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Martim Cererê: representações de uma alegoria americana
Marcio Roberto Pereira (FIO - Ourinhos - SP)
Então a moça bonita casou com o Caraíba branco e pronto!
...Nasceram gigantes de botas.
Mamelucos que eram a soma de todas as cores.
Com sangue de índio mágico, de português lírico, de espanhol fabuloso, de africano resmungão e plástico.
E que bateram à porta do Sertão antropófago, num tropel formidável.
(Cassiano Ricardo , Martim Cererê , 1928)
Publicado em 1928, Martim Cererê constrói uma das principais representações sobre o processo de entendimento da cultura brasileira. Centrado na figura de Martim Cererê, cujo nome indígena era Saci-Pererê, e devido a influência africana tornou-se Cererê e ao olhos dos branco Matinta Pereira, daí Martins, Cassiano Ricardo busca contar a estória de um “Brasil-menino” que desenvolve-se a partir da mistura das diversas raças, por meio de uma mistura de expressões indígenas com o folclore brasileiro.
Refletindo sobre as diversas formas de representação da nacionalidade, Cassiano Ricardo constrói uma alegoria que unifica todos os textos de Martim Cererê por meio de uma “síntese étnica” independente. A lógica, portanto, da obra estabelece uma sucessão de cenas que formam um argumento, segundo Cassiano Ricardo, de histórias e de figuras.
Para compor sua “alegoria americana”, Martin Cererê desenvolve o seguinte argumento: na Terra Grande vivia uma moça com o nome de Uiara que exige, para se casar com um índio, a Noite. O índio descobre que a Noite está dentro de um fruto de tucumã que, por ser proibido, não poderia ser aberto antes do casamento. O índio, no entanto, abre o fruto antes da hora e não por isso não pode se casar com Uiara. Assim sendo, um marinheiro, o homem branco, declara-se candidato a casar-se com Uiara e traz a Noite num navio negreiro. Uiara casa-se com o marinheiro e desse “matrimônio racial” nascem os Gigantes de Botas que conquistam todo o Brasil.
A criação de tal alegoria Cassiano Ricardo aproxima-se de Macunaíma ao compor um arquétipo, ou usando das concepções de C. G. Jung, uma idéia de sincronicidade que articula, por meio de uma causalidade, elementos de coincidências significativas. Assim entendido, a cena em que Macunaíma e seus irmãos tomam banho na lapa de um rio, formada pelo pé de um gigante, e transfiguram-se por meio de um mágico encontro das três raças, possui sincronia com a alegoria proposta por Martim Cererê e a unificação no branco, do negro e do índio, no casamento da Uiara.
Em Macunaíma , no entanto, existe uma certa amargura do herói, sem nenhum caráter, em meio a uma desvalorização da cultura indígena e negra em função de uma excessiva valorização do europeu e seu traço excessivamente mercadológico da nação. O verde-amarelismo proposto por Mário de Andrade, e também por Oswald de Andrade, sugere um ressentimento que tem suas bases na desvalorização da mistura cultural brasileira e da ênfase à cultura européia.
Martim Cererê, no entanto, possui, como afirma Mario Chamie 1, concepção em que o verde-amarelismo transforma-se em um “primitivismo lúdico” ao propor uma harmonia entre a formação cultural e étnica do Brasil. Formado por imagens que arquitetam um mundo mitológico, mágico sob um ponto de vista moderno, Cassiano Ricardo afirma:
Expliquei ainda que o escrevi ( Martim Cererê ) como dentro de um mundo mágico, tendo-me valido, não raro, da técnica de um desenho animado. Se o parnasianismo havia buscado recursos à escultura, se o simbolismo à música, etc. pareceu-me que, no mundo cinemático, em que as minhas “figuras” se movimentam, o primitivo casava bem com a invenção de Walt Disney transposta para a poesia. E o Martim Cererê, conquanto moderno (ou modernista) tem muito de primitivo, de mitológico. Ora, nada mais parecido com o mundo mágico do que o mundo automático de hoje. 2
Assim, a formação do Brasil na visão de Cassiano Ricardo une-se por duas dimensões, sendo uma histórica e outra lúdica ou imaginativa. Essa articulação faz de Martim Cererê uma alegoria em que a cor é o elemento essencial para ornamentar o sentido cultural e histórico do povo brasileiro e, dessa forma, fecundar a criação de uma alegoria por meio de uma “democracia racial” que também mistura várias cores. No Macunaíma , por outro lado, existe a idéia de “deglutir” o passado e revisar o presente por meio da trajetória de um personagem que movimenta-se na busca por sua consciência em meio à uma certa marginalidade e destruição de seu mundo.
Com Martim Cererê a imaginação fecunda um mundo por meio do casamento da Uiara e essa construção imaginativa e alegórica da formação étnica e cultural do brasileiro revela um posicionamento lírico frente o povo brasileiro. Não é por acaso, contudo, que o subtítulo da obra se Cassiano Ricardo seja “O Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis”, denotando uma certa crença do poeta em recontar a história pela visão dos poetas. Assim as várias citações históricas utilizadas como mote em Martim Cererê, servem para o poeta redimensionar o valor da história e mostrar os benefícios da mistura étnica para a cultura nacional. Essa visão otimista atinge seu auge no poema Ladainha, em que o eu-lírico destaca a graça, os pássaros e a luz de uma ilha que torna-se nação. Essa transformação só é possível pela união dos diferentes povos.
Assim sendo, se no campo temático Macunaíma e Martim Cererê afastam-se por apresentar visões distintas sofre o processo de formação da cultura nacional, no campo lingüístico as duas obras são simétricas ao propor o “descobrimento” de uma linguagem poética que se fundamenta na valorização de um “idioma geral do Brasil” em que a linguagem coloquial ganha importância literária.
Nas duas obras, também, a linguagem cria imagens que constroem o mundo imaginário de Macunaíma ou de Aimberê e Uiara. Em Macunaíma a coisas transformam-se magicamente e demonstram a “coisificação” dos valores nacionais e desvalorização da cultura nacional. Em Martim Cererê, por outro lado, a palavra possui o dom da imaginação a criar uma “raça cósmica” de gigantes que conquistam a América: “Heróis geográficos coloridos que irão cruzar o chão da América inculta ainda oculta, em todos os sentidos.” 3
Com certeza, essa conquista dos gigantes terá, como efeito colateral, a criação de uma relação entre noite e dia. Se a Noite era o grande presente de Uiara, em determinado momento, a escuridão começa a macular as cores do dia paradisíaco em que a Uiara vivia, porque os Gigantes, identificados como os bandeirantes, filhos do casamento com o branco, serão os responsáveis pela reformulação das imagens dentro do poema de Cassiano Ricardo.
A busca pela Noite, por parte de Uiara, retoma a busca de Macunaíma em explicar a mistura étnica do povo brasileiro e ao mesmo tempo a desilusão por encontrar um mundo que caminha para o caos. Assim, a figura do gigante, que aparece tanto em Macunaíma quanto em Martim Cererê , representa a sobreposição de uma cultura frente à outra.
Na concepção histórica sobre a mistura das raças, as duas obras possuem uma sincronicidade ao propor um tipo de crítica à destruição dos aspectos mágicos e ilusórios da cultura nacional em confronto com uma visão mercadológica da nação. Outro ponto de sincronicidade, no entanto, é a visão alegórica da formação da nacionalidade brasileira em que Macunaíma tenta se inserir e acaba por encontra-se como estrela apenas. Em Martim Cererê a magia tenta vencer a “idéia do pecado original” proposta pelo desejo da Uiara e a chegada co progresso, assim como em Macunaíma, como uma forma de anunciação do paraíso perdido.
Em suma, nas duas obras existe a contraposição da idéia de ilusão e realidade que constrói a nacionalidade brasileira. Seja no aspecto histórico, seja no aspecto lúdico, Martim Cererê e Macunaíma representam pontos de entendimento, e amadurecimento, da formação histórico cultural do Brasil.
CHAMIE, Mário. Cassiano, o paradoxal. In: Revista da Biblioteca Mário de Andrade . São Paulo, janeiro a dezembro de 1995. volume 53.
RICARDO, Cassiano. Martim Cererê . 14 a . edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978. p.161.
RICARDO, Cassiano. Martim Cererê . 14 a . edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978. p.56
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS:
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter . 6 a . edição. São Paulo: Martins Fontes, 1970.
CHAMIE, Mário. Cassiano, o paradoxal. In : Revista da Biblioteca Mário de Andrade . São Paulo, janeiro a dezembro de 1995. volume 53.
JUNG, Carl. Sincronicidade. 12 a . edição. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Editora Vozes, 2004
RICARDO, Cassiano. Martim Cererê . 14 a . edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978