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Encontro e transgressão no romance histórico da fronteira
Miriam L. Volpe (UFJF)
Pode parecer paradoxal falar de fronteiras no contexto atual em a dissolução das mesmas é apregoada tanto pelos conceitos de globalização, ou regionalização – principalmente econômicos – como pelos de hipertexto – ligados às redes comunicacionais digitais. A realidade, no entanto parece mostrar que culturalmente ainda existem fronteiras delimitadoras de especificidades nacionais (que muitas vezes são utilizadas como reivindicações de identidades nacionais). Esta comunicação propõe-se a se aproximar de uma das dimensões dessa problemática através da literatura, considerada como uma das expressões dessa realidade cultural.
Parte-se, para isso, da proposta, dentro dos estudos culturais, do crítico uruguaio Abril Trigo em seu ensaio “Fronteras de la epistemologia: epistemologias de la frontera” , publicado em 1997, segundo a qual as fronteiras poderiam ser consideradas, em vez de linhas divisórias que separam, espaços de construção de novos caminhos para articular relações. Para sustentar sua proposta, Trigo vale-se do conceito de fronteria – antigo sinônimo, em espanhol, para fronteira – que definia o espaço onde ainda se fazia frente às problemáticas relações entre os povos recentemente – e arbitrariamente – separados pelo traçado das linhas divisórias que fragmentaram o continente ao dissolverem-se os impérios. Segundo Trigo:
A fronteira define territórios, a frontería desenha paisagens; a fronteira fixa identidades, a frontería abre relações; a fronteira delimita espaços, a frontería articula lugares; a fronteira afunda raízes, a frontería se esparce em rizoma, a fronteira legisla a razão do Estado, a frontería é indiferente à Nação; a fronteira é marca da História, a frontería habilita memórias fragmentárias. 1
Este estudo aborda, em particular, um trecho da fronteira entre Brasil e Uruguai que, embora pretenda marcar a divisão entre os países, aparece traçada no meio de uma avenida que pertence a duas cidades contíguas: Rivera, do lado uruguaio e Santa Ana do Livramento, do lado brasileiro, e é, sugestivamente, conhecida pelos habitantes de ambas como “ la línea ”. Uma linha movediça e permeável através da qual se efetuam transferências, intercâmbios e muitos “contrabandos”. Uma linha na qual – nas palavras do crítico uruguaio Fernando Aínsa, em seu livro Del canon a la periferia –, “bandeiras, monumentos, prédios e lojas, de ambos os lados, olham-se com picardia” 2 Uma linha que, segundo Rosa Maria Grillo, embora “divida em dois uma cidade, une duas nações”. 3 Uma linha fronteiriça para ser cruzada.
A fronteira acima referida teria sido historicamente uma região de confluência, ou de encruzilhada, entre dois impérios: o hispano e o lusitano. Nas origens de qualquer fronteira há sempre uma vontade que se esforça em legitimar cultural ou politicamente sua existência. Há sempre uma autoridade, um poder que exerce a função social do ritual e da significação dos limites. Até que se definam os verdadeiros limites de muitas vontades expansionistas a fronteira torna-se palco de lutas e dificuldades. Lutas determinadas pelas conspirações de um poder central do qual a fronteira encontra-se geograficamente muito afastada e, portanto, passa a adquirir um centramento próprio, ou melhor, um centramento ex-cêntrico, fora do centro, onde se assimilam e neutralizam o diverso e o outro contra os quais estariam dirigidas suas armas.
O romance Noche de Espadas , do escritor uruguaio Saul Ibargoyen Islas, conforma-se de forma paradigmática a essa discussão. Inicialmente, Ibargoyen Islas foi poeta, realizou-se também no espaço narrativo através de contos reunidos em sugestivos títulos tais como Fronteras de Joaquim Colun a (1975) – a palavra fronteira em espanhol e o nome da personagem em português; Quién manda aquí (1987) – aponta para o afastamento da região limítrofe do poder centralizado nas capitais – , e, principalmente, através de uma saga fronteiriça, num ciclo de romances intitulados La sangre interminable (1982), Noche de espadas (1987) e Soñar la muerte (1994), recentemente completada com Toda la tierra (2000).
A ssim como fizeram Juan Carlos Onetti, Juan Rulfo e García Márquez em Santa María, Comala e Macondo, Ibargoyen recria seu próprio condado – no estilo Yoknapatawpha County, do escritor norte-americano William Faulkner – um condado que denomina “Rivamento”, numa síntese dos nomes das cidades fronteiriças em questão.(Rivera e Santa Ana do Livramento)
A saga fronteiriça recolhe cem anos da história do país re-centrada fora do pólo da capital, Montevidéu. Inicia-se no tempo das ditaduras da segunda metade do século XIX: a de Santos e a de Latorre, no Uruguai, ambos os nomes também, sintetizados pelo autor, em “Santos Latour”, escolhido para representar o ditador no poder durante o período histórico em que transcorre a ação do romance.
Parece necessário, neste momento, fazer um parêntesis para explicar o caso do Uruguai, considerado exemplar dentro destas considerações. A gestação da nação e do imaginário nacional só se realizou plenamente, pela força, na organização e consolidação do Estado moderno imposta, manu militari , pelo exército profissional surgido a partir da Guerra da Tríplice Aliança e liderado pelo coronel Francisco Latorre, em 1876. Naquele momento ainda era debatido se, o que hoje é a República Oriental del Uruguay , ficaria sendo a Banda Oriental desejada pelo Brasil ou a Provincia Cisplatina pretendida pela Argentina. Com o apoio do patriciado montevideano, que se sentia ameaçado pela “desordem” em que se encontrava o território além dos muros da cidade, em contínuos alzamientos liderados pelos caudilhos, Latorre dedicou-se a efetivar a “unificação” do país. Ironicamente, essa unificação se deu através da fragmentação da estancia cimarrona (as grandes extensões de terra sem fronteiras precisas) pelo alambramiento , estabelecendo, com cercas de arame, os limites que definiriam e protegeriam as propriedades privadas. Como resultado de uma rigorosa ação militar, o caudilhismo local – que pode ser considerado como o verdadeiro intérprete e orientador dos sentimentos populares contestadores da ordem imposta pela cidade letrada – foi fraturado e houve uma desapiedada repressão social da região rural.
O sujeito nuclear de Noite de espadas , de Saul Ibargoyen Islas, é o “Coronel Saulo Ambrosiano Ilhas” – que sugere o próprio nome do autor, oriundo de Rivera. O Coronel era responsável, sob o governo de Santos Latour, pela ordem interna e a proteção de possíveis invasões de uma ampla região fronteiriça das Bandas Orientales del Uruguay
Os longos anos de afastamento no extremo norte do país e seu convívio com a realidade da região dificultaram a obediência do Coronel às ordens recebidas da capital : tornaram-o “surdo as trombetas das alvoradas, aos ritmos da fanfarra, às ordens do superior comando”. Acusado por Latour e seu Ministro de Defesa de identificar-se com os caudilhos rebeldes, os índios e os brasileiros, Ambrosiano se vê obrigado a renunciar e pouco depois a cometer suicídio.
O romance apresenta a vida do Coronel, em flash back , através da compilação, feita por seu neto, dos discursos de várias personagens que o conheceram e que narram o que lembram, ou acreditam lembrar dele, cada um em sua própria, limitada, comprometida e, por definição, controversa versão, numa estrutura polifônica. Cabe ao leitor, em última instância, a construção do paradigma do Coronel, privilegiando uma ou outra das versões. Ouvem-se as vozes do “ negro Andresito Quilombé ”, de “ Guaycará “, filha do cacique indígena; da “mestiza Josefayá ”, do amigo “ poeta Menandro Bel ém”; da mãe, tias e parentes do compilador e do próprio Latour através de cartas.
Sua morte, por exemplo, é vista pelo poeta numa estrofe:
Ah mi coronel: Por qué
Tu propio rostro
Incendiaste tan certeramente?
Más cenizas que coágulos
Quedaron en tu almohada ! 4
E pela sua filha: “ Nada es más falso – y casi grito – que este suicidio. Es de total irrespetuosidad. El coronel Ambrosiano falleció de un ataque cerebral, por problemas de tensión muy elevada .” 5
Finalmente, no último capítulo, intitulado ”Ultima voz”, uma voz ambiguamente caracterizada que sugere uma indecisa fronteira entre o natural e o fantástico, relata:
El coronel desvistió su espada de guerra, apoyó la empuñadura contra la manta que que asujetaba el colchón espeso. La punta afilada empezó a entrarle por la tetilla izquierda(...) Su entera energía para el pinchazo, puso el coronel, ahora no aflojado, sino enteramente fuerte. 6
O Coronel da ficção tem veleidades literárias e seus escritos são utilizados para dar coesão ao texto formado por esse coro de vozes testemunhais “ Yo le hablo, le falo um pouco , usté traduce ” diz Andresito Quilombé. “ Yo soy la solita voz, usté la lengua, la letra .”
Assim como em Rivamento fundem-se as duas cidades e nos nomes das pessoas e dos lugares, misturam-se as línguas, no romance de Ibargoyen Islas, as armas, a língua, a letra, a invenção da realidade se confundem no resgate do patrimônio lingüístico do espaço fronteiriço, uma mistura de espanhol e português (que também recupera vozes indígenas) numa osmose de influências e culturas em mulata “ mixturanza ”, à qual o autor outorga credenciais literárias. A fronteira transforma-se no espaço propício para o surgimento de novas realidades lingüísticas, sociais étnicas e culturais, como região em que se produzem contatos e surpreendentes dinâmicas culturais.
Ao juntar às referências militares, que forjaram com lanças e sabres nossas fronteiras e nações, o elemento das letras, Ibargoyen aproxima-se da realidade histórica dos chefes militares letrados da independência no continente: San Martín, Bolívar, Martí, Artigas. Aproxima-se, também, da tradição histórica dos primeiros chefes políticos, legisladores, presidentes, ministros, como Sarmiento e José Pedro Varela, que estabeleceram as bases dos futuros estados nacionais através da lei escrita nas Constituições. Uma tradição que também inclui aqueles letrados que, entendendo que junto ao discurso jurídico, deveria ser estabelecido outro discurso que desenharia o imaginário poético de suas respectivas comunidades, se integraram para formar as primeiras antologias de caráter nacional: os Parnasos “fundacionais”. À Constituição do Brasil, em 1821, seguiu o Parnaso Brasileiro de Januário da Cunha Barbosa, em 1829; a Constituição da Argentina coincidiu, em 1824, com a Lira Argentina , de Ramón Díaz; à Constituição do Uruguai (1830), seguiu o primeiro volume do Parnaso Oriental , de Luciano Lira.
O estilo de Ibargoyen não se restringe a recriar a história de forma original; a inventar um espaço de fertilidade intercultural tão real quanto imaginário; a dar status literário à língua fronteiriça. Sua inventividade se traduz na busca de novas formas, na originalidade de seus temas. Em sua travessia também recria palavras com a liberdade poética de outros artífices do bilingüismo literário como Roa Bastos e Arguedas. Transgride as normas das letras uruguaias contemporâneas ao proclamar um território independente, desafiando, através da criatividade, a densidade histórica das hegemonias. Sua criação literária ultrapassa os limites traçados pela ordem reinante, atravessa as fronteiras, assegura o contrabando de idéias e tendências com a mesma “picardia” dos habitantes de Rivera e Livramento que cruzam “ la línea ” divisória para penetrar no território estrangeiro e fazê-lo seu.
TRIGO, Abril. Fronteras de la epistemología: epistemologías de la frontera . Papeles de Montevideo, Montevidéu, N.1, junho, 1997 . p. 81.
AINSA, Fernando. Del canon a la periferia . Trilce, Montevideo, 2002, p.123.
GRILLO, Ana Maria. El portunhol: de espacio fronterizo a espacio literário. Fundación , n. 2, Montevidéu, Novembro 1994. p. 75.
IBARGOYEN, Saul. Noche de espadas . Signos, Montevidéu, s/d. p. 102