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As Letras Francesas de Brito Broca
Maria Lídia Lichtscheidl Maretti (UNESP - Assis)
“E é assim que essas crônicas de jornal refletem o efêmero da vida literária mais do que o permanente da crítica literária.”
(Francisco de Assis Barbosa)
“Vida literária e literatura são coisas que se completam e se ilustram.”
(Brito Broca)
Ao decidir escrever sobre as Letras francesas de Brito Broca 1, notei logo que estava, ao mesmo tempo, quase só e muito bem acompanhada. Salvo engano, apenas dois “companheiros” haviam também decidido, antes de mim, se debruçar sobre os 59 artigos – ou crônicas literárias – originalmente publicados na seção “Letras Francesas” do Suplemento Literário semanal do jornal O Estado de S. Paulo , no período que vai de 13 de outubro de 1956 a 30 de setembro de 1961. Quero crer que tais textos não foram lidos, citados ou comentados apenas por nós três: obviamente não suponho que eles não sejam fonte de consulta esparsa por quem, guiando-se pelos títulos de cada crônica, se aproxime de uma ou outra por algum interesse específico, que talvez só ali seja satisfeito: por este ou aquele escritor francês comentado pelo jornalista literário paulista, ou por este ou aquele aspecto da vida literária francesa que por vezes justifica com mais propriedade a atribuição de “crônicas” a estes artigos que se caracterizam por sua efemeridade, mais do que pelo caráter de permanência almejado pela crítica literária propriamente dita.
O primeiro desses companheiros é o autor da primeira epígrafe deste meu texto. Francisco de Assis Barbosa, tendo tomado a iniciativa de organizar o volume, foi também o autor do seu Prefácio, escrito em junho de 1966, três anos antes de sua publicação. A sua preocupação neste texto, além da evidente homenagem póstuma 2, é a de situar o lugar teórico a partir do qual se enuncia a voz do cronista. E, para isso, ele tece considerações acerca do movimento inovador por que passava a crítica do país naquele momento histórico:
A crítica literária no Brasil só muito recentemente adquiriu foros de ciência universitária. E isto aconteceu, pode-se dizer, a partir da geração de Antonio Candido , a rigor a primeira geração brasileira de críticos universitários, pelo menos no campo das letras. O que se fez antes, em matéria de crítica literária, quase sempre começava e acabava no rodapé dos jornais. Assim aconteceu de Sílvio Romero a Sérgio Buarque de Holanda , de Tristão de Ataíde ao próprio Antonio Candido . 3
Distinguindo-se dos críticos cuja formação passou a se dar na esfera universitária, Brito Broca teria sido, segundo o prefaciador, “um autodidata, devorador de livros, curioso de autores e de idéias, e que se transformaria, talvez por tudo isto, no historiador da nossa vida literária” 4. Tais traços caracterizadores do cronista – o jornal como suporte dos textos, o autodidatismo que exclui o conhecimento teórico formalizado pela universidade, a paixão que justifica tanto a metáfora da devoração quanto a extrema curiosidade que o movia em direção às letras – são, portanto, os traços que distinguem a produção desse tipo de historiografia literária que, mais do que a consideração das obras em si, procura apreender os fatos externos que a circundam. E é esse exatamente o critério que o faz pronunciar-se sobre autores e idéias francesas.
Meu segundo “companheiro” nessa empreitada é Silviano Santiago, outro grande conhecedor da Literatura Francesa. Em artigo publicado bem mais recentemente, em 1991 5, com o título “Lenha na fogueira (leituras em francês de Brito Broca)”, o escritor, crítico e professor universitário começa o seu texto manifestando a decepção advinda de uma tomada de posição muito clara. A partir de uma perspectiva de leitura que se traduz pelas palavras “o leitor mais exigente e entusiasmado” (p. 61), e que depois vai se configurando como o leitor crítico formado pela Universidade, ele julga impiedosamente o valor crítico das crônicas de Brito Broca, sem considerar, entre outras coisas e como penso que poderia, os traços genéricos de tais textos. Ou seja, sem se lembrar de que o que move Broca é o fato literário francês, visto como um estímulo para a produção da crônica. Trata-se, então, de uma história que não obedece a nenhuma seqüência cronológica e que vai se compondo a partir dos apelos circunstanciais.
Vejamos, então, quais são as ressalvas apontadas por Silviano Santiago.
Em primeiro lugar, ele faz um balanço do que não é feito – e que, dessa perspectiva, e ao que tudo indica, deveria sê-lo – afirmando algumas ausências, tais como a de “muitos autores fundamentais e nitidamente universais daquele país”, a da resenha da “produção literária contemporânea” a Brito Broca, mencionando para isso o nouveau roman , e o que ele chama de “os abalos sísmicos que estavam dilacerando a crosta da crítica literária parisiense”, numa referência explícita à revolução intelectual promovida na França e que tinha na Sorbonne o seu alvo mais contundente. A meu ver, tais “cobranças” seriam justificáveis se o autor dessas crônicas fosse, na verdade, um historiador da literatura francesa nos moldes previstos e convencionalmente adotados pela Academia. O próprio Santiago, aliás, demonstra a consciência disso ao afirmar que “o estudioso paulista não deseja passar moeda falsa no vaidoso mercado dos suplementos literários: em nenhum momento pretende ser o que não é, ou seja, alguém que tenha se debruçado de maneira histórica, sistemática e acadêmica sobre as obras mais representativas dos gauleses.” (p. 61, os grifos são meus) Por que, então, esta cobrança infundada, sobretudo se se pensar que, entre os traços do gênero, destaca-se aquele em que são os acontecimentos diários o motor da crônica? E que, se foram postumamente reunidos em livro, esses 59 textos tinham o jornal – esse ícone da efemeridade moderna – como o seu suporte original?
Uma segunda ressalva apresentada diz respeito à relação entre o cronista e o seu público. Segundo Santiago, Broca teria desconsiderado o seu leitor ao não satisfazer as suas expectativas intelectuais, supostamente identificadas no interesse pelos movimentos de vanguarda da época, o que, dito de outra forma no artigo, aparece nos seguintes termos:
A incapacidade que tem de dialogar com – ou até mesmo de passar novas informações a – os jovens que se destinam à carreira literária. Por isso, apesar de se apresentar como jornalista e de não ser um especialista, os seus interlocutores entre os jovens eram os que já tinham sido mordidos pela mosca cinzenta da universidade e/ou da erudição e pretendiam um conhecimento dos autores e obras amparado pela história da literatura, como, por exemplo, Alexandre Eulalio, Carlos David e Fausto Cunha. (p. 62)
Esta suposta frustração por parte dos leitores tem como fundamento, por um lado, o desinteresse inegável de Brito Broca pelo movimento de vanguarda francês à época – leia-se: o nouveau roman – e, por outro lado, a suposição de que isso era o que mais interessaria aos “jovens que se destinam à carreira literária”. De novo, penso que caberia questionar o professor: por que atribuir ao cronista um compromisso com o seu interlocutor que seria mais apropriado ao que ele não é, ou seja, um historiador da literatura francesa, que deve, como recomenda a Academia, selecionar os textos julgados esteticamente valoráveis e excluir os que não resistem aos critérios estabelecidos? Ou mesmo, o papel de um acadêmico que deveria, aí sim, transmitir a seus alunos um conhecimento sistematizado das mais recentes tendências revolucionárias do mundo literário francês?
E o que Brito Broca é, segundo Silviano Santiago? Eis as palavras que usa para caraterizá-lo: “Brito Broca, como certo Mallarmé, é o crítico dos túmulos: historiador da tradição ocidental e guardião da verdade atestada por documentos. Ou, para usar as suas palavras, referindo-se a Henri Guillemin, trata-se de um ‘terrível varejador dos porões da história literária'”. (p. 62) Esse perfil do cronista recebe de Antonio Candido, citado por Santiago, uma ressalva promissora: ele é visto como um releitor que introduz o novo na medida em que lê o passado de uma perspectiva distinta da tradicionalmente consagrada. E aí estaria, a meu ver, o seu grande valor: ao introduzir uma perspectiva que se diferencia da universitária, Brito Broca teria nos ensinado a ver a literatura de um ângulo novo. Sem os critérios de valorização ditados pela universidade, e perseguindo trilhas que consideram o documento como princípio a partir do qual ocorrem suas manifestações, Brito Broca poderia, a meu ver, ser visto como um “desconstrutor” da crítica universitária muito semelhante aos que posteriormente trabalharam sob a égide dos cultural studies . Deixêmo-lo falar em sua própria defesa: “Tenho para mim, no entanto, que todas as experiências em arte, mesmo fracassadas, nunca serão inteiramente perdidas.”(BROCA, 1969, p. 106)
E as conseqüências disso são mal vistas por Silviano Santiago, que vai além em sua análise impiedosa. Se não obedece aos critérios de canonização estabelecidos pela Academia, o que teria movido Brito Broca em suas escolhas seria, em sua opinião psicanalizante, uma espécie de narcisismo crítico que acha feio o que não é espelho e que é enunciado nos seguintes termos:
Nem especialista nem deslumbrado, Brito Broca busca lenha na literatura francesa para aumentar o brilho da sua produção crítica. Por isso, ele é obsessivo na escolha dos temas e questões a serem tratados e personaliza de maneira radical a seleção de autores & obras. Aos antípodas do antropófago Oswald de Andrade, Brito Broca só se interessa no outro pelo que já é seu. Por um lado, ao comentar um livro alheio, empresta-lhe o que de melhor já possui. Por outro lado, do outro retira o que pode enriquecer ainda mais o que já é rico pelo seu próprio talento. (SANTIAGO, 1991, p. 64)
Se, então, o título do artigo de Santiago se explica como uma metáfora criada para representar essa atitude que poderíamos chamar de oportunismo crítico – usar a literatura francesa como pretexto para a auto-promoção entre os pares 6 - o que dizer das famosas crônicas que, além de nos deliciarem, nos dão a conhecer o que acontece nos bastidores da cena literária?
Uma outra forma de caracterizar o trabalho do cronista é detalhada por Santiago ao descrever o procedimento metodológico adotado: trata-se de “uma hierarquização (e não uma exclusão)” (SANTIAGO, 1991, p. 64), o que teria determinado a preferência pela “vida literária” mais do que pelo caráter artístico dos textos. Disso se pode depreender que o critério valorizado por ele (Santiago) é justamente a exclusão , seja desse tipo de interesse – pela vida literária, seja dos textos desprezados pela canonização operada pela comunidade universitária ao longo do tempo. E, por isso, as conseqüências do método crítico de Brito Broca, em seu contato com a literatura francesa, seriam as seguintes:
a) simpatia quase que exclusiva pela obra crítica de Henri Guillemin e André Billy [ reconhecidos historiadores da vida literária francesa, tidos como exemplos a serem seguidos por Brito Broca ];
b) preferência pelos “gêneros menores” da literatura, como memórias, autobiografia, correspondência, entrevista, crônica, e muitas vezes de responsabilidade de autores também “menores”;
c) priorização dos romances a que foram concedidos prêmios literários de repercussão no pequeno grande mundo de Paris;
d) repetição, a partir de lugares comuns, dos processos judiciários impetrados contra escritores na França;
e) descaso pelo texto poético lírico;
f) constante desejo de historiar a marca pessoal deixada por escritores e intelectuais franceses no Brasil, da Colônia aos nossos dias, com destaque para o suíço Blaise Cendrars;
g) pouca ou mínima atenção dispensada à tradução de textos franceses entre nós. (SANTIAGO, 1991, p. 64-65)
Diante de todas essas decisões atribuídas a Brito Broca, impõem-se outras perguntas: se a opção por estudar um aspecto da literatura pode ser respeitada, por que não admitir a simpatia por este ou aquele crítico, tal como sempre acontece em nossas decisões teóricas? Se há outras facetas do mundo literário além daquele que sobrevive ao processo de canonização, por que não considerar os textos que a convenção estabeleceu como “menores”? Por que não aceitar outra história da literatura, feita em outros moldes, com outros critérios e métodos? Onde estaria, nas crônicas do livro, a mencionada priorização dos romances premiados, se o que é feito é, muito longe disso, a sua mera identificação, inclusive com o estranhamento diante da incapacidade de sobrevivência de tais romances? Ou, por outra, onde estaria o reconhecimento de que, por serem crônicas, tais textos surgem a partir de apelos contingenciais ditados pelo mundo literário? E que parecem não querer ser muito mais do que isso?...
Desse modo, a partir dessas questões, de caráter evidentemente retórico, o que fica desse percurso trilhado pela crítica ao livro Letras francesas é, em resumo, o fato de haver, no mundo literário, diferenças que não devem ser reduzidas a um único ponto de vista, sob pena de limitar as possibilidades críticas e embotar o pensamento.
BROCA, Brito. As letras francesas . São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1969, 276 p.
Como se sabe, Brito Broca morreu prematuramente, vítima de um atropelamento em 20 de agosto de 1961, no Rio de Janeiro.
BARBOSA, Francisco de Assis. “Prefácio”. In: BROCA, 1969, p. 5.
SANTIAGO, Silviano. Lenha na fogueira (leituras em francês de Brito Broca). Remate de Males , Campinas, (11): 61-66, 1991.
E Silviano Santiago chega a nomear tais pares: Sérgio Milliet, Augusto Meyer, Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux.