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Leituras em trânsito: estudo de 4 revistas literárias contemporâneas
Maria Zélia Versiani Machado (PUC Minas)

Frank Zappa, Jimi Hendrix, máscaras rituais de tribos africanas, cantos fúnebres dos índios caiapós são alta ou baixa cultura?

(Ademir Assunção)

Na virada do século, muitos estudiosos da literatura se viram compelidos a refletir sobre a situação da produção literária brasileira, naquele momento propício a balanço, instigados pelas mudanças e transformações operadas na complexa rede de relações da instituição literatura, sobretudo nas últimas décadas do século XX. Este trabalho buscará, pela via de focos de produção cultural que se constituem nas publicações escolhidas como objeto de análise, caracterizar propostas de leitura e mediações literárias que se produzem à margem tanto da grande produção como do cânone neste início de século, segundo uma ótica da multiplicidade.

Em uma outra etapa, serão focalizados, a partir da análise comparativa de publicações impressas e on-line , outros modos de relação com a literatura que se instituem hoje nos suportes, que, se por um lado, aceleram a diluição de fronteiras e as mutações ininterruptas responsáveis pelo aparecimento de novos gêneros textuais 1, por outro apontam o quanto se exige dos leitores, no contexto dessa profusão genérica, uma mais burilada apropriação no que tange aos mecanismos de filtragem. Apoiado em discursos contemporâneos que se constróem sobre a leitura, o trabalho se orienta segundo o pressuposto de que a realização da experiência estética – pela qual tradicionalmente se define a leitura literária – está vinculada a práticas sócio-discursivas dos sujeitos em interação com textos que se produzem continuamente.

Antes, porém, de iniciarmos a análise proposta, convém ressaltar que este trabalho apresenta resumidamente resultados parciais de uma pesquisa vinculada ao Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas, em convênio com o Programa PRODOC – CAPES. Em linhas gerais, a pesquisa tem por fim o estudo das revistas literárias contemporâneas: Ácaro , de São Paulo, Coyote , de Londrina, Tanto, de Belo Horizonte, e Zunái , de São Paulo. As duas primeiras impressas e as duas últimas eletrônicas ou digitais. Atreladas a leis de incentivo à cultura ou a apoio restrito de grupo ou empresa, as revistas se apresentam como propostas de leitura de uma vertente da literatura contemporânea, na qual se intensificam relações dialógicas marcadas por oposições e confrontos com outros textos de ampla circulação, por sua vez ligados à lógica do mercado. Essa faceta do dialogismo alimenta, em certa medida, as propostas - do projeto gráfico ao texto - que pressupõem um olhar predisposto ao movimento não-linear, ao deslocamento de sentidos, à desestabilização dos gêneros convencionais. Algumas aproximações podem ser feitas entre os projetos gráficos e temáticos esboçados nas revistas impressas e eletrônicas e este constitui um dos objetivos da pesquisa, que, como se vê, inclui também um breve viés comparativo.

Por que revistas literárias? Esta pergunta encontra sua resposta na história das revistas literárias no Brasil, como sabemos, na maioria das vezes, brevíssima história que mantém estreitas relações com a história da literatura. Concordo aqui com o escritor Nelson de Oliveira quando, no texto "Ascensão e queda das revistas literárias", afirma a relevância dessas revistas, por terem elas servido de sustentação para importantes movimentos literários, servindo-lhes de veículo para a publicação de "manifestos, poemas, contos, fragmentos de romance, crônicas e ensaios carregados de temperamento guerrilheiro, muitos dos quais redigidos no calor da batalha". 2O escritor destaca algumas das revistas que deixaram marcas nos movimentos como a Klaxon (1922-1923), a Revista Verde (1928), a Revista de Antropofagia (1928-1929), a Festa (1927-1929, 1934-1935) a Noigandres (1952-1958) e a Invenção (1962-1964), e que destinavam grande espaço à criação. O texto aponta uma clivagem entre interesse crítico e produção artística propriamente dita nas revistas que circularam no Brasil nesses quase cem anos. Nesse sentido, Oliveira procura mostrar como algumas revistas publicadas hoje - ele cita as de grande circulação como a Bravo! e a Cult - firmam-se mais na produção ensaística, e conclui: "o tempo da hegemonia da criação, nas grandes publicações literárias, parece que já passou". (2003: p.72) O autor faz, no entanto, um mea culpa , em nota de fim de texto, lembrando que entre a redação do texto e a sua publicação outras revistas literárias que buscam equilibrar criação e ensaísmo surgiram no Brasil.

Neste trabalho, a escolha das revistas se orientou para o equilíbrio entre criação e produção ensaística, embora em alguns dos objetos da seleção haja mesmo um maior pendor para a criação. Buscaram-se, portanto, suportes que dosassem criação literária e discursos que se produzem sobre ela. Foram escolhidas publicações de circulação restrita, cujas propostas parecem estar filiadas ao naipe de revistas que historicamente vêm veiculando posições e valores de grupos ou movimentos literários, as quais passo a caracterizar em seguida.

A revista Coyote , de periodicidade trimestral, é uma publicação patrocinada pela Secretaria de Cultura da cidade de Londrina e mantém, desde seu primeiro número, uma identidade estrutural - foram analisados até agora os números que compreendem o período de outono de 2002 ao verão de 2003, num total de 8. A sua estrutura pode ser resumida, com algumas variações de uma a outra edição, nas seguintes seções: fragmento de textos de escritores/pensadores eleitos como interlocutores, que funcionam como texto editorial para o número (quase uma epígrafe inspiradora da edição); poemas de escritores escolhidos e pouco conhecidos, antecedidos de pequeno texto crítico-biográfico; fotos; entrevista; contos; depoimentos meta-poéticos de escritores poetas ou contistas também pouco conhecidos, sob a rubrica de 'dossiê'; traduções; ensaios; quadrinhos; texto-colagem, que funciona como manifesto satírico de quarta capa. Em entrevista à revista eletrônica Capitu , Ademir Assunção, um dos três editores-poetas da Coyote , assim descreve a "linha dorsal" da revista: "1. Interesse em publicar produção contemporânea; 2. Resgate de poetas de outros períodos. Pode ser tanto Po-Chü I, do século VIII, da China, quanto um poeta da década de setenta. Ou mesmo um poeta vivo que não entrou no cânone, que tenha um trabalho de fôlego, mas que esteja totalmente à margem; 3. A terceira coisa é esse diálogo, principalmente com a América Latina." Na mesma entrevista, o princípio acentuado de escolha crítica que a identifica como proposta e que faz da publicação muito mais que um mero veículo da literatura viria implícito em frases do tipo: "Nós fazemos a revista que gostaríamos de ler." 3

A revista Ácaro – Literatura e outras milongas , por sua vez, apresenta uma periodicidade bem menor e, por esse motivo, são objeto desta análise apenas dois números (outubro de 2002 e junho de 2003). Sediada em São Paulo, recebe apoio do Grupo Takano e é vendida em livrarias, o que já indica o caráter restrito de sua circulação. O título da publicação e a forma como ela se apresenta - assemelha-se à capa de disco long-play em vinil – já expõem a base de sua proposta parodística e, nessa linha, apresentam-se algumas seções tais como o suplemento "Menas!" ou os fragmentos de "Senhor Ótimo". Contos, poemas, artigos, entrevistas, traduções trazem à cena escritores que se encontram à margem do mercado editorial. A revista possui um site na internet que lhe serve de apoio de publicidade, disponibilizando alguns textos para a leitura e ensaiando algumas animações como propostas de interatividade que dão movimento às imagens estáticas da versão impressa, segundo o comando de quem lê.

Zunái - revista de poesia e debates , criada em 2003, se aproxima da Coyote por algumas afinidades eletivas de seus organizadores, que fazem parte de um grupo do eixo que liga São Paulo a Londrina. A expressão é neologismo criado com a finalidade de designar a revista. 'Zunái' é significante passível de muitas significações, como querem seus editores.

As seções têm nomes sugestivos como "Torre de Babel", para traduções; "Performance", para matérias especiais; "Manuscritos de Alexandria", para contos; "Caligrafias de Babel", para entrevistas; "Periscópio", para ensaios. Outras seções convidam à participação, em ambiente de blog, o que se verifica em "Depoimentos e debates - opinião", na qual se colocam algumas questões polêmicas que convidam à discussão. O arquivo das edições passadas se mantém fechado e pode ser aberto quando se clica em "anteriores". A revista oferece, assim, a possibilidade da leitura da edição mais atualizada (a sua atualização é trimestral) e das edições anteriores.

A Tanto - Literatura , já com seis anos de estrada, ou melhor, de rota, já que a sua metáfora de leitura é a da navegação, foi também escolhida como objeto deste estudo por representar, em alto grau, a tendência cumulativa própria de meios digitais, e ao mesmo tempo, apresentar algumas correspondências com suas "primas" impressas. Ela possibilita ao leitor dois eixos de leitura, um dado pela edição do mês no qual se navega a partir do link "destaques" (para contos - no mês de julho, apresenta dois contos inéditos, poesia e ensaio), e outro pelas seções fixas que arquivam várias subseções tais como a de contos (autores contemporâneos e de outras épocas); a de poesia (clássicos brasileiros, contemporâneos, clássicos estrangeiros); a de artigos; entre outras entradas para leitores, sugestões de leituras ou história da revista, esta última sob a denominação "bastidores". A imagem que vem colada ao nome da revista, um detalhe da conhecida obra de Salvador Dali "A persistência da memória", reforça a idéia de arquivamento da multiplicidade que sustenta a proposta.

Trato primeiramente do mapeamento das revistas quanto à multiplicidade de gêneros e autores em diálogo, focalizando a seleção e a composição como elementos que dão visibilidade a uma relação com a literatura que tende ao movimento de resistência utópica – que acredita na possibilidade de comunicação entre culturas particulares, sem que isso signifique uma espécie de “massacre cultural” – , como o resultado de uma abertura espacial e temporal.

Em seguida, interessa-me o movimento de descentralização do olhar, percebido na forma como se apresentam os elementos gráfico-visuais e nos hibridismos decorrentes de trocas em época de intensa transformação tecnológica como a nossa, que vem alterando significativamente a experiência da leitura literária, o que justifica a inclusão das duas revistas on-line no corpus .

O projeto borgiano de leitura nos fornece algumas boas pistas para tratarmos do tema da multiplicidade percebida como marca característica das revistas, emblemáticas do que supomos ser uma vertente da leitura literária na atualidade. Em vários contos Borges tematiza a multiplicidade de possibilidades de entradas dadas pela leitura. Quero destacar aqui “El jardín de senderos que se bifurcan” 4. No conto que o escritor chama ‘relato', o sinólogo Stephen Albert narra o projeto de escrita de um livro ou construção de um labirinto por T'sui Pên a um seu bisneto, Yu Tsun, espião chinês na Inglaterra a serviço da Alemanha. A passagem abaixo evidencia a ênfase que o escritor argentino coloca no processo do material narrável e suas inúmeras possibilidades de desdobramento:

En todas las ficciones, cada vez que un hombre se enfrenta con diversas alternativas, opta por una y elimina las otras; en la del casi inextricable T'sui Pên, opta - simultáneamente - por todas. Crea, así, diversos porvenires, diversos tiempos, que también proliferan y se bifurcan. (1968: 141)

 

T'sui Pên escreveu uma novela cheia de contradições, simultaneamente um livro e um labirinto, cujas possibilidades de desdobramento se bifurcavam em muitas outras. Assim, ficcionalmente, Borges coloca em cena a noção plural de tempo que se bifurca perpetuamente até inumeráveis futuros , através da idéia que se desenvolve como uma narrativa dentro da outra, fazendo convergir os tempos numa “trama”, em que eles se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram . (1968: 144)

A multiplicidade não apenas a temporal dos tempos que se encontram inumeravelmente, mas também espacial quando se fazem cruzar produções oriundas de diversos lugares, muitas vezes situados fora dos eixos canônicos, está presente nas publicações em foco. No entanto, dessa cadeia de possibilidades que se abre à leitura, uma relação torna-se patente no contato com as revistas: quanto mais se proliferam as criações literárias mais se intensificam procedimentos de seleção e escolha. Tal idéia contraria, em certa medida, o que se supunha acontecer com o advento das tecnologias, a de que elas permitiriam aos escritores/leitores uma maior abertura das possibilidades de publicação e recepção, prescindindo de uma mediação crítica reguladora. Assim, observamos que o caráter de abertura de possibilidades, na criação e na leitura propriamente dita, ao contrário de significar um vale tudo, ganha o estatuto de filtragem crítica cada vez mais acentuada. Nas revistas que apresentam propostas mais radicais como a Coyote e a Zunái , por exemplo, percebem-se estratégias reguladoras e mecanismos de escolha que demarcam valores e lugares a indicar que o cânone pode estar também "aqui e agora", um 'aqui' que sugere diversos lugares e um 'agora' que presentifica vários tempos.

As dimensões do espaço e do tempo nas relações contemporâneas têm sido objeto de muitos estudos tais como os de Hans Ulrich Gumbrecht, que em Modernização dos sentidos 5, afirma:

O tempo, enquanto tempo histórico, parece ter alcançado, em um presente que se torna cada vez mais amplo, um estado de suspensão e, ao mesmo tempo, parece, numa multiplicidade de temporalidades simultaneamente vivenciáveis, ter-se movimentado com mais veemência do que nunca fizera antes . (1998: 289)

 

E sobre a localização dos sujeitos, o autor afirma uma mais radical desassociação nas relações espaciais:

No caso da espacialidade pós-moderna entrou em cena uma desassociação entre a posição do corpo de um experimentador/agente – em dado momento – e as zonas acessíveis à sua experiência/ação. Hoje em dia, a mudança entre tais zonas não necessita mais amiúde de nenhum movimento do corpo e não exige, portanto, nenhum tempo. Na era da “discagem direta”, para aquele que telefona de Berlim, não há nenhum Atlântico entre Paris e Nova York – a relação entre os lugares deixou de ser uma relação espacial. (1998: 286)

 

Essa proliferação de espaços e tempos, e seus cruzamentos, se manifestam nas revistas em foco, seja pelo conjunto de textos de diversas épocas que se acumulam num presente simultaneamente vivenciáveis como sugere Gumbrecht, seja pela diversidade autoral, que se projeta nas páginas e faz encontrar lugares nunca antes navegados, não-demarcadas por valores cristalizados: o de onde eu falo não determina, a priori , o valor do que é dito. A multiplicidade espacial, bem como as relações hierárquicas quanto ao que tange à produção cultural implícitas na noção de espaço, remetem por analogia à reflexão de Pierre Lévy em torno da idéia de totalidade que, segundo o autor, se perdeu com o grande dilúvio informaciona 6l , que fez com que a imagem da grande arca fosse substituída pela de

arcas, barcas ou sampanas, uma miríade de pequenas totalidades, diferentes, abertas e provisórias, secretadas por filtragem ativa, perpetuamente reconstruídas, pelos coletivos inteligentes que se cruzam, se interpelam, se chocam ou se misturam sobre as grandes águas (1999: 161)

 

E me apropriando de tais imagens, passo ao segundo tópico no qual trato do movimento de descentralização do olhar, percebido nos hibridismos decorrentes de trocas, que alteram a experiência da leitura literária. Parto do pressuposto de que o impresso tem tirado grande proveito a partir dos desafios espaço-temporais e da intensificação dos processos que contam com os saberes estruturados como rede de remissões, conforme é definido o hipertexto por Pierre Lévy (1999: p. 164), definição que tomamos aqui não-exclusiva dos textos digitais nas novas formas de interação texto/leitor. Isso porque algumas propostas, como podemos perceber na nossa pequena amostra, têm apontado uma tendência maior de intensificação das possibilidades de interação, estendendo a participação do leitor a uma dimensão próxima à da interatividade própria do ambiente digital de leitura. A revista Coyote, por exemplo, propõe um jogo que redimensiona o conceito tradicional de página e seus limites físicos. Recorre-se, assim, à exploração gráfica de fontes e corpos de letras que muitas vezes rompem com esses limites físicos do impresso, projetando títulos, nomes, textos, ilustrações para além do espaço da página. Outras vezes, há um desdobramento de imagens e recursos gráficos em páginas subseqüentes, exigindo novos estratagemas na construção de sentidos pela leitura (e ainda não se chegou ao texto propriamente dito!).

Pierre Lévy afirma que os gêneros da cibercultura são performáticos e por isso requerem uma participação ativa do leitor (1999), sabemos que os gêneros impressos também requerem essa participação, o que me parece novo é o fato de ocorrer hoje aquilo que estou chamando de intensificação hipertextual no impresso - ocasionada por uma espécie de reorganização dos sistemas de comunicação em constante troca - na definição dessas interações, mais facilmente apreendidas na rede que se estabelece on-line , e suas estratégias recursivas. Quando abrimos a revista impressa Ácaro , por exemplo, flagramos a performance – que se apresenta como uma encenação do transitório – seja nas ilustrações marcadas pelas sutilezas e sugestões com grande grau de abertura, seja pela exploração dos recursos visuais que, combinados com os textos, produzem efeitos próximos aos das artes plásticas. Quando passamos à versão on-line dessa revista, mais precisamente às páginas dos poucos textos nela disponíveis, perde-se esse caráter performático tal como o concebemos aqui: o texto aparece limpo de qualquer recurso visual quando se clica no respectivo link . Em termos de materialidade estética decorrente do diálogo entre texto e ilustrações no projeto gráfico que se apresenta à leitura, projeto responsável, também ele, pelos efeitos de sentido dos textos, as revistas on-line em foco têm muito o que aprender com as revistas impressas.

Bertrand Gervais, no texto "Navegar entre o texto e a tela: pensar a leitura na era da hipertextualidade", 7 lança algumas importantes perguntas que aqui nos interessam, entre as quais destaco: para que tipo de materialidade somos convidados , quando nos são dados textos situados no encontro do papel e da tela que propiciam novas experiências da textualidade? (2003: 29) É inegável o fato de que nossas práticas de leitura, entre elas a literária, apresentam para os leitores novas exigências culturais e tecnológicas. Suponho que o sentimento de perda percebido em alguns textos sobre o futuro da literatura no final do século passado, com o qual abro este trabalho, pode se explicar também por essas transformações que afetam significativamente a experiência da leitura, em que as relações culturais, conforme afirma Gervais, passaram de uma lógica da tradição – marcada por relações de estabilidade articuladas a um centro – para uma lógica da tradução – desenvolvida a partir da periferia e das trocas interculturais em relações múltiplas (2003: 33). As revistas Coyote , Ácaro , Tanto e Zunái enfrentam esse mar da multiplicidade e da diversidade, intensificando os procedimentos de seleção, segundo suas propostas literárias específicas, fazendo valer o que diz Gervais para aqueles que enfrentam o desafio:

Não se trata de ficar na costa, contemplando o espetáculo de uma navegação perigosa, mas de lançar-nos ao mar, talvez munidos simplesmente daquilo que aprendemos em terra firme . (2003: 38)

 

Tal reflexão me serve aqui não como conclusão, mas como indagação para prosseguimento de nova etapa deste trabalho que tem até agora mostrado o quanto devemos nos acostumar com a profusão e a desordem , conforme ensina Pierre Lévy. A indagação gira em torno da necessidade de, após o mapeamento das revistas segundo os pressupostos aqui destacados, chegar aos textos da literatura selecionados. Para dar este salto, será utilizada uma metodologia por amostragem, tendo em vista o estudo dos gêneros presentes nas revistas e sua suposta vinculação com movimentos literários contemporâneos.

 

Gêneros que aqui se definem como uso da linguagem em contextos comunicativos convencionados (...) e que estabelecem formas estruturais relativamente estáveis (BATHIA, Vijay K. Análise de gêneros hoje, Revista de Letras , UFC, vol. 1/2, nº 23, jan./dez. 2001. p. 102 - 115.), pelas trocas que efetuam entre si, muitas das quais em propostas híbridas características de gêneros contemporâneos.

OLIVEIRA, Nelson de. Verdades Provisórias . São Paulo: Escrituras, 2003 . 207 p.

ASSUNÇÃO, Ademir . O poder da palavra. http://capitu.uol.com.br/p.asp?p=15,7,2003,974

BORGES, Jorge Luis. Nueva Antología Personal. Buenos Aires: Emecé, 1968.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Modernização dos sentidos . São Paulo: Ed. 34, 1998 . 319 p.

LÉVY, Pierre. Cibercultura . São Paulo: Ed. 34, 1999. 264 p.

GERVAIS, Bertrand. Navegar entre o texto e a tela: pensar a leitura na era da hipertextualidade, Cultura Vozes , Rio de Janeiro, v. 97, nº 6 , nov. 2003. p. 29 - 39.