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Memória e infância na obra de Manoel de Barros e Ondjaki
Andrea Muraro (PUC-SP)
O texto pretendido aqui tem como fio o texto poético de dois autores, pois há neles uma reunião de linguagens, que produzem uma teia verbal e imagética colocando o leitor como tecedor desse fio, aquele que preencherá os espaços em branco: nesse diálogo entre linguagens o que se pretende analisar é a voz da infância, da memória e o quanto é um meta- discurso, criador de estranhamentos e níveis de leitura e recepção.
Para essa proposta foram escolhidos o angolano Ondjaki que se apresenta 1
" Infância é um antigamente que sempre volta.
Este livro é muito isso é a busca e exposição dos momentos, dos cheiros e das pessoas que fazem parte do meu antigamente, numa época em que Angola e os luandenses formavam um universo diferente, peculiar: tudo isto contado pela voz da criança que fui: tudo isto embebido na ambiência dos anos 80: o monopartidarismo, os cartões de abastecimento, os professores cubanos, o hino cantado de manhã e a nossa cidade de Luanda com a capacidade de transformar mujimbos em factos. (...)Esta estória ficcionada, sendo também parte da minha história, devolveu-me memórias carinhosas, permitiu-me fixar, em livro, um mundo que já é passado, um mundo que me aconteceu e que, hoje, é um sonho saboroso de lembrar. ( Ondjaki)"
com apenas 27 anos, é um nome em crescente ascensão na literatura . Natural de Luanda, estreou em 2000 com um livro de poesia, Actu sanguíneu ( menção honrosa do Prêmio Antonio Jacinto) e o outro um romance, Bom dia , camaradas! , com o qual desde logo se impôs. Em 2001 publicou a coletânea de contos Momentos de Aqui, e em 2002, a novela O assobiador, e um novo livro de poesia Há prendisajens com o xão, todos pelo Editorial Caminho, bem como o recente romance "Quantas madrugadas tem a noite' de 2004. Interessa- se pelo teatro e pela pintura, duas exposições individuais, em Angola e no Brasil. Participou de antologias internacionais (Brasil e Uruguai). Licenciado em sociologia, atualmente estuda cinema em Nova Iorque.
E o brasileiro Manoel de Barros(1916), poeta e mato-grossense, talvez dispense apresentações, seu primeiro livro foi publicado em 1937 P oemas concebidos sem pecado .Passou a ser mais conhecido a partir de 1997, quando ganhou o Prêmio Nestlé de Literatura 2.
"No colégio interno, os padres me deram o Padre Antonio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que é verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso."
Em suas linhas temáticas centrais, em ambos, toma-se uma produção que 3
" converge para uma globalidade significativamente revolucionária. Amor à terra, às coisas, aos homens, penetrada do mundo animal, vegetal, mútuo, mas segmento medular da sua expressão é de fato, a afirmação de sua identidade(...) A linguagem evolui, atualiza-se, arma-se para a expressão de novas formas conteudísticas."
O que se esboça, a partir desse ponto, é a presença do silêncio, entranhado metalingüisticamente através de um brincar reflexivo de neologismos sem-fim e desconstrução da linguagem levando o leitor para um objeto de leitura que assume um caráter não-linear e muitas vezes multifacetado por percorrer o tecido melódico dos versos que sugerem derivações e composições inusitadas seja pela distância do vocabulário entre culturas como Angola e Brasil ou como legado da língua portuguesa, mesmo porque Ondjaki dialoga explicitamente com Manoel de Barros em o Poema Chão
apetece-me dês-ser-me;
Reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão. Muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me. 4
O discurso metalingüístico re- situa as construções sígnicas e dá conta do processo de semiose. Haveria aqui uma interação de linguagens, ou seja, o texto poético se mostraria com movimento, criando imagens, espaços e cruzamentos de memória, mostrando que as obras desses poetas exigem um leitor-receptor, que infere e faz associações de sua vida com o que é apresentado 5
"O pós-moderno não se opõe ao passado, nem é iconoclasta, mas é antropofágico. Absorve, como seu conteúdo, a linearidade mimética do renascimento, o detalhe do paramorfismo barroco, a decoração maneirista e as próprias soluções funcionais do programa modernista, a fim de devolver tudo transformado em uma ação perceptiva que exige a comunicação entre as linguagens, entre os receptores e entre os próprios ambientes" 6.
Uma das pistas lingüísticas para possíveis aproximações entre os poetas em obras como Há prendizajens com o xão e Gramática expositiva do chão é um processo de criação extremamente ligado à construção de uma identidade cultural. É ela que permeia a paisagem-cena evocada pela memória. Uma relação tempo- espaço da infância, portanto um índice de suas respectivas nações: Manoel e o Pantanal/ Ondjaki e Luanda.
Essa natureza poética necessita de gramática própria como nos alerta Saramago 7
" Muitas vezes não dizemos mais do que palavras, e esse é o grande risco quando falamos de arte. É também grande risco quando falamos de tudo. Sócrates, a arte, compreender este mundo e a vida que fazemos nele, juntar a pedra com a pedra, a cor com a cor. A palavra recuperada com a recuperação da palavra, acrescentar o mais que falta para continuarmos a organizar o sentido das coisas, não necessariamente para completar esse sentido, mas para ajustar, unir a biela ao excêntrico, a mão ao punho, e tudo ao cérebro."
Outra possibilidade seria observar o jogo poético em Ondjaki 8 entre memória e silêncio
quero só
o silêncio da vela.
o afogar-me
na temperatura
da cera.
quero só
o silêncio de volta:
infinituar-me
em poros que hajam
num chão de ser cera.
como também em Manoel de Barros 9
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo de palavras.Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.
para que se pense o não- dito, como ilustra Orlandi 10 mostrando assim a complexidade de relações entre o pensar e o dizer
"Há uma dimensão do silêncio que remete ao caráter de incompletude da linguagem: todo dizer é uma relação fundamental com o não- dizer . Esta dimensão nos leva a apreciar a errância dos sentidos( a sua migração)"
talvez se estabeleça, por isso, na linguagem desses autores como um
" instrumento decisivamente socializador da memória é a linguagem. Ela reduz, unifica e aproxima no mesmo espaço histórico e cultural ..." 11
uma necessidade de memória pulsante de palavra-vida, já em Manoel de Barros, por exemplo, a memória da infância cria vida-palavra porque não seria mais necessário justificar-se pela palavra e sim pela experiência- vivência, muitas vezes calcada na infância..
Daí o caráter não só pessoal, mas familiar, grupal, social, da memória. 12
Sabe-se que a literatura contemporânea tem em sua essência o cruzar de linguagens, de códigos que se espelham, se retratam, se complementam. Estabelecendo isso, tenta-se suprir inclusive uma dificuldade editorial e de divulgação das obras, já que a comparação revitaliza o jogo dos interpretantes aqui e é o mote para aquilo que Benjamin chama de
atualização da cultura, em cada momento histórico, há uma apropriação, dentro da dinâmica da série ideológica, do patrimônio cultural coletivo. 13
ONDJAKI. Bom dia camaradas .Luanda, Ed. Caxinde, 2000.
www.secrel.com.br/poesia/barros/entrevista
FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa . São Paulo , Ática,1987.
ONDJAKI. Há prendizajens no chão . Lisboa, Caminho, 2002, p.11
D'ALÉSSIO, Lucrecia. Olhar Periférico . São Paulo, Edusp, 1993, p. 183.
SARAMAGO,José. Manual de pintura e caligrafia. São Paulo, Cia das Letras, 1983,p.195.
ONDJAKI. . Há prendizajens com o xão . Lisboa, Caminho, 2002, p.48.
BARROS, Manoel . Livro sobre nada . Rio de Janeiro, 1996, p.29.
ORLANDI, Eni. As formas do silêncio . 3.ed., Campinas, Editora da Unicamp, 1995, p. 12.
BOSI, Eclea. Memória e sociedade . 2.ed . São Paulo , EDUSP, 1987, p.18.
13 ABDALA JR,Benjamin. Literatura, história e política . São Paulo, ed. Ática, 1989, p.32.