VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Transdisciplinaridade: rede, arquivo e região
Maria Antonieta Pereira (UFMG)

Em primeiro lugar, eu gostaria de situar esta breve exposição como o resultado de um esforço coletivo de pensar o Brasil. Trata-se de um esforço porque é difícil navegar contra as correntes que não acreditam na possibilidade de mudança das velhas estruturas oriundas de processos violentos de exclusão. Por outro lado, sendo coletivo, esse esforço é freqüentemente premiado com reflexões e intervenções que contribuem para o refinamento de certas posturas críticas, porém não deletérias, sobre nosso país. Esta comunicação está baseada, portanto, em experiências concretas que buscam pensar a Literatura Comparada como um instrumento de arquivamento das tradições, de renovação dos conceitos de leitor e de leitura e como um lugar que permite a construção de transdisciplinas. Tais experiências foram desenvolvidas no âmbito de três projetos de pesquisa, a saber:

1) “Arquivos latino-americanos” — linha de pesquisa que funcionou no interior do GT de Literatura Comparada da Anpoll, nos anos 2000/2004;

2) “A tela e o texto” — pesquisa iniciada em 1998, como projeto de Iniciação Científica, e que se transformou a partir de 2002 no Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão “A tela e o texto”, sediado na Faculdade de Letras da UFMG ( www.letras.ufmg.br/atelaeotexto );

3) “Literatura, rede e saber contemporâneo” — pesquisa inspirada por “Encontro em Saint-Nazaire”, conto de Ricardo Piglia, e cujo desenvolvimento resultou num projeto-piloto entre os Programas de Pós-Graduação da Faculdade de Letras e da Faculdade de Medicina, com apoio do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG ( www.ufmg.br/ieat ).

O desenvolvimento simultâneo dos projetos citados possibilitou uma experiência sincronicamente vivenciada cuja principal característica foi o desenvolvimento teórico, metodológico e pragmático dos conceitos de arquivo , rede e região , numa perspectiva que, justamente por se dar no campo da Literatura Comparada, assumiu cada vez mais um caráter decididamente transdisciplinar . Assim, a seleção de tais conceitos e sua constante utilização como espaço de alta produtividade crítica, estética e pedagógica foram permitindo a articulação de saberes fragmentados e excludentes. As novas possibilidades de articulação entre diferentes campos do conhecimento — movimento horizontal — favoreceram a porosidade das fronteiras disciplinares sem comprometer o aprofundamento de tópicos específicos de cada um desses campos — movimento vertical — garantindo a convivência, ainda que conflitiva, de artes, ciências, tecnologias e pensamento crítico.

Os conceitos como arquivos culturais

O grupo que desenvolveu o projeto “Arquivos latino-americanos” no interior da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (ANPOLL), era formado por docentes de universidades brasileiras (UFSC, UERJ, UFJF, UFRGS, UFMG, PUC-MINAS, UNESP-Assis) que, por sua vez, mantinham contatos regulares com pesquisadores argentinos, uruguaios e peruanos. Além de participar ativamente de eventos nacionais, como os próprios encontros da ANPOLL, o grupo também organizou simpósios internacionais, no 51º. ICA (Santiago, Chile) e nos Congressos da Abralic de Belo Horizonte e Porto Alegre. Ao longo de sua breve existência e enfrentando as dificuldades típicas das pesquisas desenvolvidas nas áreas de Letras, Artes e Ciências Humanas, o projeto introduziu em seus debates o conceito de arquivo , a partir das teorias de Foucault e especialmente de Derrida. Considerando que a memória se organiza contra a incessante pulsão de morte da cultura, o grupo procurou arrolar determinadas teorias construídas nas Américas Portuguesa e Hispânica nos dois últimos séculos — instinto de nacionalidade , transculturação , antropofagia cultural , frontería , margens , mirada estrábica, imaginação raciocinada , dentre outras — buscando identificá-las como formas de sobrevivência de certo imaginário argentino, uruguaio, brasileiro e latino-americano. A tentativa de minorar os efeitos de anarquivo permitiu ao grupo o rastreamento das produções intelectuais dos séculos XIX e XX, estimulando a construção de uma linhagem teórico-crítica e incentivando a auto-identificação dos pesquisadores com a região, pensada em termos de um Mercosul cultural.

Tais levantamentos e análises criaram, para o grupo de pesquisadores brasileiros e também para alguns de seus parceiros da América Hispânica, a imperiosa necessidade de seguir identificando os mapas da memória e seus cruzamentos transnacionais, cuja leitura acurada certamente será capaz de desvelar as linhas de força que regem o presente e o futuro do pensamento crítico latino-americano. Por isso mesmo, outra contribuição importante da pesquisa foi alimentar uma rede latino-americana de pensamento crítico sobre o próprio Cone Sul, de forma que fossem atualizados seus acervos, seus arquivos e suas diferentes memórias culturais. Nesse caso, o conceito de rede , tal como tem sido definido por teóricos contemporâneos como P. Lévy, favoreceu enormemente as possibilidades de produção coletiva porque estimulou o incessante deslocamento dos centros de produção do saber, tornando essa prática interativa, compartilhada e autocrítica. Ao que tudo indica, a mais importante contribuição da pesquisa “Arquivos latino-americanos” parece ter sido indicar que os conceitos produzidos na região do Mercosul são espaços em que determinadas reflexões atingiram um alto grau de maturidade e condensação. Funcionando sempre como parâmetros para se examinar o continente (ora visto como América Latina, ora como América do Sul) ou a região (que também oscila entre Cone Sul e Mercosul), tais conceitos compreenderam certos países (foram estudados Brasil, Argentina e Uruguai) como uma configuração geopolítica transnacional — algo que excede as fronteiras da nação moderna e funciona como um agrupamento novo, como um fórum em que se debatem aspirações, temores, desejos e histórias das nações sulinas. Nesses espaços, as diferentes estratégias de formatação das nacionalidades passam a ser ressignificadas pela reunião solidária. Os conceitos do Sul sobre o Sul constituem preciosos arquivos em que nossa produção teórica construiu mecanismos de pertencimento e auto-conhecimento.

Literatura, rede e saber contemporâneo

Tal como o gênero ensaístico reinventado por Montaigne no século XVI abriu possibilidades para um exercício crítico à margem da grande tradição platônico-socrática, também o conceito de rede desenvolvido nos anos 90 por Pierre Lévy constitui um operador político-estético que permite o desenvolvimento de modelos transdisciplinares, para além do saber fragmentado da atualidade. Para Lévy, pensar a rede como um hipertexto implica reconhecê-la como portadora de seis características básicas: metamorfose, heterogeneidade, multiplicidade/encaixe de escalas, exterioridade, topologia e mobilidade dos centros. Tais atribuições, por sua própria natureza relacional e coletiva, oferecem subsídios para reflexões transdisciplinares e funcionam c omo suporte teórico e modelo pragmático para o desenvolvimento de pesquisas e intervenções pedagógicas individuais ou coletivas. Foi nesse contexto teórico que nasceu o projeto “Literatura, rede e saber contemporâneo”, cujo principal motor foram as dificuldades/provocações de leitura de “Encontro em Saint-Nazaire”, conto de Ricardo Piglia. Nesse texto, alguns elementos oriundos do campo da ciência — como o princípio da incerteza, de Heisenberg 1 — são responsáveis pela criação de um objeto de leitura complexo, intrincado, reticular. O leitor do conto deve ultrapassar o espaço puramente literário, abrir picadas em outros territórios e lidar com diferentes níveis de realidade. A obscuridade do conto é favorecida e ao mesmo tempo questionada por leitores habituados à ficção, justamente porque a estrutura da obra baseia-se naquilo que Piglia chamaria, mais tarde, de ilusão de falsidade 2. Buscando superar as dificuldades de leitura de certa ficção — elaborada por autores como Guimarães Rosa, Poe, Clarice Lispector, Borges e Piglia — um grupo de pesquisadores da UFMG passou à leitura da realidade, mais especificamente, da realidade da produção do conhecimento.

Apoiado pelo Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (IEAT/UFMG), o grupo “Literatura, rede e saber contemporâneo” tem como um de seus objetivos o exame e a experimentação de práticas transdisciplinares em dois pólos distintos da produção do conhecimento — Faculdade de Letras e Faculdade de Medicina da UFMG — baseando-se nos princípios hipertextuais desenvolvidos por Pierre Lévy. Funcionando como um experimento teórico e prático, esse projeto-piloto se desdobra a partir do que temos chamado de “transdisciplina” — que é uma disciplina transformada em objeto complexo, ou seja, articulada a partir de um tema transformado em hipertexto, fato que permite a porosidade das fronteiras disciplinares e certas convergências entre ciência, arte, tecnologia e pensamento crítico.

Essa perspectiva retoma uma longa tradição textual onde se destaca a função estruturante que a literatura desempenhou no imaginário do país, desde a proclamação da independência. A respeito disso, em sua análise do pensamento crítico nacional, Paulo Arantes afirma que nossa cultura

está inteiramente centrada na idéia de que através de gêneros e formas inescapavelmente européias – o romance, a poesia, a pintura, a arquitetura etc. –, trata-se de exprimir a verdade original de uma experiência local. (...) Tudo se passa então como se estivéssemos condenados a essa figuração da experiência, à necessidade de sermos apresentados incansavelmente à nossa própria e desconhecida imagem, por isso mesmo uma imagem inacabada. (...) É como se a nossa inteligência local só funcionasse na medida em que fosse empurrada por esse imperativo de configuração. Daí o caráter central da literatura. Todas as formas que possam tornar narrável essa experiência ainda completamente embrionária possuem uma função estruturante. 3

 

Embora o autor mostre, ao longo da obra, como a função estruturante da literatura foi sendo substituída pelas ciências sociais e pela economia política, nas horas de crise dos paradigmas da produção do conhecimento, os discursos estéticos são mais uma vez revigorados, já que se prestam à ampliação da perspectiva sob a qual se desdobra a pesquisa da instabilidade. Na medida em que a literatura é uma realidade aguda, crítica, reticular e dialógica, ela tem assumido, nos projetos acima citados, a função estruturante capaz de abolir dualidades, hierarquias e exclusões.

Leituras de textos na cultura das telas

Outra característica da atual configuração dos estudos literários no Brasil é que a Literatura Comparada trabalha com objetos veiculados especialmente sob a forma de texto impresso. Contudo, essas obras estão inseridas em uma cultura completamente audiovisual. De forma que autores e leitores de literatura relacionam-se com os textos a partir de referências totalmente imagéticas, brilhantes, coloridas, móveis e sonoras. Essa provocação dos sentidos implica o desenvolvimento de novas habilidades perceptivas e de outros padrões de leitura. Tais questões orientam o Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão “A tela e o texto” 4, que hoje congrega professores e alunos da FALE/UFMG e de outras instituições e que abriga mais de uma dezena de projetos de pesquisa sobre a leitura de telas e textos. Atuando em rede, com parceiros intra e extra-acadêmicos, do Brasil e do exterior, o Programa busca desenvolver métodos e técnicas hipertextuais, adequados ao mundo contemporâneo (v. www.letras. ufmg.br/atelaeotexto).

Em todos os casos acima citados, o discurso literário congrega diferenças, instaura novos percursos cognitivos, mobiliza afetos e permite fóruns de debate não-usuais. Aberta, móvel e dialógica, a literatura cria condições para a releitura dos arquivos do país e do continente, além de favorecer o saber em rede, cuja pragmática aponta para a organização dos coletivos pensantes que atuam em espaços transdisciplinares. Nesse caso, o pesquisador isolado — o gênio individual e romântico — é desconstruído pela atividade criadora do grupo, ao mesmo tempo em que a autoria — segundo Barthes, uma invenção da sociedade burguesa — é potencializada por co-autores que são também leitores. Na época em que nos coube viver — de desamparo, caos e incerteza — “[nossa] solidão se alegra com essa elegante esperança” 5.

 

Werner Karl Heisenberg, físico alemão, foi um dos fundadores da teoria quântica. Em 1927, formulou o princípio da incerteza referente à medição de micro-partículas. Suas pesquisas estabeleceram os limites além dos quais não se podem empregar os conceitos da física clássica. Heisenberg era um amante da música e da filosofia.

PIGLIA, R. Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARANTES, P. In: NOBRE, M. et al. (org.). Conversas com filósofos brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2000. p. 352.

Registros: SIEX 3044; Biblioteca Nacional 318.742; INPI 20040B900086.

BORGES, J. L. Ficções. Trad. C. Nejar. 5.ed. São Paulo: Globo, 1989. p.70.