, somos surpreendidos pela "primeira voz", definida como a "memória de sermos gente", com o poder de "sossegar os mortos e entusiasmar os vivos". Esta palavra primordial, que remete às origens, sugerindo renascimento, anunciando a possibilidade da vida se refazer, ressoa todas as associações produzidas no curso da narrativa entre palavra e matéria de vida. Assim, o romance é atravessado por uma interessante cadeia de sentido metalingüística, que aproxima a palavra oral e a palavra escrita, remetendo-as a um fundamento e a uma motivação comuns: a afirmação da vida na preservação e reconstrução da identidade pessoal e coletiva.

Terra Sonâmbula enfatiza o movimento de regeneração, de cura, da vida em busca de vida, da palavra em busca da palavra vital. Ao falar de morte, o romance fala de renascimento. Assim, a ênfase diverge daquela verificável na maior parte da produção subseqüente à Shoah . Lembremos: em todo o discurso testemunhal há tanto o aspecto curativo e vital da narrativa da experiência traumática, como também as marcas de uma dificuldade representacional: como falar de um evento que me esmaga? O texto marcado por essa impossibilidade resulta de árdua leitura, fragmentado e fortemente elíptico. O texto de Mia Couto enfatiza o aspecto regenerador da tentativa de colocar em palavras o vivido, desenvolvendo um trabalho com a língua bastante divergente da estética do fragmento, estética partilhada por muitos textos que tem como referência a catástrofe. Enquanto a fragmentação propõe uma língua dilacerada, estilhaçada, tão desagregada como o sujeito objetificado pelo evento de violência radical, o trabalho coutiano consiste em costurar e recosturar de maneiras novas os elementos da língua, propondo uma língua em nascimento, sugestiva de um sujeito em busca de renascimento. A diferença é de ênfase: a estética do fragmento contempla uma dimensão curativa (lembremos da paradigmática situação psicanalítica); a obra coutiana contém uma forte dimensão representacional - marcada pelos desafios da representação do mal cometido pelo homem contra o homem (note-se a proliferação de histórias dentro das histórias, num movimento exaustivo tendendo à desestabilização dos sentidos do texto). Esta diferença de ênfase, porém, é sugestiva de uma especificidade da ficção coutiana que mantém relações com a inscrição da oralidade na escrita, com a busca de um intertexto com a oratura que invista o texto escrito de funções mágico-míticas próprias deste universo. Ao voltar-se para a oratura, o texto coutiano fortalece sua dimensão prática, o caráter não apenas representacional mas também eficaz de sua palavra.

O romance de Mia Couto conta a história de uma leitura, a leitura do testemunho de uma vítima da guerra, dos cadernos "gatafunhados com letras incertas". Esta leitura, que se dá à noite e ao redor do fogo, move a terra, possibilitando que Muidinga e Tuahir empreendam viagem, uma travessia em busca da identidade de Muidinga. Neste movimento, a distância entre escrita e oralidade, dicotomia especialmente operante no colonialismo, é atravessada. Escrever, ler e contar histórias são ações que se conciliam, aproximando-se na medida em que se revelam mecanismos de revolta contra a instauração da violência, do impedimento à vida. A palavra, em Terra Sonâmbula , quer ser a um só tempo escrita e oral, rompendo dicotomias, agregando funções e formas de gêneros discursivos diferentes matrizes culturais. Desta maneira, encerrando estas considerações, sugiro que o aspecto metalingüístico do romance confunde-se com a busca de uma palavra capaz de afirmar a vida em meio à regência da morte, palavra que desfaz a distância entre o corpo e a página, o som e a tinta.

 

 

Leite, Ana Mafalda. Literaturas africanas e formulações pós-coloniais . Maputo: Imprensa Universitária, UEM, p. 35, 2003.

Selligman-Silva, Márcio. Historia, Memória, Literatura: O testemunho na Era das Catástrofes . Campinas: Ed. Unicamp, p. 9, 2003.

Zumthor, Paul. Introdução à literatura oral . SP: Hucitec, p. 12, 1997.

Benjamim, Walter. "O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov", in Obras escolhidas I: Magia e Técnica, Arte e Política . São Paulo: Brasiliense, p. 198, 1994.