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Eu sou neguinha? Cultura negra popular em Daniela Mercury
Ângelo Barroso Costa Soares (UNEB/UEFS)

A presente comunicação pretende abordar os elementos de africanidade presentes na música de Daniela Mercury e a aparente metamorfose da sua carreira com o disco Carnaval Eletrônico de 2004. Ou, dito de outra forma, pretende analisar o diálogo de uma artista de massa inserida nas indústrias culturais com a cultura popular negra do Recôncavo baiano.

Embora estejamos tratando dos elementos de africanidade na música da cantora levaremos também em consideração o discurso geral da artista, como o faz Silviano Santiago em relação a Caetano Veloso no texto "Caetano Veloso Enquanto Superastro", ou seja, levaremos em conta também os figurinos, cenários de shows, aparição pública, capas de discos e entrevistas.

A presença de elementos africanos na música de Daniela Mercury pode ser explicada primeiro pela questão da ancestralidade da cultura do Recôncavo baiano e do Brasil, uma vez que, como brasileira e baiana ela está inserida numa cultura que se forjou também e, sobretudo, a partir da herança das várias etnias africanas para cá trazidas durante a escravidão, e segundo a partir daquele interesse pela diferença próprio da pós modernidade ao qual Stuart Hall se refere.

"Devemos trazer em mente a profunda e ambivalente fascinação do pós-modernismo para com as diferenças sexuais, raciais, culturais e, sobretudo étnicas. Não há nada que o pós-moderno global mais adore do que um determinado tipo de diferença, um "sabor" do exótico".(1996:p.3)

Mas é preciso levar em conta que este mesmo fascínio pela diferença possibilita as lutas políticas e étnicas das chamadas minorias. É o próprio Hall quem diz que:

"O descentramento ou deslocamento do pós-modernismo abre o caminho para novos espaços de contestação e causam uma importante mudança na alta cultura das relações culturais populares, apresentando-se, desse modo, como uma estratégica e importante oportunidade para a intervenção na esfera cultural popular".(1996:p.3)

 

Embora Daniela Mercury não seja uma cantora negra, a música feita por ela desde o início da carreira (quando identificada como a rainha da axé music até de maneira pejorativa porque racista pela mídia, que sempre considerou essa música baiana menor por ser "música de preto")é negra; assim como a música feita por ela hoje: fusão de gêneros musicais brasileiros com a música eletrônica, que também é negra. Embora os negros não identifiquem a música eletrônica como tal, é fato que a música eletrônica reproduz por meio do computador, a batida dos tambores.

Dessa forma, a aparente metamorfose de Daniela Mercury - acusada, inclusive pela massa, de ter deixado de ser uma cantora de axé music, logo de música negra popular e de massa - é apenas uma ponte entre diferentes expressões da música negra: de um lado, os tambores dos blocos afro carnavalescos das periferias de Salvador; do outro lado da ponte, a música produzida nos guetos negros americanos. Daniela evidencia, em Carnaval eletrônico , que samba-reggae e música eletrônica são diferentes expressões musicais da diáspora africana. Como afirma Hall:

"Embora os negros e as tradições e comunidades negras apareçam e sejam representados na cultura popular sob a forma de deformados, incorporados e inautênticos, continuamos a ver nessas figuras e repertórios, aos quais a cultura recorre, as experiências que ficam por trás deles."(1996:p.7.)

 

A própria Daniela, em texto da contracapa do disco Carnaval eletrônico , evidencia a ancestralidade negra que está por trás das duas expressões musicais:

 

"Como no trio eletrônico,[neste disco] estamos fundindo Drum'n'Bass, House, Techno, Loung, Dub com ritmos brasileiros e com nossas vozes e criando faixas originais.

As palavras de ordem são criatividade, swing e liberdade. Tudo é permitido para esses artistas das pistas que, junto com os cantores, balançam a multidão seja como for: com Drum'n'Bossas, Techno galopes, Sambas Houses, Samba Reggaes Dubs, Ijexás Tech Houses...Estamos juntos, brincando o carnaval!".(Carnaval eletrônico,2004)

 

Além disso, Maimbê Dandá - carro-chefe do Disco Carnaval Eletrônico, escolhida por voto popular como a melhor e mais executada música do Carnaval de Salvador em 2004 e composta por Carlinhos Brown - mistura um poderoso refrão pinçado dos terreiros de Candomblé da chamada " tradição angola" de Salvador, com fragmentos em ioruba e o som dos sintetizadores. Foi a herança africana recalcada ao longo da história do Brasil que emergiu com toda a força quando a multidão, no carnaval, rendeu-se a voz de Daniela cantando:

"Corre, Cosme chegou

Doum Alabá

Damião Jaçanã

Pra levar e deixar

Alegria de Erê

É ver gente sambar

Maimbê, Maimbê, Dandá

Maimbê, Maimbê, Dandá

Maimbê, Maimbê, Dandá

Maimbê, Maimbê, Dandá

Oiá, Eparrêi

Me ensine a espiar com os olhos de

Quem me cega de Amor

Vou cantar Maimbê, pra você se

Acabar .

 

Além da explicitação de elementos da cultura afro-brasileira em sua música - algo já presente em seu primeiro grande sucesso de massa, Swing da Cor , de 1991, bem como em S ol da liberdade - ,Daniela Mercury expressa também esses mesmos elementos em sua imagem pública e publicitária. No encarte do disco Carnaval Eletrônico (2004), a cantora aparece de cabelos trançados à moda dos negros soteropolitanos e com adereços que fazem referência as representações de beleza das etnias africanas. No material publicitário usado pela BMG para a divulgação do disco Sol da liberdade a artista aparece num manguezal, pisando em lama, entre a vegetação, numa clara alusão a Nana Borokê , Orixá que habita os pântanos. Antes, Mercury já apareceu de turbante e vestida como uma das dançarinas do Ilê Ayiê , o mais ativo, do ponto de vista político-estético, dos blocos afros de Salvador. A percussão desse bloco, assim como as percussões do Muzenza , Olodum , Raízes do Pelô e do Vulcão da Liberdade já gravaram com a cantora em diversas faixas dos seus discos. Os músicos e dançarinos desses blocos afros também participaram de video clips de Daniela e de seu recente DVD Eletrodoméstico.

Mercury, portanto, representa um espaço da cultura popular negra na cultura de massa; espaço contraditório, é verdade, mas um espaço de fato. Como lembra Hall:

"Os espaços ganhos pela diferença são poucos, meticulosamente policiados e regulados. Eu acredito que sejam limitados. Sei, às minhas próprias custas que eles são absurdamente subfinanciados, que existe sempre um preço a ser pago quando a ponta de lança da diferença e da transgressão é desviada para a espetacularização".(1996:p.4)

 

Mas, é ele mesmo quem ressalta que a cultura negra de massa, mesmo aquela mais comercial, tem permitido vir a tona " os elementos de um discurso que é diferente - outras formas de vida, outras tradições de representação".(1996:p.7)

"A cultura negra popular é um espaço contraditório. É um local de contestação estratégica. Mas ela nunca pode ser simplificada ou explicada nos termos das simples aposições binárias que são ainda habitualmente usadas para mapeá-las: alto e baixo; resistência versus incorporação; autêntico versus inautêntico..."(1996:p.7)

 

Encerrando essa comunicação, que não quer e nem pretende exaurir o tema mas apenas contribuir para o debate, pode-se ler a transformação na carreira de Daniela Mercury como uma negociação da cultura negra popular com os setores hegemônicos da indústria cultural, para lembrar a importante contribuição de Gramsci; ou, como lembra Homi Bhabha em Um local da Cultura , a força da tradição não está em sua fixidez, mas em seu poder de negociar/sobreviver com/ as adversidades.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BHABHA, Homi. O local da Cultura . Belo Horizonte:UFMG, 1998.

CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidadãos . Rio de Janeiro:UFRJ, 1996.

CASTRO, Yêda Pessoa de. Falares africanos na Bahia:um vocabulário afro-brasileiro .Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras,2001.

FELDMAN BIANCO, Bela & CAPINHA, Graça.(Org.) Identidades:estudos de cultura e poder. São Paulo:Hucitec, 2000.

GILROY, Paul. Atlântico Negro:modernidade e dupla consciência . São Paulo: Editora 34,1999.

HALL, Stuart. Identidade Cultural . São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 1997.

HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidade e mediações culturais . Belo Horizonte:UFMG; Brasília:UNESCO, 2003.

HALL, Stuart. O que é o "negro" na cultura negra de massa? . MORLEY, David et CHEN, Kuan-Hsing(orgs.)Stuart Hall:Critical dialogues in cultural studies. London - New York : Routledge, 1996.

SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos Trópicos . Secretaria da Cultura Ciência e Tecnologia. São Paulo:Perspectiva, 1978.

 

DISCOGRAFIA

Carnaval Eletrônico - Daniela Mercury. São Paulo: BMG, 2004.

Swing da Cor IN: Daniela Mercury. Eldorado, 1991.