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O “registro” da belle époque: arquivo precário do transitório
Alvaro Santos Simões Junior (UNESP/Assis)
Em Crítica e fantasia , obra de 1904, Olavo Bilac recolheu pequena parcela das centenas de crônicas que havia publicado nos jornais cariocas Gazeta de Notícias (matutino) e A Notícia (vespertino). Abria o volume breve nota em que se justificava a reunião daqueles textos escritos “ao correr da pena” por haverem fixado “crises da vida intelectual e moral de uma grande cidade”. A nota ressalvava que não se pretendia “salvar do olvido”, a que haviam sido “fadadas logo ao nascer”, aquelas “páginas fúteis”; a “ambição modesta” do autor seria, ao contrário, apenas a de “prolongar um pouco mais” a “existência fugaz” daquelas páginas mediante sua fixação em livro. 1 A atribuição de fugacidade e futilidade às crônicas não era mero expediente retórico de falsa modéstia. O trabalho jornalístico, realizado sob a pressão dos paginadores, que instavam pela matéria, e cadenciado pelo resfolegar impaciente das rotativas Marinoni, certamente não poderia receber o cuidado artesanal, o esmero de ourivesaria, que o poeta dedicava à poesia. Espécie de centauro estilístico, Bilac manifestava consciência de que sua produção artística possuía duas faces distintas. É o que se depreende, por exemplo, da leitura de uma crônica de 1897, em que o poeta se opunha a projeto de lei, então apreciado no Congresso, que visava proibir o anonimato e o pseudônimo na imprensa.
O uso do pseudônimo não quer dizer que o escritor não queira assumir a responsabilidade do que escreve: todo o mundo sabe, por exemplo, que Patrocínio é Proudhomme e que Proudhomme é Patrocínio. Mas, na produção intelectual de um jornalista, como na de um artista, há sempre a parte séria a que o escritor dá o seu verdadeiro nome, e a parte leve, humorística, que bem pode correr por conta de um pseudônimo transparente.
Para cada estilo, cada assinatura. 2
Para Bilac, portanto, o pseudônimo, tão usado nos textos publicados na imprensa, serviria antes para identificar um estilo do que para ocultar a autoria. Assim, ao lado do estilo sério dos poemas parnasianos coexistiria o estilo leve das sátiras em verso e das crônicas estampadas em jornais. Pode-se afirmar que esses estilos coexistiam harmoniosamente, pois a autoria dos textos “leves” era assumida por um pseudônimo facilmente atribuível ao poeta. Talvez Bilac estabelecesse essa delimitação de fronteiras para preservar a respeitabilidade e o prestígio do estilo “sério”, sujeito a rígidos preceitos estéticos. A neoclássica estética parnasiana reeditava a tradição antiga de separação de estilos de que trata Auerbach. 3
Para assinar o “Registro”, sua coluna de crônicas n' A Notícia , o poeta das Panóplias (1888) utilizou a inicial B., que, se não revelava de imediato o sobrenome do cronista, não equivalia ao disfarce da autoria assegurado pelo emprego de um “heterônimo”. Talvez houvesse algumas razões para que Bilac assumisse, mesmo que incompletamente, a autoria do “Registro”. Nas outras colunas de crônicas que escrevera para a Cidade do Rio e mesmo para A Notícia e também na que então escrevia, sob anonimato, para a Gazeta de Notícias , desempenhava uma função determinada pelos jornais, que, geralmente aos domingos, publicavam crônicas em que se comentavam os principais acontecimentos da semana decorrida. Por mais criativo que fosse o cronista, era necessário dar conta da empreitada. Por isso, quando, por ocasião do vigésimo oitavo aniversário da Gazeta de Notícias , Bilac ocupou toda a sua coluna dominical apenas com a recordação de sua trajetória profissional no periódico, sentiu necessidade de justificar sua falta.
O que vejo é que por causa das minhas saudades, a semana ficou sem história. Que importa? Quantos milhões de semanas terá vivido este velho e aborrecido planeta antes do nascimento de Heródoto? E todas essas hebdômadas ficaram, como esta, sem história. 4
Em outra crônica, também publicada na Gazeta , Bilac mencionou explicitamente seu compromisso profissional com o jornal.
Para fazer uma idéia justa da facilidade com que se esquecem, nas grandes cidades, os mais recentes acontecimentos, — é preciso ter esta obrigação de, ao cabo de todas as semanas, exumar os dias mortos, galvanizá-los, ressuscitá-los, pô-los de pé como Lázaros redivivos, e aprumá-los em revista de mostra, diante do público. 5
Iniciado no dia 6 de agosto de 1900, o “Registro” assegurava a Bilac o privilégio de publicar uma crônica diária breve, em que poderia livremente tratar de qualquer assunto. O poeta demonstrava seu grande apreço pela coluna quando, em viagem, continuava a enviar suas crônicas para a redação de onde estivesse. O nome da coluna suscita algumas considerações. Segundo o Houaiss, registrar é, entre outras acepções, “colocar na memória, na lembrança” e “pôr (algo) em destaque, marcar, assinalar”. 6 Assim, pode-se concluir que Bilac concebia sua coluna como uma espécie de diário destinado a preservar do esquecimento fatos importantes. 7 Ora, tal concepção contrapõe-se à fugacidade atribuída pelo poeta ao trabalho jornalístico, que, segundo ele, “se desfaz e desaparece mais facilmente do que as pegadas de um caminhante sobre a neve”. 8 A contradição, no entanto, é apenas aparente, pois, para o cronista, seu trabalho limitava-se a adiar por algum tempo o esquecimento. Após revelar a dificuldade de selecionar, entre a “massa confusa de banalidades” da semana, algum fato digno de comentário, Bilac confessou em crônica dominical já citada: “o que consola é que, assim como se esquecem as cousas da semana, também se esquecem as crônicas”. 9
Entretanto, o esquecimento do texto jornalístico não seria jamais absoluto. Em crônica da Gazeta em que comentava uma série de equívocos cometidos pela imprensa, Bilac saudou o recente emprego da fotografia nos jornais, que, segundo sua opinião, anunciava uma verdadeira revolução. Em tom de blague, reconheceu que o futuro jornal-animatógrafo, constituído unicamente por fotografias e outras ilustrações, apresentaria, malgrado pôr em risco o emprego dos que escreviam nos jornais, uma vantagem considerável.
... o jornal-animatógrafo terá a utilidade de evitar que as nossas opiniões fiquem, como atualmente ficam, fixadas e conservadas eternamente, para gáudio dos inimigos... Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices, que desejaria ver apagadas e extintas? Mas, ai! de nós! não há morte para as nossas tolices! nas bibliotecas e nos escritórios dos jornais, elas ficam — as pérfidas! — catalogadas: e lá vem um dia em que um perverso qualquer, abrindo um daqueles abomináveis cartapácios, exuma as malditas e arroja-as à face apalermada de quem as escreveu... 10
Não obstante o efeito humorístico visado por essa crônica, nota-se que Bilac reconhecia no texto jornalístico a qualidade de documento histórico, cujo valor poderia ser reconhecido por um pesquisador.
Desse modo, pode-se concluir que, ao batizar sua coluna diária de “Registro”, Bilac atribuía a ela uma função imediata de destacar com a devida ênfase fatos relevantes que poderiam passar despercebidos e outra função, talvez mais nobre, de impedir, com inscrevê-los nos “cartapácios” d' A Notícia , que fossem irremediavelmente esquecidos.
De 1900 a 1908, período em que Bilac manteve seu “Registro”, o Rio de Janeiro passou por uma radical reforma urbana. Partidário extremado da assim chamada Regeneração, o cronista apoiou todas as medidas da prefeitura, 11 mesmo quando estas assumiam nítido caráter discricionário. Encantado com o ritmo febril das obras, confessou no dia 4 de agosto de 1906 não conseguir dar a elas a devida atenção.
Decididamente, já se vai tornando impossível o registro dos melhoramentos da cidade. Não há dia que não traga uma surpresa agradável; e, para que todas essas surpresas tivessem o comentário desta seção, seria preciso que a todos os outros assuntos se recusasse aqui a hospitalidade que pedem e merecem... 12
Mais do que confirmar o compromisso do cronista com a Regeneração, esse fragmento revela certa percepção da velocidade com que se sucediam os acontecimentos na cidade. Na crônica que inaugurou a coluna, Bilac comparou-se a um viajante de trem que, do seu wagon , observa regaladamente a sucessão de paisagens e faz breves anotações em seu canhenho. Observe-se, na imagem sugerida, que o cronista reconhece a velocidade como fator determinante de seu trabalho, que deve ser ágil para conseguir registrar fatos fugidios. Além disso, o cronista deve submeter-se a circunstâncias adversas à elaboração literária do texto, que se constituía de apontamentos apressados.
Uma coluna diária como o “Registro” seria, a princípio, mais adequada para contrapor-se à “facilidade com que se esquecem, nas grandes cidades, os mais recentes acontecimentos”. Já se verificou que a principal preocupação do cronista era com o registro da mutação cenográfica por que passava a cidade, mas havia também outros fatos dignos de nota.
Por ocasião da morte de José do Patrocínio, Bilac usou sua coluna para lembrar a contribuição do jornalista à causa da Abolição, convocar a população para o enterro como forma de desagravo a quem “passou os últimos dias de sua generosa e amargurada existência na tristeza e na impopularidade” e também fazer um desabafo:
Ai do nome de José do Patrocínio, se esse nome sagrado apenas devesse contar com a gratidão e o amor de uma terra, que ainda é um simples acampamento comercial, sem civilização definida, sem raça formada, sem culto cívico estabelecido, sem memória!
Sem memória, principalmente... Aqui, o glorificado de hoje é o apedrejado de amanhã. 13
Bilac, portanto, fazia o seu “Registro” também para acudir aos imperdoáveis e danosos lapsos de memória da cidade, que, em última instância, comprometiam os esforços de constituição de uma civilização (europeizada) no Brasil. A Regeneração era o aspecto mais visível desse projeto civilizador. 14 Registrar, na coluna diária, as fases da súbita transformação por que passava o Rio de Janeiro significava impedir que o cidadão, familiarizado com o canteiro de obras em que o governo republicano transformara a cidade, deixasse de perceber e valorizar o caráter supostamente redentor das reformas, que atacavam cada mazela supostamente ou de fato herdada do período monárquico. Legar aos pesquisadores documentos da Regeneração, que seriam preservados nas coleções d' A Notícia , representava um esforço para assegurar que, no futuro, a história do período fosse narrada da perspectiva dos defensores e beneficiários das reformas. As descontraídas crônicas do “Registro” talvez fossem leves , mas jamais seriam fúteis .
Cf. BILAC, Olavo. Obra reunida . Org. e int. de Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 348.
BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias , Rio de Janeiro, 25 jul. 1897. p. 1, 2. col.
Mimesis . 4. ed. A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1998.
BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias , Rio de Janeiro, 2 ag. 1903. p. 2, 1. col.
BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias , Rio de Janeiro, 4 dez. 1898. p. 1, 2. col.
HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa . Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 2.416.
Despedindo-se de seus leitores por ocasião de viagem para a Europa, Bilac assumiu o compromisso de manter sua coluna a despeito da longa distância. “Este Registro foi sempre o meu ‘diário', todos os dias aberto, todos os dias escrito, fixando as impressões dos meus olhos, do meu espírito, da minha inquieta curiosidade. Não haveria motivo para que o ‘diário' fosse interrompido agora”. B. Registro. A Notícia , Rio de Janeiro, 9 abr. 1904. p. 2, 1. col.
BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias , Rio de Janeiro, 2 ag. 1903. p. 2, 1. col.
BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias , Rio de Janeiro, 4 dez. 1898. p. 1, 2. col.
BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias , Rio de Janeiro, 13 jan. 1901. p. 1, 2. col.
Deve-se observar que a administração municipal apenas executava um projeto que fora concebido e viabilizado financeiramente pelo governo federal.
B. Registro. A Notícia , Rio de Janeiro, 4 ag. 1906. p. 2, l. col.
B. Registro. A Notícia , Rio de Janeiro, 30 jan. 1905. p. 2, 2. col.
O caráter excludente e racista de tal projeto é inquestionável. A propósito, v. SIMÕES JR., Alvaro Santos. A sátira do Parnaso . Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904. Assis, 2001. Tese (Doutorado em Letras) Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista.